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Zangari, Wellington (2004). Ganzfeld e Psi: Um guia de leitura - Parte I. Boletim Virtual de Pesquisa Psi 1(1). Prof. Dr. Wellington Zangari Inter Psi/CENEP/COS/PUC-SP Instituto de Psicologia - USP wz@pesquisapsi.com Os
interessados em Pesquisa Psi devem estar familiarizados com o debate a
respeito das possíveis evidências de psi obtidas por meio do
procedimento experimental psi-ganzlfeld. Àqueles que não tiveram
contato com a literatura especializada sobre o tema, sugerimos a
leitura do artigo "O Fenômeno Ganzfeld", que pode ser lido on-line, em:
http://www.pesquisapsi.com/holo51
Esse texto introdutório foi escrito por um dos líderes atuais da
Pesquisa Psi, o Dr. Daryl J. Bem, um respeitado psicólogo
norte-americano. Bem começou ingressou na Pesquisa Psi como cético.
Após participar como avaliador da metodologia e como especialista em
ilusionismo dos estudos ganzfeld, convenceu-se de que essa técnica
oferecia evidências favoráveis à existência de psi. A leitura do texto,
no entanto, não é suficiente para que se tenha uma avaliação atualizada
do debate em torno dos resultados ganzfeld e do estado de evidência
produzido pelo emprego dessa técnica. Muita "água correu por debaixo da
ponte" desde que foi publicado, em 1996. Para uma atualização, o leitor
deverá ler artigos mais recentes e técnicos.
Para os não-iniciados nos estudos ganzfeld, após a leitura do artigo
introdutório de Bem, sugerimos o acompanhamento do roteiro básico de
artigos sobre o tema que apresentamos abaixo. Ao mesmo tempo em que
apresentemos a bibliografia, fornecemos a contextualização do debate
realizado até o momento. Sabemos,
no entanto, que muitos interessados em Pesquisa Psi não têm acesso à
literatura internacional por uma simples razão: não dominam
suficientemente a língua inglesa! Por isso, decidimos oferecer alguns
resumos de artigos importantes nessa área de estudo traduzidos à nossa
língua. Dessa forma, esperamos estar diminuindo as barreiras de
linguagem existente na área. Aqueles(as) que tiverem interesse em ler
os artigos originais, infelizmente disponíveis apenas em inglês,
poderão fazê-lo clicando sobre o nome dos artigos que apresentam link. O primeiro momento do debate Após
cerca de 10 anos do uso da técnica psi-ganzfeld, o psicólogo e crítico
dos estudos parapsicológicos, Ray Hayman apresenta um primeiro estudo
meta-analítico, ou seja, um estudo matermático que levou em conta a
maioria do experimentos com a finalidade de verificar se, no geral, os
estudos indicavam a presença de um efeito positivo, indicativo de psi.
Hyman não encontrou resultados favoráveis: Hyman, Ray (1985). O experimento psi-ganzfeld: Uma avaliação crítica. Journal of Parapsychology, 49(1), (pp. 3-49) Resumo Descreve
uma avaliação de 42 estudos retirados de 34 relatórios de estudos
escritos ou publicados entre 1974 e 1981. Alegadamente, 55% desses
estudos alcançaram significância estatística para psi. Levando-se em
conta as ambigüidades e as inconsistências naquilo que é relatado com
sendo um estudo ganzfeld independente e o aquilo que é citado como
evidência sugestiva de problemas nos relatos dos estudos, sustenta-se
que a real taxa de sucesso foi de, no máximo, 30%. O autor calcula que,
em decorrência da utilização de testes múltiplos, o verdadeiro nível de
significância foi muito maior que o assumido nível de .05, talvez .25
ou maior. O autor ainda relata a existência de várias falhas no
procedimento experimental, como a aleatorização inadequada, potenciais
vazamentos sensoriais e erros estatísticos. Apresenta-se um estudo
meta-analítico baseado em índices de significância e no tamanho do
efeitos relacionados às várias categorias de falhas. As falhas de
segurança inadequada, de possíveis vazamentos sensoriais e do emprego
de testes múltiplos não se correlacionam com a significância e com o
tamanho do efeito. No entanto, as falhas envolvendo a aleatorização
inadequada e à apresentação insuficiente de documentação nos estudos,
correlacionam-se com esses índices. Notou-se que tanto o tamanho do
efeito quanto o score Z tornam-se praticamente zero quando as equações
de regressão são usadas para predizer seus valores para o caso em que
posteriores tipos de falhas é zero. Conclui-se que essa base de dados é
muito fraca para apoiar qualquer afirmação sobre a existência de psi.
