(Escrito em 30 de Abril de 2002)
Por Wellington Zangari
Inter Psi / PUC-SP
Nas últimas semanas, por ocasião do quadro "Desafio
Paranormal", do Programa Fantástico, tenho recebido várias mensagens
inquirindo-me a respeito das posições ali expressas e pedindo para que eu me
posicionasse frente a elas. Aproveitei o ensejo para refletir, um pouco mais, a
respeito de certos conceitos e atitudes que, abaixo, espero tornar claras de
maneira resumida.
Uma das perguntas que me chegaram: "Vi apresentar-se uma pessoa
que se dizia cética. Mas o que ela disse é exatamente o que você sempre disse.
Então, você também é um cético?" Minha resposta: "Claro, sou um cientista!" Todo
cientista é (ou deve ser) um cético. Adotar a posição cética significa não
aceitar qualquer alegação de maneira apriorística. No caso específico de pessoas
que afirmam ser possuidoras de certa habilidade "paranormal", a atitude
científica é de não aceitar tal alegação sem demonstrações empíricas construídas
de maneira a se verificar, experimentalmente, se a alegação se sustenta ou não.
Nesse sentido, o que faz o mágico (canadense, não americano como o programa vive
a repetir) James "Amazing" Randi é exatamente o que fazemos nós, cientistas que
investigamos tais alegações.
Outra pergunta freqüente: "Você apoia o trabalho de James
Randi?". Minha resposta é clara: NÃO! James Randi não submete qualquer pessoa
aos seus estudos por considerar que as alegações paranormais devam ser estudadas
cientificamente. Segue, na verdade, uma agenda, bastante clara para quem o
acompanha, de denegrir a pesquisa de psi por considerar, aprioristicamente, os
fenômenos psi impossíveis e os pesquisadores de psi, no mínimo, despreparados,
quando não, tão embusteiros quanto os charlatães que a ele se submetem. A
presunção de impossibilidade de qualquer coisa (seja ela paranormal ou não),
desde uma perspectiva científica, só deve ser sustentada a partir de dados
empíricos advindos da laboriosa investigação experimental. Se baseada em
qualquer outra premissa, ainda que lógica, pode ser rotulada como dogmática.
Randi e os aspirantes a céticos profissionais parecem sofrer da mesma doença,
cientificamente imperdoável: o dogmatismo.
Afinal, o que significa apresentar-se como "cético"? Acho
realmente rizível tal atitude. Ou se é cientista ou não se é! Se todo cientista
deve adotar uma postura cética, então o que está em jogo? Uma negação
apriorística? Se é assim, então não estamos falando de ciência! Apresentar-se
como "cético" é tão ridículo quanto alguém que se apresentar como "estudioso
sistemático", ou "buscador de evidências empíricas", ou ainda, simplesmente,
"sério", todas características esperadas no comportamento do cientista. As vezes
tenho a impressão de que alguns se valem do rótulo de "cético" para esconder sua
não-formação científica. Ora, que se empenhem e se tornem, simplesmente
cientistas, pesquisadores. Mas tenho informações suficientes para sustentar a
posição de que, por trás de certos movimentos céticos, na verdade existe uma
luta anti-religiosa. (Sinto-me à vontade para falar do tema uma vez que não faço
parte de qualquer movimento religioso, não me considero religioso e sou um
não-teísta!)
Chegamos ao tempo de apresentar nossa definição de
"paranormofilia", horrível neologismo, bastante útil para expressar a outra face
do problema. O paranormófilo é o oposto daquele que se apresenta como cético.
Acredita em tudo, sem que seja necessária a verificação científica. Tem
experiências de sair do corpo e acredita que isso seja suficiente para validar a
existência da "alma". O paranormófilo vai à sessão espírita e sai de lá
acreditando que falou com espíritos. Muitas vezes prefere ir ao curandeiro a ser
asssitido por um médico. Acredita que forças insondáveis, entidades superiores
ou inferiores, energias sutis... estão demonstradas porque nelas crê.
Gostaria de comentar uma última questão, aproveitando de um
pergunta também bastante freqüente: "Alguém vai ganhar um milhão de dólares
do Randi?"
Meu palpite é de que não! Mas aqui apelo não à minha "intuição" ou ao meu desejo, mas ao meu conhecimento. Os fenômenos que estudamos, via de regra, se "demonstram" indiretamente, por meio de medidas, ou de maneira espontânea e
incontrolável, sem que saibamos quando e como se manifestarão. Não estou
assumindo a existência de fenômenos parapsicológicos ou paranormais (termo,
aliás, que abomino). Tenho sérias dúvidas a respeito de sua existência. Mas, ao
avaliar toda a história empíricas de tais anomalias estou, neste momento,
propenso a aceitar como boas as evidências existentes em seu favor. Ainda que eu
seja testemunha ocular do movimentos anômalos de uma tampa de bule (além de
outros objetos) sem contato aparente em uma assim chamada "casa mal-assombrada",
e ainda que eu seja também testemunha direta de sonhos alegadamente
precognitivos riquíssimos em detalhes, não considero tais experiências como
evidências aceitas cientificamente. Estas são importantes no sentido de
inspirarem estudos experimentais nos quais tenho pessoalmente estado envolvido
nas últimas décadas. Não sofro de paranormofilia. Não me apresento como cético.
Sou um cientista. Interesso-me pelo estudo de certas alegações que
convencionamos denominar de "aparentemente extra-sensório-motoras". As estudo
aplicando o método científico, submetendo hipóteses à experimentação e
controlando variáveis. |