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(por Leonardo Stern)
Antes de entrarmos na discussão mais detalhada sobre os efeitos do
símbolo e características do símbolo, precisamos definir o que seja
um símbolo. Não vou entrar em discussões metafísicas do tipo "qual
é o símbolo do símbolo" ou outras discussões importantes
que invariavelmente geram conclusões incompletas ou imprecisas.
Símbolo é tudo aquilo que represente alguma idéia ou possa gerar alguma
significância. Memes são bons exemplos de símbolos. Assim, uma musica,
uma pintura e um pensamento são símbolos. Se pensarmos que os objetos
carregam alguma significância ou nos remetam alguma idéia, concluímos
que tudo é potencialmente símbolo e gerador de novos símbolos. O homem
é um símbolo e suas ações, símbolos gerados a partir do homem.
Quando me refiro à eficácia simbólica, na verdade não estou me referindo
os efeitos diretos de causa e efeito causados pelo mesmo. Estou, na
verdade, atribuindo ao símbolo efeitos que vão muito além da própria
interpretação do símbolo.
Tais efeitos já foram ilustrados em diversos estudos que parecem falar
sobre assuntos diferentes, mas na verdade se referem ao mesmo: a eficácia
simbólica. Entre estes estudos podemos destacar: poder da fé, efeito
placebo/ efeito Nocebo, condicionamento clássico de Pavlov, etc.
Vejamos o caso do efeito placebo
Placebo é um termo com origem do latim que significa agradar. Nos
experimentos clínicos onde testam a eficácia de alguns remédios ou
princípios ativos, placebo designa uma substância sem principio ativo
(como uma pílula de açúcar, farinha, soro fisiológico) que é usada
em testes duplo-cegos, isto é, nem o médico nem o paciente sabem qual
indivíduo recebeu o medicamento verdadeiro ou o placebo. A informação
é mantida em sigilo pela equipe organizadora do experimento e só é
revelada no fim dos testes.
Na teoria tradicional, o placebo não deveria provocar nenhum efeito,
entretanto cerca de 40 % dos pacientes que recebem o placebo apresentam
algum tipo de melhora. Este é o chamado "efeito placebo"
Observando o evento do ponto de vista do paciente, temos uma idéia
maior da significância deste efeito. Um paciente com doença sem tratamento
conhecido recorre a um instituto de pesquisa onde estão testando remédios
contra esta doença. O médico/cientista dá um medicamento experimental
para o paciente e este apresenta melhoras significativas, mas, na
verdade, o medicamento era açúcar. Neste caso, o suposto medicamento
atua como símbolo, que é INTERPRETADO pelo paciente como sinônimo
de cura ou melhora
O grau de CONFIANÇA que ele deposita no símbolo depende de muitas
variáveis: a confiabilidade que o instituto de pesquisas passa a ele,
o incentivo que teve de seus conhecidos para iniciar o tratamento
experimental, o nível de desconfiança que tem em relação a estar recebendo
placebos, fatores filosóficos, emocionais, etc.
De modo análogo poderíamos ter o mesmo paciente recorrendo a curandeiros
e a tratamentos alternativos e obtendo a mesma melhora. Estes efeitos
fazem parte da eficácia simbólica. Devemos, entretanto atentar que
o símbolo por si só não tem poder nenhum, ele apenas ativa mecanismos
baseados na crença na eficiência do símbolo. Tais mecanismos ainda
são um mistério para a ciência.
Estes efeitos não se limitam a ocasiões como a de receber um placebo,
eles estão presentes no dia-a-dia. Fatos como a confiança afetar o
percentual de acertos em provas e esportes estão intimante ligados
ao conceito de eficácia simbólica que por sua vez está ligado ao conceito
de poder da fé.
O que é a fé senão a crença ou confiança em determinada idéia ou símbolo
?
Podemos entender melhor a extensão da eficácia simbólica olhando para
os estudos relacionados ao condicionamento clássico ou reflexo condicionado,
onde percebemos que o efeito placebo não se limita aos medicamentos
ou a sugestão.
O condicionamento clássico foi pela primeira vez objetivamente estudado
pelo fisiologista russo Ivan Pavlov(1849-1936) quando estudava a fisiologia
do sistema gastrointestinal. A teoria do reflexo condicionado foi
estabelecida num experimento muito conhecido onde Pavlov fez sucessivos
testes com cachorros a fim de observar a influência exercida pelo
meio no comportamento deles. Um dos testes consistia em, sistematicamente,
colocar uma lâmpada em frente ao animal e acendê-la toda vez que o
cachorro fosse alimentado. Depois de algum tempo, nesse esquema, Pavlov
passou a observar que toda vez que a tal lâmpada era acesa o cachorro
começava a salivar intensamente.
Com isso, foi-se fazendo outros testes, como o piscar de lâmpadas
antes de pequenos choques elétricos, emissão de sons antes de apertos
nas coleiras etc, que apresentaram o mesmo resultado: a associação
que o cachorro fazia com os eventos que sensibilizavam seus sentidos
(o acender da lâmpada) com acontecimentos marcantes que vinham em
seguida (como a comida).
Novos estudos foram realizados a fim de observar até que ponto as
respostas fisiológicas se alterariam com o condicionamento. Um dos
testes mais conhecidos está em após um estímulo sonoro, aplicar uma
injeção de aceticolina no cachorro. A aceticolina provoca queda de
pressão arterial, e é este o efeito observado no cão. Após muitas
repetições do som, seguidas da injeção, troca-se a aceticolina pela
adrenalina, que tem o efeito reverso. Ao contrário do esperado, a
pressão arterial do cachorro continua a cair após a injeção. O efeito
da adrenalina foi totalmente ignorado.
Da mesma maneira, dependendo de como a combinação som / injeção é
feita, temos o cão respondendo com a queda da pressão arterial sem
que ocorra a aplicação da injeção, necessitando apenas do estimulo
sonoro para que ocorra a queda de pressão.
Devemos esperar que a eficácia do símbolo apresentada no condicionamento
estudado em cachorros não se limite apenas ao efeito placebo. Para
reforçar a extensão deste fenômeno exploraremos duas áreas onde a
eficácia simbólica pode ser evidenciada : a homeopatia e o poder da
fé. |