Uma lista de estudos examinados é apresentada em um apêndice. No
entanto, um dos líderes da pesquisa psi-ganzfeld, Charles Honorton,
avaliou o estudo de Hyman e concluiu que sua análise estava incorreta.
Honorton avaliou estatisticamente o banco de dados tomado por Hyman
para análise e concluiu que os resultados eram significativos e que as
críticas de Hyman eram improcedentes: Honorton, Charles(1985). Meta-análise da pesquisa psi-ganzfeld: Uma resposta a Hyman. Journal of Parapsychology, 49(1), (pp. 51-91) Resumo Responde
às críticas feitas por R. Hyman aos estudos psi-ganzfeld e relata uma
avaliação que elimina os problemas de análises múltiplas. Usando um
teste uniforme, aplicado a um índice uniforme, um score Z composto
(Stouffer), 28 dos 42 estudos considerados por Hyman obtiveram 6.6 (p
< 10-super(-9), e 43% dos estudos foram significantes
independentemente a um nível de 5%. Seis dos 10 grupos de
investigadores relataram resultados significantes e a acumulação por
investigador apresentou um Z composto de 6.16. São relatadas várias
considerações que diminuem a possibilidade de que o relato seletivo
seja uma explicação viável para esses resultados. A análise de "falhas
de procedimento" feita por Hyman é discutida, ambigüidades nos
critérios de falha e exemplos de inconsistência ou inapropriada
designição das taxas das falhas são apresentados. Hyman
e Honorton decidiram escrever um artigo conjunto, em que apresentam as
concordâncias, as discordâncias e apresentam avanços metodológicos a
serem seguidos nas pesquisas futuras. Basicamente oferecem um novo
procedimento, totalmente automático, de controle, de aleatorização dos
alvos, de avaliação estatística: Hyman, Ray & Honorton, Charles(1986). Uma comunicação conjunta: A controvérsia psi-ganzfeld. Journal of Parapsychology, 50(4), (pp. 351-364) Resumo Os
autores enfatizam seus pontos de concordância a respeito da pesquisa
parapsicológica. Concordam que há um efeito significante global nesse
banco de dados e que esse não pode ser explicado pela publicação
seletiva ou pela análise múltipla. O grau em que tal efeito se
constitui evidência para psi ainda é uma área de desacordo entre eles.
Concordam, no entanto, que o veredito final aguarda os resultados de
experimentos realizados por um amplo número de pesquisadores e de
acordo com padrões mais rigorosos a serem realizados no futuro. São
feitas recomendações de como tais experimentos devam ser realizados e
relatados. Recomendações específicas são feitas em áreas de
aleatorização, dos procedimentos de julgamento e feedback, das análises
múltiplas e do emprego estatístico e da documentação. Discutem, ainda o
desenvolvimento do papel dos estudos meta-analíticos para a avaliação
da pesquisa de qualidade e das variáveis intervenientes. O Segundo Momento do Debate Levando
em conta as orientações propostas na comunicação conjunta, Honorton
construiu um novo procedimento experimental, ao qual chamou de
"auto-ganzfeld". Realizou centenas de seções experimentais e fez nova
meta-análise, com Daryl J. Bem, em meados da década de 90, cerca de 10
anos depois da primeira meta-análise. O resultado favorável à hipótese
psi continuava significativa do ponto de vista estatístico, mesmo com o
emprego de uma metodologia mais rigorosa que a utilizada anteriormente.
