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Wellington Zangari Este trabalho tem como objetivo discutir
a cientificidade da Parapsicologia. Esta discussão se faz necessária,
sobretudo pelo pouco tratamento do tema no meio acadêmico brasileiro.
Serão apresentados os argumentos favoráveis e desfavoráveis à aceitação
da Parapsicologia enquanto uma ciência, bem como o espaço social
científico que tem conquistado desde sua fundação. Não se pretende
fazer uma apresentação exaustiva da história dessa disciplina, mas uma
história do embate político em torno de sua cientificidade.
O campo de estudo da Parapsicologia: Procurando unicórnios? Em
todas as culturas e em todas as épocas há relatos de pessoas que dizem
ter tido sonhos relacionados a eventos futuros. Pessoas que afirmam ter
a capacidade de contatar pessoas falecidas. Feiticeiros e curadores que
sustentam poder atuar sobre a saúde de pessoas que se encontram a
longas distâncias. Outras relatam ter visto, na presença de outras
pessoas, objetos levitando ou queimando sem que ninguém lhes ateassem
fogo. São ainda numerosos os casos de pessoas que dizem poder sair de
seus corpos e, então, viajar para lugares distantes onde jamais haviam
estado. Sem falar dos casos em que pessoas são vistas levitando a
grandes alturas enquanto estão em uma espécie de êxtase religioso. Há
casos, ainda de animais que, ao se perderem de seus donos em mudanças
residenciais, aparecem, após meses, na nova casa da família, há muitas
centenas de quilômetros de distância da anterior. Experiências
como as relatadas acima dão conta de processos de interação entre os
seres humanos (e quem sabe, entre os animais), e entre os seres humanos
(e talvez animais) e o meio ambiente. A Psicologia e a Fisiologia
prevêem que os organismos interagem entre si e com o meio por
intermédio dos sentidos e dos músculos. Assim, enquanto conversamos com
uma outra pessoa, podemos ouvi-la e vê-la, e responder às suas
perguntas. Mas o que dizer de experiências em que essas pessoas estão
espacialmente distantes e, ainda assim, comportam-se como se estivessem
recebendo flashs de informações umas das outras? Houve apenas
uma coincidência? Houve um erro de interpretação? As pessoas envolvidas
sofrem de algum tipo de psicopatologia? Ou existe algum tipo de
interação que independe dos sentidos ordinários ou da ação muscular
conhecida? Não haveria um "sexto sentido", que pudesse explicar tais
acontecimentos? Ou nosso conhecimento acerca dos sentidos e da ação
muscular é ainda limitado? A Parapsicologia estuda "interações, tanto sensoriais quanto motoras, que parecem não ser mediadas por qualquer agente ou mecanismo físico conhecido".
(Rush, 1986, p. 4) Tradicionalmente, os parapsicólogos dividem os
fenômenos parapsicológicos em duas categorias: os extra-sensoriais, ou
fenômenos de percepção extra-sensroial, e os extra-motores, ou
fenômenos psicocinéticos. A percepção extra-sensorial, ou ESP (do
inglês, extrasensory perception) é composta por dois tipos de
fenômenos de conhecimento: a telepatia, ou ESP cuja fonte é outro ser
humano, e a clarividência, ou ESP cuja fonte seria o próprio meio
ambiente. Telepatia e clarividência poderiam estar relacionadas a
eventos do passado (retrocognição), presente, (simulcognição) e futuro
(precognição). A psicocinesia, ou PK (do inglês, psychokinesis),
ou seja, a ação parapsicológica sobre o meio, poderia se dar no mundo
físico diretamente observável (macro-PK) ou sobre o mundo físico
microscópico (micro-PK). Todos esses fenômenos juntos são chamados de psi, vigésima terceira letra do alfabeto grego, geralmente utilizada como o X
em matemática, como a incógnita de uma equação. Utiliza-se o termo psi
como um termo neutro, sem a pretensão de descrever ou explicar os
fenômenos por ele expressos. A Parapsicologia, portanto,
estuda interações aparentemente extra-sensório-motoras, o que é muito
diferente de dizer que a Parapsicologia estuda fenômenos paranormais.
Isto implicaria que os parapsicólogos assumissem que tais experiências
envolveriam, de fato, interações extra-sensório-motoras. A utilização
do termo "aparentemente" tem como objetivo não oferecer qualquer
explicação apriorística. Assim, apenas parecem, seja àquele que o
vivenciou ou ao cientista que o investigou, estar fora do reino
conhecido pelas ciências em geral. A paranormalidade das experiências
citadas é uma das hipóteses a serem investigadas. E a última. Muitas
vezes o pesquisador reconhece uma explicação "normal" , isto é, aceita
pelo establishment científico, para uma experiência que, para
aquele que a viveu, era tida como paranormal. Por exemplo, um dia fui
procurado por um senhor que dizia que sua casa estava sendo habitada
por fantasmas. Dizia que grandes quantidades de água apareciam
misteriosamente em diversos pontos de sua residência e as lâmpadas se
queimavam freqüentemente. Um rápido exame do local mostrou que, na
verdade, as interpretações do consulente estavam equivocadas. A casa
era antiga e o encanamento, já apodrecido pelo tempo, fazia minar água
por quase toda sua extensão. As lâmpadas se queimavam acima da
freqüência habitual não pela ação dos supostos fantasmas, mas porque a
flutuação elétrica era excessiva devido à proximidade de sua casa a uma
fábrica que consumia grandes e variáveis quantidades de energia
elétrica. Há, entretanto, casos em que nenhuma explicação dada pelas
ciências estabelecidas parece ser suficiente para a sua compreensão. É
nesses casos que a hipótese paranormal é levantada. Dizer que
a Parapsicologia estuda interações aparentemente
extra-sensório-motoras, não significa dizer o que ela estuda. A
definição negativa do objeto de estudo da Parapsicologia leva a
problemas terminológicos, metodológicos e filosóficos. Tornou-se
tradição referir-se aos fenômenos aparentemente extra-sensoriais como
fenômenos de percepção extra-sensorial. Então, poder-se -ia perguntar:
se não se trata de uma percepção sensorial, de que tipo de percepção se
trata? Dizer que algo não é alguma coisa, não significa dizer o que de
fato é. Como estudar algo que não se sabe o que é? Não conhecendo as
variáveis que influenciam a produção dos fenômenos em questão, como
controlá-las? Supondo que existam processos paranormais envolvidos na
sua produção, a ciência estaria errada ou incompleta? Como sair dos
aparentes impasses que elas implicam? Antes de mais, seria
importante saber de que maneira a Parapsicologia tenta responder a
essas questões. Ela o faz utilizando a metodologia científica,
levantando hipóteses e testando-as. A primeira pergunta que se tentou
responder em Parapsicologia foi: essas experiências são realmente o que
parecem ser? Realmente existem processos extra-sensório-motores? Para
responder a essa pergunta foram realizadas milhares de séries
experimentais com o objetivo de testar a variável independência dos
sentidos conhecidos e dos músculos. Qual o resultado dessas pesquisas dirigidas à prova?
Tais pesquisas -algumas das quais serão detalhadas mais adiante neste
trabalho - apresentam dados suficientes para demonstrar que há
evidências da existência da interação extra-motora. Isto
significa que os parapsicólogos acreditam em fenômenos como a
transmissão de pensamento, a premonição, as casas mal-assombradas? O
Dr. Richard Broughton, presidente da Parapsychological Association
(1996), a mais importante instituição profissional que congrega
parapsicólogos de todo o mundo, relata que foi entrevistado por um
jornalista que lhe fez essa mesma pergunta. O Dr. Broughton respondeu: "Não, eu não acredito". E explica: "Eu
respondi e então olhei para o rosto do repórter que demonstrava uma
familiar expressão de perplexidade. Claro que então eu tive que
explicar ao surpreso repórter que eu considero a 'crença' como algo
apropriado para assuntos ligados à fé, tais como questões religiosas,
mas não para assuntos científicos. As crenças religiosas particulares
requerem o que os teólogos chamariam de "arroubos de fé" porque não há
evidências para sustentá-las. Como um cientista eu não tenho arroubos
de fé em relação ao meu objeto de estudo. Eu estudo a evidência". (Broughton, 1991) Essas
evidências são suficientes para se constituir uma ciência dedicada ao
seu estudo? Se não se sabe o que se está estudando, porque constituir
uma ciência com a finalidade de estudar essas evidências? Em primeiro
lugar, as evidências são suficientes e respeitam os parâmetros
utilizados pelas demais ciências. Quando os físicos afirmam ter
evidências da existência de uma nova partícula subatômica, é porque
estão certos disso, já que, supõe-se, tomaram precauções para evitar
que enganos ocorressem. Tais precauções são as mesmas empregadas pelos
parapsicólogos. Se essas evidências existem, por que não investigá-las?
