por Widson Porto
Reis 
(Projeto Ockham)
Introdução
Você está confortavelmente instalado na poltrona do cinema e de repente
sente uma vontade incontrolável de beber um certo refrigerante. Mais tarde fica
sabendo que durante o filme foram exibidas, sem que você percebesse, imagens
que diziam "beba coca-cola". Em outra parte, alguém vai a uma loja
decidido a fazer algumas compras sem pagar por elas, mas misteriosamente suas
compulsões cleptomaníacas desaparecem depois de alguns instantes rodando pela
loja. O segredo desta súbita honestidade está na música ambiente, que
sussurra frases inaudíveis do tipo "roubar é errado". Outra pessoa,
cansada de sofrer repetidas rejeições do sexo oposto decide tratar sua
insegurança ouvindo fitas de auto-ajuda. Nas fitas, por detrás das músicas
esconde-se imperceptível uma voz que repete incessantemente "você é um
poderoso imã para o sexo oposto". Um mês depois esta pessoa já é dona
de um invejável currículo social. Enquanto isso, diariamente todos são
bombardeados por palavras e imagens de apelo sexual. Não, não se trata das
tradicionais mulheres seminuas que vendem de perfumes a automóveis, mas de
imagens escondidas, muito mais eficazes na arte de separar o dinheiro de seu
dono
Todas as situações acima têm algo em comum. Todas se baseiam na crença de
que mensagens imperceptíveis, ou abaixo do limiar de percepção, chamadas de
mensagens subliminares, têm o poder de ditar comportamentos, curar maus hábitos,
aumentar o consumo de um determinado produto ou, em resumo, manipular a mente
das pessoas. Será que isso é verdade?
Antes de investigarmos o assunto à luz da ciência, vamos primeiramente
descobrir como as mensagens subliminares se tornaram tão imensamente populares
nos dias de hoje.
O nascimento de uma lenda
Em setembro de 1957, o especialista em marketing americano James
Vicary convocou a imprensa para anunciar o lançamento de sua empresa, a
Subliminal Projection Company, na qual era vice-presidente. Na conferência
Vicary revelou ter patenteado uma nova técnica de vendas chamada "projeção
subliminar" que consistia em utilizar um taquitoscópio (um dispositivo
capaz de projetar imagens numa tela muito rapidamente) para exibir imagens entre
os quadros de um filme durante uma fração de segundos (para ser mais preciso,
0.00033s). Como eram projetadas numa velocidade maior que o olho podia captar,
estas imagens não eram vistas conscientemente, mas Vicary acreditava que elas
atingiam diretamente o subconsciente. Para provar a eficiência de suas
propagandas subliminares, Vicary divulgou o resultado do experimento que teria
conduzido num cinema de New Jersey. Ao inserir imagens com os dizeres "Drink
Coke" e "Eat Popcorn" durante a projeção do filme ele teria
aumentado em 57,7% as vendas de coca-cola e em 18,1% as vendas de pipoca às
portas de saída do cinema. A experiência foi relatada na revista Advertising
Age (Vol 37, pág. 127, 16 de setembro de 1957).
A mídia debruçou-se ansiosa sobre a história e deu a ela tratamento
sensacionalista. Um dos artigos, do Wall Street Journal, por exemplo, começava
assim:
"Esta história pode soar como se um disco voador
espreitasse por detrás das cenas, mas você pode ter certeza que todos os
personagens nesta novela são reais. O conto começa alguns meses atrás, quando
vários homens silenciosos adentraram um cinema de New Jersey e montaram um
estranho mecanismo junto ao projetor."
Matérias como estas, carregadas de mistério e de referências a contos de ficção
cientifica, foram comuns e ajudaram a criar a aura fantástica em torno das
mensagens subliminares que permanece até
hoje.
Desde o início as mensagens subliminares estiveram na mira dos grupos
religiosos: logo após o anúncio da experiência de Vicary, a WCTU (Women's
Christian Temperance Union) enviou uma nota à imprensa afirmando que técnicas
subliminares estariam sendo usadas para aumentar as vendas de cervejas e outras
bebidas alcoólicas. Nenhuma evidência que comprovasse a alegação foi
apresentada, assim como nenhuma evidência tinha sido apresentada para comprovar
o experimento de Vicary, mas juntas as duas alegações deram credibilidade uma
à outra.
Logo as mensagens subliminares estavam no centro das atenções. O autor do clássico
romance "Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley, escreveu em 1958 sobre
um futuro onde "ditadores científicos instalarão máquinas
sussurrantes e projetores subliminares em escolas e hospitais".
Mensagens subliminares passaram a ser vistas como uma invisível e indefensável
técnica de lavagem cerebral. Editoriais furiosos foram publicados na imprensa
exigindo o imediato banimento das propagandas subliminares, enquanto um senador
americano pedia a regulamentação do uso da técnica.
Ainda em 1957, o ano em que Vicary anunciou seu experimento, surgiram as
primeiras tentativas de replicar o efeito subliminar. A rede de televisão WTWO
testou a técnica inserindo imagens que diziam "se você viu esta mensagem
escreva para a WTWO". A WTWO não reportou nenhum aumento na correspondência.
