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ZANGARI, W. . Estudos Psicológicos da Mediunidade: Uma breve revisão. In: 3º Seminário de Psicologia e Senso Religioso, 1999, São Paulo. Caderno do 3º Seminário de Psicologia e Senso Religioso. São Paulo: 3º Seminário de Psicologia e Senso Religioso, 1999. v. 1. p. 94-102. Wellington Zangari
A análise unilateral da mediunidade tem levado a interpretações muitas vezes parciais e, portanto, incompletas dessa realidade. Monique Augras (1983), por exemplo, critica a posição daqueles que buscaram compreender a mediunidade - ou possessão por espíritos - por um enfoque que excluísse os elementos culturais envolvidos no fenômeno. "Ocorre que os grupos culturais que propõem tais modelos de explicação psicológica são os mesmos que, escolhendo o caminho do racionalismo, por isso mesmo excluem a tentativa de compreender o que a possessão significa dentro do grupo cultural que acredita em sua realidade". E segue, propondo que essas explicações não sejam definitivas: "Achamos mais correto, por enquanto, ‘suspender nosso julgamento’, tal como propunha Oesterreich no fim do estudo sobre os ‘Possuídos’". (1983, p. 77) A prudência em suspender nosso julgamento frente a uma realidade pouco conhecida, ou aparentemente mal interpretada, não deve, pois, neutralizar nosso empenho em conhecê-la.
Na verdade, podemos encontrar algumas análises do ponto
de vista psicológico do fenômeno da mediunidade que,
sejam completas ou não, constituem-se em importantes
contribuições e às quais devemos fazer
referência.
A pesquisa científica dos médiuns e da mediunidade
teve seu início organizado em 1882, com a
fundação da Society for Psychical Research, em
Londres. Dentre os membros da Society figuravam
personalidades que seriam conhecidas como as fundadoras da
Psicologia moderna, como Sigmund Freud, Carl Gustav Jung e William
James. As pesquisas realizadas pelos membros da Society estiveram
menos ligadas às análises psicológicas dos
médiuns do que à tentativa de
constatação dos supostos feitos mediúnicos,
como a capacidade de provocar alterações
físicas no ambiente (como o deslocamento de objetos) e a
capacidade de se comunicar com os espíritos de pessoas
falecidas. Apesar de serem criticados por provocarem seus efeitos
por meio de fraude, os médiuns também mereceram
análises menos desabonadoras. Nesse particular, a maioria
dos membros da Society concordaria, com William James: "O
que quero atestar imediatamente a seguir é a presença
- no meio de todos os ingredientes da farsa - de um conhecimento
verdadeiramente supranormal. Entendo por um tal conhecimento aquele
cuja origem não possa ser atribuída às fontes
ordinárias de informação - ou seja, os
sentidos do sujeito. (James, 1973/1909, p. 238)
Mas não é no sentido supranormal - ou
parapsicológico conforme a terminologia empregada
atualmente - com que a maioria dos membros da Society
investigaram a mediunidade que pretendo analisá-la.
Interessam-me, antes, os aspectos propriamente psicológicos
- ou normais. Nesse contexto, coube a outro membro da
Society, Theodore Flournoy, eminente pesquisador da
área da Psicologia da Religião e professor de
Psicologia na Universidade de Genebra, realizar as primeiras
análises psicológicas dos médiuns. Sem
discordar da posição de William James quanto
às faculdades para-psicológicas dos
médiuns, Flournoy se propôs a avaliar a psicologia dos
médiuns utilizando os referenciais teóricos
amplamente aceitos pela comunidade científica de sua
época. Em seu "Espiritismo e Psicologia" (1911), Flournoy
resume alguns dos resultados obtidos a partir de um
questionário, desenvolvido especificamente para levantar
alguns elementos da vida dos médiuns e de sua mediunidade.
Preocupou-se, por exemplo, em inquirir a respeito da
influência de condições fisiológicas e
mentais sobre a mediunidade e, inversamente, a influência da
mediunidade na saúde orgânica e mental dos
médiuns; sob que circunstâncias (se espontaneamente,
se durante uma sessão espírita...) os médiuns
descobriram sua mediunidade; a importância da mediunidade
para a vida mental, religiosa e moral dos médiuns; e as
origens familiares da mediunidade. (Flournoy, 1911, p. 33)
O trabalho pioneiro de Flournoy, apesar de fundamental do ponto
de vista histórico do estudo psicológico da
mediunidade, não fez senão uma pequena
referência aos seus aspectos psicossociais e culturais. A
identificação da existência de uma
"influência do meio ambiente" não parece suficiente
para compreender como e em quê tal
influência se deu. A conclusão de que em alguns casos
haveria predisposições familiares para mediunidade
parece demasiado categórica para ser extraída apenas
de um questionário. Investigações
psicológicas com a utilização de outras
técnicas poderiam oferecer importantes aportes para essa
questão.
