Péricles Moraes Inter Psi / CENEP / COS / PUC-SP
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Resumo
Apresentamos os elementos básicos e características da Pesquisa Psi, objeções
à sua consideração como ciência e posicionamento dos pesquisadores. São
descritas as bases do pensamento científico clássico e como se processam as
revoluções científicas. Finalmente, são verificadas as conseqüências nas
Pesquisas Psi.
Introdução
Ao longo de toda a história da humanidade sempre foram encontradas descrições
de fenômenos anômalos, fora do comum e aparentemente não explicáveis pela
ciência estabelecida. O questionamento que dá nome a este trabalho tem por
objetivo verificar se os critérios adotados em Pesquisa Psi estão amparados pela
ciência. Em outras palavras, se Pesquisa Psi é Ciência?
Definições e classificação
Embora não seja escopo deste trabalho a apresentação de definições exatas e
classificações exaustivas do conjunto de fenômenos abrangidos pela Pesquisa Psi,
apresentamos a seguir, apenas com o objetivo de orientação, uma singela
definição e classificação dos fenômenos Psi.
A Pesquisa Psi estuda as interações aparentemente extra-sensório-motoras
entre seres humanos e entre seres humanos e o meio ambiente. Essas interações
são aqui tratadas por fenômenos Psi.
Conseqüentemente, não estão inclusas outras análises tais como, ufologia,
quiromancia ou estudos sobre pirâmides.
De uma forma geral os fenômenos Psi podem ser classificados, quanto à forma
de apresentação, em extra-sensoriais e psicocinéticos. Os extra-sensoriais,
identificados pela sigla ESP (extrasensory perception) são os fenômenos
que envolvem conhecimento. Podem ainda classificados quanto ao tipo, em
telepatia, quando fonte e receptor forem seres humanos e em clarividência,
quando a fonte é o meio ambiente. Quanto ao tempo, esses fenômenos podem ser
classificados em retrocognição, simulcognição e precognição, quando estiverem
relacionados, respectivamente, ao passado, ao presente e ao futuro. Os fenômenos
psicocinéticos, identificados por PK (psychokinesis) são caracterizados pela
ação sobre o meio ambiente. Quando esta ação for diretamente observável será
dita macro-PK, e quando microscópica, micro-PK.
Objeções à consideração da Pesquisa Psi como ciência
A primeira objeção clássica é obtida a partir da própria definição de Psi.
Esta indica o estudo de fenômenos aparentemente extra-sensório-motores. A
definição não apresenta exatamente o que Psi estuda, mas o que aparenta ser.
Como estudar algo que não se sabe o que é?
Outras objeções podem ser apontadas.
- As evidências de ocorrência destes fenômenos são suficientes para se
constituir uma ciência?
- Estas evidências respeitam os parâmetros e critérios utilizados nas
diversas ciências?
- Se não se sabe exatamente o que se está estudando, porque e como
constituir uma ciência para investigar o assunto?
Resposta dos pesquisadores psi
O primeiro passo em uma análise de fenômenos Psi é determinar se o processo é
extra-sensório-motor. A inclusão do aparentemente na definição de Psi,
deve-se a necessidade de que não seja feito pré julgamento, ou seja, todos os
aparentes fenômenos devem ser analisados, sejam eles verdadeiros ou não. Sempre
se deve ter em mente a possibilidade de fraude, voluntária ou involuntária.
Se as pesquisas evidenciam a ocorrência de interações extra-sensório-motoras,
por que não investigá-las cientificamente?
Bases do pensamento científico
Para verificarmos a cientificidade da Pesquisa Psi, vamos apontar as bases
nas quais o pensamento científico desenvolveu-se.
Ciência significa conhecimento, saber, informação. Pode também ser definida
como o conhecimento exato e racional de coisa determinada. E em que está baseado
o pensamento científico? Nas premissas newtoniano-cartesianas.
Isaac Newton afirma que tudo no universo é composto por partículas materiais
indivisíveis e regidas por leis precisas. E ainda que o tempo é
independente do mundo material. René Descartes instaura a premissa da
objetividade, da autonomia entre o observador e a realidade. Em conseqüência, a
reprodução experimental tornou-se um importante instrumento de compreensão da
natureza e um valioso parâmetro para se verificar a cientificidade de uma
disciplina.
Já no séc. XVII, a observação seria considerada uma espécie de espelhamento
da realidade e um método eficaz e suficiente para apreender a realidade como ela
é. A matéria teria qualidades primárias e qualidades secundárias, quer estas
fossem, respectivamente, diretamente mensuráveis ou percebidas pela mente.
