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A Lógica Científica PDF Print E-mail
Written by Administrator   
(por Leonardo Stern)

O método científico produziu diferentes ferramentas para orientar os pesquisadores durante o desenvolvimento de uma hipotese.Para diferenciar o uso da lógica em situações usuais onde apenas a auto-consistencia e a coerencia dos fatos é avaliada das vezes em que o raciocinio lógico incorpora as ferramentas disponibilizadas pelo metodo cientifico me refiro ao segundo uso da lógica como "lógica científica".

Existem situações dentro do desenvolvimento de uma hipotese, em que o teorizador precisa escolher entre varias alternativas com igual consistencia lógica. plausibilidade semelhante. Nestes casos, a lógica científica privilegia teorias e modelos com maior simplicidade seguindo um artifício conhecido como Navalha de Occam, este principio tem sido alvo de grandes discussões e é frequentemente empregado de forma errada tanto pelos céticos como pelos não-céticos. Mediante a estes problemas, faz-se necessário aprentar o artificio em seu contexto originale em sua evolução histórica. A Navalha de Occam era originalmente expressa pela frase "'Pluralitas non est ponenda sine neccesitate' ou "pluralidade não deve ser colocada sem necessidade". As palavras são do monge Franciscano inglês, William of Ockham (1285-1349 a.C.). Seguindo a filosofia franciscana, William era um minimalista na sua vida, idealizando uma vida de pobreza e desapego. Seguidor fiel desta filosofia, acabou, como São Francisco, lançando duras críticas ao Papa e à Igreja mas, acabou excomungado pelo Papa João XXII. Em resposta a sua expulsão da Igreja, William escreveu um tratado tentando demonstrar que o Papa era um herético.[...]

O uso por William do principio da pluralidade desnecessária ocorre em debates sobre o equivalente medieval do psi. Por exemplo, no Livro II dos seus "Commentary on the Sentences" de Pedro Abelardo, ele debruça-se sobre a questão de saber se "Um Anjo mais Elevado sabe graças a menos espécies que um Inferior".Usando o principio de que a "pluralidade não deve ser colocada sem necessidade" ele argumenta que a resposta é afirmativa. Também cita Aristóteles quando afirma que "quanto mais perfeita a natureza, menos meios necessita para a sua operação".[...]

A navalha de Occam é também conhecida como principio da parcimônia. Hoje em dia é interpretada como "a explicação mais simples é a melhor" ou "não multiplique hipóteses desnecessariamente". Apesar de ser um conceito filosófico é freqüentemente usada em vários ramos da ciência num esforço de estabelecer critérios para escolher entre várias teorias com igual valor explicativo. Quando dando razões explicativas para algo, não postule mais que o necessário. Von Daniken 1.4 podia estar certo: talvez extraterrestres tenham ensinado antigos povos técnicas avançadas de engenharia ou conceitos artísticos inexistentes para a época mas, não precisamos postular visitantes extraterrestres para explicar os feitos desses povos. Porquê postular pluralidade desnecessariamente? Ou, como diríamos hoje, não faça mais declarações do que o necessário.[...]

O principio original parece ter sido invocado num contexto de uma crença na noção de que a perfeição é a própria simplicidade. Isto é um principio metafísico que partilhamos com os medievais e os gregos antigos. Pois, como eles, a maior parte das nossas disputas não é acerca do principio, mas do que conta como necessário. Para os materialistas, os dualistas multiplicam pluralidade desnecessariamente. Para os dualistas, postular uma mente bem como um corpo é necessário. Para os ateístas, postular Deus e algo sobrenatural é uma pluralidade desnecessária. Para os teístas, postular Deus é uma necessidade. E por aí fora. Para von Daniken, talvez, os fatos tornam necessário postular extraterrestres. Para outros, estes extraterrestres são pluralidade desnecessária. Em resumo, talvez a navalha de Occam diga pouco mais do que para os ateístas Deus é desnecessário, mas para os teístas isso não é verdade. Se for assim, o principio não é muito útil. Por outro lado, se a navalha de Occam significa que quando confrontados com duas explicações, uma implausível e uma provável, uma pessoa racional deve escolher a provável, então o principio parece desnecessário, pois é óbvio. Mas se o principio é verdadeiramente minimalista, então parece implicar que quanto mais reducionismo, melhor."1.5

É importante reforçar que o mencionado artifício deve ser utilizado com muita cautela visto que é apenas "uma regra orientadora para a organização ou estabelecimento de uma pesquisa, partindo do simples para o complexo, mas nunca um critério para afirmação de verdades. Freqüentemente é mal-interpretada através da idéia de que a simplicidade é a perfeição". 1.6

Outro aspecto importante do método científico, mais propriamente da postura cética de um cientista é o ônus da prova. Considera-se que o ônus da prova sempre recai sobre quem afirma alguma coisa, ou seja, se alguém afirma que algo existe, cabe a esta pessoa provar que existe, e não às outras pessoas provar que não existe. Tal postura se deve ao fato da impossibilidade lógica de se provar uma negativa.