A palavra dos críticos Desde o
início da pesquisa dos fenômenos parapsicológicos há cientistas de
várias disciplinas e mágicos e que têm se dedicado a avaliar as
evidências da existência dos fenômenos parapsicológicos. Com essa
finalidade, foram criados, em vários países, instituições de críticos.
A mais importante dessas instituições é o Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal
(CSICOP), fundada em 1976 pelo filósofo Dr. Paul Kurtz e pelo sociólogo
Dr. Marcelo Truzzi. Kurtz e Truzzi se dedicavam ao estudo acadêmico de
crenças e práticas ocultas. Fizeram campanhas contra o que consideraram
"pseudo-ciências", pricipalmente a Astrologia. O CSICOP nasceu com os
seguintes objetivos: "a investigação crítica das
alegações do paranormal e da ciência marginal de um ponto de vista
responsável e científico e a disseminação de informações factuais sobre
os resultados de tais questões à comunidade acadêmica e ao público". (Kurtz, 1976) O
comitê teve, rapidamente, grande número de adesões de profissionais de
diversas áreas. Entretanto, o trabalho foi prontamente questionado
pelos seus próprios membros. Truzzi abandonou-o, assim como muitos
membros, alegando que o comitê havia se tornado um meio de luta contra
a existência de anomalias científicas, abandonando seus objetivos
iniciais. Um dos membros do CSICOP, C.E.M Hansel, um
psicólogos inglês, dedica-se à análise de experimentos
parapsicológicos. Sua tese é a de que os resultados positivos obtidos
experimentalmente em favor da hipótese da percepção extra-sensorial
foram fraudados. (Hansel, 1980) Hansel se detém, em suas análises, a
construir o cenário dos conluios entre os pesquisadores ou às
possibilidades de fraudes por parte dos sujeitos de experimentação. Como
em qualquer área, também em Parapsicologia há pesquisadores
inescrupulosos. Há dois casos bem documentados de pesquisadores que
foram surpreendidos cometendo fraudes. O "caso Levy", como ficou
conhecido, refere-se à fraude relacionada a pesquisas de supostos
fenômenos parapsicológicos em animais. (Rhine, 1974) Walter Levy
modificava os resultados experimentais desfavoráveis por resultados
positivos. Houve suspeitas por parte de seus colegas e Levy acabou
confessando que utilizara do expediente da fraude para "melhorar" os
resultados de suas pesquisas. O Outro caso clássico, refere-se às
fraudes cometidas pelo Dr. Soal, matemático inglês. Soal parece ter
fraudado os resultados acrescentando dados não obtidos nas sessões
originais. (Irwin, 1994, p. 317) O argumento de que sempre há
a possibilidade de fraude nas pesquisas parapsicológicas é um argumento
que poderia ser utilizado para qualquer ciência. Isto nos levaria a
invalidar os resultados das pesquisas realizadas por milhares de
investigadores em todas as áreas do conhecimento, o que é um absurdo.
Não parece lógico que haja uma grande conspiração entre os
parapsicólogos a qual poderia ser a razão dos bons resultados obtidos
pelas pesquisas em favor da percepção extra-sensorial. Apesar disso,
críticos como Hansel, continuam a sustentar tal explicação. Os casos de
Levy e Soal representam uma ínfima parte dos pesquisadores envolvidos
em programas de pesquisas parapsicológicas. Assim, o argumento de que
"poderia ter havido uma fraude" parece insustentável. Críticas
melhor elaboradas se detiveram a examinar as condições experimentais
das pesquisas parapsicológicas. A posição dos críticos é a de que "deve
haver erro em algum lugar". Assim, suspeitaram que os alvos não fossem
selecionados de forma aleatória, que não havia controle contra o
vazamento sensorial em alguns experimentos, que a metodologia
estatística não estava sendo adequada. As críticas desse tipo
atingiram as pesquisas realizadas no centro de pesquisas
parapsicológicas mais importantes dos EUA, o Laboratório de
Parapsicologia na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, EUA,
fundado em 1935, sob os auspícios do eminente psicólogo americano
William McDougall. Dr. Joseph Banks, considerado o "Pai da
Parapsicologia", sua esposa, a Dra. Louisa Ella Rhine, ambos biólogos
de formação, integravam o laboratório, com outros colegas. A equipe do
Laboratório de Parapsicologia tinha como marca a pesquisa experimental
e o emprego da estatística matemática como auxiliar na investigação da
hipótese da percepção extra-sensorial e da psicocinesia (ação direta da
mente sobre o meio físico). Após a publicação do primeiro relatório, Extrasensory Perception,
em 1933, Rhine e seus colegas foram duramente criticados pela suposta
má utilização da estatística. Rhine chamou tais críticas de "as primeiras críticas sérias".
(Rhine, 1937) Embora acreditasse não haver razão para tais críticas,
respondeu a todas elas, fazendo com que alguns de seus críticos
mudassem de opinião: Duvidou-se da matemática, é certo;
não porém por parte de um único matemático. Dois psicólogos escreveram
quatro artigos criticando-a; mas o autor de três deles convenceu-se de
que sua crítica não tem razão de ser, agora que possui o que acha ser
número suficiente de novas informações. Um terceiro psicólogo publicou,
mais recentemente, uma revisão das críticas e afirma que as
estatísticas usadas nessas pesquisas são substancialmente corretas". (Rhine, 1937) O
que diziam os matemáticos? Em 1937, durante a convenção anual do
Instituto Americano de Estatístaca Matemática, foi designada uma
comissão para avaliar a utilização da estatística empregada no
Laboratório de Parapsicologia. Após a análise, o presidente da referida
convenção, E. H. Huntington, emitiu a posição dos membros do grupo de
trabalho: "As investigações do Dr. Rhine têm dois
aspectos: um experimental e outro estatístico. Na fase experimental os
matemáticos, supõe-se, não têm nada a dizer. Mas na fase estatística,
recentes trabalhos matemáticos estabeleceram o fato de que, admitindo
que as experiências tinham sido realizadas corretamente, a análise
estatística é essencialmente válida. Se a investigação de Rhine pode
ser atacada, há de sê-lo em outro terreno que não o matemático" (Rhine, 1971) Recentemente,
críticos e parapsicólogos têm debatido resultados experimentais
relacionados à pesquisa de duas técnicas de pesquisa parapsicológica:
ganzfeld e visão remota. Mais à frente, neste trabalho, há uma
sessão dedicada a cada um desses experimentos. Portanto, não serão
tratados neste momento em profundidade. Interessa aqui a compreensão
mínima das técnicas para que o leitor possa entender sobre o que se
está tratando e a posição de críticos e parapsicólogos a respeito delas. Ganzfeld,
do alemão, significa campo completo, campo homogêneo, campo total. A
técnica ganzfeld consiste em que uma pessoa esteja deitada, ou
confortavelmente instalada em uma poltrona reclinável, enquanto vê e
ouve estímulos padronizados. Sobre cada um de seus olhos é colocada
meia bolinha de ping-pong. Nos ouvidos, o fone de ouvido transmite
ruído branco, parecido ao som de rádio fora de estação. A pessoa se
mantém com os olhos abertos, de forma a ver a tonalidade avermelhada
que é projetada sobre as meias bolinhas de ping-pong. Essa técnica,
desenvolvida por psicólogos da gestalt na década de 1950, permite ao
sujeito uma grande produção de imagens mentais, não apenas pela
homogeneização da entrada de estímulos sensoriais auditivos e visuais,
mas também pela alteração de consciência que a técnica pode
proporcionar. Os parapsicólogos se interessaram em aplicar
a técnica ganzfeld em experimentos parapsicológicos por saberem que
estados alterados de consciência aumentam a chance de ocorrência de
experiências parapsicológicas. Sabia-se, por exemplo, que os sonhos, a
meditação e a hipnose poderiam favorecer a emergência de conteúdos
telepáticos do inconsciente para a consciência dos indivíduos. Uma
pessoa submetida à tecnica ganzfeld não poderia estar mais "aberta" a
receber pensamentos, sentimentos e imagens mentais de uma outra pessoa
localizada à distância? Assim, a utilização da técnica ganzfeld em
experimentos parapsicológicos se processou, tendo como participantes um
