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Barrionuevo, V. L. & Pallú, T. R. (2005).
A Ética em Parapsicologia. Revista Virtual de Pesquisa
Psi, 1.
Vera Lúcia Barrionuevo[1] e Tarcísio Roberto
Pallú[2]
Resumo O presente artigo aborda um dos mais profundos e
abrangentes motivos de preocupação do ser humano :as
fronteiras do respeito do indivíduo para com seu
próximo em sua tentativa de crescimento interno e
coexistência pessoal.A Parapsicologia, por seu
específico interesse no potencial da mente humana,
não prescinde de um enfoque particular no conjunto de normas
regedoras da atuação de seus profissionais: seu
código de ética.
A Axiologia[3] é a parte da
Filosofia mais estudada neste princípio de século,
fato talvez provocado pelo progressivo ceticismo e
arrogância que vem caracterizando o dia-a-dia de grande
parte dos seres humanos. A reflexão ética
apóia-se, essencialmente, numa ânsia por descobrir
a lei das leis da conduta do homem e se encontra na raiz da
sociedade, da vida e das instituições humanas,
como expressão da convivência e discussão do
relacionamento entre os seres.
Bibliotecas e livrarias têm repletas
suas estantes com obras sobre o tema que ressurge, periodicamente,
como uma necessidade lógica das civilizações,
sempre que se vêem ameaçadas por elites
inescrupulosas, que podem ser encontradas com muito mais
freqüência do que se imagina. Existe um ponto de
ligação entre o criminoso comum, o cidadão que
lamenta o aumento da violência nos grandes centros urbanos
enquanto acha natural e aceitável burlar as leis do
trânsito; o político que profere discursos violentos
contra a política governamental, enquanto aceita percentuais
sobre os contratos que conseguiu para sua região eleitoral;
e o parapsicólogo que explora a boa fé daqueles que o
procuram em busca de esclarecimentos sobre suas vivências de
paranormalidade: todos eles desrespeitam os limites que separam o
direito alheio dos seus.
A História localiza os primeiros
registros a respeito das discussões éticas no
século V a.C. Começa com Sócrates (469-399
a.C.), que, em oposição aos Sofistas propagadores de
uma ética unicamente ligada ao sucesso profissional e
político, desperta a razão e o espírito
crítico de seus contemporâneos, com uma permanente
indução de valores objetivos, adaptando o pensamento
à vida pública e particular do cidadão dentro
da democracia (McIntire, 1967).
O principal argumento socrático
é a afirmação de que o que é bom para
um, deve sê-lo, igualmente, para outros colocados sob
circunstâncias idênticas: é o principio de
generalização do problema ético
(Kremer-Marietti, 1989). Seu interesse pelos valores éticos
é compartilhado por Platão (427-347 a.C.), que coloca
em pauta a idéia do "bem", e para quem os conceitos
éticos consistem em "coisas eternas do mundo das
idéias"; por Aristóteles (384-322 a.C.) , que coloca
o "bem" dentro de uma realidade concreta, e em cuja opinião
a racionalidade oferece a fundamentação para a
ética; e, nos séculos mais recentes, por Emmanuel
Kant (1724-1804) que, em oposição a
Aristóteles, transporta a idéia de "valor" ao campo
da consciência e Francis Bacon (1561-1626), que privilegiam a
intenção acima de tudo (Kremer-Marietti, 1989).
O Ceticismo de Kant é uma
constatação do fracasso das faculdades humanas; ou,
ao menos, a descoberta de seus limites. Ele teve a coragem de
declarar que, talvez, nunca tenha existido uma ação
moral pura, pela impossibilidade de estabelecer um único
caso em que uma ação se fundamente exclusivamente em
princípios mora is ou na noção do dever, o que
inviabiliza a avaliação da intenção
própria e alheia.
Atualmente, a questão ética
chega a suscitar um inesperado grau de perplexidade, provocada
não apenas pelo ceticismo e materialismo crescentes das
populações contemporâneas, como também
pela tecnologia moderna que possibilitou o extraordinário
avanço da Medicina, especialmente no que se refere ao
início do processo vital e ao término da vida. Esse
pensamento traz à lembrança a mensagem de Aldous
Huxley em "O Admirável Mundo Novo", onde o autor se refere a
"...noventa e seis gêmeos idênticos e operando noventa
e seis máquinas iguaizinhas!"
