Weber Dalla Vecchia Inter Psi / CENEP / COS /
PUC-SP
weberdv@uol.com.br
Muito longe de esgotar o tema, o pretendido neste artigo é abordar alguns
aspectos relacionados às controvérsias suscitadas pela alegação da existência de
uma classe de fenômenos - os ditos parapsicológicos ou psi - que escapam aos
paradigmas científicos atuais, e que, por isto mesmo, são chamados de
anômalos.
O modo de pensar crítico deveria ser aplicado para qualquer alegação. O
cientista tem mesmo de ser cético, pois se qualquer alegação fosse aceita sem
critérios, a ciência perderia muito em eficácia, e, conseqüentemente, em
credibilidade. O ceticismo força o uso de métodos experimentais apurados, e
portanto a utilização e produção de medidas mais corretas e de idéias mais
elaboradas e consistentes. Um pouco de senso crítico aplicado em muitas
alegações New Age, revela porque muitos têm dúvidas sobre a realidade dos
fenômenos parapsicológicos. Há mesmo muita confusão com argumentos usados por
entusiastas não críticos da existência de psi.
Algumas análises críticas de pesquisas parapsicológicas foram muito
construtivas. Os antigos experimentos de telepatia originaram as atuais técnicas
de Ganzfeld, que continuam sendo aperfeiçoadas; e os experimentos com dados
cederam lugar aos Geradores de Números Aleatórios (RNG); apenas para citar dois
exemplos.
O ceticismo exacerbado, porém, também é um problema, pois é preconceituoso e
não aplica a crítica em suas afirmações. Muitos argumentos estereotipados e
simplistas são usados para negar psi. Contudo, os mesmos ficam bem enfraquecidos
após uma análise mais apurada.
Os fenômenos parapsicológicos são tachados de crenças populares ilógicas e
primitivas, e a pesquisa dos mesmos é menosprezada como ocultismo em roupagem
pseudocientífica, sendo acusada de possuir apenas uma fachada de metodologia
científica.
As críticas à pesquisa psi, de que é uma pseudociência, têm dificultado muito
seu desenvolvimento, gerando falta de interesse e preconceito de cientistas
sérios, o que acarreta falta de verbas e escassez de programas.
Ironicamente, os mesmos céticos que tentam bloquear a pesquisa psi através de
argumentos retóricos de que é ridícula, também são os responsáveis por perpetuar
os muitos mitos populares associados aos fenômenos psi. Muitos cientistas
sérios, temendo por suas reputações, têm prevenção em investigar as alegações
psi, e os céticos extremos são especializados em criticismo, e não conduzem
pesquisas. Como os crentes extremos não estão interessados em conduzir estudos
científicos rigorosos, poucos sobram, então, para conduzir as investigações.
Um exemplo de atitude inflexível contra a pesquisa dos fenômenos psi, é a
adotada pelo grupo americano CSICOP (Comitê Para Investigação Científica de
Alegações de Paranormalidade), que reúne cientistas e outras pessoas, cujos
propósitos originais, eram examinar objetivamente os indícios de fenômenos
paranormais. Seu periódico, o "Skeptical Inquirer", tem artigos que mesclam
pesquisa parapsicológica com assuntos como tarô, astrologia, abominável homem
das neves, vampiros, OVNIs, bruxaria, poder das pirâmides; o que contribui para
a impressão de que este não é um ramo de pesquisa que é conduzido muito
seriamente.
Uma crítica freqüentemente aduzida para explicar os resultados da pesquisa
psi, é que os resultados positivos foram obtidos devido a fraudes. Ora, este
ramo da ciência, assim como todos os outros, não está imune à ocorrência de
certos atos desonestos. Comparando a parapsicologia com a psicologia, contudo,
pode-se dizer que há um modo diferenciado de reação frente às fraudes. Na
pesquisa psi, quando identificado um caso, os próprios parapsicólogos o divulgam
no intento de mostrar a seriedade do seu campo de estudo, uma vez que já sofre
preconceito por parte de outros cientistas. Também são grandes os esforços no
sentido de reproduzir os resultados experimentais, o que pode auxiliar na
identificação de práticas fraudulentas. Na psicologia, o interesse na reprodução
dos experimentos é bem menor, sendo que, se os dados são teorica e
intuitivamente plausíveis, normalmente não há a preocupação em se fazer simples
duplicações.
Outros ataques visam uma suposta incompetência dos pesquisadores psi em
conduzir experimentos bem feitos, dizendo que os resultados favoráveis se devem
a falhas metodológicas, relatórios seletivos e tratamentos estatísticos
deficientes. Tais argumentos têm sido refutados já há muito. Pesquisa realizada
por especialistas em metodologia científica da Universidade de Harvard, apontou
que a investigação experimental psi tem sido conduzida segundo padrões
científicos apropriados, não raro se mantendo fiel a protocolos mais rigorosos
que os encontrados atualmente nas pesquisas físicas e sociais.
Alguns céticos chegam a dizer até, que quando houver o "experimento
perfeito", o fenômeno psi desaparecerá, não levando em conta o fato de que eles
têm sido convidados a participar de muitos experimentos, tanto no planejamento,
como condução e análise de resultados. Por que não sugeririam o "perfeito
experimento" e não o realizariam ou dele participariam, os auto intitulados
céticos? Deveriam, pelo menos, especificar as condições sob as quais a pesquisa
poderia refutar as críticas.