Com base nas premissas apontadas desenvolveu-se o pensamento científico
moderno que em resumo tem as seguintes características.
- Dicotomia entre o sujeito e o objeto.
- Distinção entre qualidades mensuráveis e não mensuráveis.
- A observação como espelhamento da realidade.
- Leis determinísticas absolutas, baseadas no atomismo e ratificadas pela
replicação.
- Tempo absoluto independente do mundo material.
Estas características estão presentes nas ciências modernas e com base nestes
conceitos estão formados os cientistas das diversas áreas.
Características da Pesquisa Psi
Com base nas diretrizes do pensamento científico moderno, são as seguintes as
características da Pesquisa Psi.
- Estuda experiências humanas, não diretamente observáveis.
- Os fenômenos são subjetivos e não permitem medição.
- Implicam na interação entre mentes e entre mente e matéria.
- Não respeitam a independência espaço/tempo e a continuidade do fluxo de
tempo, do passado para o futuro.
- Não podem ser reproduzidos.
Observamos que todas as características estão fora do escopo abrangido pelo
pensamento científico clássico e nestas condições os fenômenos não poderiam ser
estudados cientificamente.
De qualquer forma, consideramos que a Pesquisa Psi nasceu formalmente com a
fundação em Londres da SPR - Society for Psychical Research, em 1882.
Esta era formada por renomados cientistas da época e teve por objeto o estudo,
em bases científicas, dos alegados fenômenos inexplicáveis na ótica da ciência
constituída.
Aqui podemos nos perguntar, até que ponto os conceitos científicos e em
conseqüência, as concepções científicas dos cientistas devem ser mantidas
imutáveis? Não estariam estas concepções impermeáveis à consideração de novas
condicionantes? Ou simplesmente deveríamos ignorar o extenso rol de fenômenos
Psi registrados, porque com base na ciência clássica não poderiam existir?
A evolução das bases da ciência
O físico e filósofo Thomas Kuhn, em seu livro A Estrutura das Revoluções
Científicas (1962), nos indica a solução para as questões acima.
Segundo Kuhn, para um dado estágio de evolução científica, tem-se os
fenômenos considerados normais e com base nestes estão formadas as teorias
científicas. Quando ocorre alguma anomalia, ou seja, fenômeno para o qual
não há teoria científica aceita, a ciência, dita, normal, rejeita as anomalias
como legítimas. Com a presença contínua das anomalias, as teorias vigentes
sofrem certa transformação ou acomodação para justificá-las. Com a identificação
de novas anomalias, as teorias vigentes tornam-se insustentáveis e forçosamente
novas teorias surgem, em um processo identificado como revolução científica,
onde estas novas teorias permitem a eclosão de ciências emergentes.
No que diz respeito ao princípio da observação como um perfeito espelhamento
da realidade, ainda no séc. XVIII o filósofo Immanuel Kant questionou-o. Para
Kant a mente (observador) está sempre ativa e influencia o que percebemos.
Ainda contrariando a visão clássica da ciência, as teorias de Mecânica
Quântica de Max Planck e Geral da Relatividade de Albert Einstein,
revolucionaram, conforme definido por Kuhn, os conceitos de atomismo e de
independência tempo/espaço/matéria.
Estes conceitos demonstram que embora as ciências constituídas possuam uma
inércia natural e protetora contra novas teorias, somente o estudo e a pesquisa
adequados permitiram a evolução do conhecimento.
Conclusões
A visão que normalmente temos de ciência, cientistas e leigos, utilizou como
base o desenvolvimento da Física Clássica.
A Física Moderna introduziu conceitos de relatividade entre tempo e espaço e
da consciência como fator na observação.
Análises e métodos, matemáticos e laboratoriais, com todo o rigor da ciência
clássica são modernamente utilizados nos desenvolvimentos de Pesquisa Psi.
Entretanto, estas alterações não foram suficientes para que muitos cientistas
aceitassem os fenômenos anômalos estudados pela Pesquisa Psi. Segundo o
sociólogo James McClenon esta rejeição está baseada em fatores sociais,
culturais e políticos e não efetivamente em elementos técnico-científicos.
Finalmente cumpre ressaltar que a PA (Parapsychological Association),
associação estadunidense de Pesquisa Psi, foi admitida em 1969 membro da AAAS
(American Association for Advancement of Science), o que demonstra de
forma inequívoca a aceitação pelo meio científico internacional da Pesquisa Psi
como Ciência. |