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Machado, Fátima Regina. (2003). A AÇÃO DOS SIGNOS NOS POLTERGEISTS- Estudo do processo de comunicação dos fenômenos poltergeist a partir de seus relatos. São Paulo, 305p. Tese (Doutorado). Programa de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Abstract
Esta tese tem como objetivo principal apresentar um estudo
empírico dos chamados fenômenos poltergeist por
meio de sua análise semiótica. Com este estudo
pretende-se contribuir para esclarecer a função
comunicacional e o significado dos referidos fenômenos. Este
trabalho vem ajudar a diminuir, pelo menos em certa medida, uma das
mais importantes lacunas apontadas nas pesquisas dos
poltergeists: a falta de embasamento empírico para sua
interpretação.
Como hipótese central de trabalho considera-se que os
eventos poltergeists sejam formas de expressão de
conteúdos psíquicos censurados ou reprimidos,
independentemente da força ou do modo como esses
conteúdos se "traduzem" em eventos físicos. Portanto,
leva-se em conta a realidade experiencial dos poltergeists.
Desta forma, eventos poltergeist fraudulentos e
genuínos (aqueles em que parece ter ocorrido uma
interação anômala entre o ser humano e o ambiente)
são igualmente considerados.
Selecionou-se um corpus de análise composto por
vinte e cinco casos poltergeist coletados: por meio de
entrevistas com pesquisadores(as) e pessoas que foram "personagens"
desses casos cujo testemunho fosse corroborado por outras
testemunhas; relatórios de pesquisa de casos investigados pela
autora; e relatos publicados na literatura especializada entre 1950
e 2000. Para serem selecionados, os relatos deveriam conter: o
contexto das ocorrências; a descrição do ambiente
psicológico e das reações do grupo aos eventos
poltergeist; o desfecho do caso.
A primeira parte deste estudo foi inspirada nos procedimentos de
análise utilizados por Vladimir Propp para detectar as
funções constantes (ações que movimentam a
narrativa) dos contos maravilhosos russos. A detecção dos
elementos constitutivos ou funções de cada caso
poltergeist e da rede de conexões que se estabelece
entre esses elementos indica que a função das
ocorrências poltergeist consiste simultaneamente na
expressão dos sentimentos provocados por problemas pessoais
vividos pelo(a) agente e na busca de sua solução para
esses problemas - o que implica na realização de
desejos.
Na segunda parte, utiliza-se a Teoria Geral dos Signos proposta
por Charles Sanders Peirce para a análise das ocorrências
poltergeist. A análise semiótica demonstra a
conectividade entre os diferentes ocorrências relatadas e os
desejos e angústias dos(as) protagonistas dos casos que
são dados a conhecer pelo contexto. Essas ocorrências
são signos complexos que sugerem, indicam ou representam
conteúdos psíquicos do(a) protagonista em diferentes
medidas. Verifica-se que esses signos, ao mesmo tempo que indicam
ou representam seu objeto dinâmico (aquilo a que se referem),
camuflam-no, sugerindo ao grupo ou ao próprio(a) agente que se
referem de algo absolutamente desconectado daquilo que ele(a) sente
ou vive, ou de suas possibilidades de realização, o que
é respaldado por regras interpretativas baseadas em
explicações religiosas, por exemplo. Apesar da
contribuição dos aspectos icônicos para esse desvio
de atenção do objeto dinâmico, os aspectos indiciais
das ocorrências permitem perceber a correlação entre
elas e os conteúdos mentais do sujeito. Além disso, sua
repetição evidencia seu caráter de lei.
Independentemente das interpretações dadas às
ocorrências ou das intervenções de pessoas externas
ao grupo, os eventos poltergeist, genuínos ou
fraudulentos, cumprem sua função. A cessação
das ocorrências se dá pela realização dos
desejos que a motivaram ou quando os conteúdos mentais podem
ser expressos verbalmente. Conclui-se que os eventos
poltergeist seriam uma forma alternativa ou anômala (no
caso dos eventos genuínos) de expressão ou
comunicação de sentimentos e necessidades em determinadas
circunstâncias em que esta é censurada ou
reprimida.
A demonstração de que fraudes - conscientes ou
inconscientes - cumprem essencialmente a mesma função e
agem signicamente da mesma forma que eventos poltergeist
genuínos demonstra que elas podem auxiliar nos estudos dos
poltergeists, não devendo ser desprezadas pelos(as)
pesquisadores(as) como em geral é feito. O fato de os
resultados obtidos corroborarem a hipótese de que
ocorrências poltergeist fraudulentas ou genuínas
seriam formas de expressão de conteúdos psíquicos
censurados ou reprimidos não significa que se possa afirmar
com segurança que o(a) chamado(a) "protagonista" dos casos
seria responsável pela força que "movimenta" os eventos
poltergeist alegadamente genuínos e nem responde por
que não ocorrem eventos poltergeist sempre que a
expressão de sentimentos e necessidades humanas são
censuradas ou reprimidas Estas questões continuam carecendo de
mais pesquisas.
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