emissor, um receptor e um expeirmentador. O papel do emissor era o de
olhar par uma imagem, como uma foto, ou um video-clip, e desejar
transmiti-la ao receptor. Ao receptor, que se encontrava afastado
espacialmente do emissor, cabia falar tudo o que lhe viesse à mente
enquanto estava na situação ganzfeld, ou seja, com estímulos visuais e
auditivos controlados. Todo o procedimento era controlado pelo
experimentador, que dispunha de equipamentos de som e videocassete,
para gravar o que o receptor falava e para enviar ao emissor a imagem a
ser transmitida. Charles Honorton foi um dos parapsicólogos
que mais se dedicou à análise teórica e experimental da ação da técnica
ganzfeld em testes parapsicológicos. (Honorton, 1977). Os resultados
apresentavam índices de acerto acima dos níveis esperados pelo acaso,
mostrando uma evidência da existência de uma forma de comunicação psi,
facilitada pela técnica ganzfeld. Não demorou para que
críticos explicassem os bons resultados por erros cometidos pelos
parapsicólogos. Ray Hyman, um respeitado psicólogo americano, é o mais
importante representante dos críticos dos experimentos ganzfeld em
Parapsicologia. Honorton, por sua vez, tratou de argumentar em favor da
qualidade da pesquisa realizada por ele e por seus colegas. As críticas
feitas por Hyman se detiveram ao aspecto da taxa de repetição do
experimento, acima da esperada pelo acaso. Isto significa que os
experimentos ganzfeld apresentaram resultados consistentes acima da média esperada pelas leis estatística. Entre
outras críticas, Hyman afirmou que os resultados positivos foram
obtidos porque os parapsicólogos publicavam apenas os experimentos que
apresentavam bons resultados. Entretanto, um levantamento realizado por
Susan Blackmore (Blakmore, 1980) dá conta de que os experimentos
ganzfeld não publicados apresentavam resultados semelhantes aos
experimentos publicados. Além disso, chegou-se à conclusão matemática
de que, para invalidar o conjunto de trabalhos que apresentavam bons
resultados experimentais, seria necessária uma quantidade tal de
pesquisas que não apresentassem índices acima do esperado pelo acaso,
que superava a possibilidade de tempo possível de realização das mesmas. Hyman
ainda sustentou que os bons resultados poderiam ter sido obtidos pela
existência de pistas sensoriais e por problemas no processo de
aleatorização dos alvos. (Hyman, 1985) Essa crítica foi levada foram
levadas em conta pelos parapsicólogos. Honorton e alguns colegas
desenvolveram um novo procedimento experimental, chamado ganzfeld
automático ou auto-ganzfeld, com a finalidade de impedir a
possibilidade de pistas sensoriais e de erros no processo de escolha
dos alvos. (Honorton et al., 1990) Se Hyman estivesse certo, os
índices obtidos com a nova técnica cairiam aos níveis esperados pela
chance matemática. Entretanto, a meta-análise dos resultados das
pesquisas que empregaram o auto-ganzfeld, mostrou significação
estatística, evidenciando uma vez mais a possibilidade da existência de
processos de comunicação psi. (Honorton et al., 1990) Visão
Remota, ou visão à distância, é o nome dado à técnica de pesquisa
parapsicológica em que uma pessoa, o emissor, tenta obter informações
de uma localidade distante dele. Em outras palavras, o emissor tenta
conhecer a realidade física distante dele por clarividência. Essa
técnica foi idealizada nos anos 70 por dois físicos, Russell Targ e
Harold Puthoff, no Stanford Research International. (Targ e Puthoff,
1977) A técnica clássica consistia em que o emissor tentasse descrever
o lugar em que uma outra pessoa, o emissor, estava. O local era
escolhido de forma aleatória, quando o emissor estava distante do
receptor. Recentemente, os noticiários de todo mundo
informaram que o governo americano gastou cerca de vinte milhões de
dólares subvencionando pesquisas de visão remota, tendo em vista as
possibilidades de aplicação militar. O programa, conhecido como Star Gate, foi realizado durante vinte e quatro anos, primeiramente com subvenção ao grupo do Stanford Research Institute International e, posteriormente, ao grupo do SAIC - Sciences Applications International Corporation, dirigido pelo Dr. Edwin C. May. As
notícias vieram a público porque o congresso americano estava
discutindo as destinações de verbas para o ano fiscal de 1995. O
congresso orientou a CIA - Central Inteligence Action, para revisar os resultados dos vinte e quatro anos de pesquisa do Star Gate com a finalidade de reconhecer o real valor e pertinência dessas pesquisas. A CIA se uniu ao American Institute for Research
(AIR) para realizar tal análise. Foram convidados especialistas de
reconhecida competência em suas especialidades para compor um painel de
discussões. O Prof. Ray Hyman foi convidado, além da estatística e
parapsicóloga, Profa. Jessica Utts, da Universidade da Califórnia,
Davis, dos doutores Michel Munford e Andrew Rose do American Institute Research. O Dr. David Goslin, presidente do AIR, coordenou o painel. A investigação da AIR, subvencionada pela CIA, concluiu que "efeitos laboratoriais estatisticamente significativos foram demonstrados, mas que serão necessárias mais replicações". Hyman e Utts escreveram revisões separadas que foram incluídas no relatório da AIR. Pediu-se
ao Dr. Hyman que utilizasse o mesmo material usado pela Dra. Utts em
sua análise. Entretanto, ele apenas fez um comentário sobre a análise
que a Dra. Utts fez a respeito desse material. O Dr. Hyman concluiu que
"o efeito de tamanho relatado nos experimentos do SAIC
eram muito grandes e consistentes para serem desprezados como sendo um
resultado acidental". (Hyman, 1995 p. 12) Hyman,
entretanto, afirmou que tal efeito matemático não seria suficiente para
justificar a conclusão de demonstração da existência de processos
anômalos de conhecimento. Sustentou, ainda, que ele não tinha segurança
de que problemas metodológicos haviam sido eliminados e que os
resultados obtidos pelo SAIC correspondiam aos resultados obtidos por
outros centros parapsicológicos. (Hyman, 1995, p. 14) A conclusão da Profa. Utts foi assim resumida: "Usando
os padrões empregados em qualquer outra ciência, concluiu-se que o
funcionamento parapsicológico foi bem demonstrado. Os resultados
estatísticos dos estudos examinados apresentam resultados distantes dos
esperados pelo acaso. Os argumentos de que os resultados poderiam ser
obtidos por erros metodológicos nos experimentos foram fortemente
refutados. Efeitos de semelhante magnitude àqueles encontrados nos
programas do SRI e do SAIC, subsidiados pelo governo, têm sido
encontrados em muitos laboratórios pelo mundo. Tal consistência não
pode ser prontamente explicada por alegações de erros ou fraude". (Utts, 1995, p. 15) Os
debates entre parapsicólogos e críticos exemplificados acima refletem
parte da luta travada pelos parapsicólogos para a aceitação da
Parapsicologia como ciência. Entretanto, como foi visto, os argumentos
dos críticos sempre levantam a possibilidade de que algum ato de
incompetência dos parapsicólogos poderia ser responsável pelos
resultados positivos das pesquisas parapsicológicas. A alegação de que
erros metodológicos poderiam ser responsabilizados levou os
parapsicólogos a revisar suas situações experimentais e a incluir,
muitas vezes, a presença de observadores críticos. Mas não há como
responder a críticas do tipo "sempre pode haver uma fraude". Argumentos
como este demonstram que a verdadeira posição do crítico é: "não pode
haver um fenômeno como esse". Alguns críticos até chegam a fazer tal
afirmação. (Alcock, 1981) Muitas vezes, o esforço do crítico em tornar
sua crítica objetiva pode ser compreendido como uma forma de defesa
contra a percepção de um elemento absolutamente irracional presente em
sua análise. Ao invés de reconhecer a irracionalidade de seu argumento,
acusa de irracionalidade os dados das pesquisas. Se esta
análise está correta, devem existir motivos para a rejeição da
possibilidade de fenômenos parapsicológicos. Tais motivos devem ser
