Ano 2 - Número 2 - Junho 2005
www.pesquisapsi.com/boletim
Realização : Inter Psi / CENEP /COS / PUC-SP
Entrevista Exclusiva com a Dra. Nancy L. Zingrone
O Futuro da Pesquisa Psi: recomendações em retrospecto / Parte I
por : Dr. Stanley Krippner & Dr. Gerd H. HövelmannParapsicologia no Brasil: Entre a cruz e a mesa branca
por : Profa. Dra. Fátima Regina MachadoJung e a Pesquisa Psi
por : Mônica de CamargoPsi e a Teoria de Jung
por : Beatriz BergaminSonhos Lúcidos : O que é uma experiência onírica consciente?
por : Cleber Monteiro MunizGanzfeld e Psi: Um guia de leitura - Parte II
por : Prof. Dr. Wellington ZangariRelação dos principais centros universitários que investigam psi - Parte II
Esta edição foi inteiramente preparada por membros do Inter Psi e consolida o esforço do grupo em preparar novos pesquisadores. O Inter Psi é um grupo acadêmico de estudos científicos da hipótese psi que incentiva a produção científica de seus membros e leva à comunidade informações a respeito de Pesquisa Psi e de suas áreas afins. Os membros participam de reuniões e conferências abertas e cursos à comunidade. Conheça mais o Inter Psi em : http://www.pesquisapsi.com/interpsi
O material deste Boletim é gratuito e pode ser distribuído ou reproduzido livremente desde que a fonte (Boletim Virtual de Pesquisa Psi), o link ( www.pesquisapsi.com/boletim ) e os nomes dos autores sejam mantidos e que a cópia permaneça livre para ser redistribuída, sob as mesmas condições.Nesta segunda edição do Boletim, é dado principal destaque para a primeira parte da versão traduzida e ampliada do artigo "O Futuro da Pesquisa Psi: recomendações em retrospecto", escrito por Stanley Krippner e Gerd Hövelmann.
Krippner e Hövelman são dois dos principais pesquisadores psi da atualidade e sintetizam neste artigo os principais conselhos que dariam a quem pesquisa ou deseja pesquisar alegações de fenômenos psi.
As recomendações feitas neste artigo não apenas refletem toda e experiência destes ativos pesquisadores como são fruto de uma análise cuidadosa da literatura e das discussões existentes na Pesquisa Psi. A adoção destas sugestões é fundamental para aqueles(as) que desejam trabalhar no mais alto grau de rigor e seriedade. Elas apresentam muitos dos elementos críticos utilizados na avaliação de um trabalho da área.
Além servir como orientação para a obtenção excelência científico-acadêmica nas pesquisas realizadas, a compreensão dos argumentos apresentados permite ao pesquisador contornar as principais fontes de erros e mal-entendidos na área e a realizar suas pesquisas de modo mais eficiente.
Na esteira dessas recomendações, encontramos outros dois “materiais” deste Boletim. O primeiro, a entrevista com a veterana da Pesquisa Psi, Dra. Nancy L. Zingrone, apresenta uma síntese de seu trabalho de doutorado a respeito dos embates entre críticos e proponentes na área psi. Seu trabalho nos recomenda a estarmos atentos aos argumentos usados tanto por céticos quanto por proponentes não apenas na Pesquisa Psi, mas na ciência em geral, mostrando que há múltiplos fatores que incidem sobre tais argumentos, apesar de cada parte na disputa sempre se considerar como estando pautado por argumentos lógicos e fundamentados em evidências. O segundo, o artigo de Fátima Regina Machado, apresenta um recorte das motivações históricas da chegada e instalação da “Parapsicologia” no Brasil, demonstrando exemplarmente os usos e abusos dessa disciplina como ferramenta na disputa religiosa entre católicos e espíritas. Implicitamente está a recomendação para que estejamos alertas aos diferentes usos que uma disciplina como a Pesquisa Psi pode ter, sobretudo em um campo que encontrou pouca guarida universitária em nosso país.
Ainda nesta edição, pode-se encontrar como um dos pioneiros da Psicologia moderna, Carl Gustav Jung, se dedicou ao estudo de psi e como tentou integrar psi em na estrutura de sua teoria da psiquê humana. Com dois trabalhos a esse respeito, inauguramos a seção “Psicologia e Pesquisa Psi”, que a cada novo número do Boletim trará uma nova apresentação das relações mais do que evidentes entre esses dois interdependentes campos.
Por fim, trazemos um artigo introdutório ao tema dos sonhos lúcidos, a continuação do “debate psi-ganzfeld” e mais uma relação de centros de pesquisa universitários de Pesquisa Psi.
Esperamos que gostem desse número e que nos enviem solicitações, sugestões de temas e comentários.
Leonardo Stern
Inter Psi / CENEP / COS / PUC-SP
lstern@pesquisapsi.com
Nancy L. Zingrone é uma das mais ativas pesquisadoras de psi. Formada em Psicologia, Mestre em Educação (Northern Illinois University), foi doutoranda em História (Duke University) com especialidade em História da Ciência, da Medicina, Psiquiatria e em História Social Norte-Americana. Atualmente está para completar seu doutorado em Psicologia (University of Edinburgh). Dentre outras posições, Zingrone foi professora de Psicologia da Northeastern Illinois University em Chicago; Pesquisadora e Pesquisadora-Visitante do Institute for Parapsychology (agora, Rhine Research Center), onde realizou estudos experimentais de percepção extra-sensorial; serviu como Presidente da Parapsychological Association no período de 2000-2001 e 2003-2004. Atualmente Zingrone gerencia publicações de psicologia em Porto Rico por meio de sua casa editorial (Puente Publications), é a Diretora de Publicações da Parapsychology Foundation, além de ser Editora Associada da série Advances in Parapsychological Research.
BVPP: Nancy, poderia nos apresentar um breve comentário a respeito do tema de sua tese?
A tese é intitulada “From Text to Self: The Interplay of Criticism and Response in the History of Parapsychology” (Do Texto ao Self : O Intercâmbio de Críticas e Respostas na História da Parapsicologia). A tese examina a história das críticas e das respostas na Parapsicologia científica ao trazer ferramentas da retórica da ciência e da Psicologia do Discurso para examinar textos produzidos no calor da controvérsia. As análises prévias da controvérsia disponíveis têm sido realizadas por historiadores e por sociólogos da ciência, que avaliaram especificamente a profissionalização da disciplina, suas sustentações filosóficas e religiosas, os esforços de atores individuais na história da comunidade e as forças sociais que refrearam e restringiram tanto o progresso substantivo interno do campo quanto suas relações externas com a comunidade científica mais ampla. Meu estudo se dá sobre a literatura em língua inglesa sobre o tema – um extenso banco de dados de mais de 1500 livros e artigos – para seguir: (1) as revisões prévias a respeito da controvérsia; (2) uma específica controvérsia que se prolongou por um período de mais de 10 anos durante meados do século XX; e, (3) os escritos, produzidos pelos dois diferentes gêneros, de duas importantes “vozes” dessa literatura, uma de um crítico e outra de um proponente. A tese é original porque defende a idéia de que um estudo a respeito do “saber ciência”, baseado na análise dos textos da Parapsicologia e em aspectos do status da Parapsicologia e de como essa se situa na ciência como um todo, é uma forma apropriada de reconhecer o campo, e que pode, ou deve, ser realizada tanto por “gente de dentro” quanto por “gente de fora” da disciplina. Isso significa que a tese examina as críticas e as respostas mais do ponto de vista de como elas trabalham para obstruir, inibir, negociar ou promover a posição da Parapsicologia vis a vis com a linha mestra da ciência.
BVPP : Como você definiria ceticismo e pseudo-ceticismo no estudo e alegações paranormais?
Eu não uso o termo “pseuco-ceticismo” em minha tese porque eu não lido com a eficácia de críticas específicas, nem com a aplicabilidade ou evidencialidade de alegações céticas específicas. Nem mesmo defino ceticismo de alguma maneira além da maneira pragmática, que é apenas a de rotular como céticos os documentos cujos autores os rotulam como céticos. Isso tem sentido porque estou focalizando minha atenção sobre os próprios textos, seus componentes retóricos, sua penetração e sobre o tipo de discurso que é usado na controvérsia. Eu listo, para as propostas de contextualização dos textos que analisei mais profundamente, os tipos de argumentos que tem sido usados e por quem tem sido usados. Eu uso, como um princípio de organização, a noção de “contingência” versus a de “argumento empírico” retirado do trabalho de Gilbert & Mulkay a respeito do discurso científico, chamado Opening Pandora's Box (Abrindo a Caixa de Pandora).
BVPP : Nancy, quais são os argumentos mais freqüentemente usados por críticos e como os pesquisadores psi os respondem?
Eu preparei uma tabela que usa as noções de “contingência” e de “argumento empírico” para minha tese em que esses dados aparecem. Ela está abaixo.