"As Leis da Natureza seriam violadas por psi", é outro argumento brandido
pelos céticos. Contra o mesmo, basta lembrar que as "leis da natureza" não são
fixas, e sim idéias bem estabelecidas sempre sujeitas a expansão e refinamento,
de acordo com evidências provenientes de novas observações.
Outras críticas dizem que não há teorias de psi. Isto não é verdade; há, sim,
muitas teorias que tentam explicar psi, o que não quer dizer que elas o façam
satisfatoriamente de modo global. Porém, a falta de teorias completas eficazes
sobre psi, não implica que esses fenômenos não existam. Aliás, a maioria dos
parapsicólogos não alegam entender o que psi é. Eles projetam experimentos
tentando obter efeitos semelhantes aos expontâneos.
Infelizmente, não há uma regularidade das críticas às diferentes disciplinas.
Aquelas bem aceitas pela maioria dos integrantes da comunidade científica, são
tratadas mais benevolentemente pelos céticos. Por exemplo, os céticos não
questionam a psicologia, mesmo que esta ainda não consiga explicar bem processos
elementares como a consciência.
Também é inválido como crítica enfocar o fato de que muitos fenômenos que
antes pensávamos ser paranormais terem hoje explicações normais. Ora, este é o
objetivo da ciência: a explicação do mundo a nossa volta; sendo que ela deve
tentar entender também aqueles fenômenos que em determinada ocasião configurem
anomalias.
A suposta falta de replicabilidade dos experimentos é muitas vezes apontada
nas críticas. Ao contrário de muitos experimentos em física e química onde
poucas variáveis significativas estão envolvidas e podem facilmente ser feitos
por qualquer pessoa, os fenômenos psi, assim como os sociais e psicológicos,
envolvem mutíssimas e complexas variáveis muito difíceis ou impossíveis de serem
diretamente controladas. No caso de psi, são usados argumentos estatísticos para
demonstrar a "replicabilidade". O fato de não se conseguir provocar um fenômeno
no momento desejado, não quer dizer que o mesmo não exista. Para avaliar a
replicabilidade em psi, usa-se uma técnica que é muito aplicada em ciências
médicas, comportamentais e sociais para integrar os dados de numerosos
resultados independentes. É a chamada meta-análise. A mesma, em psi, tem
mostrado que os resultados esperados pelo acaso são grandemente superados.
A própria meta-análise tem sido objeto de críticas na pesquisa psi, porém. em
muitas delas os resultados criticados foram removidos, e as freqüências
continuaram as mesmas.
Outra crítica que se faz, é que enquanto outras ciências vão se construindo
sobre seus dados prévios, na parapsicologia a base de dados é quase sempre
descartada. O que não é verdade. Os experimentos se sofisticam, o que não quer
dizer que os resultados anteriormente obtidos percam valor.
Uma outra tentativa de desvalorizar as evidências, é falar que os efeitos psi
são muito fracos e desinteressantes. Certamente essa é uma avaliação que carrega
grande subjetividade. Todavia, serem "fracos e desinteressantes" não
significa que não existam. A hoje tão útil e comum eletricidade, cento e
cinqüenta anos atrás não servia para nada.
Embora os céticos freqüentemente falem das hipóteses alternativas plausíveis,
eles quase nunca testam suas idéias.
De qualquer forma, durante muitas décadas, a afirmação padrão cética foi que
psi era impossível porque violava algumas mal especificadas leis físicas, ou
porque o efeito não era repetível. Também era fácil de alegar que qualquer
experimento bem sucedido era devido ao acaso ou fraude. Atualmente, muitos
céticos bem informados sabem que os resultados são bem maiores que o esperado
pelo acaso. O foco mudou da existência de efeitos interessantes para suas
apropriadas interpretações. Muitos céticos, agora, admitem que os experimentos
psi demonstram algo, mas não admitem a possibilidade de
psi.
A ciência, sendo uma construção do ser humano, tem seus substratos
psicológicos e sociológicos. A retórica ofensiva e os ataques pessoais são
freqüentes nas discussões sobre psi, e o próprio modo como a ciência trata as
anomalias em geral, serve para mostrar o lado humano do funcionamento da
mesma.
A despeito dos parapsicólogos deplorarem esses artifícios de retórica, assim
é que uma controvérsia científica é disputada. Não é tanto a lógica do caso que
determina o desfecho, mas sim a habilidade retórica dos que advogam para cada um
dos lados.
Se de um modo algumas análises céticas de pesquisas parapsicológicas
demonstraram-se muito construtivas, de outro, as reações do establishment
científico à parapsicologia tendem a ir mais além, ao se utilizar de críticas
para mantê-la com o status marginal e negar a ela os privilégios de uma
disciplina científica. Certas atitudes céticas criam e mantém um limite cultural
entre a parapsicologia e o restante das ciências.
A ciência, de uma forma geral, teria a ganhar se o ardor missionário de
muitos céticos fosse exercido mais construtivamente, com mais propostas e
trabalho, além das críticas.
Referências
FREIRE-MAIA, N. (1991). A Ciência Por Dentro. Petrópolis : Editora
Vozes
IRWIN, H. J. (1994). An Introduction to Parapsycology. Jefferson:
McFarland
RADIN, D.I. (1997). The Conscious Universe. San Francisco : Harper
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