suficientemente amplos, ou culturais, para que a análise não fique
restrita à esfera individual, mas que se estenda aos cientistas
enquanto grupo. AAAA ASSSASPoderíamos reconhecer tais motivos a partir
da análise do que é considerado possível ou impossível no paradigma
científico atual? Caso psi não esteja previsto por esse paradigma, que
saídas os parapsicólogos têm para garantir seu espaço na comunidade
científica? Ciência e Parapsicologia A ciência pode ser definida como "uma das formas de conhecimento produzido pelo homem no decorrer de sua história" (Andary et al., 1988). E caracteriza-se "por
ser a tentativa do homem entender e explicar racionalmente a natureza,
buscando formular leis que, em última instância, permitem a atuação
humana". (Andary et al., 1988) Apesar da definição acima
poder ser considerada suficiente para uma introdução ao tema, está
longe de ser completa e ser admitida em consenso pelos filósofos da
ciência. Existem muitas abordagens filosóficas e muitos critérios e
concepções de avaliação do que é ou pode ser considerado científico. Para
o objetivo deste trabalho, serão apresentadas, a princípio, algumas
abordagens que caracterizam o que pode ser chamado de "a visão
clássica" de ciência. Posteriormente será discutido, o conceito de
cientismo, cujas raízes encontram-se fincadas sobre a concepção
clássica de ciência. O cientismo servirá como base de reflexão sobre a
cientificidade da Parapsicologia e novos paradigmas serão trazidos à
discussão para resolver possíveis impasses. A ciência
enquanto disciplina independente é uma criação do homem moderno. As
bases epistemológicas sobre as quais a visão científica moderna se
estabeleceu podem ser encontradas nas postulações de alguns filósofos e
cientistas modernos, como Galileu Galilei, René Descartes, Francis
Bacon e Isaac Newton, entre outros. Stanislav Grof, ao discutir as
fundações da ciência ocidental, afirma que "durante os
três últimos séculos, a ciência ocidental foi dominada pelo paradigma
newtoniano-cartesiano, um sistema de pensamento baseado no trabalho do
cientista inglês Isaac Newton e pelo filósofo francês René Descartes". (Grof, 1988) Quais
seriam as seriam as características do pensamento
newtoniano-cartesiano? A ciência ocidental herdaria de Newton a visão
mecânica do universo, constituída, dentre outras características: do
atomismo; da noção de tempo absoluto e independente do mundo material;
e da noção de causa e efeito. A partir da noção de átomo, já presente
entre os gregos, sobretudo em Demócrito, Newton sustentou que tudo
quanto existe no universo é composto por partículas materiais
indivisíveis, cujo comportamento seria regido por leis físicas
precisas, capazes de determinar o funcionamento íntimo da matéria. Em
relação ao tempo, propôs sua autonomia do mundo material, apresentando
um fluxo contínuo e imutável, do passado em direção ao futuro. O
universo estaria submetido às leis de causa e efeito: toda ação física
é acompanhada de um efeito previsível sobre o mundo material. A noção
de causa e efeito estava na base da ação da força gravitacional,
exercida tanto entre os corpos celestes quanto entre os átomos e na
base de sua concepção de ciência. Todos os fenômenos presentes podem
ser compreendidos como o resultado de causas materiais identificáveis
no passado. "A imagem do universo resultante é a de um
relógio gigantesco inteiramente determinístico. As partículas movem-se
de acordo com leis eternas e imutáveis, e os eventos e processos do
mundo material consistem em cadeias de causas e efeitos interdependentes". (Grof, 1988) Ora,
se as leis naturais são deterministas, podemos reproduzir a cadeia
causa-efeito para obter um dado fenômeno. A reprodução experimental se
tornou um importante instrumento de compreensão da natureza e um
valioso parâmetro paraverificar a cientificidade de uma disciplina. Uma
das mais importantes contribuições do filósofo francês René Descartes
para a formulação da ciência ocidental foi sua afirmação do dualismo
existente entre mente (res cogitans) e matéria. (res extensa).
O dualismo cartesiano implica em que o conhecimento é possível a partir
do conhecimento objetivo do universo. O mundo material era compreendido
como uma realidade em si mesma, passível de ser apreendida,
utilizando-se o método correto. Descartes instaura, assim, a premissa
da objetividade, ou seja, da autonomia entre o observador e a realidade. Além
das características da ciência moderna, Hoyt L. Edge e Robert L. Morris
(Edge et al, 1986), apontam outro importante postulado da ciência do
século XVII: a observação como um espelhamento. Os autores referem-se
ao filósofo empirista John Locke. Ao contrário de Descartes, que estava
consciente das deficiências da percepção humana como meio de conhecer a
realidade, Locke sustentava que a partir dos sentidos o ser humano
conheceria o mundo material. Locke comparava a mente a um espelho, ou a
uma folha de papel em branco. Em contato com o mundo material por meio
dos sentidos, a mente seria tocada pelos traços da realidade. A
observação, como uma espécie de espelhamento da realidade, seria um
método eficaz e suficiente para apreender a realidade tal qual ela é. A
máxima de Locke, "Nihil est in intellectu quod no antea feurit in sensu" (Locke, 1823), está relacionada com a questão do conhecimento da realidade. Edge
e Morris se referem ainda a um outro importante postulado da ciência do
século XVII: a distinção entre distinção primária e secundária. "A
matéria é essencialmente átomos em movimento, cujas dimensões de
tamanho e velocidade são mensuráveis. Isto significa que há alguns
atributos da matéria que são inatos e essenciais para isso - as
qualidades primárias de solidez, extensão, quantidade, movimento, sobra
e número. Por outro lado, há qualidades secundárias que não descrevem a
natureza inerente do mundo material". (Edge et al., 1986) Isto
implica que algumas qualidades são percebidas apenas indiretamente,
pela mente, por exemplo. Seria o caso das cores, dos sons, dos gostos e
dos cheiros. A ciência estudaria apenas as qualidades primárias, já que
são diretamente mensuráveis. As qualidades secundárias apenas poderiam
ser objeto de investigação científica quando houvesse um meio de
substituir a sensação por algum parâmetro objetivo. Por exemplo,
substitui-se a sensação 'quente' ou 'frio', pela medição objetiva da
temperatura através de um termômetro. Como conseqüência disso, algumas
experiências humanas poderão não figurar como objeto de estudo da
ciência, ou seja, não seriam objetos legítimos de estudo, por não se
enquadrarem no método de investigação proposto pela ciência. A
dicotomia sujeito/objeto, a distinção primária e secundária, a
observação como espelhamento, a existência de leis deterministas
absolutas, a replicação e o atomismo podem ser considerados como os
pressupostos que formam a base do pensamento científico moderno. A
utilização de tais postulados foi, até certo ponto, fundamental para o
desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Nas palavras de Grof: O
modelo newtoniano-cartesiano, em suas numerosas ramificações e
aplicações, provou seu sucesso em diversas áreas do conhecimento, tendo
proporcionado uma explicação compreensiva dos mecanismos básicos do
sistema solar e sendo eficazmente aplicado para a compreensão do
movimento contínuo dos fluidos, da vibração dos corpos elásticos e da
termodinâmica. Constitui-se como base e força propulsora dos incríveis
progressos das ciências naturais dos séculos dezoito e dezenove". (Grof, 1989) Delineado
o modelo da ciência clássica, poderia-se perguntar: a Parapsicologia,
desde o ponto de vista da ciência clássica, pode ser considerada uma
ciência? A resposta é não. Em primeiro lugar, a Parapsicologia estuda
experiências humanas. Experiências não seriam um objeto legítimo de
estudo científico porque não são diretamente observáveis. O aspecto
subjetivo da experiência anularia sua investigação. Em
segundo lugar, tais experiências nem sempre permitem medição.
