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Breve introdução aos conceitos de Poltergeist e Haunting PDF Print E-mail
sexta, 10 setembro 2004
Profa. Dra. Fátima Regina Machado
 

Inter Psi - CENEP - COS - PUC/SP
Faculdade de Comunicação e Filosofia - PUC/SP
Instituto de Psicologia - USP
fatimaregina@pesquisapsi.com

hautingPoltergeist, do alemão polter = barulhento e geist = espírito ("espírito barulhento") era o termo utilizado por Martinho Lutero durante a Reforma Protestante para designar e, ao mesmo tempo, explicar determinados eventos que, segundo acreditava-se religiosa e popularmente - e ainda acredita-se - seriam provocados por espíritos desencarnados ou até mesmo por demônios. (Roll, 1977: 382) Assim, apesar de geist também significar "mente" ou "espírito" no sentido filosófico, popularizou-se a tradução com conotação sobrenaturalista. O termo Poltergeist foi reintroduzido na Inglaterra pela escritora inglesa Catherine Crowe, com a publicação de sua obra clássica The Nightside of Nature, em 1848, e passou a ter uso corrente dentre os(as) pesquisadores(as) psíquicos(as) no final do século XIX, quando o termo foi popularizado pelo pesquisador Frank Podmore. (Goss, 1979: ix) Ironicamente, Podmore divulgou o uso termo Poltergeist por meio de seus trabalhos a respeito do assunto, nos quais deixava claro que não acreditava que esses eventos fossem sobrenaturais ou de origem extra-motora, mas sim frutos de fraudes, erros de interpretação ou alucinações. (Podmore, 1896a, 1986b)

Segundo as investigações realizadas, os eventos Poltergeist se correlacionam com o contexto grupal e ambiental em que ocorrem, ligando-se principalmente a uma determinada pessoa, à qual chamo de "protagonista" do caso. Essa denominação é mais "amena", se a compararmos com os termos "endemoniado", "possuído", "epicentro" e "agente" utilizados comumente para referir-se ao personagem central de casos Poltergeist. Esses casos caracterizam-se principalmente por ocorrências físicas, tais como: movimentação e/ou ruptura de objetos; chuva de pedras ou tijolos sobre uma casa ou em um determinado ambiente fechado; aparecimento espontâneo de água e/ou fogo; aparecimento de dejetos nos alimentos; correntes de ar; acender e apagar de luzes, tudo isto de forma misteriosa aos olhos do observador, ou seja, sem que, à primeira vista, tenha havido alguma causa natural ou conhecida para que esses eventos acontecessem. (Carrington & Fodor, 1953; Gauld & Cornell, 1979; Goss, 1979; Michelet, 1994)

Cada grupo social/cultural pode utilizar denominações e explicações populares e particulares para esses eventos. No Brasil, por exemplo, os locais que servem de cenários para os casos Poltergeist são comumente chamados de "casas mal-assombradas". Principalmente na zona rural, essas ocorrências podem ser atribuídas a figuras folclóricas. É comum atribuir ocorrências de tipo Poltergeist à ação principalmente do Saci-Pererê, um tipo de duende brasileiro negro, que usa uma carapuça vermelha, tem apenas uma perna e supostamente vive pelas florestas e fazendas fazendo traquinagens com animais e pessoas. Na zona urbana, as interpretações tendem mais para uma suposta ação entidades espirituais, embaladas pelas crenças dos adeptos das religiões afro-brasileiras e do espiritismo kardecista. Representantes da chamada ciência clássica comumente encaram esses eventos como fruto de ficção, de delírios de origem psicopatológica ou de interpretações errôneas devidas ao desconhecimento científico de fenômenos psicológicos, físicos e/ou químicos. Em resumo, pode-se dizer que as tentativas de explicação consistem em afirmar ou hipotetizar que os Poltergeists seriam fruto de:

  • fraudes (os relatos Poltergeists resultariam de invenção ou de situações que realmente ocorreram, mas que foram deliberadamente forjadas com o intuito de assustar alguém por brincadeira ou para conseguir algum benefício próprio - ex.: Kurtz, 1985; Randi, 1995);
  • erros de interpretação (pessoas interpretariam eventos absolutamente normais como sendo sobrenaturais, emprestando a eles interpretações influenciadas pela cultura - ex.: Gardner, 1985);
  • instabilidade mental (pessoas que dizem ter vivenciado essas experiências sofreriam de algum tipo de problema psicológico ou neuropsicológico, portanto seus relatos seriam fruto de alucinação ou de algum outro sintoma psicopatológico - ex.: Zusne & Jones, 1982);
  • causas sobrenaturais (de acordo com determinadas religiões e/ou crenças esotéricas, os Poltergeists resultariam da intervenção do demônio, de espíritos de mortos, de entidades espirituais ou de supostas "energias negativas" advindas de seres elementais que atuariam em determinado local - ex.: Andrade, 1988; Kardec, 1857/1944a);
  • interações ambientais anômalas cuja natureza e modo de funcionamento físico ainda não são conhecidos e cujos(as) pesquisadores(as) denominam, psicocinesia ou PK (do inglês, psychokinesis, popularmente traduzido como "poder da mente sobre a matéria"), referindo-se à possibilidade de ação mental direta sobre o ambiente em determinadas circunstâncias (ex.: Bender, 1976; Rogo, 1986; Roll, 1978); haveria ainda a possibilidade da telergia, uma espécie de força física que emanaria do corpo humano e provocaria os efeitos poltergeists (ex.: Quevedo, 1968/1983).

Há dificuldades de distinção entre Poltergeists e hauntings (assombrações). Muitas bibliotecas, como a da Society for Psychical Research e a do College of Psychic Studies, tratam ambos os casos como um mesmo tópico. Na verdade, não há um consenso entre os(as) pesquisadores(as) sobre essa diferenciação.

A palavra haunting está etimologicamente ligada à idéia de lugar. Sua raiz haunt significa: "aparecer repetidamente em um lugar (relacionado a um fantasma); causar sofrimento repetitivo ou ansiedade; um local visitado freqüentemente", segundo o Cambridge International Dictionary of English (1995: 651). Essas definições da palavra haunt correspondem às ocorrências que se sucedem nos casos comumente identificados como hauntings: diferentes pessoas, até mesmo de diferentes épocas, dizem ter visto espectros, ouvido sons e sentido aromas estranhos ou sido tocadas por "mãos invisíveis" ao se encontrarem em um determinado local, coincidindo o relato dessas testemunhas, mesmo sem se conhecerem.

É tipico dos hauntings que os fenômenos persistam por um longo período de tempo (anos, décadas, séculos!), enquanto que a incidência de fenômenos Poltergeist se dá por períodos geralmente mais curtos (dias, semanas, meses).

É comum considerar-se os Poltergeists como um tipo de haunting devido ao fato de ter-se começado a utilizar o termo Poltergeist para denominar eventos interpretados como fruto da presença de algum espírito. O termo "infestação" também é utilizado para designar ambos os fenômenos, aludindo à interpretação de que o local onde os eventos "assombrosos" ocorrem estariam infestados de espíritos e/ou entidades incorpóreas responsáveis pelas ocorrências. As hipóteses de explicação para os hauntings correspondem quase que totalmente às tentativas de explicação dos Poltergeists (fraudes, erros interpretativos, instabilidade mental, intervenções sobrenaturais), incluindo também a hipótese de captação de informações do passado por percepção extra-sensorial.

Há pesquisadores, como Carrington e Fodor (1953), que apontam como a principal diferença entre hauntings e Poltergeists o fato de, nos hauntings, a suposta assombração ou fantasma parecer estar ligada ao local e não costumar acompanhar as pessoas que a vêem para onde quer que elas vão; já as ocorrências Poltergeists estariam aparentemente ligadas a uma pessoa ou a um grupo específicos, uma vez que os fenômenos podem "acompanhar" essa(s) pessoa(s) se ela(s) se mudar(em) para outro local.