No ano seguinte o próprio Vicary concordou em conduzir um experimento público
na rede de televisão canadense. A imagem dizendo "LIGUE AGORA" foi
inserida 352 vezes durante meia hora de programa, mas nenhum aumento nas ligações
foi registrado. Os telespectadores, que sabiam que alguma imagem estava sendo
subliminarmente exibida mas não sabiam qual, escreveram para a rede de TV
dizendo que haviam sentido uma vontade irresistível de apanhar uma cerveja ou
de trocar de canal.
Finalmente em 1962, alarmado com a dimensão que a história recebeu, James
Vicary concedeu uma entrevista à revista Advertinsig Age em que confessou
ter sido pressionado pelos investidores a publicar resultados de experimentos
que não tinha feito realmente. Disse Vicary:
"...nós fomos forçados a divulgar a idéia (da
subliminaridade) antes que estivéssemos realmente prontos... nós não
havíamos feito nenhuma pesquisa exceto o mínimo necessário para
registrar a patente. Eu tinha pouco interesse na companhia (Subliminal
Projection) e uma pequena quantidade de dados, muito pequena para ser
significativa."
A confissão de Vicary esfriou o assunto mas não o esvaziou. Em 1973, houve
um renascimento do interesse pelo tema com o lançamento do livro "Subliminal
Seduction - Ad Media's Manipulation of a Not So Innocent America" (Sedução
Subliminar - Manipulação da Mídia Publicitária de uma América Não Tão
Inocente). O autor, Wilson Bryan Key, acusava as agências de publicidade de
usar mensagens subliminares em jornais, revistas e na televisão para aumentar
suas vendas. No livro, Key fez várias afirmações bombásticas, dizendo, por
exemplo, que "as agências de publicidade gastam boa parte de seus recursos
em pesquisas, desenvolvimento e aplicação de estímulos subliminares",
mas sem apresentar nenhum documento, nem testemunhas, ilustradores, desenhistas,
artistas gráficos ou nenhum profissional que admitisse, nem anonimamente, haver
inserido deliberadamente mensagens subliminares em propagandas. Claro que,
segundo Key, tudo estava sendo mantido em segredo pelas grandes corporações e
pelo próprio governo.
Uma marca pitoresca do discurso de Key que foi incorporada ao mito das
mensagens subliminares é o apelo sexual. Key afirmava que: "palavras como
fuck, ass, whore, cunt [vamos deixar você procurar o significado destas
palavras no dicionário] e morte são usadas freqüentemente como gatilhos
subliminares para motivar comportamentos consumistas". Por exemplo, no nome
da marca de cigarros "Kent", Key via uma similaridade subliminar com a
palavra "cunt" (na verdade Kent era o sobrenome do dono da companhia
de cigarros Lorillard na época do lançamento da marca). Como palavrões
poderiam influenciar os hábitos de consumo de alguém é uma coisa que Key
explicava com uma tortuosa psicologia freudiana. Além de palavras de baixo calão,
Key possuía uma habilidade incomum de ver sexo escondido em
qualquer coisa. O título de seu livro posterior "The
Clam-Plate Orgy" (A Orgia no Prato de Moluscos) era uma referência à
imagem de um prato de moluscos que ilustrava o menu de um restaurante de frutos
do mar; em vez de um punhado de moluscos Key viu uma cena de sexo grupal... que
incluía um macaco! E o que dizer da afirmação de que os orifícios dos
biscoitos Ritz eram dispostos propositalmente para formar a palavra "SEX"?

Capa do livro de Wilson Key. A legenda diz: "Você está se sentido
excitado com esta figura?". Segundo o autor, você deveria ver uma mulher
nua nos cubos de gelo.
Por mais que as alegações de Key fossem desprovidas de evidências, elas
revitalizaram o mito e o tornaram muito mais "interessante" (sobre uma
coisa Key tinha razão: sexo é sempre um tema popular). Como
resultado, em 1980 nos EUA 78% da população pesquisada dizia já ter
ouvido falar das mensagens subliminares e destes, aproximadamente 50%
acreditavam que elas eram usadas comumente pela mídia. Quanto ao
"experimento pipoca" de Vicary, este continua sendo usado por todos os
que vendem o poder das mensagens subliminares, sem que ninguém se lembre ou se
importe com o fato de o próprio autor tê-lo desmentido.
O que NÃO é subliminar?
Subliminar significa "abaixo do limiar de percepção". Simples
assim. Um som numa freqüência mais alta do que o ouvido pode escutar ou uma
imagem tão rápida que o olho não possa captar são exemplos de estímulos
subliminares.
Mas uma definição tão simples nos deixa um problema: se um estímulo
subliminar, portanto indetectável, é detectado pelo observador (ainda que
inconscientemente) ele deixa de ser classificado como subliminar. Ou seja,
qualquer efeito atribuído a um estímulo subliminar torna-se impossível por
definição.
De fato esta foi a definição utilizada pelos primeiros estudiosos que
estudaram o tema no final do século XIX, mas as coisas não são tão simples.