Avaliação das Revisões de Críticas e Respostas
Fonte
Comunidade/Orientação
Foco da Revisão
Tipo Primário de Crítica/Resposta
Crítica Primária de Críticos/Proponentes
Sudre, 1926
Pesquisa Psíquica, orientação proponente
Publicou críticas de pesquisas de seções com dotados
Contingente: motivações, crenças
Critics comprometidas por uma visão de mindo materialista
Coover, 1927
Pesquisa Psíquica, orientação cética
Como o de acima
Empiricista: problemas metodológicos
As seções com dotados não podem ser estudadas cientificamente por causa das condições de sua ocorrência
Prince, 1927
Pesquisa Psíquica, orientação proponente
Crítica publicada
Contingente: motivações, crenças
As “falhas” psicológicas e intelectuais que os céticos atribuem aos proponentes são mais verdadeiras para os críticos, isto é, a “Teoria do Feitiço Contra o Feiticeiro”
Prince, 1930
Pesquisa Psíquica, orientação proponente
Como o de acima
Contingente: motivações, crenças
Como o de acima
Prince, 1933a & b
Pesquisa Psíquica, orientação proponente
Como o de acima
Contingente: escolhas retóricas dos críticos
Listagem de críticas “ilegítimas”
Tyrrell, 1947
Pesquisa Psíquica, orientação proponente
Como o de acima
Contingente: motivações, crenças
As críticas são comprometidas com a visão de mundo materialista, isto é, “Teoria do Feitiço Contra o Feiticeiro”
Nicol, 1956
Parapsicologia, orientação proponente
Escola Rhineana de Programa de Pesquisa
Empiricista: metodologia, qualidade da evidência
Porque a Parapsicologia experimental não é persuasiva
Stevenson & Roll, 1966
Parapsicologia, orientação proponente
Crítica e resposta publicada
Contingente/Empiricista: construção retórica da resposta, uso de evidência na resposta
As escolhas retóricas dos proponentes contrinuem para a persistência da controvérsia
Ransom, 1971
Parapsicologia, orientação proponente
Como o de acima
Contingente/Empiricista: fonte e aplicabilidade da crítica
Os “erros” cometidos tanto por críticos quanto por proponentes
Thouless, 1971
Parapsicologia, orientação proponente
Crítica publicada
Como o de acima
As avaliações críticas, quando não são precisas, são o resultado da visão de mundo
Rogo, 1975
Parapsicologia, orientação proponente
Revisão de críticas prévias
Contingente: motivações, crenças
A persistência da crítica pode ser explicada apenas pela visão de mundo dos críticos
Honorton. 1976
Parapsicologia, orientação proponente
Crítica publicada
Empiricista: metodologia, resultados, teoria
Persistência da crítica explicada por falhas substantivas na Parapsicologia
McConnell, 1976
Parapsicologia, orientação proponente
Argumentos críticos
Contingente: motivações, crenças tanto de críticos quanto de proponentes
Persistência da crítica explicada pela existência de visões de mundo diferentes
McConnell, 1977
Parapsicologia, orientação proponente
Crítica publicada
Contingente/Empiricista: fonte e aplicabilidade de críticas específicas
Persistência da crítica explicada pela diferenciação sobre entre a probabilidade a priori a e a opinião a respeito da probabilidade de que o fenômeno exista
Rockwell, Rockwell, & Rockwell, 1978
Parapsicologia, orientação proponente
Críticas publicadas no Free Inquiry/The Humanist
Contingente: construção retórica da crítica
Estratégias retóricas usadas por críticos nesses periódicos como imprópria para o debate científico
Bauer, 1984
Parapsicologia, orientação proponente
Revisões prévias de críticas
Contingente/Empiricista: fonte e aplicabilidade de críticas específicas
Semelhanças e diferenças de críticas oferecidas na história do campo; motivações, crenças envolvidas na persistência da crítica
Stokes, 1985
Parapsicologia, orientação proponente cética
Crítica publicada
Contingent/Empiricist: source and applicability of specific criticism
A crítica pode ser categorizada como “racional” ou “extra-racional”
Child, 1987
Parapsicologia, orientação proponente
Crítica publicada
Contingent: source of specific criticisms
Revisão descritiva tanto das críticas “internas” quando das “externas”
Ellison, 1989
Parapsicologia, orientação proponente
Argumento crítico
Contingente: motivações, crenças
Para lidar efetivamente com os críticos deve-se compreender a “mentalidade” crítica
Honorton, 1993
Parapsicologia, orientação proponente
Crítica publicada
Contingente/Empiricista: fonte e aplicabilidade de críticas específicas
Revisão crítica das críticas levantadas
Keen, 1997
Pesquisa Psíquica, orientação proponente
Crítica publicada
Contingente: motivações, crenças
Persistência da controvérsia explicada pelas motivações e crenças dos céticos
Radin, 1998
Parapsicologia, orientação proponente
Crítica específica
Contingente: motivações, crenças
As escolhas retóricas feitas por críticos influenciadas pela compreensão inadequada da Parapsicologia, produzindo a super-simplificação nos meios de comunicação, ao invés da apresentação da literatura publicada, e das suas motivações e das crenças pessoais
Truzzi, 1998
Parapsicologia, auto-caracterizada como neutra
Argumento crítico
Contingente: elementos retóricos dos argumentos críticos
As escolhas retóricas feitas tanto por críticos quanto por proponentes contribuem para a persistência da controvérsia
Referências:
Bauer, E. (1984). Criticism and controversies in parapsychology -- an overview. European Journal of Parapsychology, 5, 141-165.
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Ellison, A. J. (1989). On dealing with the critics. Parapsychology Review, 20 (3) , 8-11.
Honorton, C. (1976). Has science developed the competence to confront the claims of the paranormal? In J. D. Morris, W. G. Roll, & R. L. Morris (Eds.), Research in Parapsychology 1975 (pp. 199-223). Metuchen: Scarecrow Press.
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Tyrrell, G. N. M. (1947). Attitude to psychical research. In G. N. M. Tyrrell, The Personality of Man (pp. 240-247). West Drayton, Middlesex, England: Penguin Books.
BVPP : Quais são as principais críticas que podem ser feitas àqueles que se auto-intitulam céticos?
Criticar os críticos está para além do escopo de minha tese. Minha opinião pessoal a respeito disso (e que é refletida na tabela acima) é que os críticos/céticos freqüentemente confiam nas proposições feitas pelos seus colegas ao invés de terem, por si mesmos, familiaridade com a verdadeira literatura das pesquisas parapsicológicas; aqueles que são familiares a ela freqüentemente compreendem mal ou apresentam mal tanto seus métodos quanto os resultados dos estudos que estão comentando. Alguns críticos modernos – pessoalmente acredito que Richard Wiseman esteja entre eles – não mostram uma compreensão dos métodos científicos e estatísticos e, de fato, fazem o que considero serem equívocos ingênuos sobre como a ciência de fato trabalha e o que de fato se constitui uma prática científica aceitável. Além disso, eles apelam para critérios ilógicos e impossíveis para nossa pesquisa e que eles próprios não aplicam em suas pesquisas ou à pequena pesquisa crítica/cética que existe. Um dos problemas básicos é que muitos céticos – Hansel, Hyman e Alcock estão todos nessa categoria – não acreditam que a Parapsicologia tenha um único estudo adequado para ser levado em consideração quanto à obtenção de evidências e, assim, eles negam que exista um banco de dados apreciável no campo. Qualquer falha que encontram – e eles freqüentemente especulam sobre a presença de falhas sem realmente determinar se tal falha realmente existiu ou não – condena os experimentos específicos e isso é usado para desqualificar experimentos similares realizados anteriormente. Alguns críticos – Julie Milton é uma delas – têm a equivocada crença de que o consenso definicional e metodológico seja exato e exista em outras ciências, e colocam em discussão a questão do melhor método – tal como a noção do “ganzfeld padrão” – como uma indicação de que não há consenso em Parapsicologia e de que, portanto, a Parapsicologia não seria uma ciência. Os estudos sobre a ciência, no entanto, têm mostrado que consenso em QUALQUER ciência está continuamente sendo negociado e renegociado e que a luta e a controvérsia são o coração de cada uma das ciências. As ciências que não apresentam disputas sobre seus métodos ou teorias não são ciências, são dogmas . Assim, em minha perspectiva, alguns críticos – tais como Wiseman e Milton – são excessivamente ingênuos sobre o que a ciência é, dando uma visão absolutista do que a ciência é e a respeito do que a ciência faz oferecendo um panorama estranho não apenas a respeito da realidade das ciências marginais como a Parapsicologia, mas também da realidade das ciências reconhecidas.
BVPP : Qual a conclusão a que você chegou em sua tese?
Eu realmente não chego a conclusões em minha tese. Eu mostro que usar os métodos de estudo sobre a ciência tais como aquelas usadas na retórica da ciência e na Psicologia da Retórica são úteis no exame do estatus da Parapsicologia à margem da linha mestra da ciência. Mostrei que, em exemplos específicos, tais como na controvérsia a respeito da percepção extra-sensorial que ocorreu de 1934 a 1944, a habilidade de Rhine e seu grupo em ganhar aceitação científica para seus fenômenos e seus resultados foi complicado pela tendência de Rhine a personalisar os textos que escrevia; por focalizar seus escritos para o público de uma forma popular, em alguns casos apresentando uma confusa ou distorcida visão dos resultados que seu laboratório tinha produzido e publicado em periódicos acadêmicos; que a proposição dele de que a Parapsicologia era um ramo legítimo da Psicologia foram contraditados por sua repugnância em tornar-se familiar com a Psicologia e pela falta de interesse na pesquisa psicológica ou pela falta de respeito pela pesquisa psicológica “normal”. No caso de vários debates entre John Palmer e James Alcock, o uso do contingente – pessoal – argumento e estilo variam dependendo do meio em que se está escrevendo, apesar de ambos apresentarem-se como aqueles que lidam com os dados de uma perspectiva científica enquanto seu oponente está sendo cegado pelo preconceito e pelos compromissos sociais. Esses resultados estão de acordo com outros estudos de controvérsias na literatura de estudos sobre a ciência, de modo que é muito comum para as pessoas que estão encerradas em uma controvérsia caracterizarem-se como dirigidas pelos dados e objetivas (ou como sendo dirigidas apenas por argumentos empíricos) e seus oponentes como tendo sucumbindo a crenças pessoais, pressão pública ou realidades políticas (ou seja, como sendo dirigidas apenas por argumentos contingentes).
Saiba Mais :
Biografia da Dra. Nancy Zingrone (em inglês) :
http://www.pesquisapsi.com/content/view/2110/80/
(Tradução de Vera Lúcia Barrionuevo
Inter Psi/CENEP/COS/PUC-SP
verabarrionuevo@pop.com.br)
Dr. Stanley Krippner
Saybrook Institute – Califórnia / EUA
skrippner@saybrook.edu
Dr. Gerd H. Hövelmann
Hövelmann Communications – Marburg / Alemanha
hoevelmann.communication@kmpx.de
Desde que os seres humanos vêm registrando suas experiências, têm descrito devaneios que parecem transmitir pensamentos de outra pessoa, sonhos nos quais parecem tornar-se conscientes de eventos distantes, rituais nos quais acontecimentos futuros foram supostamente preditos, e procedimentos mentais que se diz terem produzido atuação direta em distantes objetos físicos.
Essas pretensas ocorrências podem ser exemplos de fenômenos que os pesquisadores da Psi (ou parapsicólogos) atualmente chamam de telepatia, clarividência, precognição e psicocinesia. Coletivamente, refere-se a Psi - interações relatadas entre organismos e seu meio ambiente (incluindo outros organismos) em que ocorra informação ou influência que pareça violar o corrente entendimento da ciência sobre tempo, espaço, força e suas reservas.
A “pesquisa Psi” tenta estudar essas interações, usando os instrumentos e tecnologias de investigação sistemática associada com outros empreendimentos científicos. Não obstante, a ciência corrente tenta tachar a pesquisa Psi de “pseudo-ciência” porque supostamente mascara os empreendimentos realmente científicos, mas fica com o peso de temas não testáveis, conceitos não confiáveis e experimentos não replicáveis (exemplo: Leahy & Leahy, 1983).
Os pesquisadores psi na realidade levam consigo, usualmente, o que a maioria das mulheres carrega em suas bolsas: tanta coisa inútil, muito pouca coisa absolutamente essencial; e então, como boa medida, diversos itens intermediários. A maior dificuldade dos pesquisadores psi reside em estabelecer o que é o que. Evidentemente, eles não carregam tais itens objetivamente, tendo em vista que sua obsessão por pertences é essencialmente mental. De vez em quando, acrescentam alguns itens: um corpo de dados novo, uma idéia experimental nova, uma nova teoria; uma vez ou outra, jogam alguma no lixo relutantemente; e, às vezes, param para classificar seus pertences e reconsiderar seu valor, sua relação mútua, e uma possível relevância futura.
Nos anos 80, apresentamos 11 recomendações favoráveis ao futuro da pesquisa psi (Hövelmann & Krippner, 1986a). As sugestões que fizemos receberam bastante atenção dos colegas da Pesquisa Psi e de outras áreas; e ficamos com a impressão de que, como saldo de um trabalho parapsicológico objetivo e de apresentações ao longo de 17 anos, eles demonstraram ter sentido, pelo menos, alguma influência subjacente.
