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(por Alberto Mesquita
Filho3.2)
A Mecânica Quântica é uma teoria baseada no uso do conceito de uma
unidade -quantum- para descrever as propriedades dinâmicas de partículas
subatômicas e as suas interações. Foi iniciada pelo físico alemão
Max Planck que postulou em 1900 que a energia só pode ser emitida
ou absorvida em pequenas unidades chamadas quanta.
Observações sobre a teoria de Plank feitas, na década de 20, pelo
físico alemão Werner Heisenberg culminaram no famoso princípio da
incerteza. Ele observou que a hipótese quântica de Plank implica que
quanto mais exatamente se tenta medeir a posição de uma partícula,
com menor exatidão se consegue medir sua velocidade, e vice-versa.
A escola de Copenhaga, assim como Bohm, foi contra o principio da
incerteza, e impôs-se, apesar dos paradoxos emergentes das suas posições.
Um deles é o famoso paradoxo EPR (Einstein-Podolsky-Rosen).
Na experiência EPR supõe-se que a determinação do "momento
linear" de uma partícula A que interagiu com outra B, seguida
da determinação da "posição" da partícula B, permitiria
o conhecimento tanto do momento de A (medido diretamente), quanto
de sua posição (pois a mesma estaria relacionada à posição de B).
Qualquer das duas medidas poderia ser efetuada antes que se notasse
a despersonalização de seu valor real em decorrência da realização
da outra medida, pois esta segunda medida estaria sendo efetuada em
condições afastadas e praticamente ao mesmo tempo que a primeira.
Por conseguinte, qualquer incerteza nas determinações seriam decorrentes
dos procedimentos experimentais em si, não havendo nenhuma limitação
teórica à redução destas incertezas a zero, como proposto pelo princípio
da indeterminação de Heisenberg. Em teoria, seria possível determinar
tanto a posição quanto o momento de A com precisão absoluta.
por outra experiência (a ser chamada aqui por EPR2)
A experiência EPR propunha-se a contestar o princípio da indeterminação.
Não obstante poderíamos pensar numa outra experiência de pensamento
a xecar a validade de um dos argumentos assumidos pelos proponentes
da experiência EPR. Nesta outra experiência, a ser chamada aqui por
experiência EPR2, mede-se a mesma propriedade nas duas partículas
A e B como, por exemplo, a posição; e procura-se verificar se existe
alguma correlação nas medidas. O que a experiência EPR2 pretende verificar
é se existe ou não a correlação assumida por EPR na interpretação
de sua experiência original. Em outras palavras: Ao determinarmos
a posição de B seria realmente possível afirmar que a posição de A
estaria determinada? Se a resposta for positiva seria de se esperar
uma coincidência nos valores, a menos de incertezas experimentais
passíveis, pelo menos em teoria, de eliminação total.
É importante verificar que, no que chamamos experiência EPR2, não
estamos trabalhando com pares conjugados e, portanto, não está em
jogo, pelo menos diretamente, o componente da incerteza descrito pelo
princípio da indeterminação de Heisenberg (incerteza relativa à determinação
de pares conjugados). Poder-se-ia dizer que, pela experiência EPR2,
o que se está efetivamente verificando é a consistência do argumento
da localidade proposto por Einstein. Ou seja, a determinação da posição
de B afetaria ou não, instantaneamente, as propriedades a serem medidas
em A? E mede-se a posição de A (e não o momento) pois é esta a única
que poderíamos assumir como conhecida em B (pela escolha efetuada).
Em síntese, o que está sendo xecado é o pressuposto assumido ao afirmarmos
que "ao medirmos a posição de B podemos conhecer a posição
de A". E nada melhor, para isso, que medirmos as posições
de A e B simultaneamente, comparando-se os resultados.
