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(por Leonardo Stern)
A comunicação talvez seja o elemento que mais evidencia a subjetividade
de um ser, podemos considerar como formas de comunicação todos os
estímulos enviados e recebidos pelo ser. Estudar um pouco sobre os
processos cognitivos pode ser de grande ajuda para entender os mecanismos
da comunicação e/ou da neurolingüística. Para introduzir os mecanismos
cognitivos é comum recorrer ao exemplo da galho (cipó ou corda) e
da cobra :
"Uma pessoa caminhando por uma mata, onde existe a possibilidade
de se encontrar cobras, depara-se subitamente com um objeto fino e
recurvo, como uma serpente. Imediatamente, diante do sinal de perigo
potencial, são disparadas as respostas fisiológicas e comportamentais
(corporais e faciais) típicas do medo.
Alguns milésimos de segundo depois, porém, a pessoa pode perceber
que não se trata de uma serpente, mas de um galho seco retorcido.
Esse tipo de análise mais refinada é feita pelo córtex, quando a pessoa
toma *consciência* do que viu. Os dois tipos de percepção podem
ser diferenciados da seguinte forma:
Uma é extremamente rápida e tosca enquanto que a outra é lenta e mais
refinada."1.9
O exemplo evidência a participação que a interpretação e correlações
lógicas possuem no processo cognitivo. Apesar do produto final, refinado,
ser aparentemente o mesmo, todo o mecanismo de refinamento e as reações
causadas por este processo podem variar muito de pessoa pra pessoa.
É comum certos barulho, objetos ou formas causarem reações inesperadas
em algumas pessoas, podendo causar susto, medo ou nervoso durante
o curto espaço de tempo do refinamento da percepção.
Nos processos de comunicação ser/ser, temos somadas às reações cognitivas
as reações causadas pelos diversos símbolos que compõem a mensagem
transmitida na comunicação. Nos seres humanos cada símbolo ou palavra
assume um significado único para cada indivíduo que é reflexo das
experiências vivenciadas pelo mesmo (a palavra avião deve ter um significado
muito mais especial para um experiente piloto do que para um pianista)
e, além de possuir um significado único, este significado evolui com
o tempo. Quando uma música é ouvida pela segunda vez, já não provoca
exatamente as mesmas sensações que provocou quando foi pela primeira
vez ouvida. Uma piada perde a graça quando é contada mais de uma vez
para a mesma pessoa. Tais características conferem a comunicação um
caráter altamente subjetivo.
Para melhor entendermos as relações entre a comunicação e os símbolos
é preciso estudar um pouco mais a lingüística uma vez que toda comunicação
tem que ser estruturada em algum tipo de linguagem.
Para a lingüística, " a linguagem é tão importante que,
sem ela não seriamos capazes de pensar, pois todo o pensamento estrutura-se
na forma de alguma linguagem, seja ela verbal, visual , gestual, etc.
O filósofo grego Parmênides (535-450 a.C.) já dizia que "ser
e pensar são uma só e a mesma coisa". Idéia reafirmada
pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650 d.C.) em sua célebre
frase "penso, logo existo".
Não é à toa que em várias doutrinas o conceito de existência está
intimamente ligado à palavra: o filósofo grego Heráclito (540-480
a.C.) chamou de logos ('palavra' em grego) o principio universal do
'ser', ao mesmo tempo palavra e pensamento. Na mesma linha, a Bíblia
afirma, no Gênesis, que no principio era o 'verbo' ou seja, a palavra,
ligando o conceito de linguagem diretamente à própria idéia de criação
(ou existência). Se é impossível, como destaca a filosofia da ciência,
conhecer a realidade 'em si' mas apenas construir uma imagem dela
baseada em nossos sentidos e em nosso pensamento, e se o pensamento
é linguagem, então a linguagem é a base para todo o conhecimento humano
sobre a natureza e o próprio homem.[...]
Quando se discute a questão da linguagem, a primeira pergunta é :
"por que o homem fala?" Na verdade todos os
animais usam alguma forma de linguagem, mas os diversos ruídos que
produzem só expressam idéias genéricas de sentimentos, como fome,
dor ou medo. O homem é o único capaz de usar uma linguagem articulada
capaz de expressar todas as nuances do pensamento, inclusive conceitos
abstratos.
Na Grécia antiga surgiu a primeira concepção de signo lingüístico,
definido por Aristóteles como um som com significado estabelecido.
Assim a palavra 'cão', por exemplo, representa esse animal por uma
convenção estabelecida entre os falantes. Platão (428-347 a. C.),
outro filósofo grego, dizia existirem duas realidades: a imanente
ou 'mundo real' e a transcendente ou 'mundo ideal'. O mundo real,
ou das 'coisas' (res, em latim) é o que habitamos, e o ideal, ou mundo
das 'idéias' (ideae, em latim), é o das formas sem substância, só
atingível pelo pensamento. Os signos seriam objetos do mundo real
(coisas) que representam objetos do mundo ideal (idéias).
Todo o conhecimento da Idade Média, época de grande obscurantismo
cultural, era aquele herdado da tradição greco-romana, conservado
basicamente nos mosteiros por monges que copiavam os antigos escritos
gregos e latinos. O domínio da doutrina cristã neste período acabou
influenciando as idéias de filósofos antigos, inclusive sobre a linguagem.
A grande síntese do pensamento medieval foi feita no século XIII por
São Tomás de Aquino, que adaptou, em sua Suma Teológica, as idéias
de Aristóteles aos dogmas da Igreja.
Na época, uma questão essencial agitava o meio eclesiástico: adorar
imagens é ou não pecado? Um dos chamados Dez Mandamentos diz que não
se deve construir nem adorar imagens da divindade mas os templos católicos
sempre foram decorados com imagens de Cristo e dos santos. Para resolver
a questão, São Tomás propôs que adorar imagens de Deus e santos enquanto
objetos em si é um pecado, mas se estas são vistas como representações
(signos) da divindade, então, não é pecado, pois a adoração é dirigida
não a imagem, mas à divindade representada. Com isso, São Tomás de
certa forma antecipou a concepção 'metonímica' de signo: "O
signo é a parte menor, material e visível , de uma realidade maior,
imaterial e invisível.[...]
Na renascença, a noção de signo como uma parte do que ele representa
foi substituída por uma concepção que enfatizava seu caráter material.
Todo signo, para os renascentistas, é signo de alguma coisa. A linguagem,
portanto, seria um sistema racional de descrição da natureza, e seus
signos seriam representações adequadas da realidade."1.10
Tal descrição reflete com precisão o que expomos anteriormente para
o processo cognitivo e torna possível conhecermos outras características
da comunicação. Já que a linguagem é capaz apenas de transmitir uma
descrição racional do mundo, o tipo de linguagem utilizada está diretamente
ligada ao nível de precisão da descrição natural transmitida pela
comunicação.
Notas de Rodapé
- ...1.9
- Exemplo retirado da revista *Ciência Hoje - Agosto de 2001, pagina
19
- ...1.10
- Bizzocchi, Aldo. O fantástico mundo da linguagem. Ciência Hoje . vol.
28. n164. p. 39-41
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