Nosso artigo foi reimpresso em sua original versão inglesa (Hövelmann & krippner, 1987a), e traduzido para o alemão (Hövelmann & Krippner, 1986b) e japonês (Hövelmann & Krippner, 1993). Foi recebido favoravelmente e comentado tanto no âmbito da corrente popular da Pesquisa Psi (vide o extenso comentário favorável de Fuller [1987] e nossa resposta em Hövelmann & Krippner [1987b]), quanto nos círculos parapsicológicos mais conservadores (W. Eeman [1986, pp. 202-204], conhecido como crítico interno da Pesquisa Psi, publicou um sumário detalhado e um comentário de apoio em Flemish), e também nos dos céticos “de carteirinha” como Kendrick Frazier (1987), editor do Skeptical Inquirer do CSICOP.
O cético holandês Rob Nanninga (1988, pp. 281-282) incluiu, também num livro, uma lista completa de nossas recomendações, endossando-as. Além disso, foram publicados sumários por Irvin Child (1987, p. 204), por exemplo; e incluídos numa segunda edição de Philosophy of Science and the Occult , de Patrick Grim (Grim, 1990, p. 77).
Nosso cânone de recomendações parece ter sido considerado um modelo para discussão em áreas diferentes, quando Geoffrey Dean utilizou um extenso sumário delas como sinal para (Dean, 1987b) “estimular” discussões num “debate sobre as melhores diretrizes de uma futura pesquisa em astrologia” (Dean, 1987a), que ele conduzira durante a Conferência Anual de Pesquisa Astrológica, em Londres, 1987.
Por outro lado, sugestões para futura prática, linguagem e comportamento científicos, é provável que não permaneçam sem serem desafiados. Assim, McConnell (1987) abordou o assunto, a primeira das onze sugestões que fizemos, em particular (ver abaixo; nossa réplica, ver Hövelmann & Krippner, 1987c).
Um Pouco de Simpatia pelo Diabo
Um outro time de autores, todos dos Países Baixos, reportaram-se às nossas sugestões como “Onze Mandamentos,” e fizeram uma crítica de cada um, sob o ponto de vista de advogado do diabo (Millar, Jacobs, & Michels, 1988).
Não se deve apresentar a Pesquisa Psi como uma ciência revolucionária .
De acordo com Hövelmann and Krippner (1986a, p. 2), seguidamente se anuncia que a Pesquisa Psi é uma ciência revolucionária, que seus achados têm implicações revolucionárias para a humanidade, e que os pesquisadores psi estão à frente de uma revolução. Discutiram mais de meia dúzia de significados concebíveis ao termo “revolucionário” e rejeitaram todos tanto por enganosos, inadequados, contraditórios ou intrinsecamente sem significação. O termo “revolucionário” pode implicar, por exemplo, em que os pesquisadores da psi abandonaram a metodologia científica; se essa implicação for incorreta, a pesquisa psi não pode ameaçar uma “revolução”, não importa quão dramáticos seus achados possam parecer.
Crítica: se um pesquisador em medicina encontrasse uma nova droga anticâncer, isso seria considerado parte da corrente principal da ciência. Entretanto, se ao injetar aquela substância, o paciente se tornasse invisível, o termo “revolucionário” não seria inapropriado. Os pesquisadores Psi da escola “revolucionária” asseguram que existe a possibilidade de que os dados parapsicológicos possam produzir resultados de tal magnitude; e que tais dados iniciariam modificações drásticas em muitas outras ciências (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 6).
Resposta: Até que sejam consistentes as evidências replicáveis e empíricas da psi e sua eventual utilização seja cautelosa, a maioria dos pesquisadores psi provavelmente concordaria em que a situação não evoluiu drasticamente no período de 17 anos desde que nosso artigo foi publicado. A base da propaganda revolucionária, conseqüentemente, não parece havê-la tornado mais consistente do que era no passado. Assim, já que não temos em mãos muito que sirva para abalar os alicerces do ponto de vista científico aceito pela maioria, estamos bem orientados para manter distância de qualquer pretensão revolucionária. Além do mais, já que não existem alternativas convincentes e viáveis, continuamos razoavelmente acomodados no ponto de vista universal prevalecente.
Continua por ser demonstrado que a Pesquisa Psi produza evidência de uma magnitude tal que force a mudança, que mereça ser chamada “revolucionária” (no sentido de que, no evento, teria que ser explicitamente especificada). E, com toda franqueza, nós pesquisadores psi somos os únicos que teremos que fazer isso. Além do mais, os pesquisadores psi terão que demonstrar ainda um outro assunto que continua sem ser reconhecido: que as ciências “convencionais” em sua forma corrente não estão prontas para lidar com o que quer que possamos estar prestes a confrontá-las. Não estamos convencidos de que estejamos em posição de fazer o que quer que esteja próximo por cumprir com uma ou todas essas obrigações. Diante dessas circunstâncias, insistir meramente, como fazem Millar, Jacobs, and Michels, de que nos consideramos revolucionários não é - por si - revolução. É rebelião.
Quanto à pesquisa médica mencionada por nossos críticos, a que tornou invisível seu paciente em vez de curar sua doença potencialmente fatal, um caso poderia ser montado e chamá-lo de trágico acidente (se não algo pior); não uma revolução, mas um exemplo aparente de mau tratamento.
Não se deve enfatizar muito a pesquisa da sobrevivência. Hövelmann e Krippner (1986a, p. 2) sugeriram que parece muito pouco provável que a pesquisa sobre relatos de sobrevivência possa produzir conhecimento empírico sobre a sobrevivência ou, em caso contrário, contribuir para solucionar o problema da sobrevivência. Os resultados da pesquisa sobre a vida após a morte, por outro lado, podem nos falar mais especificamente sobre o processo de morrer e sobre a condição humana, em geral (ver também Hövelmann, 1988a); mas há tantas explicações alternativas sobre experiências próximas à morte (Hövelmann, 1985b), relatos de “pós-vida”, mediunidade, e dados relacionados, que os anúncios de sobrevivência podem se tornar impossíveis de verificar (ver também Cardeña, Lynn, & Krippner, 2000).
Crítica: Os estudos da mediunidade conduzidos no auge da pesquisa da sobrevivência, de informações conseguidas de pessoas falecidas, eram - em muitos graus de magnitude, melhores do que os melhores dados contemporâneos produzidos em laboratório. A pesquisa da sobrevivência é mais compreensível, e provavelmente mais fácil de fundamentar que os outros aspectos da pesquisa psi; por isso o atual “status” de mau-gosto dessas investigações faz pouco sentido (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 6).
Resposta: Millar, Jacobs, e Michels que, de seus outros escritos, são conhecidos por basicamente concordarem com nossa segunda recomendação, são cuidadosos em não fingir que os velhos estudos sobre mediunidade a que se referem têm evidente valor de uma força que contribuiria significativamente para uma solução à questão da sobrevivência. Eles estão, com certeza, bem conscientes dos problemas que podem existir com a avaliação da evidência histórica, cuja documentação, nem sempre atinge, para dizer menos, os padrões mínimos que hoje seriam exigidos.
No entanto, os autores parecem sugerir que a pesquisa da sobrevivência (como oposta à pesquisa relacionada à sobrevivência no sentido específico acima) seja continuada por razões principalmente oportunistas, ou seja, por sua discutível importância comerciável. Nós questionamos tanto a sabedoria quanto a ética de sua política. É muito improvável que venha a ser útil para o campo, no final das contas, a pesquisa “comercial” sobre uma dada questão (por exemplo, a hipótese da sobrevivência), enquanto se estiver convencido, pelas várias razões metodológicas e conceituais que evidenciamos em nosso artigo de 1986 e em outros lugares, de que não aparecerão os resultados - mesmo que sugiram moderadamente confirmação ou rejeição empírica dessa hipótese.
Enquanto acreditarmos que a pesquisa relacionada à sobrevivência significa a investigação de experiências e convicções humanas que pareçam estar relacionadas ao conceito de sobrevivência, pode bem valer nosso tempo e nossos esforços; e pode ser potencialmente de grande importância o nosso conhecimento sobre a morte e o morrer (Hövelmann, 1988a), o núcleo da hipótese de sobrevivência para a Pesquisa Psi foi sempre o principal impedimento à aceitação do campo por nossos vigilantes científicos. Assim, Harvey Irwin (2002) defendeu uma "redefinição da Pesquisa Psi e o banimento da hipótese de sobrevivência para uma condição secundária". (pág. 19). Principalmente pelos mesmos motivos que nós avançamos em 1986, Irwin concluiu que "é precipitado perseverar neste compromisso intratável e severo quanto à posição da pesquisa parapsicológica como um empenho científico legítimo. A hipótese de sobrevivência precisa ser colocada à parte substancialmente como uma provocativa porém - no final das contas, improdutiva faceta da história da Pesquisa Psi " (pág. 25). Nós concordamos.
Não se atribuirá muito peso a material não experimental. De acordo com Hövelmann and Krippner (1986a, pp. 2-3), os pesquisadores psi não deveriam confiar tão completamente na assim chamada evidência de casos espontâneos ou de dados obtidos em ambientes quase experimentais. As falhas que quase sempre acompanham esses tipos de investigação tendem a não deixar rastro, depois do fato, bem como se abrem a uma interpretação e projeção superestimadas. Não obstante, esses relatos quase sempre estimulam tipos de investigação mais rigorosos, e podem ser usados para derivar predições testáveis.
Crítica: Os experimentos Psi são, ainda, apenas esporadicamente bem sucedidos e não podem ser produzidos sobre nenhuma base que se assemelhe a uma linha de produção. Como resultado, os casos espontâneos e as observações informais não deveriam ser ignorados; o computador analisa as coleções de casos espontâneos existentes (ex., Schouten, 1979; Persinger, 1988) que têm rendido dados tão questionáveis quanto vitais como nenhum oriundo do laboratório (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 6).
Resposta: Não existe, tanto quanto possamos asseverar, uma diferença substancial entre o que sugerimos em nossas recomendações e os comentários avançados da crítica. Na verdade, nós concordamos fundamentalmente que as áreas e tipos de estudo evidenciados por Millar, Jacobs, and Michels “não deveriam ser ignorados,” e dissemos isso em nosso artigo. Essas áreas constituem, e sempre constituíram, importantes partes da prática parapsicológica e têm contribuído consideravelmente para o caso global da psi que o campo consegue hoje.
Melhor, o que tentamos apontar é a diferença de valoração evidente que existe entre as percepções obtidas dos relatos de casos espontâneos, por um lado, os estudos de campos e as coleções de casos; e os dados obtidos de estudos controlados mais rigorosamente em ambientes de laboratório, por outro lado. Existem duas facções tradicionais na Pesquisa Psi, os “experiencialistas” e os “experimentalistas.” Enquanto que os últimos reconhecem principalmente a necessidade e a preferência por estudos menos formais de eventos psi presumivelmente espontâneos, como uma fonte de estimulação para uma pesquisa experimental estritamente mais controlada, os primeiros parecem, algumas vezes, de longe, menos generosos. Eles parecem contentar-se com eventos espontâneos de um precário poder - pelos menos - e preferem, como poderiam dizer, experienciar a psi em ambiente de vida real para exorcizá-lo no laboratório.
