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Texto do livro Holography Handbook, traduzido por Lidsley Daibert e originalmente exposto no site do Laboratório Holográfico do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Belas-Artes da UFMG
Um dos grandes mistérios que nós temos encarado como espécie é a tentativa de entender os mecanismos dos nossos cérebros. Como nós processamos as informações, aprendemos, recebemos novos estímulos, raciocinamos e nos tornamos conscientes de nossa condição? Milhares de pessoas nos campos da neurofisiologia, filosofia, psicologia, educação, sociologia, religião etc.., têm tentado se voltar para estas questões profissionalmente. Todos nós
provavelmente já debatemos o assunto individualmente. Mesmo com a
enorme quantidade de dados que têm sido acumulada, existem ainda
omissões fundamentais na descrição de como nós adquirimos estas
funções básicas. Um dos maiores quebra-cabeças é a maneira pela qual
o nosso cérebro armazena informação. Nenhuma relação uma-a-uma foi
detectado entre uma determinada célula cerebral ou grupo de células
e um pensamento particular ou memória. Se fosse assim, isto seria
possível de ser verificado, pela remoção de áreas selecionadas do
cérebro e observação da perda de uma característica particular
aprendida. Já "um dos fatos mais estabelecidos, ainda que mais
desconcertantes sobre os mecanismos do cérebro e a memória é que
grandes destruições dentro do sistema neural não prejudicam
seriamente a sua função". Lashley e outros descobriram isto pela
primeira vez ao remover 80 a 99 % das estruturas neurais, como o
cortex visual, em vários animais. Eles observaram que,
inacreditavelmente, resultava em nenhum efeito sobre o
reconhecimento de uma característica visual previamente aprendida.
De alguma maneira, a informação estava armazenada em algum outro
lugar.
Outros testes foram conduzidos onde áreas de todo o
cérebro foram removidas ou embaralhadas na tentativa de destruir uma
característica aprendida. Um pesquisador descreve suas mal sucedidas
tentativas em fazer uma salamandra esquecer como comer." Em mais de
700 operações eu rotacionei, reverti, somei, subtraí e amontoei as
partes. Fatiei, embaralhei, reembaralhei, desviei, encurtei, opus,
transpus, justapus. Eu colei a parte da frente na parte de trás,
pedaços da medula com pedaços do cérebro virados do avesso. Mas nada
que pudesse matar no cérebro a idéia da tigela de mingau - nada,
nada apagava a idéia de alimentar-se.
Lashley descobriu que "enquanto a intensidade da
lembrança estava em proporção com a massa do cérebro, nenhum tipo de
remoção do cérebro inteiro poderia interromper a lembrança
totalmente. Isto o levou-o a postular que "a intensidade da memória
depende da massa total do cérebro, mas a memória é registrada
onipresentemente através do cérebro".
Pribram percebeu espantosas similaridades entre
este conceito e a teoria holográfica convencional: "Nós podemos
então distinguir dois aspectos da holografia que a tornam única como
um dispositivo de armazenamento de dados: a primeira é que qualquer
uma das suas partes é igual à soma de suas partes, porque a mensagem
é reduplicada onipresentemente através de cada parte do
holograma...a segunda característica é que o holograma grava a
essência de um objeto e, então, uma repetidas superposições de
essências fornecem os detalhes, as particularidades do objeto quando
o holograma total é iluminado".
Como já relembramos, quando um holograma é feito, a
informação sobre o objeto é armazenada em todos os lugares da placa.
Se o holograma é partido, uma pequena parte ainda conterá uma
perspectiva do todo. O único modo de eliminar a imagem completamente
é jogar fora o holograma inteiro. Soa familiar? Na verdade, Rodieck
demonstra "que as equações matemáticas descrevendo o processo
holográfico encaixam exatamente com o que o cérebro faz com a
informação".
Isto é mais que uma coincidência? Em caso
afirmativo, então o que funciona como mecanismo de armazenamento?
