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Ganzfeld e Psi: Um guia de leitura - Parte I PDF Print E-mail
Written by Administrator   
sexta, 10 setembro 2004
Zangari, Wellington (2004). Ganzfeld e Psi: Um guia de leitura - Parte I. Boletim Virtual de Pesquisa Psi 1(1).

Prof. Dr. Wellington Zangari

Inter Psi/CENEP/COS/PUC-SP
Instituto de Psicologia - USP
wz@pesquisapsi.com

Os interessados em Pesquisa Psi devem estar familiarizados com o debate a respeito das possíveis evidências de psi obtidas por meio do procedimento experimental psi-ganzlfeld. Àqueles que não tiveram contato com a literatura especializada sobre o tema, sugerimos a leitura do artigo "O Fenômeno Ganzfeld", que pode ser lido on-line, em: http://www.pesquisapsi.com/holo51 Esse texto introdutório foi escrito por um dos líderes atuais da Pesquisa Psi, o Dr. Daryl J. Bem, um respeitado psicólogo norte-americano. Bem começou ingressou na Pesquisa Psi como cético. Após participar como avaliador da metodologia e como especialista em ilusionismo dos estudos ganzfeld, convenceu-se de que essa técnica oferecia evidências favoráveis à existência de psi. A leitura do texto, no entanto, não é suficiente para que se tenha uma avaliação atualizada do debate em torno dos resultados ganzfeld e do estado de evidência produzido pelo emprego dessa técnica. Muita "água correu por debaixo da ponte" desde que foi publicado, em 1996. Para uma atualização, o leitor deverá ler artigos mais recentes e técnicos.

Para os não-iniciados nos estudos ganzfeld, após a leitura do artigo introdutório de Bem, sugerimos o acompanhamento do roteiro básico de artigos sobre o tema que apresentamos abaixo. Ao mesmo tempo em que apresentemos a bibliografia, fornecemos a contextualização do debate realizado até o momento.

Sabemos, no entanto, que muitos interessados em Pesquisa Psi não têm acesso à literatura internacional por uma simples razão: não dominam suficientemente a língua inglesa! Por isso, decidimos oferecer alguns resumos de artigos importantes nessa área de estudo traduzidos à nossa língua. Dessa forma, esperamos estar diminuindo as barreiras de linguagem existente na área. Aqueles(as) que tiverem interesse em ler os artigos originais, infelizmente disponíveis apenas em inglês, poderão fazê-lo clicando sobre o nome dos artigos que apresentam link.

O primeiro momento do debate

Após cerca de 10 anos do uso da técnica psi-ganzfeld, o psicólogo e crítico dos estudos parapsicológicos, Ray Hayman apresenta um primeiro estudo meta-analítico, ou seja, um estudo matermático que levou em conta a maioria do experimentos com a finalidade de verificar se, no geral, os estudos indicavam a presença de um efeito positivo, indicativo de psi. Hyman não encontrou resultados favoráveis: 

Hyman, Ray (1985). O experimento psi-ganzfeld: Uma avaliação crítica. Journal of Parapsychology, 49(1), (pp. 3-49)

Resumo

Descreve uma avaliação de 42 estudos retirados de 34 relatórios de estudos escritos ou publicados entre 1974 e 1981. Alegadamente, 55% desses estudos alcançaram significância estatística para psi. Levando-se em conta as ambigüidades e as inconsistências naquilo que é relatado com sendo um estudo ganzfeld independente e o aquilo que é citado como evidência sugestiva de problemas nos relatos dos estudos, sustenta-se que a real taxa de sucesso foi de, no máximo, 30%. O autor calcula que, em decorrência da utilização de testes múltiplos, o verdadeiro nível de significância foi muito maior que o assumido nível de .05, talvez .25 ou maior. O autor ainda relata a existência de várias falhas no procedimento experimental, como a aleatorização inadequada, potenciais vazamentos sensoriais e erros estatísticos. Apresenta-se um estudo meta-analítico baseado em índices de significância e no tamanho do efeitos relacionados às várias categorias de falhas. As falhas de segurança inadequada, de possíveis vazamentos sensoriais e do emprego de testes múltiplos não se correlacionam com a significância e com o tamanho do efeito. No entanto, as falhas envolvendo a aleatorização inadequada e à apresentação insuficiente de documentação nos estudos, correlacionam-se com esses índices. Notou-se que tanto o tamanho do efeito quanto o score Z tornam-se praticamente zero quando as equações de regressão são usadas para predizer seus valores para o caso em que posteriores tipos de falhas é zero. Conclui-se que essa base de dados é muito fraca para apoiar qualquer afirmação sobre a existência de psi. Uma lista de estudos examinados é apresentada em um apêndice.