Em resposta, dificilmente podemos fazer melhor do que citar uma fonte inteiramente isenta de suspeita. Carlos Alvarado (2002), um dos mais famosos autores de sofisticados estudos de casos espontâneos, lembrou a seus colegas: “Nós deveríamos estar conscientes de que a pesquisa é feita por interesse de alguém e para treinar alguém e de que não podemos esperar daqueles que conduzem outros tipos de pesquisa que façam a pesquisa que queremos ver feita. Eles simplesmente têm outras prioridades e pontos de vista” (p. 116).
E então, ele continuou a descrever nossa preocupação, da qual aparentemente compartilha, sem ressalvas: “Minha impressão com o passar dos anos, com respeito ao estudo de fenômenos espontâneos, é que aqueles de um desses segmentos não estão interessados em explicar ou entender os fenômenos. Parecem contentar-se em manter o mistério para seu próprio benefício. Em sua ótica, os fenômenos são algo sagrado que não deveriam ser testados demais” (p. 117). Alvarado acrescentou: “Minha impressão é que alguns deles interessaram-se em sobrevivência da morte ou em conceitualizar fenômenos psíquicos como manifestações que apontam para aspectos não-físicos ou espirituais dos seres humanos; não estão geralmente interessados em demonstrar como os casos se relacionam aos aspectos do mundo natural. Sentem que é mais importante sustentar a sobrevivência, a espiritualidade, ou coisa semelhante, por causa das implicações desses conceitos sobre a natureza dos seres humanos. Talvez aqueles que vêem o estudo dos fenômenos espontâneos, dessa forma, não querem o tema associado a correlações mundanas físicas, biológicas, e psicológicas, porque tais correlações enfraquecem as visões mais espirituais que eles preferem” (p. 119).
Não se deve tomar o nome da psi em vão. Hövelmann and Krippner (1986a, p. 3) argumentam em prol de uma reforma terminológica na pesquisa psi, enfatizando que os termos contemporâneos (especialmente “percepção extrasensorial” ou ESP) são negativos na forma, afirmando o que a ESP não é, não o que ela é. Pelo menos, a Pesquisa Psi deveria distinguir entre os termos explanatórios e os descritivos; em vez disso, ela se apresenta como se os pesquisadores da psi estivessem explicando uma anomalia quando eles estão meramente identificando uma. A proposição, “A curva naquela colher deve ter sido causada por uma força psicocinética” é gramaticalmente correta mas, na verdade, é uma explicação negativa.
Crítica: Qualquer tentativa de impor uma terminologia neutra, não teórica, é considerada falha antes que haja mais resultados substanciais baseados em conceitos teóricos consistentes. Nesse meio tempo, uma terminologia não teórica é tão útil quanto um uísque escocês sem álcool (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 7).
Resposta: Ao menos parte das intenções que tínhamos em mente, quando planejamos essas recomendações em particular, haviam sido cumpridas nesse meio tempo: a conscientização entre os pesquisadores psi de seus problemas terminológicos desenvolveu-se notavelmente nas duas últimas décadas, e a necessidade de uma reforma terminológica foi largamente reconhecida por nossos colegas. Alguns até se arriscaram a apresentar suas próprias sugestões terminológicas de algum alcance (e.g., Mabbett, 1982; Palmer, 1986, 1988; May, Spottiswoode, Utts, & James, 1995; May, Utts, & Spottiswoode, 1995). Mesmo assim, esses valiosos esforços quase sempre foram frustrados pelos mesmos velhos problemas - ou novos, alguns anteriormente desconhecidos (ver Braude, 1998; Hövelmann, 1988c). Logo, o diagnóstico parece definido e, de uma forma geral, aceito, mas ainda não há admitidamente remédios apropriados no horizonte.
Não se deve duvidar da definitiva utilidade da psi. Alguns pesquisadores psi proclamam que estão lidando com fenômenos indefiníveis e não replicáveis (Hövelmann & Krippner, 1986a, p. 3). No entanto, essa declaração pode ser prematura (ver Bem & Honorton, 1994). E depois, as metodologias da pesquisa psi podem não ser ainda totalmente adequadas à tarefa. A Psi é um evento complexo; mesmo assim, seus processos subjacentes podem ser entendidos eventualmente, permitindo que resultados robustos, estáveis, e replicáveis ocorram.
Crítica: Após mais de um século de experimentos não repetíveis, a possibilidade de que a não repetibilidade seja inerente à Pesquisa Psi deveria ao menos ser considerada (ver Friedman, 1984; Hansen, 2001).
Resposta: Richard Broughton (1988), em seu discurso presidencial de 1987, na Parapsychological Association, fez-nos recordar: “se você quer saber como ela funciona, descubra primeiro para que ela serve” (p. 187). Ambas as partes dessa prescrição –- a noção de que se espera que alguma coisa “funcione” e que isso seja instrumental ao alcançar determinadas metas, ou ao preencher determinadas necessidades que um organismo possa ter —- logicamente pressupõe um mínimo de confiabilidade funcional sistemática, robustez e repetibilidade de suposta habilidade ou processo psi subjacente.
Ao tempo em que não existe qualquer prova positiva de que a não repetibilidade seja inerente em Pesquisa Psi e de que a “serventia” confiável e as características de preenchimento de necessidades da psi são ilusórias, a busca por uma significância funcional da psi continua sendo o melhor caminho a seguir.
Deve-se escutar ou responder a críticas externas. A Pesquisa Psi nada tem a perder e potencialmente muito a ganhar por escutar e colaborar com seus críticos (Hövelmann & Krippner, 1986a, p. 3). A crítica externa mudou em termos de alcance, sutileza, relevância, justiça e objetividade. Não obstante, uma mudança drástica e mesmo uma colaboração com os mais espertos desses críticos eliminaria a dicotomia de “proponentes” e “críticos” que existe atualmente, permitindo uma viva colaboração de todos aqueles que sinceramente desejam uma solução para os problemas criados pelas anomalias que emergem das ocorrências psi relatadas.
Crítica: Tempo é dinheiro, e isso existe demais. Dada a escolha entre levar a cabo um novo experimento e debater alguma crítica de trabalho anterior, tem sido mais oneroso escolher a alternativa anterior. A maioria da crítica repetida vem mais seguidamente de escritores cujo conhecimento de literatura relevante é esparso, e sua educação não deve ter sido uma prioridade do campo (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 7).
Resposta: Sem dúvida, a caracterização que Millar, Jacobs, and Michels propiciam da maioria dos auto-declarados escarnecedores é correta (ver Hansen, 1992; Hövelmann, 1985a). “Educar” essas pessoas não pode razoavelmente ser considerada uma de nossas prioridades. Não obstante, nossos críticos comentaristas dissimulam o fato de que nas disputas prolongadas em torno da Pesquisa Psi encontramos muito mais graduações de cinza do que é reconhecido normalmente. A realidade do debate psi é, dessa forma, mais complexa do que é descrito pela crítica. De fato, como um de nós demonstrou alhures (Hövelmann, 1988b), identificando suficientemente um pesquisador psi ou um cético, discernir confiavelmente um do outro, pode ser muito mais difícil do que os propagandistas de ambos os lados das controvérsias em torno da legitimidade da Pesquisa Psi nos têm feito acreditar. Conseqüentemente, a necessidade de uma mudança drástica e, idealmente, a cooperação entre todos os campos continua a existir.
Entretanto, a colaboração prática parece ter se tornado gradualmente mais difícil nos últimos anos. E há uma razão específica para isso. Como Honorton uma vez observou, a oposição às primeiras pesquisas parapsicológicas laboratoriais foi virtualmente silenciada em 1940 (Honorton, 1975). Nós podemos estar numa situação comparável hoje. Como pode ser claramente inferido, por exemplo, das páginas do Skeptical Inquirer , o ceticismo organizado decididamente desviou sua atenção da Pesquisa Psi dominante para concentrar-se em alvos mais fáceis (e algumas vezes não-existentes virtualmente). E as poucas controvérsias em torno da pesquisa parapsicológica formal que ainda emergem de tempos em tempos tendem a ser muito menos injustas e amargas do que as que nós experienciamos durante os primórdios dos anos 80.
Qualquer sentimento de relativa segurança pode ser traiçoeiro, no entanto. Como Honorton mostrou também, as novas gerações de céticos auto-intitulados (talvez mais apropriadamente chamados “escarnecedores”) estão provavelmente dispostos a re-considerar de vez em quando; mas as experiências passadas propiciam pouca esperança de que a maioria deles tenha aprendido as lições de seu e de nosso passado em comum. Nós, no entanto, continuamos a acreditar que seja de nosso maior interesse conservar estreito contato com os poucos céticos esclarecidos e relativamente moderados que atuam hoje em dia.
Não se deve associar com os “realmente crentes”. Os pesquisadores da Psi precisam comprometer-se com um julgamento crítico e com uma auto-disciplina intelectual; não obstante, devem distanciar-se de propagadores que apregoam noções não testáveis e inabaláveis permeadas com o sobrenatural (Hövelmann & Krippner, 1986a, p. 3).
Crítica: Por que se deveria associar com “inimigos” declarados ou potenciais enquanto se diferencia a si próprio dos “amigos” declarados? Nunca se sabe quando um grupo metafísico vai conseguir assistência financeira ou outro tipo de ajuda.
Resposta: Não vemos necessidade, nem sentimos qualquer inclinação, para discutir assuntos científicos, ou melhor, neste caso particular, assuntos político-científicos em termos de supostos “inimigos” (presumivelmente, as organizações de céticos) e “amigos” (os grupos “metafísicos”). A vaga esperança de que os últimos poderiam nos prover com a assistência financeira que é urgentemente necessária também não nos parece uma razão suficiente para comprometer nossa integridade científica e nossa credibilidade. Ficar em contato com os “realmente crentes” e/ou ingênuos grupos metafísicos pode ser bastante útil, às vezes, a ponto de se obter novas idéias de pesquisa a partir de suas orientações teóricas ou práticas. Mas associar-se com suas organizações ou mesmo adotar suas ideologias seria um prejuízo desastroso, sempre um preço alto demais para pagar.
Deve-se providenciar dados completos. Quando publicar um experimento , não apenas os dados completos tornarão as replicações mais fáceis, mas evitarão que os críticos façam acusações injustificadas (Hövelmann & Krippner, 1986a, p. 3). Se nada mais, uma nota de pé de página poderia ser acrescentada ao artigo declarando onde é que o protocolo completo experimental está disponível. Além disso, um consórcio de jornais e de pesquisadores poderia montar um “canon” de orientações sobre como os dados que não podem ser publicados na íntegra podem ser tratados e tornados acessíveis.
Crítica: Quando se publica um experimento, uma descrição melhor detalhada dos procedimentos de análise dos resultados, deveria ser fornecida. Em particular, não se deve esconder dados sobre as partes da pesquisa que não produziram os resultados esperados. Mas quão completos os dados publicados precisam ser? Uma lista completa de centenas de tentativas está fora de questão. Não importa quão extenso seja o relatório, os pesquisadores da psi inevitavelmente sabem mais sobre um experimento do que o que aparece impresso (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 7).
