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(por Paula Moiana da Costa)
Numa crítica a Leibniz, Hume considerou que a inferência e as analogias
que fazemos em relação aos efeitos de causas semelhantes não podem
ser baseadas em nenhuma espécie de raciocínio formal, já que a experiência
seria a fonte de tudo o que temos na mente. Sendo assim, as relações
de idéias seriam baseadas em conceitos criados pelo homem, e todas
as teorias gerais a respeito de objetos ou fatos da realidade seriam
apenas probabilidades.
Hume considerou que, por causa dessa noção de causalidade que possuímos,
costumamos afirmar mais do que vemos, ultrapassando a experiência
imediata. Em nome desse princípio de causalidade, assumimos que as
mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Por exemplo: eu coloco num
congelador certa quantidade de água, e afirmo que a água que coloquei,
ao atingir 0^o C, se transformará em gelo. Ao prever essa transformação
eu estaria, segundo Hume, tirando "de um objeto uma conclusão
que o ultrapassa". Não há como eu retirar da água, como objeto,
a conclusão de que ela se transformará em gelo. Essa minha dedução
vêm de minhas experiências passadas; ora, se em todas as ocasiões
nas quais eu coloquei água a uma temperatura de 0^o C ela se transformou
em gelo, a probabilidade de ela se transformar em gelo novamente nessa
situação causal é muito grande. Portanto, afirmo que ela vai certamente
se transformar em gelo, desconsiderando em minha afirmativa as possibilidades
de algo imprevisto ocorrer e minha previsão se mostrar falha.
Esse é o raciocínio experimental usual, pelo qual se conclui o futuro
a partir do presente, baseado apenas em probabilidades (já que não
temos mais nada além de probabilidades para definirmos uma situação
futura a partir de sua causa presente). Nenhum argumento nos leva
a inferir de qualidades sensíveis semelhantes efeitos semelhantes,
mas sim o hábito e a experiência. Como fonte de tudo que há em nosso
pensamento, são esses "grandes guias de tudo o que acontece
na vida humana que sedimentam e dão origem a nossa preferência de
uma probabilidade por outra." O que nos leva a ir para além
do presente e da memória, segundo Hume , seriam as analogias suscitadas
por algum objeto ou pessoa presente. Estamos sempre associando idéias
(por causa e efeito, semelhança ou continuidade no espaço e tempo)
de modo que ao perceber alguma realidade presente que nos é similar,
ligamos a experiência passada que tivemos com esse objeto através
da memória, e supomos que o futuro é irremediavelmente criado pelo
passado.
Apesar disso, Hume não reivindicou provar que sejam falsas as proposições:
- i.
- Que eventos eles mesmos são relacionados causalmente;
- ii.
- Que eles serão relacionados no futuro do mesmo modo como eles eram no
passado.
Ele acreditava nessas proposições e afirmava que essas seriam crenças
naturais e inextinguíveis propensões da natureza do homem. O que ele
reivindica provar é que elas não são obteníveis, e não podem ser iluminadas,
nem pela observação empírica nem pela razão, seja intuitiva ou inferencial.
O que Hume considera é que somente existe nossa experiência de que
uma coisa se segue a outra, que os padrões de uma experiência passada
se repetem e me dão a ilusão de causa e efeito, e simplesmente porque
A sempre foi seguido de B, tomo A como causa necessária de B.
Portanto, segundo Hume, o conhecimento poderia ser dividido através
de uma classificação binária dos objetos da consciência, que seriam:
- Impressões, nas quais os dados seriam fornecidos pelos sentidos
internos e externos. Seriam nossas impressões imediatas da realidade. Por
exemplo, se eu vejo uma bela paisagem, o sentido externo da visão me
proporciona a figura da paisagem em sí, e o sentido interno me diz que essa
é realmente uma bela paisagem. Essas impressões dos sentidos seriam o que a
mente possui de mais vívido.
- Idéias, que seriam representações das memórias das impressões. Ou
seja, seriam reproduções das impressões que tive. No exemplo da paisagem, se
eu penso a respeito da figura que observei, a sensação de beleza não é tão
forte quanto seria se eu a estivesse observando. Minha idéia da paisagem
seria uma idéia complexa, na qual as idéias simples seriam as cores, a
luminosidade, a sensação do vento batendo, o movimento das árvores, o
formato delas, etc. A idéia de movimento contém a idéias de espaço e tempo,
não importando se realmente existem coisas tais como movimentos Às idéias
podem associar-se por semelhança (entre as impressões que representam),
contigüidade espacial e temporal, e causalidade.
Deste modo, a realidade seria composta de outras realidades. Quando
examinamos nossa idéia de um objeto individual, tudo o que encontraríamos
seriam idéias simples que se uniriam para formar idéias complexas,
segundo Hume. O que importaria não seriam as propriedades próprias
da realidade, mas as relações implícitas nela. Tudo que a mente conteria
seria, em primeiro lugar, ou "impressões", dados
finais da sensação ou da consciência interna, ou idéias, derivadas
dos dados por composição, transposição, aumento ou diminuição. Isto
equivale a dizer que o homem não cria qualquer idéia.
É importante notar que o pensar e o sentir estão ligados e se afetam
de forma recíproca, visto que nunca estamos apenas pensando ou apenas
sentindo, mas sempre fazendo os dois ao mesmo tempo, embora em graus
diferentes que se alteram. Além disso, Hume afirma que no processo
o aspecto de clareza e vivacidade próprio da impressão infecta à idéia.
O conhecimento científico é, portanto, irracional, pois a crença que
está na base de todo o conhecimento natural não tem qualquer estruturação
lógica pela via da dedução. Portanto, qualquer ciência demonstrativa
de fatos é impossível.
O ponto de vista de Hume tem, então, uma grave implicação. É que,
embora ele não o tenha colocado nestes termos, existe um total de
causas convergentes para um dado efeito e a questão é se podemos ter
o controle de todas as causas atuantes nesse conjunto, porque uma
delas pode sempre falhar e criar a diferença no efeito do total de
causas. Em conclusão, - embora Hume nunca tenha feito tal declaração
-, a impossibilidade de enumerar todas as causas é, para ele, absoluta.
Essa impossibilidade absoluta inviabiliza, evidentemente, o pensamento
indutivo como caminho seguro para a verdade, e faz a ciência impossível.
Com essa crítica, Hume colocou um desafio aparentemente impossível
de ser solucionado. Mas Kant decidiu resolver o impasse.
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