No entanto, um dos líderes da pesquisa psi-ganzfeld, Charles Honorton, avaliou o estudo de Hyman e concluiu que sua análise estava incorreta. Honorton avaliou estatisticamente o banco de dados tomado por Hyman para análise e concluiu que os resultados eram significativos e que as críticas de Hyman eram improcedentes:

Honorton, Charles(1985). Meta-análise da pesquisa psi-ganzfeld: Uma resposta a Hyman. Journal of Parapsychology, 49(1), (pp. 51-91)

Resumo

Responde às críticas feitas por R. Hyman aos estudos psi-ganzfeld e relata uma avaliação que elimina os problemas de análises múltiplas. Usando um teste uniforme, aplicado a um índice uniforme, um score Z composto (Stouffer), 28 dos 42 estudos considerados por Hyman obtiveram 6.6 (p < 10-super(-9), e 43% dos estudos foram significantes independentemente a um nível de 5%. Seis dos 10 grupos de investigadores relataram resultados significantes e a acumulação por investigador apresentou um Z composto de 6.16. São relatadas várias considerações que diminuem a possibilidade de que o relato seletivo seja uma explicação viável para esses resultados. A análise de "falhas de procedimento" feita por Hyman é discutida, ambigüidades nos critérios de falha e exemplos de inconsistência ou inapropriada designição das taxas das falhas são apresentados.

Hyman e Honorton decidiram escrever um artigo conjunto, em que apresentam as concordâncias, as discordâncias e apresentam avanços metodológicos a serem seguidos nas pesquisas futuras. Basicamente oferecem um novo procedimento, totalmente automático, de controle, de aleatorização dos alvos, de avaliação estatística:

Hyman, Ray & Honorton, Charles(1986). Uma comunicação conjunta: A controvérsia psi-ganzfeld. Journal of Parapsychology, 50(4), (pp. 351-364)

Resumo

Os autores enfatizam seus pontos de concordância a respeito da pesquisa parapsicológica. Concordam que há um efeito significante global nesse banco de dados e que esse não pode ser explicado pela publicação seletiva ou pela análise múltipla. O grau em que tal efeito se constitui evidência para psi ainda é uma área de desacordo entre eles. Concordam, no entanto, que o veredito final aguarda os resultados de experimentos realizados por um amplo número de pesquisadores e de acordo com padrões mais rigorosos a serem realizados no futuro. São feitas recomendações de como tais experimentos devam ser realizados e relatados. Recomendações específicas são feitas em áreas de aleatorização, dos procedimentos de julgamento e feedback, das análises múltiplas e do emprego estatístico e da documentação. Discutem, ainda o desenvolvimento do papel dos estudos meta-analíticos para a avaliação da pesquisa de qualidade e das variáveis intervenientes.