Há uma tendência, antiga e atual, em interpretar o
fenômeno da mediunidade como um estado dissociativo. O
conceito de dissociação tem sido construído
diferentemente de acordo com a cultura do pesquisador. (Krippner,
1986, 1987, 1989, 1994, 1997) O conceito de
desagregação, proposto por Pierre Janet, por
exemplo, refere-se os fenômenos por meio dos quais duas ou
mais idéias ou estados de consciência tornam-se
separados e operam com aparente independência (Hilgard, 1992,
p. 69), tal como ocorre com a hipnose, os estados de fuga e a
mediunidade. (Krippner, 1994). Krippner propõe que a
"dissociação envolve a ocorrência de
experiências e comportamentos que se supõe existirem
afastados, ou terem sido desconectados, da consciência, do
repertório comportamental e/ou do auto-conceito.
'Dissociação' é o processo pelo qual essa
desconexão ocorre". (Krippner, 1994, p.
339) Hilgard (1992) e Braun (1988) apontaram que a
dissociação pode ocorrer em variados níveis,
além de não estar limitada a fenômenos
disfuncionais. Haveria um continuun entre a
dissociação patológica e a
dissociação não patológica (Bernstein
& Putnam, 1986). No contexto da mediunidade, Bourguignon
(1989), discutiu as diferenças conceituais entre "transe",
"possessão" e "transe de possessão", sustentando que
a "possessão" não envolve um "transe" ou outra
alteração de consciência, mas uma doença
pretensamente causada pela introjeção de
espíritos malévolos na mente e no corpo de
alguém. No "transe de possessão", haveria uma
alteração de consciência induzida por
espíritos durante o qual o comportamento e a fala das
entidades possuidoras poderiam ser observadas. Algumas vezes as
entidades seriam benevolentes (como no caso dos médiuns que
"incorporam" seus "espíritos-guias") e algumas vezes
inoportunas (como no caso de espíritos malévolos ou
entidades nocivas que falam e agem pelo corpo dos médiuns).
Bourguignon utilizou o termo "transe" para se referir aos estados
alterados de consciência induzidos que não
estão relacionados às idéias culturais de
possessão. Bourguignon (1989) apresentou dois estudos de
caso, um de Nova Iorque e outro de São Paulo, para examinar
as diferenças trans-culturais d as
interpretações dos fenômenos dissociativos. No
primeiro exemplo, uma mulher foi diagnosticada por um
psicoterapeuta como manifestando "desordem de personalidade
múltipla" e a personalidade "intrusa" foi interpretada como
uma cisão do núcleo da sua personalidade. No segundo
caso, a personalidade "intrusa" foi conceitualizada como um
fenômeno em que um ou vários espíritos
possuiriam o indivíduo em intervalos. Enquanto que no caso
de Nova Iorque a personalidade "intrusa" foi desconcertante para a
"hospedeira", no exemplo de São Paulo tal personalidade foi
aceita pelo grupo social do "hospedeiro" e por ele
próprio.
Assim, apesar da mediunidade "fazer uso" de capacidades
dissociativas individuais do médium, a
dissociação parece disciplinada pelo grupo social de
que o médium participa. Os elementos sócio-culturais
que darão o contorno das personalidades "intrusas"
estão presentes no grupo social do médium e,
portanto, na mente do médium. A análise de Burguignon
oferece a possibilidade de compreender que a diferença entre
a dissociação patológica e a
dissociação não-patológica reside na
cultura. Hughes (1992), após entrevistar e administrar
escalas de dissociação a sujeitos diagnosticados como
portadores de desordem de personalidade múltipla e de
médiuns, concluiu que "os médiuns não
exibem alto grau de psicopatologia, nem apresentam
experiências dissociativas em grau mais elevado em
freqüência, apesar de suas experiências de transe.
Apesar de tanto os médiuns quanto os portadores de desordens
de múltipla personalidade estarem condicionados à
dissociação ao nível dos processos mentais,
eles diferem em relação à etiologia,
função, controle e patologia. (...) Enquanto que para
os portadores de desordens de personalidade múltipla a
dissociação com co-consciência é
idiossincrática e compulsiva, para os médiuns de
transe a experiência dissociativa acompanhada de co-cons
ciência é contextualizada culturalmente e está
sob o controle da consciência do praticante". (Hughes
1992, p. 191)
Considerar a mediunidade não apenas pelo seu aspecto
individual-dissociativo, tem levado, como foi visto, a uma
análise das correlações entre fenômenos
psico-fisiológicos (como a própria
dissociação) e fenômenos culturais.
Deslocou-se, portanto, o eixo interpretativo de fatores
psicopatológicos para os de caráter psicossocial.
Mas, parece-me, as relações ainda não
estão bem delineadas. Não basta apontar a
existência de correlações. Seria
necessário novamente enfatizar que não parece haver
informações suficientes de como e em
quê essa correlação se dá.