Aparentemente, localidade e indeterminação são coisas distintas. Não
obstante, e supondo-se que a experiência EPR2, ao ser colocada em
prática, chegasse a destruir o argumento einsteiniano da localidade,
ficaria a dúvida: O que estaria por trás da despersonalização das
propriedades de uma das partículas (A) ao efetuarmos a medição de
uma das propriedades de outra (B), mas que poderia caracterizar a
mesma propriedade desta (A)? Não seria o mesmo "agente físico"
a responder pelo princípio da indeterminação? Ao que parece, sim.
E tanto assim é que fica-nos aquela impressão de que, no caso suposto,
quanto maior for a precisão da medida da posição em uma das partículas,
maior deveria ser a discrepância entre os valores encontrados ao compararmos
as medidas feitas em A e B. E esta, parece-nos, seria uma maneira
sui-generis de enunciar o princípio da indeterminação de Heisenberg.
Ou seja, a não-localidade é inerente à indeterminação. Poderíamos
então, por este argumento, concluir que a experiência EPR2 é equivalente
à experiência EPR, no que diz respeito a poder ser utilizada para
falsear ou corroborar o princípio da indeterminação.
(a ser chamada aqui por EPR3)
Utilizando a conclusão obtida no item 3 poderíamos supor que qualquer
outra propriedade física "clássica" relativa ao
movimento de partículas A e B que interagiram, poderia ser utilizada
para falsear e/ou corroborar o princípio da indeterminação, através
de um procedimento similar ao efetuado em EPR2 (item 2). Ou seja,
qualquer experiência apoiada neste argumento seria equivalente à experiência
EPR original.
Que dizer do spin? Ora, o spin não é uma propriedade física clássica
e sim quântica! Se admitirmos que as partículas elementares, dotadas
de "spin quântico", são também dotadas de um "giro
clássico" (coisa que os físicos quânticos, via de regra,
acham absurdo), poderíamos utilizar qualquer um dos pares conjugados,
a caracterizarem esse giro e a experiência, agora a ser chamada EPR3
seria equivalente a EPR2.
Mas o spin, por si só, não é nenhum desses pares conjugados clássicos.
Para essa partícula hipotética e "quântico-clássica"
o spin quântico retrata menos do que qualquer dos pares conjugados
(momento angular e posição angular). Retrata apenas a orientação "up"
ou "down" do momento angular; pois um físico clássico
poderia dizer que o campo utilizado para caracterizar o spin meramente
orientou o "giro clássico" segundo as linhas de
campo e, conseqüentemente, destruiu as propriedades clássicas relativas
ao momento angular efetivo, conservando apenas uma de suas características
(o "sentido" da projeção do momento angular efetivo
na "direção" das linhas de campo). Conseqüentemente,
podemos certamente dizer que a experiência EPR3 com spin não é equivalente
à experiência EPR2 e, em decorrência disso, não é equivalente à experiência
EPR original.
Poderíamos, quando muito, aceitar que a indeterminação de Heisenberg
se propagasse para a medida de spin. Com efeito, se o spin contém
uma fração, por menor que seja, de uma propriedade clássica, ao medirmos
essa fração na partícula A de alguma forma estaríamos promovendo um
colapso quântico a retratar-se na medida de propriedades da partícula
B, admitindo-se a não-localidade como um fato real e inerente a um
sistema de duas partículas que interagiram.
Em virtude do exposto em 4, poderíamos pensar numa nova situação na
qual o princípio da indeterminação não fosse obedecido, consoante
a esperança de EPR mas que, ao mesmo tempo, mantivesse a característica
quântica relacionada ao spin. Estaríamos então propondo uma nova teoria
quântica, a negar o princípio da indeterminação mas a aceitar a quantização
do spin. Conforme visto no item 3, uma teoria destas seria compatível
com o argumento da localidade inerente ao realismo einsteiniano. Por
outro lado, não seria, em hipótese alguma, uma teoria clássica, haja
vista aceitar a quantização não como um artefato de medida, mas como
uma propriedade efetiva da partícula. Às teorias que foram criadas
por cima deste argumento (quantização do spin e localidade de Einstein)
deu-se o nome de teorias realistas locais, ao mesmo tempo que passou-se
a aceitar as demais variedades da física quântica (a aceitarem a quantização
do spin e princípio da indeterminação) como teorias realistas não-locais.