O respeito e observância às
normas da ética profissional, que é e deve mesmo ser
mais ampla e mais exigente do que a própria lei, deixam cada
vez mais a desejar. A ética profissional costuma
fundamentar-se nos conceitos de bem e mal, relacionando-os com a
realização dos valores da pessoa humana. Um dos seus
pontos frágeis tem sua origem na própria
Universidade, desde que muito poucos cursos universitários a
incluem em seus currículos. Além disso, a
ética vem perdendo terreno para a economia (Marcílio;
Ramos, 1997). O ser humano passou, gradativamente, a valorizar o
"ter" em prejuízo do "ser" e a objetividade em detrimento da
subjetividade, esquecendo, convenientemente, que "a solidariedade
representa a ética suprema da sobrevivência" (Weil,
1994). Os interesses privados sobrepõem-se ao interesse
comum. Na ideologia contemporânea do bem-estar, o que conta
é o sucesso, o ganho, o poder, e não a virtude. Fica
cada vez maior o abismo que separa esses valores já
tão isolados intrinsecamente (Costa, 1995).
Pela necessidade de ver superada a postura
estritamente acadêmica das pesquisas científicas
inteiramente desvinculadas das realidades sociais e, embasada no
mais amplo sentido da moral filosófica, com o significado
global de virtude, fruto do saber, de reconhecimento do "bem" pelo
que é e, tendo em vista que, por definição
prática, ética é o "conjunto de normas
explícitas, aceitas livre e conscientemente, que norteiam a
conduta individual, profissional e social dos seres em sua
atuação no cotidiano" (Vasquez, 1994), o Conselho
Diretor da Parapsychologycal Association distribuiu, em 1980, entre
seu Corpo de Associados, um Código de Conduta Ética e
Profissional que aborda desde o respeito ao direito de defesa dos
acusados de fraude, explicitando que acusações
irresponsáveis são, por si próprias,
antiéticas; passa pelo direito dos sujeitos de pesquisa;
revela sua preocupação com a proteção
dos animaizinhos em laboratório de pesquisa já que
esses são completamente indefesos; o que torna o
experimentador responsável a única pessoa com o poder
de exercer a precaução devida contra tal abuso;
lembra que insinuações difamadoras podem causar danos
muito graves, pela maior dificuldade de se defender do que é
insinuado do que de uma acusação formal, já
que esta precisa ser acompanhada de documentação
comprobatória, enquanto que aquelas dependem apenas da
palavra do acusador; deixa patente a obrigação
moral que tem o acusador de respeitar a regra de cortesia
profissional científica que garante o direito de resposta; e
a responsabilidade dos experimentadores e seus colaboradores na
disseminação da informação,
cabendo-lhes certificar-se de que seus contatos com a mídia
conduzam à verdade, e não a
interpretações sensacionalistas, que possam
desmerecer seu campo de trabalho ou a seus pare s; passa por
detalhes referentes a publicações científicas
e a exemplos de conduta antiética; explicita as
conseqüências que podem advir das medidas
cabíveis aos casos de infração por parte dos
membros associados.
Embora se trate de um estudo bastante
detalhado e procure estabelecer deveres e direitos, antecipando
problemas e soluções, sabe-se que novas
situações sempre se apresentam, com diferentes
facetas, frente a circunstâncias diversas.
Sabe-se, também, que essas diretrizes
são apenas um consenso, uma orientação sobre
os padrões de conduta em assuntos não legislados, mas
deixados à consciência individual, com resultados
incertos. Cabe, portanto, analisá-las à medida que se
forem apresentando e adotar as medidas consideradas sensatas e
saneadoras para cada situação particular.
Existe, entre os parapsicólogos, um
sentimento exacerbado de respeito aos padrões éticos
que parece relacionar-se, especialmente, ao direito de
exercício de sua profissão.