Resposta: os comentários de Millar, Jacobs, and Michels são essencialmente mais uma paráfrase do que uma crítica da maioria do que dissemos na respectiva seção de nosso artigo. Não parece haver um verdadeiro desacordo a respeito do desejo, ou mesmo da necessidade, de se providenciar documentação experimental que é tão detalhada e completa quanto possível. Dada a atual prevalência e prestígio usufruídos pelos procedimentos meta-analíticos, essa necessidade é ainda mais urgente hoje do que era há 17 anos atrás. Conseqüentemente, a questão não é tanto se os dados completos deveriam ser providenciados, mas como isso deveria ser feito. Isso é essencialmente uma questão de conseguir acordos sobre a melhor forma para preservá-los; e, se necessário, propiciar defensivamente às facções interessadas toda as informações a respeito de um experimento que forem concebivelmente relevantes para a subseqüente nova avaliação e análise desse experimento. Aqui os dirigentes das organizações científicas e os editores de jornal provavelmente estão em posição apropriada para juntar forças pelo desenvolvimento de sugestões de soluções praticáveis.
Saiba mais :
Biografia do Dr. Gerd Hövelmann (em inglês)
http://www.pesquisapsi.com/content/view/2071/80/Biografia do Dr. Stanley Krippner (em inglês)
http://www.pesquisapsi.com/content/view/2074/80/
Referências
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A segunda parte deste artigo será apresentada no “Boletim Virtual de Pesquisa Psi 3”
Profa. Dra. Fátima Regina Machado
Inter Psi - CENEP - COS - PUC/SP
Faculdade de Comunicação e Filosofia - PUC/SP
Instituto de Psicologia - USP
fatimaregina@pesquisapsi.com
Em minha dissertação de mestrado “A Causa dos Espíritos: Um estudo sobre a utilização da Parapsicologia para a defesa da fé católica e espírita no Brasil”, defendida com êxito em 1996 no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC/SP, apresento um estudo comparativo entre três abordagens adotadas para o estudo dos chamados fenômenos parapsicológicos, com concentração de interesse no tratamento dado à investigação dos chamados casos Poltergeist . Os propositores das diferentes abordagens em questão foram Oscar Gonzales-Quevedo, Hernani Guimarães Andrade e William Roll, a cada um dos quais dedico um capítulo, expondo sua trajetória de estudos, seu envolvimento com a Parapsicologia e sua abordagem de pesquisa.
Há muito o desejo de divulgar essa dissertação de mestrado existe, porém devido a alguns percalços ainda não foi possível terminar a transformação do trabalho acadêmico em livro. Enquanto essa tarefa não é cumprida, trago neste artigo uma espécie de resumo de parte do que foi tratado na dissertação como um todo, feitas algumas revisões e atualizações, concentrando-me, principalmente, no contexto de desenvolvimento da Parapsicologia em território brasileiro. Assim, o presente texto se voltará às abordagens de Quevedo e Andrade especificamente. Por meio do conhecimento do contexto e das vias pelas quais a pesquisa parapsicológica – também conhecida como historicamente Metapsíquica e Pesquisa Psíquica, hoje denominada mais amplamente de Pesquisa Psi no Brasil – chegou e se desenvolveu em nosso país, é possível ter uma compreensão mais abrangente de suas diferentes abordagens, dos desvios e vieses que ela sofreu e ainda sofre.
Ao ouvirmos falar em “Parapsicologia no Brasil”, nos vem à mente um misto de idéias que envolvem crendices, superstições, religiões, ocultismo. Realmente observa-se uma miscelânea de assuntos e práticas que, ao longo do tempo, foram abrigados sob o guarda-chuva denominado “Parapsicologia” para onde tudo o que é estranho, bizarro e aparentemente fora do normal foi empurrado. Por falta de conhecimento ou, vez por outra, por pura má fé, ao longo do tempo foram sendo semeadas informações equivocadas em terras brasileiras sobre essa ciência difundida principalmente na Europa e nos Estados Unidos da América. Em termos de divulgação popular, foram difundidas informações mais ou menos distorcidas sobre a pesquisa parapsicológica. Desde que essas informações começaram a chegar em terras brasileiras até hoje nossos dias vivenciamos capítulos de histórias mal-contadas por algumas pessoas que especulam a “Parapsicologia” de forma equivocada. Como num jogo de telefone sem fio, há várias pessoas que interpretaram e continuam interpretando as informações recebidas à sua maneira, satisfazendo necessidades ou desejos particulares.
Se de um lado observam-se crédulos absolutos da existência de fenômenos parapsicológicos, de outro há aqueles(as) que se dizem céticos(as) negando a priori a existência de qualquer possibilidade de ocorrência de eventos anômalos que desafiem as leis científicas estabelecidas. Essa negativa se deve principalmente em razão do cenário criado pelos modos como a Parapsicologia foi divulgada no país, sempre envolvida com grupos de tendências religiosas, principalmente católicos e espíritas kardecistas, que procuram explicar as experiências psi pela ótica de sua respectiva fé, como se estivessem a falar de ciência. Se isto gerou atritos e preconceitos entre esses dois principais grupos religiosos, gerou também preconceitos relacionados à Parapsicologia naqueles que estão fora da disputa entre espíritas e católicos. Isto ocorreu porque criou-se o hábito de considerar essa ciência como uma pseudo-ciência, uma vez que o que mais se divulgou a respeito da pesquisa parapsicológica ao longo de três décadas (anos 1960 a 1980) foram conhecimentos derivados dos estudos científicos realizados especialmente fora do Brasil, utilizados de modo a atestar ou contestar fenômenos aparentemente anômalos que serviriam para validar esta ou aquela religião.
A disputa entre católicos e espíritas teve como principal arma de ataque e defesa conhecimentos científicos interpretados à luz de cada uma das doutrinas conflitantes. Essa “competição” começou na primeira metade do século XX. Nesse período, a Igreja Católica viu ameaçada sua hegemonia em terras brasileiras pelo crescente aumento de adeptos ao Espiritismo e de pessoas que, mesmo continuando oficialmente católicas, participavam de sessões mediúnicas, desde fins do século XIX.
Há registros de alguns grupos que se reuniam para discutir sobre as novidades de pesquisas trazidas do exterior no início do século XX. Especialmente no meio espírita, as informações chegaram mais rapidamente, devido à conexão entre o início da pesquisa psíquica e os fenômenos do Espiritismo. Apenas para lembrar, a Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres fora fundada em 1882 por intelectuais e cientistas com o objetivo de estudar sistematicamente o fenômeno da leitura de pensamento, da clarividência, do mesmerismo e dos fenômenos chamados espíritas. (Proceedings of the SPR, 1882)
Em sua pesquisa realizada no Brasil na década de 1980, o antropólogo David Hess fez um levantamento sobre a chegada e o interesse pelas primeiras pesquisas parapsicológicas no país. Ele conta que, de acordo com os documentos e livros por ele pesquisados (Abreu, 1950; Acquarone, 1982; Brown, 1986; Bruneau, 1974; Kloppenburg, 1967; Ribeiro, 1941; Wantuil, 1969; Warren, 1984), o Espiritismo começou a se expandir pelo Brasil na década de 1870, mais como doutrina do que como ciência. Apenas na década de 1890 os espíritas começaram a se interessar pela Pesquisa Psíquica, por conta da perseguição que sofreram com o advento da Velha República. Na época, o Espiritismo era considerado ilegal – incluindo-se tanto o kardecismo como qualquer outra religião mediúnica – e a lei previa penalidades àqueles que o praticassem. Não tendo conseguido modificar a lei, os espíritas procuraram dar um caráter científico ao seu movimento, voltando-se à Pesquisa Psíquica. Quando a perseguição ao Espiritismo diminuiu por volta de 1895, os espíritas se voltaram novamente a uma orientação mais doutrinal. (Hess, 1987a, p. 472 e 473)
Durante a ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945), novo interesse se reacendeu sobre a Pesquisa Psíquica (denominação inglesa), Metapsíquica (denominação francesa), ou como então a já chamada Parapsicologia, denominação difundida devido ao fato de o casal Rhine ter estabelecido o Laboratório de Parapsicologia na Duke University no final da década de 1920. Esse novo interesse deveu-se ao fato de a Igreja Católica fazer, naquele momento, uma pesada campanha contra o Espiritismo por meio de publicações e de discursos nos quais utilizava conhecimentos oriundos da pesquisa parapsicológica para desmascarar o que chamava de “mentiras espíritas”. Nessa época, a palavra “Espiritismo” ainda era entendida pelo Estado como termo que designava todas as religiões mediúnicas, sendo enquadrado como crime de contravenção, com possível pena de prisão para quem o praticasse em qualquer uma de suas formas. Isto resultou no fechamento de vários centros kardecistas e terreiros de Umbanda e Candomblé. Por isso, como aponta Hess:
Novamente, como parte de sua estratégia de defesa, os espíritas [kardecistas] proclamaram seu empreendimento científico e traduziram diversos textos da Pesquisa Psíquica européia que traziam pesquisas e conclusões favoráveis à interpretação espírita da mediunidade e de outros princípios espíritas. (Hess, 1987a, p. 473)
Em 1953, a Igreja Católica, por intermédio do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), declarou o Espiritismo um desvio doutrinal perigoso e iniciou, no país, uma forte campanha de educação contra o kardecismo e a Umbanda. Os principais autores católicos do período foram Frei Boaventura Kloppenburg (1957; 1960; 1961a; 1961b; 1967; 1972) e Álvaro Negromonte (1954). Os adversários espíritas, Carlos Imbassahy (1935; 1943; 1949; 1950; 1955; 1961; 1962; 1965; 1967; Imbassahy & Granja 1950) e Deolindo Amorim (1949; 1955; 1957; 1978; 1980) rebatiam os ataques católicos através da publicação de artigos e livros.
Na década de 1960, o então seminarista espanhol Oscar González Quevedo, mais tarde fundador do Centro Latino Americano de Parapsicologia (CLAP), foi enviado ao Brasil com a tarefa de “livrar” o país da superstição espírita. Um de seus principais antagonistas foi o engenheiro e intelectual espírita Hernani Guimarães Andrade, fundador do Instituto Brasileiro de Psicobiofísica (IBPP). Iniciou-se, então o que Hess chamou de guerra de palavras (Hess, 1987a, p. 473) entre católicos, representados por Quevedo, e espíritas kardecistas, representados por Andrade. Apesar de o embate ter sido arrefecido pelo passar dos anos, essa “guerra” continua até nossos dias. (Zangari & Machado, 1995, p. 505). Quevedo continua ativo e presente na mídia e, embora Andrade tenha falecido em 2003, há outros importantes defensores do pensamento espírita, lutando ainda para defendê-lo e estabelecer um vínculo entre a doutrina e o saber científico.
A conseqüência mais imediata dessa guerra de palavras foi a condenação do substantivo “Parapsicologia” ao desvio semântico, estando para sempre comprometido o seu significado, especialmente nos meios acadêmicos. Por isso, a comunidade internacional de pesquisadores(as) tem discutido há tempos a utilização de um outro nome para essa disciplina ou ramo de pesquisa, que não esteja comprometido com esta ou aquela postura religiosa. Daí surgiram os nomes “Pesquisa Psi” e “Psicologia Anomalística” adotados pelo Inter Psi.
Para uma compreensão mais abrangente das dimensões e implicações dessa guerra de palavras em nosso país em particular, tratarei de expor resumidamente, a seguir, como se deu o embate entre Andrade e Quevedo entre as décadas de 1960 e 1980.