Experiências, subjetivas por definição, nem sempre podem ser
transformadas em valores numéricos ou ser apreendidas por equipamentos
que permitam tornar objetivas as vivências e sensações do sujeito. Em
terceiro lugar, muitas das experiências que a Parapsicologia estuda
podem implicar na interação entre a mente e a matéria, ou mesmo entre
mentes. Esta característica colocaria em cheque o pressuposto de que o
mundo material e a mente são autônomos, já que poderia haver alguma
forma de interação entre sujeito e objeto, diferentes das interações
previstas, ou seja, por meio diferente dos sentidos. Em
quarto lugar, há experiências que parecem estar relacionadas a eventos
à distância no espaço e no tempo. As experiências parapsicológicas
podem trazer dúvidas sobre as noções de espaço e tempo independentes,
de continuidade permanente do fluxo do tempo e, sobretudo, de causa e
efeito. Como seria possível existir um efeito antecedente a uma causa!? Em
quinto lugar, essas experiências não puderam ser reproduzidas à
vontade. Isto significaria que o que se pretende estudar não obedeceria
a leis claras e determinadas, o que conseqüêntemente implicaria, de
novo, na rejeição do objeto de estudo da Parapsicologia do escopo
científico. Em resumo: a Parapsicologia não seria uma
ciência porque pretende estudar experiências não apenas impossíveis de
serem estudadas, mas impossíveis de existir. Apesar disso... A
Pesquisa Psíquica, nome dado à disciplina que tinha como finalidade
pesquisar experiências consideradas anômalas, nasceu no final do século
XIX, com a fundação da Society for Psychical Research (SPR),
em Londres, em 1882, no contexto da ciência clássica. Os fundadores da
SPR se opuseram à noção clássica da ciência e devotaram esforços para
verificar a realidade das alegações de pessoas que se diziam
possuidoras de capacidades parapsicológicas. Henri Sidgwick, primeiro
presidente da SPR, assim se manifestou no discurso inaugural da mesma: "Por
que constituir uma sociedade de investigações psíquicas neste momento
para pesquisar não apenas o fenômeno de leitura do pensamento, mas
também o de clarividência e mesmerismo, e inclusive a obscura massa de
fenômenos comumente chamados espíritas? Todos devemos estar em acordo
que o presente estado de coisas é um escândalo para a época iluminada
em que vivemos. Mantém-se a discussão sobre a realidade destes
maravilhosos fenômenos, cuja importância científica não pode ser
exagerada se apenas uma décima parte do alegado por testemunhos dignos
de crédito fosse certo. Declaro que é escandaloso que subsista a
discussão sobre a realidade destes fenômenos quando tantos testemunhos
competentes afirmaram neles acreditar, quando tantos outros estão
profundamente interessados em elucidar a questão, não obstante a
atitude de incredulidade que adotou a totalidade do mundo culto. Agora,
nosso primeiro objetivo, o fim que perseguimos todos unidos, seja como
crentes ou como incrédulos, é o de realizar uma tentativa segura e
sistemática para pôr fim, dum ou doutro modo, a este escândalo. Algumas
das pessoas às quais me dirijo, sentem sem dúvida, que esta tentativa
pode levar unicamente à demonstração destes fenômenos; outras acreditam
que o mais provável é que a maioria deles, se não todos, sejam
rejeitados; mas, como membros desta associação, não assumimos
compromisso de nenhuma espécie e concordamos em que qualquer
investigação que façamos em particular, deve realizar-se com o único
fim de determinar os fatos e sem chegar a nenhuma conclusão
pré-concebida sobre sua natureza". (Citado em Fantoni, 1981) William
Crookes, grande físico e químico do século XIX, foi criticado pelos
cientistas de sua época por estudar fenômenos parapsicológicos.
Diziam-lhe que estes fenômenos eram impossíveis e que, portanto,
deixasse de estudá-los. Crookes, então, lhes disse: "Eu não digo se eles são possíveis ou impossíveis. Eu digo que eles existem".
A resposta de Crookes nos dá conta de que a posição dos cientistas pode
estar atrelada às concepções científicas aceitas em certo momento
histórico. As palavras de Crookes e Sidgwick mostram um certo grau de
descompromentimento com as concepções científicas, em favor do espírito
científico de estudar o que se apresente ao cientista. Na verdade, o
que está em questão é até que ponto os cientistas estão isentos das
concepções científicas de seu tempo. Algumas mudanças nos
postulados científicos ocorridas durante o século XX foram fundamentais
para o questionamento da ciência clássica, ou newtoniana-cartesiana e
como preparação para a aceitação de anomalias como as parapsicológicas.
A verificação de que há uma certa descontinuidade na história da
ciência, ofereceu aos cientistas uma dose de humildade e desconfiança
em relação aos processos científicos, muitas vezes vistos como
inquestionáveis. A análise histórica que Thomas Khun (1962)
faz da ciência é fundamental para verificarmos quais são as relações
entre o conhecimento científico, a aceitação de anomalias em dado
momento histórico e o poder. Entre outras postulações, Khun define
anomalia como o fenômeno para o qual não há teoria científica
disponível aceita em consenso em dado momento histórico. Segundo Khun,
a "ciência normal" a princípio rejeitaria tais anomalias como
legítimas. Posteriormente, graças à presença contínua das anomalias,
estas são, então, incorporadas às teorias vigentes, que sofrem certa
transformação, de forma a acomodar as anomalias. Tais transformações
não implicam em alteração substancial da teoria, apenas ajustes
periféricos. Como novas anomalias são identificadas e como simples
acomodações teóricas passam a ser insustentáveis, novas teorias surgem,
em um processo de "revolução científica", em que "ciências emergentes"
passam a ser ciências normais graças à aceitação de seus postulados. A
resistência na aceitação de anomalias é fundamental para a estabilidade
interna do processo científico. A rejeição de anomalias tem como
parâmetro a teoria vigente. A análise de Khun demonstra que a ciência
não trabalha com regras simples e que os cientistas estão comprometidos
com seu paradigma. Livros-texto são produzidos informando aos neófitos
os conhecimentos legítimos; apoio financeiro é dado aos trabalhos que
sustentam, direta ou indiretamente, o paradigma vigente; resultados
experimentais anômalos são rejeitados como sendo produtos de erros de
metodologia... Khun exemplifica a força do paradigma com a órbita de
Urano, no século XIX. "... os astrônomos reconheceram
que a órbita de Urano, quando calculada sob os princípios de Newton,
não cabia nas observações. Entretanto, a razão para essa discrepância
poderia ser que um outro planeta, desconhecido naquele momento, estaria
exercendo uma força gravitacional sobre Urano e causando seu desvio da
órbita esperada, da mesma forma como a observação mostrava. Baseados
nesta hipótese, os astrônomos predisseram o tamanho do planeta
desconhecido e sua localização e observações posteriores de fato
confirmaram que o planeta, Netuno, existia. É desnecessário dizer que
isto foi uma dramática confirmação dos princípios newtonianos.