Também externamente, um comportamento
tortuoso pode ser detectado: as demais áreas encaram a
Parapsicologia com uma espécie de tolerância
impaciente que limita sua atuação e fere sua
credibilidade. Por esse motivo, os prejuízos ocasionados por
eventuais deslizes no que as demais áreas consideram como
"prática ideal" em nossa profissão, podem ser muito
superiores ao normal, por se tratar de u m campo tão
controverso e tão patrulhado (malgrado nossa
indignada aquiescência) como a Parapsicologia. Assim,
enquanto a importância da verdade é fundamental em
qualquer campo cientifico, na Parapsicologia, os efeitos de
quaisquer falhas, deslizes ou enganos, podem se mostrar
desastrosos.
Isso se deve, em parte, a tratar-se de uma
disciplina ainda não suficientemente reconhecida. Em parte,
se deve ainda, à abordagem de temas relacionados com a
porção da mente ainda não suficientemente
compreendida pela ciência tradicional. O desconhecido pode
tornar-se atraente para alguns, e ameaçador para uma grande
maioria, que não se atreve a explorá-lo.
Nosso panorama ético inclui a
união de forças neste trabalho árduo e
fascinante, que é a descoberta e o entendimento da mente
humana; o orgulho que temos de nossa dedicação e
seriedade, de nossas regras de segurança e metodologia de
pesquisa; dos anos que dedicamos aos estudos e estágios da
disciplina que, esperamos, seja aceita como igual pelas demais
ciências; e, exclui, decididamente, qualquer prática
que faça crescer nossos extratos bancários ou iludir
a confiança dos que nos procuram em busca de esclarecimento,
lesando-nos o auto-respeito enquanto referenda as críticas
daqueles que nos incluem, a todos, num único e desprezado
bloco de adeptos do charlatanismo profissional.
Encarar o assunto que reconhecemos ser o
ponto nevrálgico de nossas vidas profissionais faz com que
discorrer sobre o comportamento ético dentro da
Parapsicologia, torne-se uma tarefa menos fácil, se bem que
muito mais instigadora. < /p>
Parece ser desnecessário estender-se
a termos filosóficos ou aludir a campos limítrofes
que a ética abranja. É importante excluir a
idéia de "moralismo" que, estático e rígido,
apresenta sua faceta maniqueísta baseada em dogmas; e, por
isso, não evolui, não se adapta às
situações peculiares (Marcílio; Ramos, 1997).
Mais importante, então, é analisar cada uma das
situações especificas que se oferecem na
prática do dia-a-dia e encará-las - todas, com a
ótica realista sob a qual se apresentam.
Ponderação sobre a
própria postura e conduta parece ser o primeiro passo para
um comportamento ético e bem resolvido.
O comportamento ético mantém,
como características constantes, o senso crítico e de
responsabilidade; e se apresenta sob a forma de respeito à
pontualidade e à disciplina, no decorrer de todas as etapas
do trabalho, além de estabelecer os limites próprios
e alheios. Procura tornar-se isento de preconceitos e
preconcepcões, manter a discrição, a mente
aberta e neutra, utilizar um critério rigoroso,
discernimento e respeito não apenas ao sigilo como
também ao trabalho profissional, através da
obediência aos prazos e compromissos previamente
marcados.
O parapsicólogo tem seu caminho
orientado em três diferentes direções, cada uma
delas apontando preocupações e responsabilidades
diversas: o Magistério, a Pesquisa Cientific a e a
Orientação ou Aconselhamento (Barrionuevo, 1995).
O PROFESSOR tem como primeira
responsabilidade a formação da consciência, o
que repousa na capacidade de levar o educando a acessar com
liberdade ao que é bom, verdadeiro e justo, levando em conta
aspirações e percepções individuais.
Para tanto, deve estabelecer um processo de empatia com o aluno,
utilizando com lucidez e abertura, sua capacidade de
comunicação e de argumentação
lógica e atualizada, através dos instrumentos
adequados, num processo contínuo de formação
do pensamento do futuro profissional. Educar é, na verdade
exercer o poder da comunicação.
Sua grande dificuldade é fugir ao
impasse de se situar numa perspectiva que permita desenvolver um
raciocínio ético bem fundamentado numa moral
autenticamente humana sem se impor à consciência,
violar a liberdade ou frustrar as aspirações do
educando.