Uma Guerra de Palavras
É absolutamente clara a distinção de abordagens adotadas por Quevedo e Andrade no que se refere à Parapsicologia e, conseqüentemente, à interpretação de seus resultados de pesquisas. No entanto, em relação aos estudos parapsicológicos, têm algo em comum: pretendendo-se cientistas, não conseguem primar pela busca da tão desejada neutralidade científica. Obviamente, a neutralidade ideal é algo praticamente impossível de ser alcançado por completo, pois independentemente de credos religiosos pessoais, até mesmo a escolha da ciência como meio de conhecer a realidade já configura uma decisão pessoal que é certamente tomada devido a crenças individuais. (Coracini, 1991) Mas pode-se perceber nitidamente quando há um esforço em primar pela neutralidade, pelo afastamento necessário para não se deixar levar por certas tendências e nem para jogar fora a criança juntamente com a água do banho . Um(a) pesquisador(a) psi deve ter conhecimento e prática em pesquisa de casos espontâneos e experimental, manter-se sempre atualizado(a) sobre o assunto e estar aberto(a) às críticas, o que se faz imprescindível ao processo de construção do conhecimento científico. Isto permite que se vá sempre em busca de novas possibilidades, sem comprometer o rigor do trabalho científico. Fica claro para quem conhece o histórico dos desenvolvimentos das pesquisas parapsicológicas realizadas no hemisfério norte e as propostas teóricas e as práticas de Andrade e Quevedo que estes últimos reinterpretam a Parapsicologia secular – aquela não comprometida com a religião - dos Estados Unidos e da Europa de forma organizada e sofisticada de acordo com objetivos bastante específicos.
Desde sua introdução no país, o movimento espírita kardecista vem tentando conseguir manter um espaço próprio. Em princípio, não interessa aos espíritas combater qualquer outro credo, pois outras religiões não os incomodam. No entanto, assumem uma posição de defesa aos ataques recebidos de religiosos católicos. Como foi dito anteriormente, essa “luta”, representada aqui pelo trabalho do Pe. Oscar Gonzales Quevedo e do Engenheiro Hernani Guimarães Andrade sempre foi um combate movido por interesses religiosos e políticos no sentido amplo do termo, que evidencia a utilização da Parapsicologia como discurso competente a serviço de objetivos ideológicos. (Hess, 1991)
Quevedo, sendo um interessado pelos chamados fenômenos parapsicológicos desde criança, desenvolveu todo o seu conhecimento na área de acordo com um ambiente europeu, branco e jesuíta. Demonstra ter recebido uma formação iluminista quando trata do Espiritismo, o que não acontece quando trata de milagres. Como o próprio Quevedo afirmou em entrevista a mim concedida em 1996 no CLAP, seu envolvimento com a Parapsicologia se deu em parte devido a planos pessoais e, em parte, pelos planos traçados por pelo Pe. Vicente Gonzales, superior da província do Brasil em 1959, que viu em Quevedo alguém que teria a possibilidade de empreender uma luta eficaz contra o Espiritismo crescente no Brasil.
Andrade, por sua vez, afirmou também em entrevista a mim concedida em 1996, em Bauru, que começou por um caminho de busca pessoal por explicações a respeito da origem e manutenção vida. Ele se dizia um “franco-atirador”, não-religioso, sem ligação formal com nenhuma associação. Curiosamente, porém, publicou vários textos no jornal Folha Espírita defendendo explicitamente o Espiritismo utilizando-se de pseudônimos para assiná-los, quais sejam K.W. Goldstein e Lawrence Blacksmith.
Segundo o Foundations for Parapsychology , publicado em 1986 nos EUA, escrito por membros da Parapsychological Association , a mais importante associação internacional de pesquisadores(as) psi, a Parapsicologia seria “...o campo científico que estuda as interações sensoriais e motoras que aparentemente não são mediadas por nenhum mecanismo ou agente físico conhecido”. (Rush, 1987, p. 4) Andrade e Quevedo apresentam definições bem distintas para o que seja Parapsicologia. Quevedo a define como “a ciência que tem por objeto a comprovação e a análise dos fenômenos à primeira vista inexplicáveis que apresentam, porém, a possibilidade de serem resultado de faculdades humanas”. (Quevedo, 1982, p. 21) Esta definição é bastante falha. Fenômenos aparentemente inexplicáveis existem muitos e certamente há vários que não pertencem ao escopo da Pesquisa Psi. Podem ocorrer fenômenos geológicos, metereológicos, médicos etc., que à primeira vista sejam inexplicáveis, mas com certeza, há ciências pertinentes que se ocuparão destes, e não a Pesquisa Psi. Além disso, a definição quevediana abre caminho à possibilidade de esses “fenômenos inexplicáveis” não serem fruto da ação humana, mas não deixa claro quais seriam essas outras possibilidades de intervenção. Na realidade, Quevedo parte do princípio de que os fenômenos podem ser provocados ou pelo ser humano vivo ou por intervenção divina, nunca por espíritos. E fecha questão.
Segundo Andrade, “a Parapsicologia é algo provisório que deveria estudar os fenômenos cujas leis causais eficientes não se enquadram dentro do conjunto das leis conhecidas”. (Andrade, 1967; Blacksmith, 1979b, p. 7) Essas palavras combinam mais com a definição proposta pelo Foundations do que as de Quevedo, mas não deixam explícita a abordagem que Andrade assume na realidade. Como ele mesmo afirma em seus textos, assinados com seu próprio nome ou com os pseudônimos que adota, o ser humano vivo pode realizar fenômenos parapsicológicos, porém conta com a ajuda de seres incorpóreos que, por vezes, agem até mesmo independentemente dos seres humanos vivos. Além disso, seu interesse pelas pesquisas é influenciado por outros princípios espíritas, tais como, a reencarnação e a existência do perispírito ou corpo astral. (Andrade 1959; 1976; 1983; 1984; 1986; 1988) E, a partir daí, na prática, Andrade constrói uma complicada estrutura teórica baseada na doutrina espírita para explicar a ocorrência dos fenômenos, utilizando também conhecimentos de Física, Biologia e Parapsicologia. (Hess, 1987a, p. 468)
Um bom exemplo para ilustrar as abordagens de Quevedo e Andrade é o modo como cada um deles lida com o estudo ou explicações para os chamados casos Poltergeist . A metodologia utilizada por Andrade para a pesquisa dos casos Poltergeist é exemplar: busca fatos, compila dados, faz análises, vasculha questões psicológicas e também tenta lançar luz sobre os eventos físicos ocorridos nos casos. Há, porém, um deslize que faz a diferença no momento de análise dos dados: Andrade desconsidera a possibilidade de falha no testemunho humano. Essa falha não necessariamente se refere à mentira por má-fé, mas à possibilidade de falhas perceptivas e preenchimento de expectativas aos quais todos os seres humanos são suscetíveis. Por mais honestas que as pessoas sejam, sempre há a possibilidade de haver erro de interpretação dos fatos ou exageros e/ou omissões que ocorrem inconscientemente. Portanto, embora o testemunho humano seja valioso nas investigações, não se pode fiar-se apenas nele. Andrade estabeleceu que pesquisas laboratoriais com os epicentros (protagonistas dos casos Poltergeist ) não levam a nada, como ele afirmou na entrevista que me concedeu. Desta forma, ele não realizava pesquisas experimentais com os envolvidos nos casos. Suas respostas para o motivo e o mecanismo das ocorrências são fruto de observações e coleta de testemunho dos casos que investigava. (Andrade, 1988, p. 125) Andrade adotou oficialmente um ponto de vista em relação aos fenômenos Poltergeist que aparentemente se encontra num meio termo entre o que ele chama de abordagem reducionista e a abordagem espírita, ou seja, os fenômenos poderiam ser provocados tanto por seres humanos quanto por seres incorpóreos. Como ele afirma:
Em certas circunstâncias, o paciente torna-se um epicentro, isto é, passa a produzir a energia (ou substância) capaz de propiciar a ação mecânica sobre os objetos materiais, por parte de um ser incorpóreo, seja ele um Espírito desencarnado, um elemental, o corpo astral de um vivo, ou então qualquer outro ser incorpóreo. Desde que seja possível a um ser incorpóreo aproveitar-se da energia do médium, com maior razão poderá o próprio Espírito do epicentro valer-se da energia que lhe é própria para produzir os fenômenos de Poltergeist. Para isto, seria necessário que pelo menos uma parte da individualidade do epicentro fosse capaz de abandonar o seu próprio corpo e agir a uma determinada distância do mesmo. (Andrade, 1988, pp. 24 e 25)
Ao esclarecer sua posição, fica claro que, de uma forma ou de outra, Andrade atribui a causa de um Poltergeist à ação de um espírito. Na verdade, ele acomoda seus pressupostos às ocorrências e sempre encontra respaldo para seu modelo de explicação do fenômeno. Esse modelo inclui práticas mágicas e a ação de seres incorpóreos, ou seja, de espíritos. Essas práticas mágicas se referem a trabalhos realizados em terreiros de macumba, Umbanda e Candomblé. Como foi dito, é inegável que a coleta de dados realizada por Andrade nas investigações dos casos Poltergeist é rigorosa, porém, suas interpretações e conclusões dos fatos são tendenciosas.
Quevedo também apresenta um modelo “definitivo” de explicação para os chamados fenômenos parapsicológicos. Considerando-se os Poltergeists , por exemplo, ele e sua equipe partem para investigações de casos com respostas prontas, querendo dissipar “aquele mal”, procurando por algum adolescente que seria o responsável pelo fenômeno. A ocorrência de um Poltergeist é, segundo Quevedo, sinal de patologia. O que importa, então, é “esclarecer com caridade a família afetada e fazer o fenômeno parar de ocorrer” . E, para isto, é preciso seguir as instruções do CLAP. O fato de se garantir que seguindo as orientações e submetendo-se ao tratamento proposto pela equipe o problema será resolvido cria uma subordinação dos personagens dos casos ao CLAP e, por conseguinte, à doutrina católica. A lista de procedimentos de investigação (Friderichs, 1980, p. 21-24) inclui rezas e bênçãos, especialmente se a família não professar a religião católica, e advertências caridosas acerca dos perigos trazidos pelo Espiritismo. Como se pode notar, esses procedimentos não configuram uma pesquisa de campo científica, mas sim uma visita de caráter catequético. Há observações quanto à desnutrição ou incidência de patologia entre os envolvidos no caso que correspondem ao lado negativo que Quevedo empresta aos Poltergeists e demais fenômenos parapsicológicos. Ele sustenta que os fenômenos são naturais, próprios do ser humano, mas aponta seu lado ruim, ou seja, a degeneração psicofisiológica decorrente da produção repetitiva desses fenômenos. Dessa forma, tenta inibir a busca da fomentação dos mesmos, incentivada pelo Espiritismo. Por conta disso, para ser coerente, Quevedo também se opõe à pesquisa experimental que tenta produzir os fenômenos em laboratório para finalidades de estudo. Contraditoriamente, no entanto, Quevedo elogia os experimentos realizados por pesquisadores tais como Ferdinando Cazzamalli, Emilio Servadio, William Crawford, William Crookes, Eugéne Osty, entre outros, e chega a defender, ainda que indiretamente, não só a realização como o reconhecimento desses experimentos pela comunidade científica em geral. (Quevedo, 1983b, p. 30)
É interessante notar que, à exceção da materialização perfeita, a qual Quevedo diz ser impossível acontecer (Quevedo, 1982, p. 68), ele não nega os fenômenos supostamente provocados por espíritos. Nem mesmo o ectoplasma é ignorado. Ele se transforma, na chamada “Parapsicologia quevediana”, em telergia condensada. A adoção de uma classificação detalhada dos fenômenos, como Charles Richet o fez na Metapsíquica, possibilita a Quevedo apresentar uma explicação específica para cada um deles. Não negando os fenômenos, em princípio, não afasta quem acredita na ação de espíritos desencarnados, mas oferece-lhes uma interpretação diferente daquela proposta pela doutrina espírita.