O Segundo Momento do Debate

Levando em conta as orientações propostas na comunicação conjunta, Honorton construiu um novo procedimento experimental, ao qual chamou de "auto-ganzfeld". Realizou centenas de seções experimentais e fez nova meta-análise, com Daryl J. Bem, em meados da década de 90, cerca de 10 anos depois da primeira meta-análise. O resultado favorável à hipótese psi continuava significativa do ponto de vista estatístico, mesmo com o emprego de uma metodologia mais rigorosa que a utilizada anteriormente. É importante notar que essa fase do debate é travada em artigos publicados em uma das mais prestigiosos periódicos psicológicos dos Estados Unidos, o Psychological Bulletim, o que ofereceu aos cientistas um elemento de interesse redobrado na discussão:

Bem, D. J. & Honorton, C. (1994). Psi existe? Evidência replicável de um processo anômalo de tranferência de informação. Psychological Bulletin, 115, (pp. 4-18).

Resumo

A maioria dos psicólogos acadêmicos, em contraste com outros professores universitários de outras disciplinas, ainda não aceitam a existência de psi. Este artigo, publicado em uma das principais publicações da Psicologia, sustenta que as taxas de replicação e o tamanho dos efeitos alcançados usando-se o procedimento experimental ganzfeld são agora suficientes para garantir a atenção da comunidade psicológica como um todo. São revisadas duas meta-análises do banco de dados de estudos ganzfeld que apresentaram resultados distintos, uma feita por R. Hyman, um dos principais críticos da pesquisa psi, e outra feita por C. Honorton, um dos principais pesquisadores ganzfeld. São resumidos onze estudos auto-ganzfeld que adotaran as diretrizes feitas por Hyman e Honorton. São discutidas questões relacionadas à replicação e às explicações teóricas de psi.

Hyman apresentou, então, uma crítica a esse estudo meta-analítico, em que sustentou que os resultados favoráveis a psi poderiam ter sido produzidos por possíveis falhas experimentais (como o processo de aleatorização de alvos) e que Bem e Honorton deveriam aguardar por novos estudos para concluir que psi-ganzfeld se consitituia, de fato, uma técnica de replicação de efeitos psi:

Hyman, R. (1994). Anomalia ou artificialidade? Comentários do artigo de Bem e Hononrton. Psychological Bulletin, 115, 19-24.

Resumo

D. J. Bem e C. Honorton sustentam que 11 experimentos auto-ganzfeld demonstram a existência de psi, um anomalia comunicacional. Alegam que os resultados das pesquisas auto-ganzfeld são consistentes com resultados parapsicológicos realizados anteriormente e que se constituem em evidência replicável do efeito psi. Apesar de os experimentos auto-ganzfeld serem metodologicamente superiores aos experimentos parapsicológicos prévios, os testes de seus processos de aleatorização foram inadequados. Os experimentos auto-ganzfeld produziram consistentemente taxas de sucesso positivo, cujo efeito combinado foi altamente significativo. Entretanto, esses experimentos produziram importantes inconsistências com os experimentos ganzfeld realizados anteriormente. Eles também mostraram um padrão único nos dados que pode refletir um efeito artificial sistemático. Em razão dessas características únicas, os autores têm que esperar por replicações independentes desses experimentos antes de poderem concluir que uma anomalia replicável de psi foi demonstrada.

Bem responde às críticas de Hyman, afirmando que essas eram infundadas:

Bem, D. J. (1994). Response to Hyman. Psychological Bulletin, 115, (pp. 25-27).

R. Hyman (1994) levanta duas críticas principais ao considerar o artigo sobre os experimentos psi-ganzfeld de D. J. Bem e C. Honorton (1994). Primeiro, ele desafia a alegação de que os resultados dos experimentos auto-ganzfeld sejam consistentes com a do banco de dados avaliado anteriormente. Segundo, expressa preocupação sobre a adequação dos procedimentos de aleatorização. Em resposta ao primeiro ponto, eu discordo que nossa alegação de consistência dos resultados auto-ganzfeld com o banco de dados anterior seja modesta e desafio a contra-alegação feita por ele de que os resultados sejam inconsistentes entre os bancos de dados. Em resposta à crítica metodológica feita por ele, apresento novos dados que permitirão uma melhor apreensão a respeito da adequação dos procedimentos de aleatorização.

Last Updated ( terça, 03 maio 2005 )
 
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