Uma outra diferenciação que me parece mais frágil é a que leva em conta os tipos de fenômenos que ocorrem: movimentação de objetos, chuvas de pedras, fogo espontâneo, enfim, os chamados "fenômenos físicos", sem o envolvimento de aparições, constituiriam os Poltergeists; havendo aparições, tratar-se-iam de hauntings. Por isso, há casos que são chamados de haunt-RSPK type, pois, desse ponto de vista, seriam compostos de supostas aparições e eventos físicos.

De acordo com as perspectivas que se abrem diante dos estudos de casos já realizados, um outro caminho para a diferenciação é aquele apontado pelo psicólogo norte-americano Charles Tart: 

Casos de haunting e Poltergeist são de particular interesse, considerando-se que eles parecem compartilhar desses aparentes (e espetaculares) fenômenos PK [psicocinéticos]. Mas os hauntings estão tradicionalmente associados à crença de que algum aspecto da personalidade humana que sobreviva à morte seja responsável por eles, enquanto que os Poltergeists parecem ser geralmente associados com o agente vivo. (Tart, 1965:190)

De acordo com a controversa hipótese da sobrevivência, os hauntings diriam respeito a algo que sobreviveria à morte física e revelaria informações visuais ou sonoras de eventos passados. Uma outra hipótese seria a de que os seres humanos poderiam usufruir da capacidade de captar informações do passado, materializando-as por meio de alguma "manobra" psicobiofísica, a fim de trazer essa informação à consciência. Qual dessas duas hipóteses estaria correta? Haveria uma possibilidade de conjunção das duas? Questões em aberto. Possivelmente, casos indicados como resultantes da ação de supostos espíritos ou de outras entidades incorpóreas tenham sido assim interpretados devido ao viés da visão do(a) pesquisador(a). Nos relatos de casos encontrados na literatura, muitos não trazem o contexto dos ocupantes do local e não há preocupação em verificar se há alguma ligação das ocorrências com suas vidas, nem tentativa de testar se os eventos se ligam ao local, não à pessoa. Se isto não for levado em conta, como descartar a hipótese de psicocinesia (ação da mente sobre a matéria)? E como testar isso de modo satisfatório se ainda não conhecemos o modus operandi físico desses fenômenos?

Diferenciações controvertidas à parte, considero como fenômenos Poltergeist as ocorrências que se relacionam com determinados indivíduos e parecem ter íntima ligação com o momento/problema vivenciado pelas pessoas que compõem o elenco dos envolvidos no caso, independentemente da natureza (física, mental, sobrenatural ou o que quer que seja) dos fenômenos. Do meu ponto de vista, à categoria dos hauntings pertencem os fenômenos que, após investigação minuciosa, se mostrarem correlacionados com a história do local onde ocorrem. Assim, na concepção por mim adotada, hauntings e Poltergeists podem apresentar fenômenos muito parecidos ou idênticos. O que dá o tom de sua diferença é, em princípio, o fato de haver evidências de as ocorrências estarem relacionadas à presença de uma determinada pessoa viva - Poltergeists - ou ao local - hauntings.

Talvez esta diferenciação que assumo não seja a mais correta e se mostre falha no futuro. Levando-se em conta que a "verdade insiste", ainda que eu esteja "macroscopizando" apenas aspectos de uma das possíveis facetas dos chamados fenômenos Poltergeist e dos hauntings, esse posicionamento vale como ponto de partida para a realização de estudos que podem vir a esclarecer aspectos ainda obscuros dessas ocorrências extraordinárias e, em última instância, de aspectos ainda desconhecidos de nossas capacidades humanas.

* Este artigo foi elaborado a partir de trechos da tese de doutorado intitulada "A Ação dos Signos nos Poltergeists.Estudo do processo de comunicação dos fenômenos Poltergeist a partir de seus relatos", defendida pela autora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/SP em março/2003.

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Dicionário: Cambridge International Dictionary of English (1995)

Last Updated ( sexta, 24 junho 2005 )
 
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