Quevedo ataca explicitamente o Espiritismo e não faz questão de esconder sua verdadeira intenção de desmistificar os chamados fenômenos espíritas através da Parapsicologia. Como se falasse em nome dos(as) pesquisadores(as) psi em geral, Quevedo afirma:
A Parapsicologia opõe-se à posição espírita por tê-la como ‘apriorística' e supérflua; porque não explica o que trata de explicar e porque tem sido demonstrado que seus fundamentos não resistem ao rigor da experimentação científica. Por outra parte, quero deixar claramente estabelecido que isto não quer dizer que a Parapsicologia negue alguma intervenção produzida de vez em quando ‘de lá para cá', espontaneamente, por poder divino. Existem fenômenos que a Parapsicologia não tem podido explicar: aquilo que nós chamamos de milagres. Mais ainda, fenômenos que superam claramente as possibilidades humanas. Tais fenômenos só aconteceram em contexto religioso divino. À exceção destes poucos fenômenos, insisto em que todos os demais os explicou e os explica hoje a Parapsicologia como fatos naturais. São fenômenos da alma humana não atribuíveis aos espíritos nem a nenhuma outra entidade. (Quevedo, 1973, p. 21)
Quevedo abriga sob o termo Espiritismo todas as religiões mediúnicas. Pretende provar que o Espiritismo é uma tapeação, pois, segundo o padre, contraria fatos científicos comprovados. Além disso, Quevedo é declaradamente sectarista: para ele, o milagre, o único fenômeno sobrenatural que, segundo ele, seria aceitável, só ocorreria em ambiente católico.
A posição de Andrade quanto à postura de Quevedo fica clara no artigo As três Faces da Parapsicologia (III): A Face Espírita Brasileira . Como em um desabafo, sob o pseudônimo Lawrence Blacksmith, Andrade explode:
Nos países onde predomina o materialismo além da influência de outras crenças religiosas reacionárias, os fenômenos espiritóides são ou desacreditados ou descartados. As faculdades mediúnicas são logo abafadas, catalogadas e tratadas como casos vulgares de psicopatia ou neurose, assim que se manifestam.
A precariedade de informação atrás referida teve outras conseqüências negativas, no tocante à Parapsicologia em nosso país. Propiciou a proliferação de pseudo-parapsicólogos com objetivos escusos e não-científicos. Entre esses aventureiros, alguns religiosos fanáticos e intolerantes procuram disseminar a confusão no seio da massa leiga, usando indevidamente o nome da Parapsicologia como suporte de seus absurdos ataques ao Espiritismo. Aproveitando-se da ingenuidade da maioria mal informada, lançaram mão de vulgares argumentações não científicas a favor de suas teses esdrúxulas. (Blacksmith, 1979c, p. 13)
Mesmo quando escreve assinando seu próprio nome, Andrade tenta claramente provar que o que diz tem fundamentos científicos e pode ser comprovado, utilizando, no entanto, palavras brandas, sem acusar diretamente ninguém que pense o contrário. Arma todo um discurso ao redor da Física e da Biologia, constrói aparelhos, é um operário do conhecimento. Diz não ser espírita, apesar de sua evidente crença nos espíritos. Talvez essa sua negação se deva a resquícios da época em que havia uma perseguição legal ao Espiritismo, momentos em que os espíritas se viram obrigados a dissimular seu interesse religioso e o fizeram sob a camuflagem da Pesquisa Psíquica, Metapsíquica ou Parapsicologia. A idéia de que se dizer espírita era assumir uma posição marginal na sociedade parece ter permanecido. Por isso, pode ser que, quando adotava pseudônimos, Andrade se sentisse mais à vontade para defender o Espiritismo abertamente. O fato de não se apresentar oficialmente como espírita emprestaria maior credibilidade às suas pesquisas, uma vez que isto supostamente não lhe daria um ar tendencioso. Desta forma, Andrade não desdiz o que os espíritas anunciam, apenas diz o mesmo, criando ou utilizando termos diferentes.
É possível notar traços iluministas no pensamento de Andrade e Quevedo. Se Andrade, por um lado, critica o fechamento da ciência de um modo geral às hipóteses - para não dizer certezas - espíritas, rejeitando uma das maiores conquistas da Parapsicologia que foi a filiação da Parapsychological Association à American Association for Advancement of Science (AAAS) desde 1969, por outro, faz questão absoluta de aplicar os mesmos métodos propostos pela comunidade científica internacional em seu trabalho e de negar seu lado espírita. Além disso, Andrade, especialmente ao assumir o pseudônimo Lawrence Blacksmith, tenta mostrar aos espíritas que a Parapsicologia é uma aliada do Espiritismo, e não uma inimiga como principalmente Quevedo e seus colaboradores pretendem demonstrar:
Embora tais tentativas de desmoralização do Espiritismo ainda que não tenham produzido o efeito colimado, elas geraram uma reação inesperada. Criaram imerecida aversão contra a Parapsicologia por parte de diversos líderes espíritas que se deixaram impressionar pelo abundante palavreado e pelas mágicas circences empregadas a título de “demonstrações científicas” das aulas proferidas por alguns daqueles sectaristas. A referida reação da parte de vários dirigentes espíritas tem prejudicado a necessária penetração da Parapsicologia no âmbito das elites kardecistas, impedindo que se aproveitem das pesquisas parapsicológicas no enriquecimento do seu patrimônio científico.
Antes de prosseguir, queremos alertar os espíritas ainda influenciados pela ridícula campanha atrás aludida, de que jamais a Parapsicologia foi, é ou será adversária do Espiritismo. Eles se complementam. Da sua conjugação surgirá um novo aspecto no conhecimento científico acerca da natureza do homem e do Universo, cuja grandiosidade e importância dificilmente poderão avaliar-se assim de momento. (Blacksmith, 1979c, p. 13 e 14)
Quevedo deixa explícito que seu trabalho em Parapsicologia é basicamente voltado à observação dos fatos e à pesquisa bibliográfica. Suas referências, no entanto, são praticamente todas anteriores ao início da década de 1970. Quevedo extrapola os resultados de pesquisas, apropriando-se de dados não conclusivos e adequando-os a suas intenções, utilizando-os como provas irrefutáveis .
O viés das interpretações que Andrade e Quevedo se mostra claro no modo como se referem a pesquisadores. Por exemplo, ao se referir a pesquisadores de casos Poltergeist , Andrade classifica as abordagens e propostas de Guy Lyon Playfair e a de Camille Flamarion como dualistas e conciliatórias, uma vez que ambos aceitam tanto a possibilidade de um evento parapsicológico ocorrer simplesmente pela ação do ser humano vivo, quanto pela intervenção de uma entidade incorpórea. As opiniões de Hereward Carrington, Nandor Fodor e William Roll, por sua vez, são interpretadas como reducionistas, pois defendem a idéia de que os fenômenos seriam provocados pelo próprio ser humano. (Andrade, 1988, pp. 12-18) Entretanto, Andrade busca nos escritos de “opositores” à hipótese espírita, algo que possa corroborar essa hipótese de alguma forma. Referindo-se à abordagem do pesquisador William Roll, por exemplo, Andrade diz:
O Dr. W.G. Roll é conhecido internacionalmente como uma autoridade em fenômenos de assombração e Poltergeist. Particularmente com relação ao Poltergeist, ele tem uma opinião predominantemente monista e reducionista, tendendo a atribuir ao epicentro a origem dos distúrbios. Entretanto, confessa-se acessível a admitir, em alguns casos, a intervenção de entidades incorpóreas. Vamos transcrever na íntegra esta opinião exarada na obra de sua autoria, The Poltergeist; New Jersey: New American Library, 1974. (Andrade, 1988, p. 19)
E Andrade transcreve o seguinte trecho, traduzido ao português:
Não sei de nenhuma evidência para a existência do Poltergeist como um agente incorpóreo, a não ser os próprios distúrbios, e estes podem ser mais simplesmente explicados como efeitos PK de uma entidade de corpo e alma que está em seu centro. Não é por isso, porém, que devemos fechar nossa mente à possibilidade de que alguns casos de RSPK possam ser devidos a entidades incorpóreas. Mas não há nenhuma razão para postular tal entidade quando os incidentes ocorrem ao redor de uma pessoa viva. É fácil supor que a pessoa central é ela mesma a fonte da energia PK . (Roll, 1974, p. 144, citado em Andrade, 1988, p. 19)
Como se pode notar, Roll não diz que admite a hipótese em alguns casos, mas sim, que não se pode fechar questão sobre uma ação unicamente humana apesar de as evidências já levantadas apontarem para isto. Dependendo de como se lê as palavras de Roll e as observações feitas por Andrade, estas podem ser interpretadas de formas diferentes. Há que se lembrar que, para Andrade, as características dos eventos Poltergeist descritos por testemunhas seriam mais do que evidências de que o fenômeno se daria por intermédio de agentes incorpóreos.
Um aspecto interessante do discurso de Quevedo são as palavras que utiliza ao se referir a pesquisadores quando os cita ou menciona. Durante a entrevista a mim concedida em 04/09/1996, por exemplo, refere-se aos ensinamentos espíritas como “erros de Kardec”. As palavras que Quevedo escolhe para compor seu discurso deixam explícita sua postura. Quando o pesquisador, segundo a interpretação de Quevedo, corrobora suas idéias, recebe adjetivos como: “o grande”, “o ilustríssimo”, “o celebérrimo” etc. Mas quando se refere a pesquisadores que têm tendências diferentes da sua, ainda que Quevedo esteja utilizando o nome de algum deles para corroborar sua idéia, estes podem receber algum adjetivo negativo ou ser alvo de alguma observação não elogiosa. O mesmo não acontece com Andrade, que nas conversas procurava sempre elogiar aqueles a quem se referia, compartilhassem ou não de suas opiniões.
Pode-se notar a diferença do tratamento dispensado por Quevedo aos pesquisadores a que se refere comparando-se a citação em que se refere Crawford e, logo a seguir, quando que ele fala sobre experimentos feitos por William Crookes com Daniel Dunglas Home, experimentos que, segundo Quevedo, corroborariam suas idéias “telérgicas”:
EXISTE A FORÇA! - Prescindindo agora dos efeitos mecânicos por ela realizados e que estudaremos ao longo do livro, a mesma força como tal foi comprovada, medida e verificada...