O Brasil do começo do século assistiu a
inúmeras interpretações da mediunidade
também relacionadas à dissociação,
porém descontextualizando tais experiências de seus
aspectos culturais. A mediunidade foi descrita, quase
invariavelmente, como sinal de psicopatologia. Raymundo Nina
Rodrigues, interpreta a possessão como "estado de
sonambulismo provocado, com cisão e
substituição da personalidade" (Nina Rodrigues,
1900, p. 81) Manoel Querino (1955), por seu turno, afirma que
"tanto quanto nos permite a penetração nesses
segredos, essa exaltação dos sentidos é o
resultado de uma idéia fixa determinada pela
conversão sobre a espécie com pessoas entendidas, ou
por ter assistido aos atos fetichistas; tudo isso a influir no
temperamento nervoso, auxiliado pelo histerismo, desde que esse
fenômeno é peculiar ao sexo feminino, sempre
impressionável" (Querino, 1955, p. 73) O psicanalista e
antropólogo Arthur Ramos não fugiu à regra.
Segundo Monique Augras (1983), "quarenta anos após Nina
Rodrigues, Ramos pensa que o transe não revela nenhuma
característica além das já estabelecidas pela
Psiquiatria como a histeria de massa" (p. 36) Nota-se a
influência do pensamento psi quiátrico europeu do
final do século XIX, sobretudo francês, nas
idéias desses pesquisadores, momento em que Gustav Le Bon
fala de "histeria das multidões" e Charcot propõe a
dissociação histérica como
degeneração neurológica das mulheres.
(Ellemberger, 1976)
Foi com o antropólogo Melville J. Herkovits (1967) que a
mediunidade ganhou sua dimensão social no Brasil, deixando
de ser um aspecto psicopatológico. Nas palavras de Augras,
Herkovits "afirma que o transe ritual, por ser institucional,
é um fenômeno normal. Trata-se de culto organizado, em
vez de patologia individual". (Augras, 1983, p. 47) A
perspectiva de Herkovits foi empregada, posteriormente, por Octavio
da Costa Eduardo, no Maranhão, e por René Ribeiro
(1978), no Recife. Mas foram Roger Bastide e Pierre Verger que
trouxeram uma perspectiva propriamente sociológica e
histórica para a análise das religiões
mediúnicas no Brasil, a partir de meados da década de
1950. Bastide, nesse sentido, interpretava o "transe
místico" como um recurso religioso contra o protesto racial,
uma forma de compensação psicológica frente a
uma desigualdade social. Em suas palavras: "o transe
místico, identificando empregadinhas de restaurante,
cozinheiras ou pedreiros com os reis do céu, da tempestade
ou do mar, faz desaparecer os sentimentos de inferioridade, os
ressentimentos contra as humilhações diárias,
em resumo, tudo o que pode originar ou alimentar o protesto
racial". (Bastide, 1989) Augras, comentando a
posição de Verger no particular da mediunidade, narra
uma situação em que o antropólogo discutia com
um interlocutor que insistia em relacionar a histeria com a
possessão. Verger terminaria o diálogo com as
seguintes palavras: "No terreno da histeria, não o posso
acompanhar, eu não sou médico, sou fetichista!"
(citado em Augras, 1983, p. 51)
Como se pode notar, as análises feit as na mediunidade
apenas raramente foram realizadas por pesquisadores com
formação psicológica. Foram sobretudo os
antropólogos e sociólogos que ofereceram
interpretações psicológicas ou psicossociais
para esse fenômeno.
Mas outra classe, a médica, também se propôs
a investigar os fenômenos mediúnicos no Brasil. A
posição da comunidade médica brasileira sobre
o Espiritismo parece acompanhar os acontecimentos históricos
relacionados a essa religião no Brasil. A
perseguição feita aos espíritas durante
governo do Presidente Getúlio Vargas parece ter legitimado a
posição da comunidade médica, francamente
contrária ao Espiritismo. Por exemplo, durante as
décadas de 1920 e 1930, a Liga de Higiene Mental considerava
o Espiritismo como um problema de saúde mental. (Costa,
1976) O Dr. Murillo de Campos e o Dr. Antônio Xavier de
Oliveira, médicos que integravam a liga, escreveram sobre o
Espiritismo e outras religiões mediúnicas como um
problema social. (Ribeiro e Campos, 1931; Oliveira, 1931) Durante
esse período, muitos centros espíritas foram
fechados. (Hess, 1991, p.157) A legitimação
científica da repressão ao Espiritismo com o
argumento de que a mediunidade era um sintoma
psicopatológico parece ter sido mantida pela
posição dos primeiros psicanalistas brasileiros a se
interessarem por essa religião, como Artur Ramos,
anteriormente mencionado.
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*Wellington
Zangari Coordenador, Inter Psi
Grupo de Semiótica, Interconectividade e
Consciência,
Centro de Estudos Peirceanos,
Programa de Estudos Pós-Graduados
em Comunicação e Semiótica,
PUC-SP
E.mail: pesquisapsi@gmail.com |