É importante notar que essa fase do debate é travada em artigos
publicados em uma das mais prestigiosos periódicos psicológicos dos
Estados Unidos, o Psychological Bulletim, o que ofereceu aos cientistas um elemento de interesse redobrado na discussão: Bem, D. J. & Honorton, C. (1994). Psi existe? Evidência replicável de um processo anômalo de tranferência de informação. Psychological Bulletin, 115, (pp. 4-18). Resumo A
maioria dos psicólogos acadêmicos, em contraste com outros professores
universitários de outras disciplinas, ainda não aceitam a existência de
psi. Este artigo, publicado em uma das principais publicações da
Psicologia, sustenta que as taxas de replicação e o tamanho dos efeitos
alcançados usando-se o procedimento experimental ganzfeld são agora
suficientes para garantir a atenção da comunidade psicológica como um
todo. São revisadas duas meta-análises do banco de dados de estudos
ganzfeld que apresentaram resultados distintos, uma feita por R. Hyman,
um dos principais críticos da pesquisa psi, e outra feita por C.
Honorton, um dos principais pesquisadores ganzfeld. São resumidos onze
estudos auto-ganzfeld que adotaran as diretrizes feitas por Hyman e
Honorton. São discutidas questões relacionadas à replicação e às
explicações teóricas de psi. Hyman apresentou,
então, uma crítica a esse estudo meta-analítico, em que sustentou que
os resultados favoráveis a psi poderiam ter sido produzidos por
possíveis falhas experimentais (como o processo de aleatorização de
alvos) e que Bem e Honorton deveriam aguardar por novos estudos para
concluir que psi-ganzfeld se consitituia, de fato, uma técnica de
replicação de efeitos psi: Hyman, R. (1994). Anomalia ou artificialidade? Comentários do artigo de Bem e Hononrton. Psychological Bulletin, 115, 19-24. Resumo D.
J. Bem e C. Honorton sustentam que 11 experimentos auto-ganzfeld
demonstram a existência de psi, um anomalia comunicacional. Alegam que
os resultados das pesquisas auto-ganzfeld são consistentes com
resultados parapsicológicos realizados anteriormente e que se
constituem em evidência replicável do efeito psi. Apesar de os
experimentos auto-ganzfeld serem metodologicamente superiores aos
experimentos parapsicológicos prévios, os testes de seus processos de
aleatorização foram inadequados. Os experimentos auto-ganzfeld
produziram consistentemente taxas de sucesso positivo, cujo efeito
combinado foi altamente significativo. Entretanto, esses experimentos
produziram importantes inconsistências com os experimentos ganzfeld
realizados anteriormente. Eles também mostraram um padrão único nos
dados que pode refletir um efeito artificial sistemático. Em razão
dessas características únicas, os autores têm que esperar por
replicações independentes desses experimentos antes de poderem concluir
que uma anomalia replicável de psi foi demonstrada. Bem responde às críticas de Hyman, afirmando que essas eram infundadas: Bem, D. J. (1994). Response to Hyman. Psychological Bulletin, 115, (pp. 25-27). R.
Hyman (1994) levanta duas críticas principais ao considerar o artigo
sobre os experimentos psi-ganzfeld de D. J. Bem e C. Honorton (1994).
Primeiro, ele desafia a alegação de que os resultados dos experimentos
auto-ganzfeld sejam consistentes com a do banco de dados avaliado
anteriormente. Segundo, expressa preocupação sobre a adequação dos
procedimentos de aleatorização. Em resposta ao primeiro ponto, eu
discordo que nossa alegação de consistência dos resultados
auto-ganzfeld com o banco de dados anterior seja modesta e desafio a
contra-alegação feita por ele de que os resultados sejam inconsistentes
entre os bancos de dados. Em resposta à crítica metodológica feita por
ele, apresento novos dados que permitirão uma melhor apreensão a
respeito da adequação dos procedimentos de aleatorização. |