Os psicólogos sabem hoje que a percepção de um estímulo (isto é, ver algo e
saber que viu) depende de fatores psicológicos e sociais tanto quanto de
fatores fisiológicos. Alguém pode ver alguma coisa e simplesmente não se
sentir confiante o suficiente de ter visto. Assim, em vez de uma linha
separando o que está abaixo do limiar de percepção do que está acima, os
psicólogos falam em uma faixa de percepção: acima do limite superior, chamado
de limiar subjetivo, as pessoas são capazes de
notar claramente um estímulo; abaixo do limite inferior, chamado de limiar
objetivo estão os estímulos que não podem ser percebidos de maneira
nenhuma; abaixo do limiar subjetivo, mas acima do limiar objetivo as pessoas
percebem os estímulos mas pensam que não perceberam. Com isso, um estímulo
subliminar passa a ser considerado um estímulo percebido,
mas não reportado.
E aí começa a confusão... A maioria dos sites sobre o assunto não só
misturam todos os tipos de mensagens subliminares (subjetivas e objetivas,
visuais e auditivas) num mesmo balaio, atribuindo a todas elas poderes fantásticos
de persuasão, como ainda acrescentam ao saco inúmeras coisas que não tem absolutamente
nada de subliminar.
Um dos maiores sites nacionais sobre mensagens subliminares é o portal da Organização
Não Governamental de Estudos e Pesquisas em Mensagem Subliminar. Este site
é o ponto de partida para qualquer pesquisa que se faça sobre o assunto em língua
portuguesa. Ironicamente, muito pouco do que se diz no site tem realmente a ver
com mensagens subliminares, na acepção correta do termo.
Para início de conversa esta ONG considera qualquer imagem que esteja num
segundo plano como subliminar. Claro que a primeira regra para uma imagem ser
subliminar é não ser vista, mas a ONG parece ignorar completamente este fato.
Um dos exemplos é o "inocente cartão de Natal" da figura. Por causa
das folhas de maconha estampadas no fundo, o Professor Vicente, presidente da
ONG, diz haver uma referência subliminar à maconha. Para nós é difícil
imaginar uma mensagem mais clara do que esta.
Na verdade, os organizadores deste site julgam como subliminar tudo o que não
é percebido imediatamente, ou seja, usam a palavra subliminar como sinônimo de
subentendido. O mais grave é que devem possuir um limite de percepção
extremamente estreito para considerar como subliminares coisas como a tirinha do
Horácio (abaixo), em que as montanhas têm a forma de uma mulher (que por sinal
é a graça da piada), e a capa da revista Istoé, que propositalmente dispôs o
texto de forma fálica numa matéria sobre o Uprima, um remédio para impotência.

Na tirinha o texto diz "não sei o que deu em você, que só quer dormir
no alto daquela montanha, Horácio". Horácio responde "Nem eu, mas eu
acordo tão bem, tão revitalizado!".
Imagine como ficaram frustrados os idealizadores destas elaboradas "gags"
ao saber que algumas pessoas as consideram abaixo do limiar de percepção!
O Ph.D. Flavio Mário Calazans, autor do livro Propaganda Subliminar Multimídia
considera até o merchandising das novelas, aquele que um personagem bebe uma
cerveja com o rótulo "casualmente" voltado para câmera, como
mensagem subliminar (ora, se o merchandising está sendo visto não é
subliminar!). Professor Calazans vê mensagens subliminares no tom de voz usados
pelos atores de novela, nas cores da rede de lanchonetes MacDonalds (o vermelho
estimularia a fome, segundo ele -- no que mistura o assunto com cromoterapia) e
até nas figuras de linguagem
usadas na conversas do dia a dia. Nada disso é classificado como subliminar na
literatura científica; não é à toa que as fontes bibliográficas que este
autor cita são quase que exclusivamente os livros populares sensacionalistas de
Wilson Key e Vance Packard (1958). A falta de ciência nos trabalhos de Calazans
é gritante. Por exemplo, sobre o episódio do Pokemon que causou ataques epilépticos
em crianças no Japão em 1997, Calazans afirma:
"As cores em seqüência piscadas: vermelho, branco e azul, nesta
velocidade , causam o curto-circuito epilético, pois o vermelho (760 nanômetros)
ondas longas, acelera batimento cardíaco e eleva a pressão sangüínea, libera
adrenalina; o azul (450 nanômetros) ondas curtas, reduz a pressão sistólica,
acalma e relaxa, este dilema subliminar de mensagens com efeitos opostos gera o
efeito epilético chegando a alterar a química do sangue (?)". Tantas
informações duvidosas misturadas com informações desnecessárias e nem uma
única referência científica para suportá-las... Mas o experimento do cinema
de James Vicary, este é citado e como! Calazans chega a classificá-lo como um
dos três acontecimentos mais importantes da mídia do século XX. O que este
Ph.D. não informa aos seus leitores e aos assistentes de suas palestras (pelas
quais cobra 1000 dólares mais despesas) é que o experimento foi uma
reconhecida farsa.
Se estivessem simplesmente confundindo alhos com bugalhos, estes sites seriam
inofensivos. Porém, com o experimento forjado por Vicary na ponta da língua e
seguindo à risca a cartilha paranóica de Wilson Key, muitos creditam a estas
mensagens, que nada tem de subliminares, poderes praticamente sobrenaturais.