Nunca é demais lembrar que as teorias realistas da física clássica,
por não aceitarem nem o princípio da incerteza nem a não-localidade,
são todas teorias realistas locais, conquanto tenham sido deixadas
de lado nesta classificação proposta pelos físicos modernos.
Procurando analisar a possibilidade de um confronto experimental entre
as previsões das teorias "quânticas" não-locais
com as das teorias "quânticas" locais, Bell propôs
suas desigualdades, a traduzirem-se em espectativas diversas a serem
observadas em experiências do tipo EPR3 e decorrentes da observação
dos princípios básicos dos dois tipos de teorias citados. Como o modelo
experimental ainda não era o ideal, evoluiu-se no sentido de adaptar
as idéias de Bell para experiências com a polarização de fótons, agora
a serem chamadas por EPR4.
A experiência de Aspect pertence portanto à versão EPR4 da EPR original,
a importar as idéias da EPR3. Resumidamente, poderíamos dizer que
ela mede o que pode ser chamado "spin" dos fótons
A e B que interagiram recentemente, sendo que os dois polarizadores
utilizados a medir esse spin, a semelhança dos campos magnéticos da
EPR3, são dispostos de maneira a determinar um ãngulo conveniente
entre seus eixos principais. De maneira semelhante ao comentado no
item 4, a propriedade medida também é quantizada, o que corresponderia
a uma mensuração de apenas uma fração discreta (dois valores apenas)
da correspondente propriedade clássica (contínua), o que observa-se
pela versão clássica da interpretação da Lei de Malus (1809). Conclusão:
A experiência de Aspec (EPR4), tanto quanto as EPR3, são cruciais
apenas no sentido em que seus resultados, a respeitarem uma ou outra
das desigualdades de Bell, falseariam ou as teorias "quânticas"
locais ou as teorias "quânticas" não-locais.
Segundo um esquema que tomei de empréstimo de dados da literatura (no momento
não disponho da referência, apenas o esquema, mas não creio que seja difícil
localizá-lo), as desigualdades de Bell poderiam traduzir-se, para o caso das
EPR4, na espectativa gráfica observada na figura em anexo, a confrontar a
"correlação entre os spins" observados em A e B com o "ângulo entre os
analisadores". (Se alguém quiser xecar os dados gráficos e possuir estômago
para digerir a dedução das desigualdades de Bell, existe um artigo muito bom
do Joao Barata do IFUSP em http://www.fma.if.usp.br/~jbarata/notas _ de _ aula _html/pr-inc/pr-inc.html)
As teorias "quânticas" locais, pelo exame do gráfico, apresentam uma
correlação esperada retilínea e a passar pelos extremos 0-100 % e 90-0 % .
Ora, "não me parece" ser essa a espectativa para as teorias clássicas, a ser
verdadeira a lei de Malus (não fiz os cálculos, mas não me parece ser difícil
obter a curva esperada). Logo, não há como dizer que a experiência de Aspect
favorece qualquer teoria quântica em detrimento de qualquer teoria clássica.
Simplesmente o que ela parece ter comprovado é que, assumindo-se que a
quantização do giro observado em partículas elementares não é um artefato
experimental, as teorias "quânticas" não-locais estão mais próximas da verdade
do que as teorias "quânticas" locais.
Notas de Rodapé
- ...3.2
- Texto escrito por Alberto Mesquita Filho (exceto os 3
primeiros parágrafos) e originalmente disponível em
http://www.ecientificocultural.com/ecc2/Dialogos/varios/ci4790.htm
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