Difícil é ir ao encontro de
suas inquietações sem perder de vista os
princípios e os valores éticos questionados, e por
cuja transmissão é responsável, como
educador.
Na transmissão dos conhecimentos deve
atentar para a questão ética essencial: que verdade
transmitir e a quem transmiti-la? No serviço de valorizar a
verdade, o mais sensato é aferrar-se não às
próprias idéias e opiniões; mas ter em mente a
relatividade das dualidades fronteiriças do certo e do
errado, do bem e do mal e lim itar-se à analise do que a
ciência o autoriza a afirmar em seu nome e o impede de fazer
declarações relacionadas a suas próprias
convicções e crenças.
E, nesse caso, se enquadram perfeitamente os
assuntos referentes à pesquisa da Psi com
relação à ciência.
Declarações que sugiram a comprovação
da fenomenologia parapsicológica são totalmente
inadequadas desde que, na verdade, existe apenas sua
demonstração científica.
A questão da ética no ensino
pode, ainda, tornar-se complicada quando a consciência
diverge da lei. Ninguém deve agir contra sua
consciência; não pode furtar-se, no entanto, de arcar
com as conseqüências de tal responsabilidade.
Mas, se o educador oferecer a seus alunos o
exemplo de seu próprio comportamento efetivo de atitudes
éticas, já estará contribuindo para seu
despertar ético, como uma conseqüência natural
(Weil, 1994).
O PESQUISADOR tem como sua primeira
preocupação, a apuração da verdade
sobre o fenômeno. Para tanto, deve adotar um ponto de vista
objetivo e universal, e manter com imparcialidade e impessoalidade
um sistema de organização responsável e
sistematizada, pois "até os sujeitos com real capacidade Psi
sabem que a produção de eventos Psi não
se dá à vontade; e mesmo eles podem ser tentados;
especialmente se uma oportunidade convidativa se apresentar"
(Parapsychologycal Association, 1980).
Se um investigador achar evidência de
simulação da psi por parte do sujeito, deve lembrar
primeiramente que, a menos que haja uma razão
específica e convincente para tal, a simulação
deve ser evitada e desencorajada. Além disso, deve
considerar cuidadosamente se vai ou não denunciar sua
descoberta. Se se tratar de criança ou adolescente, o
cuidado deve ser maior, pelos possíveis danos a seu
psiquismo em formação. Se, por outro lado, se tratar
de um sujeito famoso por sua habilidade Psi, o investigador tem a
obrigação de tornar público o que sabe, junto
com todas as outras informações obtidas durante a
investigação.
Deve ficar muito claro que crianças
jamais devem ser forçadas a participar de qualquer tipo de
experimento. E, mesmo em caso de concordância, os pais ou
guardiães responsáveis devem dar a devida
autorização para seu envolvimento na pesquisa.
Nos casos de experimentos que incluam a
participação de doentes mentais, incapazes de
entender o significado legal de sua autorização,
antes que sejam envolvidos no estudo em questão, é
aconselhável que se tenha em arquivo, a
aprovação de um terapeuta qualificado. Deve-se ainda,
contatar pessoas que tenham autoridade para formalizar o documento
pertinente de autorização, como seu médico
responsável, o tutor ou os pais.
O pressuposto é o de que
ninguém deve fazer sofrer inutilm ente um semelhante e,
seguindo esse mesmo pressuposto, não prejudicar (non
noscere) (Weil, 1994), de acordo com a máxima
hipocrática. Isto se aplica a todas as áreas, mas diz
respeito - pelas óbvias implicações,
especialmente à da pesquisa.
Qualquer possibilidade de envolvimento
de risco obriga os investigadores a se certificarem de que tal
informação seja prestada ao participante antes que
esse seja convidado a formalizar seu consentimento, lembrando que,
se necessária a utilização de nomes
verdadeiros ou de dados potencialmente identificadores, a
obtenção de uma autorização
específica é exigida.
