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(por Paula Moiana da Costa)
Com a conclusão do projeto Genoma, entramos na era dos genes. Procura-se
explicação para todos os comportamentos humanos através da avaliação
da adaptação biológica. Entretanto, alguns desses comportamentos intrínsecos
à nossa espécie não podem ser bem explicados pela ação dos genes,
como a Sociobiologia procura fazer. A questão prioritária gira em
torno do cérebro humano.
Os seres humanos deram um grande salto, em relação aos outros espécimes,
para o desenvolvimento cerebral e da autonomia dos organismos. O desenvolvimento
cerebral levou à criação de espaço necessário para armazenar informações,
para análise de indícios sutis, para criar um arquivo de experiências
passadas e para o planejamento de ações futuras. O aumento das conexões
cerebrais permitiu flexibilidade nas respostas, e assim, a capacidade
de aprendizado cresceu significativamente quando comparado ás outras
espécies, que, em geral, somente apresentam mecanismos rígidos e poucos
flexíveis. A autonomia em relação aos condicionamentos espaço-temporais
cresce. Paralelamente, a troca de informações com o meio cresceu.
Isso tudo seria extremamente vantajoso á adaptação biológica do homem
ao meio ambiente. Mas, se analisarmos mais profundamente, não há um
sentido real para esse desenvolvimento cerebral exagerado.
Quais seriam as vantagens biológicas para esse desenvolvimento exagerado
de nosso cérebro? O armazenamento de informações seria interessante
porque nos permitiria aprender; e nossos erros poderiam ser evitados.
Por exemplo, na época da pré-história, esse armazenamento muito provavelmente
foi útil para que eles percebessem e lembrassem que certas medidas
afastavam alguns predadores. No caso, quem possuía uma maior capacidade
de armazenamento de informações teria uma grande vantagem biológica
porque conseguiria se proteger melhor dos predadores e teria, portanto,
maiores possibilidades de conseguir se reproduzir e repassar seus
genes.
Com o aumento da capacidade de armazenamento de informações, e o conseqüente
aumento das conexões cerebrais resultando numa maior capacidade de
aprendizado, obtivemos o que podemos considerar como uma maior flexibilidade
ás respostas. Isso nos permitiu adequar-nos a diferentes meios, pela
inovadora capacidade de adequar esses meios á nossa necessidade.
Claro que isso traz uma imensa vantagem biológica, já que permitiu
que nossa espécie se espalhasse pelo mundo como nenhuma outra o fez.
Apesar dessas óbvias vantagens adaptativas, existem coisas que não
conseguimos explicar com a evolução em torno da necessidade de auto-replicação
dos genes, simplesmente porque elas muitas vezes prejudicam essa adaptação
biológica necessária para uma otimização da replicação gênica.
O que não conseguimos explicar são boa parte dos elementos inseridos
em nossa cultura. Por exemplo, qual o objetivo de estarmos constantemente
falando e pensando? Qual o sentido de seguirmos determinadas regras,
como as religiosas, que pregam um controle sobre os impulsos sexuais?
Ou a vantagem de possuirmos um pensamento abstrato que leva á arte?
Até mesmo, qual a vantagem para meus genes que eu realize ações altruístas
para com seres que muitas vezes não são nem de minha espécie (portanto
não compartilham de minha carga genética)? Essas questões existem
há muito tempo. E uma teoria relativamente nova se propõe a explicá-las.
A memética é uma teoria proposta por Richard Dawkins no ano de 1976,
no livro O Gene Egoísta, mas que somente em 1997 foi revista por Susan
Blackmore, em um artigo publicado na The Skeptic (N^o 2, 43-49), nos
Estados Unidos, com o nome O Poder do Meme Meme, seguido de outros
artigos e um livro chamado A Máquina Meme, que conta com a introdução
do próprio Richard Dawkins.
A memética procura explicar essas questões tradicionalmente inexplicáveis
através da existência de entidades auto-replicadoras denominadas memes.
Esses memes seriam um tipo de unidade de imitação. Ou seja, todas
as idéias e comportamentos obtidos através da imitação de outra pessoa,
seriam memes. A própria imitação implícita no conceito de meme seria
o seu modo de replicação e, á semelhança dos genes, essa replicação
sofreria uma seleção.
A seleção dos memes se daria de acordo com a própria natureza desses
memes. Um bom exemplo de como isso ocorre seria o comportamento altruísta
disseminado em nossa espécie, ao contrário do que costuma ocorrer
com outras espécies. Um comportamento altruísta agrada às outras pessoas,
e as aproxima do portador desse comportamento. Com essa aproximação,
cria-se a oportunidade para que o próprio meme do altruísmo se propague.
Já memes que designam comportamentos como o da timidez, não seriam
tão facilmente propagados.
Afinal, um meme que promova uma diminuição da comunicação não consegue
obter meios para se propagar. Como convencer alguém de uma idéia se
a idéia é exatamente não procurar convencer outras pessoas, ou evitar
o contato com elas? Esse meme, portanto, seria selecionado por sua
própria essência.
Um meme não precisa, necessariamente, auxiliar a propagação de genes,
pois se trata de unidades replicadoras não intimamente relacionadas.
Voltando ao caso do altruísmo, podemos perceber esse fato. Uma pessoa
altruísta consegue propagar seus memes com certa facilidade, mas,
em compensação, não auxilia em nada a propagação de seus genes. Afinal,
essa pessoa estaria auxiliando outros genes que não os seus (o que
já não faz sentido para a "atuação" usual dos genes),
além de estar promovendo a sobrevivência de genes que podem, mais
tarde, competirem com eles pela adaptação. Um comportamento altruísta
promovido única e exclusivamente pelos genes seria, portanto, rapidamente
selecionado em função de um comportamento mais egoísta que objetivasse
única e exclusivamente a perpetuação desses genes.
Os memes não se tratam, entretanto, apenas de comportamentos específicos.
Eles são muito mais generalizados. Uma carta-corrente, quando bastante
copiada, é um meme. A idéia disseminada pela sabedoria popular de
que determinada planta funciona como remédio para algum mal, sem nenhuma
comprovação científica, também é um meme. Uma música que vai para
as paradas de sucesso, e todos cantam; uma obra de arte respeitada
e grandemente copiada; uma fofoca bastante repassada; mitos conhecidos
pela maioria das pessoas; todos são exemplos de memes que podemos
perceber claramente em nosso dia-a-dia e que fazem parte do que chamamos
de cultura. Podemos dizer, portanto, que os memes criaram a cultura
humana, da mesma maneira que os genes criaram os corpos humanos.
Até aqui analisamos o símbolo como unidade indivisível portadora da
eficácia simbólica que compete entre si através dos mecanismos descritos
pela memética para se replicarem e evitar o esquecimento. Estudaremos
a partir de agora o símbolo como uma união de partículas de símbolo
e veremos que conseqüências isto traz para as noções de eficácia simbólica,
mas, para isto, precisamos conhecer dois outros conceitos, teorema
de Gödel e os mecanismos Witz. |