Entretanto, uma situação exatamente análoga a essa noticiou que havia
uma disparidade entre a teórica órbita de Mercúrio e a órbita realmente
observada. Novamente, os astrônomos tomaram esse caso como mais um
quebra-cabeça a ser resolvido através da estrutura teórica newtoniana,
predizendo a existência de um outro planeta a ser descoberto. Neste
caso, a fé de que o problema poderia ser resolvido pela mecânica
newtoniana estava mal embasada, já que apenas com a introdução da
matemática prevista pela teoria geral da relatividade é que cálculos
precisos sobre a órbia de Mercúrio puderam ser feitos". (Citado em Edge et al., 1986) Um
outro fator fundamental para a mudança da visão tradicional ou clássica
de ciência foi a mudança da noção de percepção. O filósofo Immanuel
Kant questionou a visão clássica de percepção já no século XVIII. Para
Kant, a mente não era uma espécie de espelho que apenas recebia os
estímulos do meio tal qual eles se apresentavam na realidade. Antes, a
mente estava ativa, influenciando no que era percebido, através de
'categorias', filtros através dos quais percebemos. Da mesma
forma, mais modernamente, a Psicologia é fundamental para o
reconhecimento da complexidade do fenômeno da percepção. A Psicologia
da Gestalt, por exemplo, reconheceu o papel do observador no processo
de percepção, afirmando que sempre há um envolvimento da constituição
psíquica do sujeito, um mecanismo de ação e não apenas de coleta de
dados. A Psicanálise foi importante por mostrar que tendemos a
construir a realidade conforme nossos desejos. (Freud, 1981) Piaget,
com sua Epistemologia Genética, demonstrou que a construção do
conhecimento é um processo complexo e jamais unilateral. (Piaget, 1969) Como
foi visto na sessão anterior, a visão clássica de ciência, tomou como
parâmetro de análise o desenvolvimento da Física. Quando se afirma que
a filosofia científica clássica é newtoniana-cartesiana, se está
reconhecendo, de certa forma, a importância que esta ciência tem sobre
as noções do que é ou não científico. A Física parece representar uma
espécie de diapasão, sob a égide do qual a orquestração científica
ocidental deve estar embasada. Talvez mais importante do que o
reconhecimento da descontinuidade da história da ciência e a mudança na
visão de percepção, as novas formulações da Física foram fundamentais
para a mudança da visão clássica de ciência. A nova Física, baseada na
Teoria da Relatividade de Albert Einstein, e na Mecânica Quântica de
Max Planck, revolucionou não apenas as concepções da Física Clássica,
mas também a história do pensamento do século XX. A nova
Física questionou o atomismo promovendo a noção de 'funções contínuas',
rejeitou a aceitação de invariáveis físicas, aceitando a relatividade
ou inter-dependência entre tempo e espaço, e reintroduziu a consciência
como importante fator na observação, sustentando que o observador
influencia o observado. Os fatores de questionamento das
concepções da visão clássica de ciência apresentados foram suficientes
para predispor os cientistas atuais para uma aceitação de anomalias
como as parapsicológicas? A resposta a esta pergunta não é simples. Por
um lado, como foi apresentado, há críticos cujos argumentos parecem
estar alinhados à visão tradicional ou clássica de ciência. Por outro
lado, é inegável que a Parapsicologia conquistou certo espaço
científico. Assim, não se pode dizer que haja uma aceitação integral da
Parapsicologia nos meios científicos, da mesma forma que seria
incorreto dizer que há rejeição. A análise do sociólogo James McClenon em seu livro Deviant Science: The Case of Parapsychology,
pode ser útil para se compreender os processos de aceitação e rejeição
da Parapsicologia do contexto científico. McClenon sustenta que a
rejeição por parte dos cientistas se dê por conta da impregnação do
cientismo na mentalidade científica. Ele define cientismo como "o
corpo de idéias usadas para legitimar a prática da ciência. Essa idéias
são usadas para avaliar alegações de anomalias em termos de atitudes
existentes na ciência institucionalizada". (McClenon, 1984, p. 222)
Os cientistas definem o que é ou não ciência a partir do cientismo, que
prevê que anomalias devem ser investigadas apenas quando puderem ser
repetidas, investigadas em laboratório e permitirem explicações de tipo
mecanicista. Segundo McClenon, a aceitação da Parapsychological Association (PA) como membro da American Association for Advancement of Science
(AAAS), em 1969, não se deveu à aceitação das anomalias estudadas pela
Parapsicologia, mas pelo papel desempenhado por aspectos políticos e
retóricos que envolveram tal aceitação. Antes da aprovação em 1969, a
afiliação da PA à AAAS havia sido negada por quatro vezes, em 1961,
1963, 1967 e 1968. Na verdade, a Parapsicologia não sofreu qualquer
importante alteração de 1961 a 1969. O que aconteceu? Em primeiro
lugar, Douglas Dean, um ex-presidente da PA e, então, secretário dessa
associação, havia empreendido cuidadosos esforços para melhorar as
estratégias retóricas dos membros da PA antes das audiências. Dean
tratou de apresentar a proposta da PA de forma aceitável do ponto de
vista científico. Além disso, em 1969 houve quatro pronunciamentos
antes da votação dos membros da AAAS. O primeiro foi contrário à
aceitação da PA, alegando que os fenômenos que a Parapsicologia dizia
estudar não existiam, portanto não havia trabalho científico a fazer. O
segundo dava conta de que a pessoa não conhecia suficientemente a
Parapsicologia a ponto de votar a respeito. O terceiro não foi
identificado. O quarto foi feito por H. Bentley Glass, presidente da
AAAS: "O Comitê do Conselho considerou o trabalho da PA
por um longo período. O comitê chegou à conclusão de que esta é uma
associação que está investigando fenômenos controvertidos ou
inexistentes; entretanto, está aberta à afiliação de críticos e
agnósticos; e eles ficaram satisfeitos porque ela usa métodos
científicos de pesquisa; assim, essa investigação pode ser vista como
científica. Além disso, informações chegaram até nós dando conta de que
o número de Membros da AAAS que são também membros da PA não é de
quatro como se encontra na agenda, mas nove". (McClenon, 1986, 128) Segundo McClenon, "Glass
apresentou exemplos das mais importantes estratégias retóricas dos
parapsicólogos (o uso da metodologia científica, metamorfose)."
Após a fala de Glass, ele perguntou se mais alguém gostaria de se
pronunciar. A conhecida e respeitada antropóloga Margareth Mead tomou,
então, a palavra: "Nos últimos dez anos nós temos estado
debatendo o que constitui a ciência e o método científico e o que as
sociedades usam disso. Nós até mesmo mudamos nossos estatutos a
respeito disso. A PA usa estatística e julgamento cego, placebos,
julgamento de duplo-cego e outros expedientes científicos padrão. A
ampla história do desenvolvimento científico está repleta de cientistas
investigando fenômenos que o 'establishment' não acreditava que
existissem. Eu proponho para análise que nós votemos em favor do
trabalho da associação". (McClenon, 1984, p. 182) A
votação teve como resultado a aceitação da PA como membro da AAAS, por
cerca de 160 a 180 votos favoráveis contra entre 30 a 35 desfavoráveis.
(McClenon, 1984) McClenon reafirma: "O opoio do
voto de afiliação ilustra os aspectos políticos do processo de
argumentação. Apesar de os parapsicólogos não utilizarem novas
estratégias retóricas (por exemplo, um experimento replicável ou uma
orientação teórica mais importante), eles desenvolveram a habilidade
política necessária para apresentar seus argumentos. A influência de
Dean em favor da causa dos parapsicólogos foi instrumental na conquista
da afiliação da PA. O apoio de Margaret Mead também deve ser
considerado importante". (McClenon, 1984, p. 113) Os
exemplo acima demonstra que a instituição 'ciência', enquanto
instituição humana, está à mercê de aspectos subjetivos. Vemos que a
aceitação da Parapsicologia como campo científico legítimo passa,
sobretudo, por questões ideológicas, filosóficas e de poder. O Dr.
Stanley Krippner afirma que: "Alguns escritores tomaram a
posição de que a Pesquisa Psíquica não se qualifica como ciência, mas
esta avaliação depende dos pressupostos que eles fazem sobre o trabalho
científico." (MacLellan, 1995) A vitória da retórica e os limites da política Existem
alguns elementos que podem não constituir os principais fatores de
verificação da cientificidade de uma disciplina, mas são tão
fundamentais para o desenvolvimento das mesmas, que não se encontrará
alguma ciência sem tais elementos. Estes elementos são: a existência de
uma instituição profissional; a existência de publicações
especializadas; a existência de centros de pesquisa, acadêmicos ou
privados; a existência de cursos acadêmicos que confiram graus. A
Parapsicologia conta com tais elementos. Como já foi
apresentado, a PA foi aceita como membro da AAAS, em 1969. A PA é uma
organização profissional, que congrega pouco menos de 400 membros.