Nos casos de denúncia de
falsidade científica atribuída a colegas, o que
caracteriza uma situação de fragilidade profissional,
devem ser tomados alguns cuidados éticos: procurar examinar
a documentação concernente e indagar sobre os fatos
que a compõem, para evitar que o caso seja registrado; ou,
mesmo, relatado com distorções. Repetir uma
denúncia de outros pode ser - de fato, uma forma de fazer
idêntica acusação. Da mesma forma o uso
de termos como "não observado fraudar" pode disfarçar
uma situação ambígua e, de certa forma,
comprometedora.
Quando tais acusações
são suspeitas de conseqüentes a diferenças de
pontos de vista, é antiético - além de
mesquinho, referir-se ao fato como sendo, efetivamente, uma
desonestidade científica "...Também é
antiético tent ar denegrir a reputação de um
investigador por ataques pessoais que não se baseiem
diretamente na competência profissional ou na integridade do
investigador no exercício de seu papel." (Parapsychologycal
Association, 1980).
Por outro lado, a única
estratégia que os investigadores devem adotar para reagir a
uma crítica a seu próprio trabalho é o
levantamento de fatos relevantes e a utilização de
argumentos lógicos e racionais que se lhe oponham.
Nos casos de trabalhos relatados ou
publicados, é apropriado que a critica feita - por ser
destinada à publicação ou
apresentação pública, seja prévia e
detalhadamente enviada a seus autores, para que possam ter a
oportunidade de pronta defesa. Essa regra de cortesia profissional
científica, se aplica apenas a criticas formais.
Um ponto que deve ser salientado
é que "o possível impacto da desonestidade
científica pode ir além do indivíduo apanhado
em desonestidade, do projeto específico ou do problema
supostamente estudado" (Parapsychologycal Association, 1980) e
prejudicar a classe como um todo, já que, como foi exposto
acima, as demais áreas encaram a Parapsicologia com uma
espécie de tolerância impaciente que limita sua
atuação e fere sua credibilidade.
Quanto à
investigação propriamente dita, o papel de
pesquisador-chefe deve ser muito mais do que meramente formal. A
pessoa que exercer esse papel na pesquisa deve ser designada para
isso e encarada como sendo, efetivamente, o chefe da pesquisa, com
todas as responsabilidades e prerrogativas inerentes ao cargo.
É´ fundamental que aquele que
trabalhar sob a responsabilidade de um investigador-chefe entenda
ser bastante antiético utilizar previamente - para uso
próprio, publicação ou
apresentação independente - os dados da pesquisa em
andamento, sem sua explícita aprovação. Nenhum
argumento poderia justificar uma exceção à
essa regra.
Por outro lado, depois da
publicação ou apresentação
pública da pesquisa, qualquer pessoa tem o direito de
comentar, também publicamente, os resultados da
pesquisa.
O ORIENTADOR deve ter presente que sua
responsabilidade primordial relaciona-se com o bem estar e
equilíbrio dos clientes que o procuram para aconselhamento.
São pessoas que vivenciam situações
características de fenomenologia Psi e demonstram interesse
em obter informações sobre o que lhes ocorre e que
dificilmente conseguem entender ou aceitar (Barrionuevo, 2000).
Seu trabalho tem uma abordagem humanista
/ transpessoal e é executado pelos profissionais da
Parapsicologia habilitados em Orientação
Psi[4]
(Pallú, 1997).
O relacionamento entre o orientador e
seu cliente deve ser pautado pela abertura, lógica e
comunicabilidade. Precisa dar o primeiro passo direcionado ao
sucesso das relações humanas: externar um
comportamento a um só tempo, receptivo e confiável e
estabelecer um processo de empatia[5], sintonizando seus
pensamentos que passam a fluir com mais facilidade e
coerência. É através dessa sintonia bem
ajustada que se aprofunda o conhecimento mútuo e se
garante a continuidade da interação (Barrionuevo,
1995).
O sucesso de qualquer abordagem
terapêutica é dependente do processo de empatia
estabelecido desde o primeiro instante na relação do
cliente com o profissional, cuja missão é diminuir a
ansiedade advinda do não entendimento da fenomenologia
vivenciada, enquanto lhe aumenta o sentido de ligação
com o próprio curso dos acontecimentos, o nível de
auto-estima, de auto-crítica e de autocontrole.