Um exemplo bíblico: a ONG Mensagem Subliminar afirma que a primeira referência
às mensagens subliminares foi feita por Moisés no livro do Gênesis. O
Professor Vicente conta a história do pastor de ovelhas Jacó que, após
trabalhar vários anos de graça para seu tio, Labão, firma com ele o seguinte
acordo: todas as ovelhas dali por diante que nascessem com peles malhadas seriam
de Jacó, enquanto aquelas de pele lisa seriam do tio. O acordo era claramente
desfavorável a Jacó, já que o nascimento de ovelhas malhadas é evento muito
mais raro que de ovelhas lisas, mas, inspirado divinamente, Jacó espalha nos
locais em que as ovelhas bebiam água, varas de álamo, aveleira e castanheiro,
descascadas de maneira a lembrarem listras e malhas. Diz o livro do Gênesis:
"E concebia o rebanho diante das varas e as ovelhas davam crias listradas,
salpicadas e malhadas" (Gen.30.39). Segundo a Bíblia, com este artifício
divino, Jacó logo se tornou um dos homens mais prósperos de sua região. Bem,
e onde se encaixam as mensagens subliminares? Segundo o professor Vicente
"as (ovelhas) prenhas, quando bebiam água nos bebedouros, registravam a
imagem das varas à sua volta, repetidas vezes durante o dia, apenas na visão
periférica, ou seja, a imagem das cercas, não era focada conscientemente.
Esses estímulos subliminares, eram remetidos diretamente ao ventre das fêmeas,
interferindo na formação genética dos embriões. O professor Vicente
prossegue dizendo que: "A medicina moderna tem confirmado fatos semelhantes
ocorridos com mulheres que no período da gestação tem uma afinidade muito
grande com certos animais de estimação, objetos ou frutas e que, quando dão
à luz, alguns sinais ou manchas associadas a estes elementos, acabam impressos
na pele da criança". Com este testemunho, excluímos a possibilidade do
professor Vicente dar aulas de Medicina.
Até aqui já mostramos como a experiência de Vicary não passa de uma lenda
urbana e que a maior parte do que os sites populares escrevem sobre o assunto não
trata de mensagens realmente subliminares. Mas o que dizer das mensagens
subliminares genuínas? Será que estas mensagens imperceptíveis, passando
diretamente pelos filtros da nossa mente consciente, são capazes de influenciar
nosso comportamento? E funcionando ou não, será que mensagens subliminares estão
deliberadamente sendo usadas pela mídia para controlar nosso bolso e nossa
mente?
Ok. Hora de ouvir a ciência. E também as agências de publicidade.
O que diz a ciência
Antes de mais nada, não existe na psicologia respeitável a noção de
subconsciente como uma entidade separada do consciente, com idéias, crenças,
desejos e motivações próprios. Este subconsciente "esperto", capaz
de tomar suas próprias decisões à revelia do dono, povoa apenas o imaginário
popular, não os livros científicos. É importante deixar isto bem claro, pois
esta visão popular do subconsciente é a grande responsável pela força do
mito das mensagens subliminares. Apesar disso, nenhum psicólogo duvida que é
possível perceber um estímulo sem estar consciente dele. O problema é
descobrir em que grau isso acontece.
Os primeiros estudos sobre percepção subliminar foram feitos no final do século
XIX. Naqueles primeiros experimentos os pesquisadores mostravam aos voluntários
fichas com letras ou figuras geométricas a uma distância tão grande que
quando perguntados sobre o que viam todos diziam que não conseguiam distinguir
nada além de borrões. Depois pediam as pessoas que tentassem adivinhar em um
questionário de múltipla escolha as figuras que haviam sido mostradas. Como o
nível de acertos era maior do que o que seria obtido ao acaso, os pesquisadores
concluíam que as pessoas haviam sido afetadas pelas imagens ("Psychological
Investigations of Unconscious Perception", Philipe Merikle, Journal of
Counciosness Studies, 5,1998). A partir do final do final dos anos 70 os
pesquisadores passaram a tentar verificar se havia mudanças no comportamento
das pessoas submetidas a estímulos subliminares. Em um estudo famoso os
pesquisadores exibiram ideogramas chineses aos voluntários e depois pediram a
eles que tentassem adivinhar num teste de múltipla escolha se os ideogramas
tinham significados positivos ou negativos. Para algumas pessoas as imagens
foram precedidas por imagens subliminares de figuras sorridentes ou tristes de
tal maneira que nenhuma pessoa reportou tê-las visto. A conclusão é que as
pessoas submetidas às imagens subliminares tiveram maior tendência de
classificar positivamente os ideogramas precedidos de figuras positivas que
aquelas que não tinham sido submetidas a elas. Este tipo de estudo, em que o
indivíduo é preparado com a breve exposição preliminar de uma imagem antes
de medir seu desempenho, é chamado de estudo de "priming". A maior
parte da base estabelecida sobre percepção subliminar e seus efeitos foi
adquirida com estudos deste tipo ("Unconscious Processes, Subliminal
Stimulation, and Anxiety", Mayer e Merckelbach, Clinical Psychology Review,
Vol. 19, No. 5, pp. 571-590, 1999).