Onde está o padrão de interferência e de que tipo de luz ele é
formado?
Nós relembramos que hologramas não precisam
necessariamente ser formados com luz visível como o fazem nossas
placas (por exemplo, hologramas acústicos ou mesmo ondulações num
tanque). Eles podem ser formados na presença de qualquer ação
ondulatória. E "não é necessária a presença de ondas físicas como as
utilizadas para a criação de um holograma, mas antes um padrão de
interferência, uma coeficiente de relações harmônicas". Assim, tudo
que precisamos procurar é um mecanismo que crie padrões de
interferência no cérebro e os armazene.
Vamos considerar o seguinte modelo: o cérebro é um
holograma. A mente é a imagem holográfica. Os neurônios individuais
são análogos aos grãos de prata na placa holográfica. Como os grãos
de prata, cada neurônio carrega uma perspectiva extremamente
limitada e tem uma importância real pequena. Como um agregado,
entretanto, uma enorme capacidade de armazenamento de informação é
obtida.
O sistema operaria da seguinte maneira: nova
informação sensorial é recebida pelo cérebro. Esta nova informação
não pode se auto-armazenar, mas já interage e interfere com toda a
memória e experiência passadas do organismo."
As "experiências passadas" agem como um quadro de
referência para os novos estímulos, ou quadros-objeto. Devido a
isso, o armazenamento como um padrão de interferência pode ser
realizado. Quase imediatamente este novo conhecimento se torna parte
do background de referência formando um novo "feixe-referência".
Agora a nova informação foi recebida, e ela interfere com sua nova
referência. Então, a experiência de aprendizado acumulativo em
processo é descrita como o meio pelo qual o novo é constantemente
comparado com o velho, assimilado, e então usado para avaliar novos
estímulos. O padrão de interferência resultante pode então ser
armazenado onipresentemente através do cérebro como faria qualquer
outro padrão de interferência. "O holograma neural (o cérebro) é
continuamente exposto e reexposto ao ambiente em transformação,
codificando assim um grupo de padrões de interferência em constante
modificação que são lidos como um holograma temporariamente
revelado, isto é, a mente, com seu modelo constantemente modificado
da realidade e associado a pensamentos, memórias, imagens e
reflexões".
O leitor astuto poderia perguntar: se a informação
é distribuída através do cérebro, por que então certas áreas parecem
se especializar em funções específicas? Pode-se influenciar a visão,
a audição, o paladar e outros inputs pelo estímulo de áreas
apropriadas do cérebro. Este aparente paradoxo pode ser resolvido ao
considerar-se que, por analogia, em uma placa holográfica
convencional, maiores densidades de franjas são localizadas em
algumas áreas, menos em outras. Isto é porque a imagem pode aparecer
mais brilhante quando se olha através de certas áreas da placa, e
mais fraca onde talvez menos exposição ou proporção de feixe estão
presentes. Nós podemos imaginar um fenômeno similar ocorrendo no
cérebro, agindo como um tipo de holograma de canais múltiplos, com
densidades variadas para diferentes características, localizadas em
diferentes áreas específicas. Desde que áreas de maior densidade
tenderão a agir como fontes de referência mais forte, novos inputs
desta mesma natureza encontrarão um armazenamento mais eficiente
nestes locais. Estas áreas se tornam então mais fortes nas suas
funções especializadas pela ação redundante de um sempre crescente
fotograma-referência. Agora, se uma seção do cérebro é removida, a
informação será armazenada nas áreas remanescentes, apenas com a
redução da capacidade de resolução. Esta deficiência pode muitas
vezes ser compensada pela reaprendizagem através da repetição de uma
característica particular ou construindo um novo
fotograma-referência forte. Na realidade, é o que ocorre na
reabilitação que se segue a um derrame.
Para ajudar a visualizar o sistema de armazenamento
holográfico da memória em ação, nós podemos comparar o processo
cognitivo de um adulto com o de uma criança recém-nascida.