A preocupação do
Orientador é a de manter sempre a objetividade dentro da
inevitável subjetividade; é privilegiar a
sensibilidade de encarar o fenômeno como real, tendo em vista
que, como tal, se apresenta àquele que o vivencia, desde que
reais são suas conseqüências, apresentadas em
forma de sintomas (Barrionuevo, 2000) .
Tudo isto aponta na
direção de uma atuação equânime
dentro do respeito aos limites próprios e alheios. Mas,
às vezes, a linha que passa entre duas fronteiras pode ser
quase imperceptível. No entanto, ela existe, esta lá.
Quando rompida, pode trocar sua discreta fragilidade por uma
evidência acusadora: o que fere o direito alheio, já
não era seu por direito.
Partindo desse principio, é
preciso ainda, que se leve em conta o que se tem que superar para
atuar com equanimidade. Analisar, criticar e reagir a pessoas e
situações sem subjetividade é tarefa que exige
constante auto-crítica; o que pode ser tão
difícil quanto o significado das palavras evidencia.
O profissional ajuda seu cliente a
"administrar" suas experiências espontâneas do
dia-a-dia: aquelas que não entende e que lhe causam medo e
culpa sem que consiga diferenciá-las de processos
psíquicos ou patológicos, já que
vivências desse tipo podem originar reações
disruptivas ou estressantes.
Ao pedir a ajuda do Orientador Psi, o
cliente quer mesmo é entender o que está acontecendo
e lhe causa medo e culpa. Quer, também, aumentar sua
auto-estima, anular o stress e tensão causados pela
ansiedade de, ao mesmo tempo, temer e procurar ser diferente
dos demais.
Muitas vezes, busca desenvolver as
habilidades PSI e obter controle sobre sua fenomenologia, o que vem
aumentar bastante a responsabilidade do Orientador. Esse deve
colocar - acima da curiosidade natural do pesquisador, o bem estar
de quem o procura, e traz queixas que podem dizer respeito à
simples necessidade de proteção ou disfarçar
uma grande carência afetiva.
Outras queixas podem referir-se a
hiperestesias, relatos de experiências aparentemente
mediúnicas ou de possíveis atividades Poltergeist;
sensações inexploradas ou inexplicadas; visões
de fantasmas ou acesso a percepções antecipadas de
eventos que querem reforçar ou anular;
sensação de estar fora do próprio corpo;
percepção de energias ou coisas estranhas ao redor;
impressão de ter controle mental à distância ou
de ser uma vítima desse mesmo fenômeno;
impressão de estar possuído ou ser vítima de
feitiçaria; lembranças de eventuais vidas passadas;
impressão de mover objetos ou de curar pessoas, visão
de auras; vontade de transformar precognições
negativas em positivas; descrição de
experiências de empatia e de "déja-vu"; entre outros
(Pallú, 1997).
Dentro desse prisma limitador, o bom
senso pode ser um instrumento valioso para nortear
atuações e palavras. Nele está contido o
segredo dos relacionamentos bem sucedidos.
Assim, deve tornar-se a primeira e mais
importante regra de conduta do Profissional em Parapsicologia :
basearo pensamento do futuro
profissional
napreocupação com a
busca da verdade, e
norespeito ao bem estar do
portador da
fenomenologiaPSI (Barrionuevo,
2000).
Nos casos em que haja conflitos quanto à
observância estrita dos padrões éticos - e
exemplos incontáveis podem ser encontrados no cotidiano -
deverá, obrigatoriamente, prevalecer o bom senso que deve
ser a característica fundamental e indispensável do
perfil do profissional em Parapsicologia (Barrionuevo, 1995).
Discussões éticas mantidas entre membros de uma
mesma categoria profissional costumam abordar exemplos de
situações criadas onde a objetividade se choca com o
bem-estar das pessoas envolvidas. As mais óbvias se referem
a simples questões de natureza pessoal e fazem parte
não apenas da vida profissional, mas do cotidiano de todas
as pessoas (Barrionuevo;Pallú, 2000). Vai desde o
cumprimento da palavra dada ou de promessas feitas, aos ataques
preventivos como medida de defesa.