Se afirmar que existe um alienígena dentro de uma caixa de bombons que guardo em meu armário, mesmo o ato de abrir a caixa pra procurar o alienígena não comprovaria sua inexistência, poderia ser dito que ele é invisível. Se insistirem e resolverem tatear a caixa, posso afirmar que ele possui consistência similar ao gás e não pode ser detectado pelo tato. Se resolverem pesar a caixa, posso afirmar que ele dispõe de um cinto antigravitacional. Enfim, desde que haja criatividade suficiente a, mas absurda das hipóteses pode ser sustentada.

Tendo em vista o principio de Occam, o método científico pede que uma teoria seja necessária para a explicação de um fenômeno existente seja por ele ainda não dispor de uma explicação ou por novas observações mostrarem que as explicações existentes são incompletas ou incorretas. Já a impossibilidade de se provar uma negativa sugere que uma teoria científica seja baseada em observações (relatos, dados, etc) ou fenomenos observaveis uma vez que, de outra forma, esta não poderia nem ser avaliada nem ter qualquer utilidade pratica.

Uma teoria só pode ser considerada científica quando existe a possibilidade (mesmo que apenas teórica) de testa-la. Não há como afirmar que uma teoria esteja absolutamente correta, mas, a medida em que ela oferece explicações adequadas para os eventos estudados e obtém confirmação de suas previsões em testes experimentais, o grau de confiança na teoria cresce e, podemos afirmar que esta é a que mais se aproxima da verdade (veremos mais adiante no teorema de Gödel que nenhuma verdade absoluta pode ser estabelecida).

Por outro lado, para uma teoria ser considerada falsa, basta que suas previsões não se confirmem experimentalmente, isto é, que os dados experimentais neguem os dados previstos em teoria ou que suas bases teóricas sejam invalidadas por teorias cujas previsões confirmadas entrem em conflito direto com tais bases teóricas.

Outro tópico de grande relevância se refere ao tratamento que devemos dar a diferentes tipos de afirmações. O conhecimento que temos sobre o universo foi construído a partir de muitos séculos de testes e observações, tratar todas as afirmativas em pé de igualdade, como se nenhum conhecimento prévio existisse seria o mesmo que jogar todos estes anos de experimentação fora.

Tal comportamento foi incorporado ao ceticismo moderno e se traduz na seguinte frase: "alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias" ou seja, quanto mais uma afirmação se distanciar do conhecimento científico e pessoal que temos, com mais desconfiança ela será vista. Esta tendência é facilmente encontrada em qualquer pessoa e pode ser traduzida pelo seguinte exemplo 1.7:

Se alguém que me disser que tem um cachorro em casa, provavelmente acreditarei sem maiores restrições e considerarei o assunto provado se o dono me apresentar uma foto do cão em casa, é um tanto comum casas terem cachorros.

Se a mesma pessoa tivesse dito que tem um leão no quintal eu acharia um tanto estranho e desconfiaria da pessoa. É um tanto raro e complicado pessoas terem leões em seu quintal. Uma foto já não seria mais suficiente para me convencer completamente, poderia ser uma montagem ou uma foto de outro leão. Seria necessário que o dono apresentasse algum documento provando ou que me mostrasse o leão.

Se, por fim, tivesse sido dito que esta pessoa possui um dinossauro em casa um simples documento ou um visita ao bicho não seria suficiente para me convencer de que se trata realmente de um dinossauro. Pode ser que se trate de algum réptil raro, algum robô ou algum outro truque, e para verificar isso eu levaria comigo alguns biólogos e especialistas em fraude. Ter um dinossauro é um fenômeno nunca antes visto.

Obviamente o nível das provas depende muito do contexto em que a afirmação é feita. Se fosse um funcionário do ibama com boa condição financeira dizendo que levou pra casa um leão que estava doente, acreditaria na pessoa e exigiria apenas uma foto como prova.

Para avaliações científicas a experiência pessoal deve ser ignorada e o único critério para avaliar se a alegação é mais ou menos extraordinária é: quanto mais a alegação contrariar o conhecimento científico atual, nas áreas de física, química, biologia, mais extraordinárias devem ser as provas dessa alegação.



Notas de Rodapé

... Daniken1.4
Erich von Daniken é autor do livro "Eram os deuses astronautas ?" onde defende a hipótese de que alienígenas mantiveram contato com diversas civilizações antigas da Terra.
...1.5
Dicionário Cético- Navalha de Occam - http://www.cetico.hpg.ig.com.br/occam.html
...1.6
Wikipedia - http://www.wikipedia.com(enciclopédia virtual livre)
...1.7
Exemplo baseado no exemplo citado por Ronaldo Cordeiro em um e-mail sobre ceticismo enviado para o Fórum Virtual de Pesquisa Psi, disponível no endereço:

http://listas.pucsp.br/pesquisapsi/archives/200205/msg00168.html


 
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