Mas é neste ponto que os resultados se tornam conflitantes. Há vários estudos
de "priming" que mostram, logo após a exibição dos estímulos,
melhoria nas habilidades motoras (medindo o resultado no lançamento de dardos),
mudanças de humor, redução da ansiedade e de fobias como a agorafobia e até
perda de peso. Em contrapartida há um grande número de estudos que
simplesmente não encontraram nenhuma relação entre mudanças comportamentais
e estímulos subliminares e muitos falharam em tentar replicar os resultados
positivos daqueles estudos. Por que tanta confusão?
Bem, a psicologia não é uma ciência exata. Seu objeto de estudo não é o
previsível mundo natural, mas a mente do homem, com todas as suas
subjetividades e nuances. É muito difícil planejar um experimento com uma
metodologia que isole totalmente o fenômeno que se está estudando. No caso da
percepção subliminar o maior problema dos pesquisadores é assegurar que um
estímulo seja realmente subliminar para todas as pessoas no experimento. Como já
dissemos, não existe uma linha demarcando o que é subliminar do que não é.
Em vez disso, há uma faixa entre o chamado limiar subjetivo e o limiar
objetivo; dentro desta faixa um estímulo é percebido, mas sem que o observador
tenha consciência dele. Acima do limite subjetivo o estímulo é percebido
conscientemente pelo observador, sendo chamado de supraliminar. Já abaixo do
limite objetivo não há nenhum traço de percepção. Descobrir os limites
objetivo e subjetivo de cada pessoa e enquadrar o estímulo nesta estreita faixa
para todas as pessoas no experimento é uma dificuldade enorme.
Mas por sobre a confusão e a contradição pairam algumas certezas. Mesmo os
pesquisadores mais otimistas reconhecem que o efeito de um estímulo subliminar
não dura mais do que dois ou três segundos. Quer dizer, quando o teste
cognitivo não é feito imediatamente depois da exibição das imagens
subliminares, nenhum efeito é verificado. Há apenas um trabalho mostrando
efeitos de até 24h, em pacientes anestesiados: "Memory of unconsciously
perceived events: Evidence from anesthetized patients" de Philip Merikle).
Além disso sabe-se que nem todos os tipos de mensagens subliminares são
igualmente eficazes; as visuais tem efeitos cognitivos muito maiores do que as
auditivas.
Outro consenso entre os cientistas é que percepção subliminar não significa
persuasão subliminar. Ou seja, embora a percepção subliminar possa aumentar o
número de respostas certas em questões de múltipla escolha sobre o estímulo,
ela não pode fazer que alguém beba mais coca-cola, pare de fumar ou mude de
orientação sexual. Não há nenhuma evidência de que as ações de alguém
podem ser comandadas por estímulos percebidos inconscientemente (como bem sabem
os paranóicos de plantão, as únicas alegações deste tipo vêm de mitos
urbanos como o "Experimento Pipoca", de James Vicary). Pelo contrário,
todas as evidências
sugerem que para iniciar uma ação baseada em um estímulo, uma pessoa precisa
estar ciente dele.
Por isso não é de espantar que todos os estudos que se fez sobre os efeitos de
mensagens subliminares na mídia tenham sido negativos e que 40 anos depois
ninguém tenha conseguido reproduzir os resultados do "experimento
pipoca" de James Vicary. No estudo "Effectiveness of Subliminal in
Television Commercials" (Eficácia do Subliminar nos Comerciais de Televisão)
de Smith e Rogers (1994), os pesquisadores incluíram em um comercial as
palavras "ESCOLHA ESTE" com graus diferentes de contraste de tal
maneira que elas fossem perfeitamente claras para um grupo e subliminares para
outro e pediram aos expectadores que marcassem num questionário seu interesse
nos comerciais. Depois compararam os resultados com os de um grupo de controle,
cujos expectadores assistiram comerciais sem nenhuma mensagem. Ao final
constataram que os comerciais com as mensagens detectáveis obtiveram mais
pontos que aqueles com mensagens subliminares. Para sua surpresa, verificaram
que os comerciais com mensagens, subliminares ou não, obtiveram menos pontos do
que os do grupo de controle, sem mensagens. Do trabalho os autores concluíram
que a mais forte mensagem subliminar ainda é mais fraca que uma mensagem direta
e que mesmo que fossem eficazes (e não fossem proibidas por lei, ao menos nos
EUA), a inserção deste tipo de mensagens na televisão envolve dificuldades práticas
que tornariam a técnica pouco viável.
Investigando o efeito de palavras e imagens de conteúdo sexual escondidas em anúncios
na mídia os pesquisadores Vokey
e Read mostraram a um grupo de pessoas fotografias contendo a palavra "sex"
escondida entre as imagens, enquanto um grupo de controle viu as mesmas imagens
mas sem nenhuma mensagem escondida. Nenhum aumento na retenção da memória foi
observado em relação ao grupo de controle. Na verdade, segundo os autores, além
de não existir nenhuma evidência que suporte as alegações de Key, elas vão
contra todo o conhecimento atual da neurociência e ciência cognitiva.
Mas ainda que as mensagens subliminares não sejam eficazes como técnica de
propaganda, será que as agências de publicidade estão fazendo uso deliberado
delas? Bem, a única maneira de saber é perguntando aos publicitários. Foi o
que fizeram os pesquisadores Martha Rogers and Christine Seiler no artigo "The
Answer is No: A National Survey of Advertising Practitioners and Their Clients
about Whether they use Subliminal Advertising" (A Resposta É Não: Uma
Pesquisa Nacional das Agências de Publicidade e Seus Clientes Sobre Se Elas
Usam Ou Não Propaganda Subliminar, (um trecho do artigo pode ser lido aqui).