Deve-se ter em mente que não
existe uma solução decisiva ou definitiva, já
que as decisões e as medidas a serem adotadas devem
adequar-se às respectivas situações estudadas,
tendo que se considerar as contingências
concernentes.
Em todo caso, demonstram ser um bom
instrumento para explorar os diversos lados das questões,
combater as preconcepções e ampliar a
compreensão das pessoas e situações
vivenciadas; mas encontram apenas, na maioria das vezes, diferentes
pontos de vista a respeito do que seria "a" verdade.
Pode-se citar, como exemplo fictício, o julgamento, por
parte da Comissão de Ética da
Associação Ibero-americana de Parapsicologia, de um
associado denunciado por prática ilegal da profissão
com invasão de privacidade. Poderia tratar-se de um renomado
parapsicólogo que, no decorrer de seus estudos, teria
formado uma equipe de sujeitos de pesquisa dedicados a auxiliar
à Polícia, através de levantamentos
psicométricos de objetos pertencentes às vitimas de
casos insolvidos de roubos, homicídios e seqüestros. A
cada crime investigado, ao descobrir-se o suspeito, a equipe teria
se dedicado a sondá-lo telepaticamente, até que as
pistas levantadas pudessem transformar-se em provas que, entregues
à Polícia, acabassem por levar à captura e
futura condenação dos criminosos - insuspeitos,
até então. A privacidade da mente - último
reduto do ser humano, em sua perda gradativa de liberdade,
tornar-se-ia o motivo da discussão dos membros do
Conselho.
Alguns comparariam a sondagem telepática à escuta
e gravação telefônicas, não procedentes
numa corte oficial, por serem consideradas i legais e
ilegítimas, principalmente por suspeita de fraude. Outros,
embora quisessem garantir a validade das provas conseqüentes a
esse ato dúbio, reconheceriam sua semelhança a uma
entrada forçada nos domínios do suspeito sem sequer
um mandato judicial para torná-la lícita. Outros,
ainda, considerariam absolutamente válida a sondagem
telepática, não apenas por anteceder uma coleta de
provas materiais que se mostrassem de inquestionável
validade posterior, como também por ocasionar um
serviço público: o de privar a sociedade do
convívio de um criminoso inconfesso.
Um outro exemplo de discussão
ética seria o de uma equipe de pesquisa experimental que
decidisse convocar e testar sujeitos para um estudo de ESP. O
candidato mais entusiasmado teria um histórico de desajuste
familiar e profissional com alguns episódios de
desequilíbrio emocional severo e diversa tentativas de
suicídio.
A decisão quanto a seu aproveitamento, quer fosse
positiva ou negativa, acabaria por representar uma ameaça
aos preceitos éticos: se não fosse aceito, haveria o
risco de conseqüências graves pelo ataque à sua
segurança, seu amor-próprio e sua auto-imagem,
já bastante empobrecida. Em contrapartida, se aceito, os
testes estressantes - com resultados inesperados, poderiam
também abalar-lhe o equilíbrio, já tão
precário.
Um terceiro exemplo poderia ser o de uma Dire ção
de Faculdade que, conhecendo seus problemas básicos e a
própria potencialidade, direcionaria sua
preocupação para com a formação dos
alunos. Ainda que tivesse em mente que seu nível de
informação tivesse sido sempre insuficiente;
obrigar-se-ia a estabelecer o propósito de - em curto prazo,
fazer da Instituição um modelo de ensino para o resto
do país. Averiguaria pontos nevrálgicos, e
estabeleceria metas de atuação. Um problema
precisaria de solução imediata: a consciência
de que o baixo nível de informação de alguns
professores seria devido à sua falta de
atualização.
Por ganharem pouco, teriam outros
empregos para seu sustento, o que lhes impediria a
participação em Cursos, Congressos e
Seminários. No entanto, ficaria patente sua
dedicação e lealdade, e sua longa
participação no Corpo Docente da
Instituição. A decisão de despedi-los e
contratar elementos mais novos e atualizados poderia ser uma
atitude interpretada como fria e desumana.
