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(por Leonardo Stern)
Inspirado por um anuncio de televisão, David Bohm desenvolveu em Londres
um aparato composto por dois cilindros de vidro concentricos onde
entre eles ficava um fluido muito viscoso tal como a glicerina. Os
cilindros eram girados muito lentamente de modo a não ocorrer difusão
do liquido viscoso.
O experimento de Bohm consistia em pingar uma goticula de tinta insolúvel
neste fluido viscoso e gira-lo lentamente até que a goticula se estique
transformando-se numa linha e posteriormente em um filamento muito
fino, invisivel aos nossos olhos. Girando o fluido no sentido oposto, é possivel retomar este filamento invisivel ao estado original de goticula, visivel aos nossos olhos. Bohm dizia que a goticula foi dobrada dentro do fluido quando a goticula se tornou um filamento invisivel e desdobrada quando o filamento retornou a sua forma de goticula.
Bohm comparava a goticula e o filamento invisivel com o que chamou
respectivamente de realidade manifesta e realidade não-manifesta.
Da mesma forma que a goticula é o filamento invisivel desdobrado,
Bohm acreditava que a materia (realidade manifesta) era o desdobramento
da energia (realidade não-manifesta) , fato que será discutido com
maior detalhadamento em um momento posterior. As profundas implicações
da teoria da ordem dobrada ou ordem implicada aparecem quando introduzimos
novas gotas de tinta ao experimento anterior e analisamos a conexão
entre elas.
Imagine que temos a goticula de tinta em sua forma dobrada dentro
do fluido e, pingamos outra goticula desta tinta no fluido viscoso.
Dobramos a nova goticula para dentro do fluido e percebemos que as
duas goticulas parecem estar reduzidas a mesma coisa. A unica diferença
perceptivel está no fato de que, ao girarmos o fluido na direção oposta,
uma gota se desdobrara primeiro que a outra, ou seja a distinção existe
na ordem desdobrada ou ordem explicada.
Acreditamos que cada ponto do espaço e do tempo são distintos e separados
de qualquer outro ponto, e que todo tipo de correlação ou comunicação
entre eles ocorre com pontos adjacentes ou contiguos no espaço-tempo.
Na ordem dobrada, percebemos que quando dobramos uma goticula, ela
passa a estar na coisa toda e em cada parte dessa coisa toda e contribui
para a gotícula. Quando adicionamos uma nova goticula, as duas se
encontram em posições diferentes, mas quando são dobradas elas se
distribuem através do todo mas ficam entremeadas, uma com a outra;
elas se interpenetram, mas, quando você as desdobra, elas se separam
e formam duas gotículas.
Na ordem dobrada, devemos fazer distinção entre aquele todo que era
produzir uma goticula aqui e um todo que produzirá uma lá e outro
que produzira duas gotículas. A ordem habitual de descrição em física
é a ordem cartesiana 3.3, na qual tomamos uma grade cartesiana e dizemos que todos os pontos
são inteiramente extenos uns aos outros e possuem apenas relações
de contiguidade. Você pode, por exemplo, construir uma curva contínua,
mas se dobrarmos essa curva obteremos um todo onde tudo se interpenetra
e, no entanto, esse todo poderá desdobrar-se numa curva contínua.
Outra curva continua poderia ser dobrada e o resultado pareceria quase
o mesmo, no entanto, as duas curvas seriam diferentes. Cria-se então,
a necessidade de estabelecer um conjunto de distinções entre as duas
curvas , diferentes das encontradas na ordem cartesiana comum.
O campo continuo (teoria atomicista) é um modelo cartesiano onde todas
as conexões são contiguas; isto é, o campo conecta-se apenas com elementos
de campo muito proximos a ele no espaço-tempo não apresentando nenhuma
conexão direta com elementos distantes. O mesmo não ocorre na ordem
dobrada, se utilizando o aparato mencionado dobrarmos diversas goticulas
de tinta de modo que para desdobrar uma goticula seriam necessárias
1 volta, para uma outra goticula, 2 voltas e para uma terceira 1 milhão
de voltas.
Todas as goticulas estão muito proximas em termos espaciais, estão
entremeadas , envolvendo o cilindro. No entanto, ao desdobrarmos as
goticulas, criamos uma noção de proximidade entre e primeira e a segunda
goticula ao passo que a terceira aparenta estar muito distante. Tal
conexão ou proximidade nada tem haver com a localização pois as goticulas
ocupam o mesmo espaço. Uma relação com o tempo também é incorreta
pois a distancia temporal depende da velocidade com que o cilindro
será girado, sendo impossivel estabelecer um numero absoluto e preciso
nesta grandeza. As gotas estão separadas em termos de ordem de dobra
e apenas isso, já que não é possivel estabelecer uma relação espaço-temporal
para as duas goticulas.
De modo analogo, podemos imaginar situações em que duas goticulas
estejam distantes localmente mas se encontrem proximas na ordem dobrada.
É esta conexão não-local que aproxima as ideias de Bohm do modelo
holográfico, sendo possível enxergar o holograma como um sistema de
armazenamento de informações na ordem dobrada. Tal analogia gera profundas
implicações para a teoria do universo holografico e para o modo como
enxergamos o universo e as particulas, exploradas por Bohm em uma
especie de nova teoria dos vortices.
Notas de Rodapé
- ...3.3
- Existem outras representações comuns diferentes da cartesiana e outros
detalhes que serão discutidos em outro artigo.
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