Fundada em 1957, a PA tem como objetivos: o desenvolvimento da
Parapsicologia como ciência; a disseminação do conhecimento do campo; e
a integração de seus resultados àqueles de outros ramos da ciência.
Anualmente, a PA realiza uma convenção, com a finalidade de apresentar
as pesquisas em desenvolvimento, facilitando o trabalho crítico dos
seus membros. Publica os anais das convenções, o Research in Parapsychology e um boletim informativo, o PA News.
A PA também tem como trabalho refletir sobre o papel dos
parapsicólogos, através da consideração dos aspectos éticos que
envolvem as atividades dos profissionais. Um código de ética,
constantemente revisado, foi publicado pela PA, com a finalidade de
oferecer parâmetros de comportamento para os pesquisadores. O sistema
de afiliação é rígido, sobretudo para os níveis mais altos da PA. A
maioria dos membros da PA são vinculados a instituições científicas
universitárias ou privadas. Existem vários centros de
pesquisa espalhados pelo mundo, com atividades variadas, como
publicações, pesquisas e ensino. Nos Estados Unidos, destacam-se três
centros de pesquisa. O Rhine Research Center, o Princeton Engeenering Anomalies Research Laboratories e a Consciousness Research Division. O Rhine Research Center (RCC), antiga Foundation for Research on the Nature of Man,
é o mais tradicional de todos e também o mais antigo. Foi fundado em
1964 pelo casal Rhine, quando J. B. Rhine se aposentou de suas
atividades na Duke University. O RCC abarca o Institute for Parapsychology, dedicado à área de pesquisa e ensino e a Parapsychology Press, que tem a finalidade de manter o Journal of Parapsychology.
Na área de pesquisas, sua ênfase é eminentemente experimental, seguindo
a tradição do Dr. Rhine. Atualmente são realizadas pesquisas na área de
ganzfeld, ESP e percepção subliminar. Na área de ensino, o RRC promove
anualmente o Summer Study Program, um curso de oito semanas
durante os meses de junho e julho. A direção atual está nas mãos da
Dra. Sally Feather, filha do casal Rhine. Os principais parapsicólogos
do RRC são o Dr. Richard Broughton, diretor de pesquisas, e o Dr. John
Palmer, diretor de ensino. O Princeton Engeenering Anomalies Research Laboratories
(PEARL) está sediado na Universidade de Princeton, e tem como seu
diretor o Dr. Robert Jahn. O PEARL tem como principal atividade a
pesquisa sobre o relacionamento entre mente-matéria, a partir das
investigações de psicocinesia. O laboratório conta com equipamentos que
permitem a realização de milhares de séries experimentais em curto
espaço de tempo. A Consciousness Research Division
(CRD) é o centro mais recente. Fundado em 1994, a CRD, tem como diretor
o Dr. Dean Radin. O foco das pesquisas de Radin e Jannine Rebman,
também pesquisadora da CRD, são "experimentos psi na vida cotidiana",
ou seja, situações do dia-a-dia, altamente controladas, em que psi
poderia estar em funcionamento. Situações como essas são encontradas em
cassinos, em que há um rigoroso controle sobre a aleatoridade dos jogos
e das condições de motivação dos participantes. Radin e Rebman têm
realizado investigações que visam verificar quais as potenciais
aplicações práticas de psi. (Radin e Rebdman, 1996) Ainda nos EUA, a American Society for Psychical Research (ASPR) é importante, sobretudo por publicar o Journal of American Society for Psychical Research
(JASPR). A linha editorial do JASPR é balanceada entre pesquisas
experimentais, pesquisas de casos espontâneos e artigos teóricos. Na Europa, o centro mais importante é a Koestler Chair of Parapsychology
(KCP), na Universidade de Edimburgo. Estabelecida em 1985 com fundos
doados pelo casal Cristina e Artur Koestler, a KCP é não apenas um
centro de investigações, mas também um centro de formação acadêmica,
que confere o grau de Doutor em Psicologia, para pesquisadores que
apresentem teses cujo tema seja ligado à Parapsicologia. Dirigido pelo
Dr. Robert Morris, o foco da KCP é o relacionamento entre Psicologia e
Parapsicologia, daí porque serem considerados trabalhos que apresentem,
por exemplo, aspectos relacionados à psicologia da fraude, aos aspectos
fenomenológicos das experiências parapsicológicas, aos aspectos de
personalidade relacionados à tecnica ganzfeld e aos aspectos
diferenciais entre psicopatologias e manifestações parapsicológicas. A
KCP publica o European Journal of Parapsychology. Na
América Latina há alguns centros de pesquisa e difusão da
Parapsicologia. Sem dúvida, a Argentina é o país que mais tradição
apresenta na área. As décadas de 1960 e 1970 ficaram marcadas pelo
trabalho do psicólogo de reconhecida qualidade profissional, Dr.
Ricardo Musso. Nas décadas de 1970 e 1980, o trabalho do jesuíta e
químico Novillo Pauli, no Instituto de Parapsicologia da Universidad del Salvador, foi reconhecido pelas suas pesquisas a respeito da ação psicocinética sobre o crescimento de plantas. Atualmente, o Instituto de Psicologia Paranormal
é o mais ativo dos centros argentinos. Dirigido por Alejandro Parra, o
instituto promove encontros, pesquisas e a publicação da Revista Argentina de Psicologia Paranormal. No
Brasil, as mais conhecidas personalidades da Parapsicologia são o Pe.
Oscar G. Quevedo e o engenheiro Hernani Guimarães Andrade. O Pe.
Quevedo dirige o Centro Latino-Americano de Parapsicologia (CLAP),
criado por ele no final da década de 1960. O CLAP tem como atividade
fundamental a difusão da Parapsicologia através de cursos e
publicações. Na década de 1970, algumas pesquisas experimentais foram
empreendidas e, até a atualidade, são desenvolvidas pesquisas de casos
espontâneos, sobretudo, do assim chamado fenômeno de poltergeist ou
casas mal-assombradas. O Pe. Quevedo escreveu nove livros até o
momento, todos ligados à Parapsicologia e a questões religiosas.
(Quevedo, 1978, 1982, 1983a, 1983b, 1983c, 1989, 1992a, 1992b, 1996) Hernani
Guimarães Andrade é um conhecido e ativo espírita, que fundou, na
década de 1960, o Insituto Brasileiro de Psicobiofísica. Realizou
várias pesquisas de casos espontâneos, sobretudo, do fenômeno
poltergeist, e de casos de lembranças de vidas passadas. Escreveu
monografias e livros em que apresenta e discute o impacto de suas
pesquisas em suas concepções metafísicas. (Andrade, 1959, 1976, 1983,
1984, 1986, 1987, 1988) Quevedo e Andrade são o retrato da
Parapsicologia brasileira até o início da década de 1990. As
preocupações de ambos sempre residiram na utilização da Parapsicologia
como instrumento de defesa e ataque religioso. (Hess, 1991; Zangari e
Machado, 1995; Machado, 1996) No início dos anos 90, a Parapsicologia
brasileira ganhou a presença de jovens parapsicólogos, mais afinados
com propósitos científicos do que religiosos. Integrados ao trabalho
dos demais membros da Parapsychological Association, esses
parapsicólogos se organizaram e formaram centros de pesquisas e ensino,
iniciaram publicações e fundaram uma organização profissional nacional.