Rogers e Seiler pediram a 750 pequenas e grandes agências de publicidade em
todo o território americano que respondessem a um questionário no qual
perguntavam se elas já haviam usado técnicas subliminares em seus trabalhos,
onde por técnicas subliminares se entendia "palavras, imagens e formas
intencionalmente inseridas em materiais publicitários, de tal maneira que o público
não as percebam em nível consciente, mas em nível subconsciente". As
perguntas foram planejadas de maneira a estimular respostas tão honestas quanto
possível. Das 256 agências que responderam a pesquisa, 90,6% negaram qualquer
uso de técnicas subliminares; dos 9,3% restantes que admitiram terem usado técnicas
subliminares, todas menos uma consideraram artifícios triviais (como uso de
cores, certos tipos de personalidades que provoquem identificação com o
consumidor, etc) como subliminares, ou seja, possuíam a velha noção popular
de que subliminar é sinônimo de subentendido. O único caso das 256 agências
que usou alguma técnica subliminar real, admitiu que o fez como uma piada
interna.
Fitas de auto-ajuda
Você coloca a fita no toca-fitas do carro e enquanto dirige para o trabalho
relaxa ao som de suaves barulhinhos de água correndo, chuva caindo, pássaros
cantando, ondas do mar, etc. Mas por detrás destes sons, gravada de maneira
totalmente imperceptível para o ouvido humano, há uma voz repetindo mensagens
como: "eu estou me sentindo saudável e vibrante", "eu gosto de
comer vegetais frescos", "eu tenho uma barriga firme e disposição
para fazer exercícios", "eu sou um poderoso imã para o sexo
oposto" e por aí vai.
Há fitas para o inimaginável: desenvolver a acuidade visual, aumentar a
habilidade em basquete, golfe ou tênis, e até mesmo fitas que prometem
auxiliar o ouvinte a regredir a vidas passadas. E quando você pensa que já viu
de tudo, descobre que há fitas auditivas para curar... surdez!
É claro que em plena era digital, as velhas fitas cassetes evoluíram; hoje
vende-se CDs, arquivos MP3 e até mesmo softwares do tipo "faça você
mesmo" que permitem ao usuário criar fitas personalizadas para atingir as
metas que desejar. A despeito do imenso comércio em torno das fitas de
auto-ajuda (segundo a revista Newsweek em 1990 havia 2000 fabricantes de fitas
movimentando um negócio de 50 milhões de dólares), todos os trabalhos científicos
que já se fez até hoje sobre elas concluem: mensagens
subliminares gravadas em fitas de auto-ajuda não têm absolutamente nenhum
efeito sobre quem as ouve.
Por exemplo, no artigo "Subliminal Self-help Auditory Tapes: An Empirical
Test of Perceptual Consequences" (Fitas de Auto-Ajuda Subliminares: Um
Teste Empírico de Conseqüências Perceptivas, disponível aqui,
o autor Timothy E. Moore pediu a 53 pessoas, que haviam escutado fitas de
auto-ajuda contendo mensagens subliminares, que marcassem num teste de múltipla
escolha o que havia sido dito nas fitas. O resultado foi o mesmo de alguém que
chutasse todas as respostas. Ou seja, as mensagens subliminares não atingiram
nem conscientemente nem inconscientemente as pessoas que as escutaram.
Mas há quem possa advogar a idéia de que mesmo que as mensagens subliminares não
sejam captadas pelo cérebro ainda assim possam exercer algum efeito sobre as
habilidades motoras, sobre a autoconfiança ou sobre o peso corporal de quem as
ouve. No artigo "Subliminal Self-Help Audiotapes, A Search for Placebo
Effects" (Fitas de Auto-Ajuda Subliminares, Procurando por Efeitos Placebo)
o pesquisador Philip Merikle testou fitas de auto-ajuda para emagrecimento. Para
isso usou três grupos de 15 mulheres acima do peso; todas acreditavam na eficiência
das fitas de auto-ajuda. Um dos grupos ouviu fitas contendo mensagens
subliminares para emagrecimento, outro grupo ouviu fitas indistinguíveis das
primeiras mas que continham mensagens subliminares para perder o medo de
dentista e o terceiro grupo não ouviu fita nenhuma. O teste foi feito usando o
método de duplo-cego, ou seja, nem o pesquisador nem as mulheres sabiam que
fitas estavam ouvindo. Ao final de cinco semanas as mulheres dos três grupos
mostraram perda equivalente de peso.
Como nota o autor da pesquisa, há diversos trabalhos que sugerem que fitas de
auto-ajuda podem funcionar sim, por efeito placebo (afinal não se pode ignorar
que as fitas possuem legiões de clientes satisfeitos). Ou seja, é provável
que você realmente consiga perder alguns quilos escutando estas fitas se
realmente acreditar que elas são capazes disto (regredir a vidas passadas ou
curar surdez, no entanto, são outra história). Mas é bom deixar bem claro que
as mensagens subliminares nelas não terão absolutamente nenhuma influência
sobre seu emagrecimento (isso se houver alguma mensagem subliminar na fita! Pois
Merikle também analisou o espectro sonoro de diversas fitas e não
encontrou nenhum traço de mensagem por detrás das músicas. Ou os
fabricantes nem se dão ao trabalho de gravar algo que por definição não deve
ser escutado pelo ouvinte ou as mensagens eram subliminares até para os
aparelhos!).