Quando um adulto vê uma maçã, ocorre um
reconhecimento quase instantâneo. O adulto, tendo visto, provado ou
ouvido outros descreverem maçãs inúmeras vezes , necessita um
pequeno input sensorial novo para uma identificação rápida e
eficiente. O forte fotograma-referência "maçã" do adulto pode ser
comparado a olhar um holograma com uma forte iluminação, produzindo
uma imagem brilhante.
O bebê, por outro lado, não teve nenhuma
experiência anterior com uma maçã para influenciar seu primeiro
contato com ela. É verdade, existem processos cognitivos
genéticamente obtidos que permitem algum grau de percepção do
objeto, mas o reconhecimento da maçã como maçã ocorre apenas através
de repetidas exposições a ela. O bebê começa com um quadro de
referência fraco, mas a cada momento sucessivo, a interferência
cognitiva acontece (a experiência do momento prévio é adicionada à
memória do próximo momento, ou quadro de referência). A nova
informação agora interfere com este novo produto. Eventualmente,
este processo em andamento resulta na produção de um quadro de
referência com força suficiente para requerer uma estimulação
sensorial nova muito pequena para haver reconhecimento.
Pode-se ficar consciente deste processo em
funcionamento. Tanto a interferência momento-a-momento quanto a
momento-mais-a-soma-das-experiências-passadas acontecem neste
sistema. Por exemplo, o adulto pode facilmente experimentar miragens
ou ilusões através do processamento de informações visuais com
quadros de referência poderosos. É possível, entretanto, com grande
concentração, ver através da ilusão, pela substituição do quadro
momento-a-momento com o quadro adulto usual empregando um "corpo" de
maior experiência. Gradualmente, uma nova referência irá se impor,
estilhaçando a velha ilusão.
Olhar através de miragens pode ser muitas vezes um
difícil exercício. O que pode acontecer, entretanto, é que a
interferência cognitiva entre os próprios fotogramas-referência
possa ocorrer. Isto deveria gerar uma quase nova perspectiva
dimensional,quase estereoscópica sobre o evento, permitindo um
grande controle sobre a avaliação da situação. Verdadeiramente, esta
nova interferência pode explicar o fenômeno da consciência, ou o
conceito de "aquela pequena pessoa dentro da pessoa" que nós todos
experimentamos.
Pribram discute como a "holografia de
reconhecimento" pode funcionar de acordo com a teoria holográfica
convencional. Suponha que quando estivermos fazendo um holograma nós
usemos um feixe-referência de um espelho parabólico ou uma lente
convergente para gerar um ponto. Quando o ponto é iluminado, ele irá
recriar o objeto. Assim, se o objeto for iluminado, ele recriará o
ponto! Um detetor colocado nesse ponto pode então "identificar" o
objeto. Esta idéia pode ser levada um passo adiante pela criação de
um holograma de dois objetos. O holograma pode ser reconstruído,
naturalmente , com um feixe de iluminação tomando o lugar do
feixe-referência original. A luz refletida de um dos objetos também
pode ser utilizada para atuar como feixe-referência para o outro
objeto. Se o feixe referência é bloqueado, e o objeto e o holograma
não têm a posição modificada, mesmo que somente a luz objeto esteja
sendo usada, um objeto irá gerar a imagem do outro. Nós acabamos de
descrever uma relação associativa a qual, no caso do holograma
neural, pode explicar porque um pensamento pode levar a outro.
Em suma, Pribram nota que "memórias holográficas
demonstram uma grande capacidade, processamento paralelo,
endereçamento de conteúdo para rápido reconhecimento, armazenamento
associativo para compleição perceptiva e lembrança associativa. A
hipótese holográfica serve portanto não apenas como guia para o
experiência neuro-psicológica, mas também como possível ferramenta
no entendimento dos mecanismos envolvidos em problemas
comportamentalmente derivados do estudo da memória e da percepção".
E, como Ferguson notou, "a teoria de Pribram tem ganho crescente
apoio e não tem sido seriamente
desafiada". |