Tais parapsicólogos integram vários centros de pesquisa e/ou ensino,
como o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas; a Faculdade
de Ciências Bio-Psíquicas do Paraná; o Curso de Pós-Graduação em
Ciência e Parapsicologia, da Universidade Veiga de Almeida, no Rio de
Janeiro; e o INTER PSI - Instituto de Pesquisas Interdisciplinares das
Áreas Fronteiriças da Psicologia, da Faculdade Anhembi Morumbi. Surgiu
uma publicação especializada, a Revista Brasileira de Parapsicologia
e uma associação nacional, a Sociedade Brasileira para o Progresso da
Parapsicologia. Alguns brasileiros têm apresentado trabalhos nas
convenções anuais da PA e publicado artigos em publicações afiliadas à
PA (Carvalho, 1992; Zangari e Machado, 96) demonstrando o início de uma
troca de informações entre brasileiro e estrangeiros. A Parapsicologia
no Brasil, como ciência, é ainda adolescente: está se estruturando e
buscando uma identidade. (Zangari e Machado, 1995) Apesar
dessas e outras vitórias, a Parapsicologia não conta com a aceitação da
maior parte dos cientistas de elite. Em 1982, McClenon realizou uma
pesquisa entre os cientistas de elite da American Association for Advancement of Science
com o objetivo de obter informações sobre a posição e conhecimento dos
mesmos em relação à Parapsicologia. (McClenon, 1984) Tais informações
seriam importantes para se formar um quadro do processo de
reconhecimento da Parapsicologia, tendo como pano-de-fundo o fato de
que a legitimação científica do campo é um processo retórico e
político. Como conclusão dessa pesquisa, McClenon escreceu: "A
população dos cientistas de elite pesquisada neste estudo demonstrou um
grau de ceticismo em relação à ESP mais alto do que qualquer outro
importante grupo pesquisado nos últimos vinte anos. Essa dúvida sobre a
probabilidade da ESP está positivamente relacionada à rejeição da
legitimidade da Parapsicologia. Na população de cientistas que
constituia uma elite 'administrativa', esses resultados lançam luz
sobre a razão pela qual a Parapsicologia falhou em ganhar total
legitimidade na comunidade científica, mesmo que seus proponentes
tentassem adequá-la a todas as normas e cânones da ciência. Nesse grupo
de cientistas de elite, a crença na ESP está mais proximamente
relacionada à experiência pessoal do que à familiaridade com a
literatura sobre psi. Há uma tendência daqueles que duvidam da
existência da ESP em citar uma razão apriorística para sua opinião. A
freqüência de experiências anômalas relatadas pelos membros dessa
população é alta e positivamente relacionada à sua crença na ESP.
Comparada com a população americana em geral, essa elite de cientistas
relata baixa porcentagem de experiências anômalas. Isto sugere que tais
experiências violam aspectos da visão de mundo científica e que
aspectos da educação científica e do processo de socialização reduzem o
valor dado a essas experiências. Estes resultados são semelhantes
àqueles apresentados pelo Gallup (1982). Ele encontra em um
levantamento nacional líderes científicos e autoridades médicas tendem
a rejeitar, desacreditar ou explicar os casos de 'experiências próximas
da morte'. Enquanto 67% da amostra nacional endossou a crença na vida
depois da morte, apenas 32% dos médicos e 16% dos cientistas assumiram
tal posição na amostra do Gallup. Pode-se esperar
que os cientistas de elite defendam a visão de mundo científico mais
vigorosamente que os cientistas que não são de elite porque parte de
seu papel como elite é definir a natureza da ciência. Isto os leva à
tendência de estigmatizar os cientistas que investigam experiências
anômalas (ou que tentam induzir tais experiências sob condições de
laboratório) como tolos, incompetentes ou fraudulentos". (McClenon, 1984) "Apesar
da maioria dos cientistas modernos enxergarem a pesquisa
parapsicológica como legítima, os cientistas de elite se constituem em
problema especial aos parapsicólogos. Diferentemente da maioria dos
cientistas de faculdades, que aceitam a possibilidade da existência de
ESP (Wagner & Monet, 1979), os cientistas de elite tendem a
rejeitar alegações parapsicológicas." (McClenon, 1990) Essa
pesquisa nos mostra que os cientistas de elite não conhecem as
pesquisas parapsicológicas, seus resultados e suas implicações. A
crença na ESP, baseada em experiências pessoais, é o fator mais
importante para, indiretamente, legitimarem a Parapsicologia. Mas, a
partir da pesquisa de McClenon, é possível se esperar uma crescente
aceitação da Parapsicologia, já que haveria uma crescente crença em
psi. Existe um relacionamento positivo entre idade e crença na ESP. "Em
1981, a porcentagem dos cientistas de elite da AAAS que nasceram antes
de 1919 e que acreditavam na ESP como um 'fato' ou como 'provável', foi
de 25%. Daqueles nascidos depois de 1936, 39% enquadram-se nessa
categoria. Se essa correlação significa uma tendência, a maioria dos
'mais jovens' cientistas de elite serão mais 'crentes' na ESP nas
próximas décadas". (McClenon, 1984) O que é importante
notar, novamente, é que a legitimação da Parapsicologia depende de
fatores objetivos como a validade dos métodos de avaliação utilizados;
do peso das análises estatísticas favoráveis à exitências dos fenômenos
parapsicológicos; mas também de fatores subjetivos, relacionados a
aspectos pessoais e grupais. É possível que Heisemberg estivesse certo
ao afirmar que "uma geração não muda de opinião pela mera
apresentação de argumentos. As opiniões são mudadas porque essa geração
morre e uma nova toma o seu lugar". Panorama futurista Que
fatores poderiam contribuir para a total legitimação da Parapsicologia
como ciência? O que isto representaria a nível de impacto para a
ciência? McClenon oferece quatro possíveis cenários para que
a Parapsicologia seja aceita integralmente como ciência. O primeiro
seria se os parapsicólogos oferecessem uma explicação macanicista para
psi. "Tal explicação deve interpretar os fenômenos como
máquina, de forma causal, geralmente usando termos físicos, químicos ou
matemáticos". (McClenon, 1990, p. 129) O apelo à teoria
conhecida, à visão clássica de ciência ou de cientificidade de uma
disciplina, é vista como uma saída possível. Mas isto não implicaria na
interpretação errônea de psi? A compreensão de psi não implicaria, como
as pesquisas parecem apontar, que será necessária uma nova concepção da
realidade, que possa integrá-lo como 'natural' ou 'normal'? A aceitação
de psi não está esperando por um cenário de revolução científica? O
segundo cenário proposto, teria como base o fato de que algumas
pesquisas em outras áreas da ciência pudessem dar apoio à crença de
psi. Por exemplo, descobertas da Física, ou da Neurologia, poderiam dar
suporte à ESP, digamos, por reconhecer a existência de 'troca de
informação entre sistemas vivos à distância'. O terceiro
cenário teria como protagonistas não os cientistas apenas, mas toda a
população, que teria tal nível de aceitação da idéia de psi, que seria
impossível negar seu estudo nos meios acadêmicos. A crença em psi pode
ser uma das conseqüências da expansão de movimentos sociais, como o
Esoterismo ou a Nova Era, ou mesmo o Espiritismo, que não nega a
existência de psi entre os vivos, apenas a estende para a possibilidade
de psi entre vivos e mortos. O quarto cenário seria produzido
por mudanças demográficas pelas quais as nações estão passando. A
população de velhos aumenta rapidamente no planeta. Isto poderia levar a população a se interessar mais pelo tema da morte.
"Um ramo da Parapsicologia que conduz pesquisas científicas sociais
'normais' relacionadas a eventos de experiências próximas à morte e de
aparição, poderão ser aceitos pelos cientistas estabelecidos que estarão
buscando pelo desenvolvimento de técnicas de ajuda a uma população
crescentemente mais idosa e sofrendo dos traumas da morte" (McClenon, 1990, p. 133)
Não sabemos qual será o futuro da pesquisa parapsicológica, mas sabemos
que as implicações científicas relacionadas com as experiências
parapsicológicas são evidentes. Nosso conhecimento sobre a consciência pode
estar limitado. Os limites que impomos à realidade podem ser muito
estreitos. Nossas teorias sobre a comunicação humana podem estar
deixando de lado um aspecto importante do relacionamento entre os seres
humanos. Da
mesma maneira, nossas concepções sobre a ação do ser humano no ambiente
podem estar excluindo processos que implicariam em uma maior integração
entre o ser humano e seu meio.
* Wellington Zangari
Coordenador
Inter Psi
Grupo de Semiótica, Interconectividade e Consciência,
Centro de Estudos Peirceanos,
Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica,
PUC-SP
E.mail: pesquisapsi@gmail.com
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