O Dr. Crawford foi muito discutido; realizou, porém, experiências de grande valor, como veremos.Com a senhorita Goligher agindo como médium, Crawford comprovou a força mecânica do ‘fluido': [Quevedo cita Crawford] ‘Eu havia construído um contato elétrico muito sensível... seria suficiente soprar fortemente sobre ele para fazer funcionar a campainha. Eu passava o aparelho aqui e ali, diante da médium, com o papelão paralelo a seu corpo e perpendicular a qualquer linha que dela emanasse.' Durante sessões em que a senhorita Goligher realizava telecinesias de uma mesa (movimento à distância, que estudaremos), quando Crawford interpunha o aparelho entre a dotada e a mesa, a campainha tocava e a mesa imobilizava.
UM SÁBIO COMPROVA -- O celebérrimo sábio Dr. William Crookes, em condições magníficas de experimentação, [trabalhando com D.D. Home, talvez o mais notável dos dotados na história da investigação parapsicológica, comprovou e até tratou de medir a força mecânica exercida pelo fluido em determinadas ocasiões (pois a força pode oscilar muitíssimo, segundo os diversos dotados e ocasiões). (Quevedo, 1983, p. 37 e 38)
É notável, a diferença de tratamento dado a Crawford e Crookes. Parece que Quevedo apenas utilizou o exemplo de Crawford para demonstrar que nas sessões espíritas a telergia supostamente está presente, mas quem vem confirmar mesmo essa hipótese, segundo ele, é Crookes, “o sábio”, “o celebérrimo”, que não realizou suas pesquisas em sessões espíritas, mas sim, sob “condições magníficas de experimentação” e não com qualquer um, mas com, talvez, “o mais notável dos dotados”, D.D.Home, que, até onde se sabe, nunca foi flagrado em fraude. O fato de Crawford ter feito experimentos sobre um certo tipo de força e esses experimentos terem correspondido às suas hipóteses, não significa que a força detectada por ele tenha necessariamente a ver com a telergia postulada por Quevedo, o mesmo acontecendo com Crookes.
Quevedo foi criticado pelo psicólogo porto-riquenho Alfonso Martínez Taboas em um artigo publicado, entre outros meios, pela Revista Brasileira de Parapsicologia (1993). Nesse artigo, Taboas afirma que não se pode negar que os livros e artigos de Quevedo citem, como referência, grande quantidade de obras clássicas, porém,
...se fazemos uma revisão crítica e detida em seus [de Quevedo] argumentos e documentação, nos defrontaremos com algo que nos causa estranheza. O que pareciam ser citações fidedignas de documentos, em ocasiões não infreqüentes, são distorções dos originais; seus raciocínios se debilitam consideravelmente ao nos depararmos com a sutileza com que usa diversas falácias; o que parecia ser uma conclusão irrefutável, ao tratar-se de verificá-las nos documentos citados, mostrou-se insustentável, devido ao manejo de documentos. (Taboas, 1993, p. 20)
Taboas diz ter fichado, apenas em As Forças Físicas da Mente (1983b), mais de setenta manipulações de evidências ou erros, subdividindo-os em contradições, omissões, distorções, erros e dogmatismo. Afirma que a “Parapsicologia quevediana” está claramente comprometida com a doutrina católica. Por isso, no dizer de Taboas (1993, p. 24), Quevedo pode ser considerado um autor proselitista que deseja impulsionar de maneira desmedida sua ideologia católica , comparado-o a Sir Arthur Conan Doyle, que apresentava comportamento semelhante, porém tendencioso ao Espiritismo. Nas palavras de Taboas:
Gonzales Quevedo, ao esboçar sua teoria da ectoplasmia, alega que essa misteriosa e controversa substância chamada ectoplasma, o máximo que pode conseguir é formar membros ou figuras ‘rudimentares' e ‘imperfeitas'.
Sobre o médium [de efeitos físicos] D.D. Home, diz o Pe. Quevedo que ‘jamais se lhe poderia imputar um truque. E é sintomático que as ectoplasmias do bem dotado Home sempre tenham sido rudimentares.' Quevedo passa a fundamentar sua asserção citando extensamente a Sir William Crookes [1874, p. 281], onde parece demonstrar que as mãos que costumavam se apresentar em suas sessões eram vagas e pouco precisas.
No entanto, é inquietante pensar porque o Pe. Quevedo não transcreveu o parágrafo seguinte do testemunho de Crookes, que é de sumo interesse e importância para fundamentar ou rejeitar sua teoria. Diz Crookes: “Ao toque, a mão, às vezes, parece fria como o gelo e como morta; em outras ocasiões, sensível e animada, e aperta minha mão com uma pressão firme, da mesma forma como faria um velho amigo.” (Taboas, 1993, p. 21)
Outros autores também já chamaram a atenção para a postura dogmática de Quevedo, como o antropólogo americano David Hess e o psicólogo mexicano Sérgio Rueda:
Oscar Gonzales Quevedo reinterpretou a Parapsicologia dos Estados Unidos e da Europa à luz da doutrina da Igreja Católica... para obstaculizar as bases científicas do Espiritismo, a Umbanda e as religiões afro-brasileiras. (Hess, 1987b, p. 26)
... [Quevedo] tem usado a Parapsicologia como uma arma ideológica em uma briga para marcar sua perspectiva conceitual particular... De fato, para atingir suas metas, o Pe. Quevedo tem distorcido a Parapsicologia em seus livros, querendo, a maior parte do tempo, acomodar dogmas católicos à sua conveniência. (Rueda, 1991, p. 183)
Um flagrante, que não pode deixar de ser citado, é a afirmação de Quevedo sobre a posição contrária de William Roll em relação à realização de pesquisas experimentais, o que não corresponde à prática de pesquisa de Roll. Entre essas e tantas outras situações, pode-se dizer que o controle de Quevedo sobre as informações transmitidas também está presente na sua preocupação em não permitir livre acesso a todos os livros de sua vasta biblioteca, que preserva seções permitidas apenas a certas pessoas.
Quando recebe críticas, Quevedo por vezes as ignora. Ao ser convidado a responder às críticas de Taboas (1993) publicadas na Revista Brasileira de Parapsicologia, Quevedo disse não ter nenhum interesse em fazê-lo, pois, segundo ele, qualquer pessoa inteligente veria que aquilo não tinha o menor fundamento. Além disso, ele afirma que há quarenta anos mantém as mesmas idéias e não pretende mudá-las.
Andrade, por sua vez, dizia adotar a política de não debater. Como ele disse na entrevista realizada em 1996: “Cada um tem o direito de sair com o seu nariz, mas não pode esmurrar o nariz das pessoas que não têm um nariz igual ao seu”. Porém, classificava a abordagem dos pesquisadores da comunidade internacional que realizam pesquisas de laboratório e de campo como reducionistas e materialistas devido ao fato de não atestarem a existência dos espíritos ou do ectossoma, como ele propõe. A comunidade parapsicológica internacional discute temas como as alegações de ação dos espíritos e da sobrevivência após a morte, porém, não há uma posição tomada em consenso que rejeite ou aceite, a priori, tais hipóteses. Elas estão sendo investigadas, e julga-se ainda prematuro assumir uma determinada posição quanto a elas no momento. As evidências, entretanto, são favoráveis à hipótese da ação dos seres vivos.
Os latino-americanos e ibéricos, de forma geral, não são abertos a críticas, talvez porque elas soem como um ataque a quem está sendo criticado. No entanto, saber criticar é saber avaliar da forma mais neutra possível alguma questão, apontando aspectos dignos de nota, sejam eles positivos ou negativos. Os latino-americanos e ibéricos, talvez por uma questão cultural, geralmente não sabem receber críticas como também não sabem criticar. Isto se reflete no comportamento de Quevedo e Andrade. Por questões políticas, provavelmente, elogiam os trabalhos um do outro, mas não deixam de criticar negativamente o “adversário”: sempre se consideraram reciprocamente tendenciosos e fanáticos.
As atitudes de Quevedo e Andrade descritas neste artigo são o principal motivo de seu afastamento da Parapsicologia secular. Seus conceitos de Parapsicologia e seus anseios em relação a ela não correspondem ao que ela realmente é. A Parapsicologia ou Pesquisa Psi, na verdade, prima pela investigação científica de experiências humanas aparentemente anômalas, que desafiariam as leis científicas estabelecidas. A busca de respostas por meios científicos de investigação exige um abrir-se às experiências e, cumprindo os protocolos de pesquisa, tentar compreendê-las. Como bem diz Marilena Chauí:
A obscuridade de uma experiência nada mais é senão seu caráter necessariamente indeterminado e o saber nada mais é senão o trabalho para determinar essa indeterminação, isto é, para torná-la inteligível. Só há saber quando a reflexão aceita o risco da indeterminação que a faz nascer, quando aceita o risco de não contar com garantias prévias e exteriores à própria experiência e à própria reflexão que a trabalha. (Chaui, 1990, p. 5)
Os discursos e táticas de Andrade e Quevedo são claramente escolhidos de acordo com seus motivos pessoais. A questão importante é: por que escolheram um discurso pretensamente científico como arma de ataque ou de defesa? E por que escolheram a Parapsicologia como um dos instrumentos para realizar tal empresa? O fato é que, em se tratando da escolha de uma arma, teriam que optar por algo que fosse consistente, forte e convincente. A Filosofia, por exemplo, lida com idéias, que são facilmente discutíveis, não são palpáveis, por isso não serviria a esses propósitos. Mas a Ciência lida com fatos, pesquisas, resultados e demonstração de evidências, portanto tem um caráter mais definitivo, ainda que hoje a tendência científica seja de não fechar questão sobre nada, e sim considerar demonstrações que podem ser refutadas por pesquisas futuras. A Parapsicologia foi, provavelmente, a escolhida como arma porque seu objeto de estudo faz fronteira com as crenças religiosas da sobrevivência à morte. Assim, não respeitando os limites próprios da ciência, adotou-se a Parapsicologia com a finalidade de confirmar a existência da alma, do espírito ou do sobrenatural, na tentativa de impor idéias e conceitos.
À luz do que foi aqui exposto, fica evidente a utilização da Parapsicologia para a defesa da fé católica e da fé espírita no Brasil. Como já foi dito, isto contribuiu e ainda contribui em muito para a geração de preconceitos em relação à Pesquisa Psi propriamente dita. Esse cenário está começando a mudar graças ao esforço de pessoas comprometidas seriamente com a pesquisa científica de psi. Trabalhos acadêmicos têm sido realizados e há um grande empenho para a divulgação e atualização de informações sobre pesquisas e seus resultados. Um futuro mais promissor parece estar se desenhando para a Pesquisa Psi em terras brasileiras, muito além da cruz e da mesa branca.
Saiba Mais :
Taboas. A-M. (1993). Uma Revisão Crítica dos Livros do Padre Quevedo. Revista Brasileira de Parapsicologia. nº 2. (pp. 06-14)
http://www.pesquisapsi.com/content/view/2265/142/
Referências bibliográficas
ABREU, C. (1950) Adolpho Bezerra de Menezes . São Paulo: Livraria Allan Kardec.
ACQUARONE, F. (1982) Bezerra de Menezes: O médico dos Pobres . São Paulo: Aliança.
AMORIM, D. (1949) Africanismo e Espiritismo . Rio de Janeiro: Gráfico Mundo Espírita. (Publicado originalmente em 1946)
_____. (1955) O Espiritismo à Luz da Crítica . Curi