Existe uma diferença fundamental entre as mensagens subliminares auditivas e
mensagens subliminares visuais, que por ignorância ou má-fé são
completamente ignoradas pelos vicaristas (não trocamos nenhuma letra não, são
chamados assim os que acreditam no "Experimento Pipoca" de James
Vicary). Para tornar uma imagem subliminar não é necessário alterar a imagem
fisicamente nem a maneira como ela atinge nossos sentidos, basta diminuir o seu
tempo de exposição. Já para tornar um som subliminar é preciso gravá-lo num
volume muito baixo e enterrá-lo sob camadas e camadas de outros sons. Acontece
que para ser percebido, o som, que nada mais é que uma onda de pressão causada
pelo deslocamento de ar, precisa ter energia suficiente para fazer vibrar o tímpano
- uma membrana do interior do ouvido - o que um som subliminar por definição não
tem. Afirmar que alguém pode ouvir, mesmo inconscientemente, um som escondido
em uma fita de auto-ajuda é o equivalente sonoro de dizer que uma princesa pode
sentir uma ervilha debaixo de uma pilha de colchões (como naquela fábula de
Hans Christian Andersen).
Se você quer saber mais, uma boa revisão bibliográfica dos experimentos
feitos até 1993 sobre fitas de auto-ajuda pode ser encontrada no artigo "Subliminal
Self-help Tapes: Promises, Promises? (Fitas de Auto-Ajuda Subliminares,
Promessas, promessas?)" de Beyerstein e Eich.
As mensagens subliminares vão a julgamento - o caso Judas Priest
James Vance and Ray Belknap eram dois adolescentes problemáticos, ou melhor,
mais problemáticos que a média. Os dois tinham dificuldades de adaptação,
eram abusivos e violentos em seus relacionamentos, socialmente alienados,
impulsivos e por vezes depressivos. Os dois vinham de lares desfeitos e um deles
já tinha apontado uma arma para a cabeça da mãe durante uma discussão. Os
dois possuíam histórico de uso de drogas, furtos e brigas na escola. Em 1985,
depois de beberem uma caixa de cervejas, fumarem maconha e ouvirem muito rock
& roll, os dois tentaram o suicídio com um tiro na cabeça, um deles pela
segunda vez. Belknap morreu na hora enquanto Vance ainda viveu por mais três
anos até morrer de uma overdose de medicamentos.
Quem você apontaria como culpados num episódio trágico destes? Os pais
ausentes? As drogas? Bebidas? A falta de valores familiares e/ou religiosos?
Genes ruins? Pois os pais dos garotos decidiram que a culpa era da banda de rock
Judas Priest e pediram uma indenização de 6,2 milhões de dólares. Alegaram
que seus filhos foram levados a cometer suicídio por uma mensagem subliminar
escondida na música "Better By You, Better Than Me", de 1978, que
dizia "Do It" (Faça). Isso mesmo. A palavra ""faça"
sozinha e praticamente inaudível teria sido a responsável por fazer dois
jovens delinqüentes, embriagados e drogados a se matarem. Por absurdo que possa
parecer o caso foi a julgamento.
Ainda durante o pré-julgamento, ninguém menos que Wilson Key, autor do livro
"Subliminal Persuasion", o homem que sozinho reinventou o mito das
mensagens subliminares, foi chamado para depor como expert no assunto. Diz muito
sobre a credibilidade de Key, famoso por enxergar imagens sexuais em biscoitos,
pratos de frutos do mar e copos com gelo, o fato dele ter sido dispensado logo
depois do pré-julgamento. Outro pseudocientista, Jonh Oates, criador dos
"Discursos Reversos", tentou ganhar alguma projeção com o caso
oferecendo seus préstimos aos advogados. Ao ouvir a música do grupo ao contrário
Oates encontrou outras 72
expressões de conteúdo maligno (temos que tirar o chapéu para a criatividade
deste homem). Também foi recusado. Os promotores precisavam de alguém respeitável
e chamaram Howard Shevrin, pesquisador de credenciais impecáveis e mais de 20
anos de pesquisas no tema. Shevrin expôs sua convicção de que estímulos
subliminares são especialmente poderosos porque passam despercebidos pela porta
de entrada da mente consciente fazendo com que a pessoa pense que são originários
de sua própria vontade. Segundo o pesquisador Timothy E. Moore, que esteve
presente ao julgamento, os argumentos de Shevrin foram muito convincentes e
causaram grande impressão no juiz.
Do lado da defesa estavam o já citado Timothy E. Moore, Anthony Pratkanis,
professor de psicologia social da Universidade da Califórnia, e Don Read, psicólogo
cognitivo da Universidade de Lethbridge. Os três se concentraram em apontar as
incoerências e falhas de metodologia dos numerosos trabalhos sobre percepção
subliminar, vários deles usados por Shevrin. Depois apresentaram diversos
trabalhos feitos sobre fitas de auto-ajuda com mensagens subliminares e discos
tocados ao contrário e mostraram como está provado que estas mensagens não
tem nenhum efeito sob quem as ouve.