Por outro lado, a decisão de
conservá-los inviabilizaria o cumprimento da meta, pois o
panorama econômico-financeiro não seria
favorável à concessão de qualquer aumento
salarial.
Discussões desse tipo podem
levar à verdade e evidenciar que a
preconcepção e a subjetividade devem ser evitadas, no
sentido de se buscar o máximo de clareza e lógica na
argumentação (Barrionuevo; Pallú, 2000). Fica
claro q ue não basta julgar um ato em função
de um conjunto de regras, mas é preciso examiná-lo
à luz das circunstâncias e condições sob
as quais foi cometido, já que o ato ético
pressupõe um sujeito dotado da capacidade de interiorizar as
normas de uma comunidade e de atuar de acordo com elas (Vasquez,
1996).
Um Parapsicólogo deve ter como
sua máxima ética a obrigação de
contribuir para manter o caráter
profissional-científico de seu campo e imagem
pública, evitando possíveis danos à sua
área de atuação e assegurando-se como
representante da ciência. Parece de bom senso que observe a
sugestão de não se comprometer com promessas de
resultados definitivos, nem proferir afirmações ou
negativas categóricas sobre a fenomenologia
parapsicológica - tendo em vista, entre outros fatores, sua
tendência de não replicabilidade, o que acaba por
representar algumas das tantas dificuldades que enfrenta em sua
meta de demonstração cientifica, que vem, mesmo
assim, sendo levada a efeito, nas ultimas décadas.
Com os olhos voltados para o
futuro, e na esperança de que consigamos vencer os
obstáculos erguidos pelas características limitadoras
que a natureza humana impõe, tentamos dar eco às
palavras de Fritjof Capra:
"E, se examinarmos os valores,
podemos observar uma passagem correspondente, da
competição para a cooperação, da expans
ão para a conservação, da quantidade para a
qualidade, da dominação para a parceria".
BIBLIOGRAFIA:
Abbagnano,
N.Dicionário de Filosofia. São Paulo:
Mestre Jou, 1982.
BARRIONUEVO, V.Alguns Tópicos de
Ética. Material didático: Métodos e
Técnicas de Pesquisa em Parapsicologia.Março,
1995.
BARRIONUEVO, V.Orientação Psi:
abordagem norte-americana x abordagem brasileira. Em FatorPsi
vol.1, nº 3, março / 2000, p. 102-106.
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[1]Graduada em
Parapsicologia e pós-graduada em Estudos da
Consciência. Supervisora em Aconselhamento em Parapsicologia.
Integrante do Summer Study Program do Rhine Research Center, turma
de 1993. Organizadora e Instaladora do Núcleo de
Pesquisa Ganzfeld da FIES. Instrutora do I Curso - Aipa de
Metodologias de Pesquisa. Membro da Parapsychologycal Association.
Membro Profissional do Rhine Research Center. Membro fundador e
Diretor da Asociación IberoAmericana de Parapsicologia.
Membro integrante do Centro de Pesquisa de Sonhos. Membro do
Conselho Editorial do Boletim FatorPsi.
[2]Graduado
em Parapsicologia e Pós Graduado em Estudos da
Consciência</ span> pelas Faculdades Integradas
Espírita. Chefe do Centro Integrado de
Orientação em Parapsicologia e professor do Curso de
Parapsicologia da FIES. Integrante do Summer Study Program do Rhine
Research Center, turma de 1993. Membro Instalador do Núcleo
de Pesquisa Ganzfeld da FIES. Instrutor do I Curso - Aipa de
Metodologias de Pesquisa. Instrutor de Programação
Neuro-Linguística. Membro da Parapsychologycal Association.
Membro Profissional do Rhine Research Center. Membro fundador da
Asociación IberoAmericana de Parapsicologia. Membro
integrante do Centro de Pesquisa de Sonhos. Membro do Conselho
Editorial do FatorPsi.
[3]Estudofilosófico dos valores do
ser humano.
[4]Psi é
a denominação contemporânea da fenomenologia
paranormal.
[5]Aproximação entre duas pessoas,
em que uma capta e dá ressonância aos sentimentos da
outra |