No veredicto o juiz concluiu que a mensagem "Do It" realmente estava
presente na música, mas que nenhuma evidência havia sido apresentada de que
era outra coisa além de uma mistura não intencional de sons, nem de que estes
sons pudessem ser subliminarmente efetivos. Quanto a isto o juiz proferiu:
"As pesquisas científicas apresentadas não
estabelecem que estímulos subliminares, mesmo que percebidos, podem precipitar
condutas desta magnitude (...) a evidência mais forte apresentada neste
tribunal não mostrou outros efeitos comportamentais além de ansiedade,
estresse ou tensão". O grupo foi absolvido e a indenização
negada.
As observações de Timothy Moore sobre todo o caso foram transcritos em um ótimo
artigo da revista
"Skeptical Inquirer". Para ouvir o "Do It" que deu origem a
toda a história visite o link
do pesquisador Don Read (aproveite, é bem difícil de encontrar, mas se você
ainda acredita no poder das mensagens sublimminares, certifique-se de estar num
bom dia...). 
Humor: o homem está sentado em frente ao botão de lançamento de um
artefato nuclear; a legenda diz "Em retrospecto, a Nike nunca deveria ter
permitido suas propagandas no Departamento de Defesa Americano".
Cinco coisas básicas para guardar sobre as mensagens subliminares
Existem alguns temas nas pseudociências que são como aqueles vilões de
filmes de terror dos anos 80. Não interessa de quantas maneiras diferentes os
mocinhos os matam, no final eles sempre reaparecem. Assim são as mensagens
subliminares. Agora mesmo, enquanto escrevemos este artigo uma marca de cerveja
está sendo processada pela ONG Mensagem Subliminar por incluir num comercial
palavrões que só podem ser ouvidos quando a gravação é tocada ao contrário.
E lá vem de novo a história do cinema de Vicary para nos lembrar de como são
poderosas as mensagens escondidas.
Enquanto isso pessoas ganham dinheiro e projeção com livros, palestras e sites
sobre o que pensam ser mensagens subliminares. Fitas de auto-ajuda movimentam um
comércio milionário, a despeito das fartas evidências científicas de que não
funcionam. Grupos religiosos alimentam a paranóia, denunciando o uso das
mensagens subliminares na divulgação da palavra de satã. Amparando tudo isso
não há nenhum estudo realmente científico, apenas livros populares escritos
pelos leitores de outros livros populares. É... não há dúvida de que estamos
no terreno pantanoso de uma legítima pseudociência.
Por isso da próxima vez que alguém tentar lhe vender a paranóia das mensagens
subliminares, responda de volta que:
(1) A história do cinema, da coca-cola e da pipoca é uma farsa, admitida pelo
próprio autor em uma entrevista publicada em 1962. E ninguém, nem mesmo o próprio
James Vicary, conseguiu reproduzir a experiência até hoje. (Aqui cabe um
pensamento: tudo bem que lendas urbanas são extremamente resistentes e costumam
sobreviver a todas as evidências contrárias, mas se a própria confissão do
autor que fabricou o mito não é capaz de enterrá-lo, o que será?)
(2) Repita como um mantra: subliminar não é subentendido.
Subliminar é o que não é visto conscientemente; se viu, deixou de ser
subliminar. Uma imagem ou uma idéia sugerida, nas entrelinhas, sutil ou periférica
não é subliminar.
(3) Estímulos sensoriais abaixo do limiar de percepção objetivo, ou seja,
fora do alcance dos sentidos, como um som fraco demais para ser captado pelo
ouvido ou ininteligível como uma mensagem reversa, ou uma imagem rápida demais
que não possa ser captada pelo olho, não causam absolutamente nenhum efeito em
quem é sujeito a eles.
(4) Percepção subliminar é um tema amplamente estudado há mais de 100 anos
pela psicologia. Embora muitos pontos permaneçam controversos, não há nenhuma
evidência científica de que alguém possa ser persuadido por uma mensagem
subliminar a iniciar uma ação complexa como consumir um determinado produto ou
se suicidar.
(5) Fitas de auto-ajuda com mensagens subliminares não funcionam, a não ser
que você considere o efeito placebo. As mensagens subliminares em algumas delas
não podem ser detectadas nem por aparelhos, que dirá pelos seus ouvidos.
(6) Procurar mensagens subliminares escondidas em propagandas, como mulheres
nuas em copos de vodca e orgias em pratos de moluscos é a mesma coisa que
procurar formas familiares em nuvens ou manchas (como bem sabem aqueles que já
fizeram exames psicotécnicos que incluíam o teste
de Rorschach). Com alguma paciência algumas pessoas são capazes de
enxergar animais ou objetos caseiros enquanto outras provavelmente conseguem
distinguir diabos chifrudos ou órgãos sexuais. Cada um enxerga o que está
acostumado ou predisposto a ver (e se você pensa que esta é apenas uma metáfora,
veja o que algumas pessoas conseguem ver nas nuvens da tela de abertura do Windows
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