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JMP, um caso sugestivo de precognição PDF Imprimir E-Mail
escrito por Wellington Zangari   
quinta, 31 de março de 2005

Vera Lúcia Barrionuevo[1] e Tarcísio Roberto Pallú[2]

Resumo
A motivação desta pesquisa apoiou-se na necessidade de um esclarecimento mais aprofundado sobre o funcionamento e o controle do fenômeno da precognição, para que servisse como um instrumento de elucidação das pessoas e de minoração do preconceito das ciências acadêmicas quanto à existência da Psi. O presente artigo foi delineado a partir de um estudo de caso desenvolvido entre o mês de agosto de 1991 e o mês de junho de 1996 – e diz respeito às observações das atividades e vivências do sujeito. Refere-se, também, a algumas das conclusões a que têm conduzido, nas últimas décadas, e a este respeito, os estudos de casos espontâneos e a pesquisa experimental.

Introdução

O mistério da natureza do fenômeno e o problema do controle da Psi por parte do sensitivo ou do pesquisador são assuntos que vêm sendo investigados pelos estudiosos da Parapsicologia contemporânea. Esforços no sentido de isolar o fenômeno e explicar a energia que o desencadeia têm contribuído para um entendimento que poderia possibilitar seu controle.

A partir do momento em que a Escola Rhine demonstrou que a Psi é própria da natureza humana, um crescente número de sensitivos passou à mira das investigações científicas em prol da multiplicidade dos métodos de controle na pesquisa e visando o entendimento do Ser. A Esp parece ser muito mais freqüente do que se supunha anteriormente, e sua manifestação evidencia-se nos mais variados graus: há pessoas com um único episódio na vida; outras relatam diversas ocorrências; e, algumas conseguem acessar à informação quase que na medida de sua vontade. No entanto, para trazer mais luz ao universo dos sensitivos, é preciso investigar e descobrir como se administra problemas como fé, medo, comércio, doença, dependência e fraude, variáveis que podem contribuir para realçar ou distorcer e impedir o controle do fenômeno.

Prevenir a fraude e distinguir e isolar psicopatologias concomitantes são problemas comuns para os investigadores em Parapsicologia, a partir do momento que o fenômeno se acha disseminado na sociedade entre os futurólogos (vide ntes, quiromantes, cartomantes), os membros dos centros espíritas, dos terreiros de umbanda e candomblé, das seitas esotéricas, e os portadores de fenomenologia espontânea. Estes últimos, desde que não pertençam a qualquer dos organismos mencionados, ou não utilizem seu dom como meio de vida, costumam escondê-los para fugir à curiosidade das pessoas e à interferência em suas vidas. Especialmente por isto, costumam recusar a oferta de se submeterem à pesquisa científica; a menos que apresentem condições emocionais disruptivas[3] e precisem de orientação especializada para administração prática de suas vidas.

Os sujeitos de pesquisa (sensitivos profissionais e paranormais em processo de orientação) propiciam farto material de estudo, redundando na necessidade de criação de cursos, seminários e congressos para disseminação das noções que se ampliam e aprofundam à medida que os dados coletados forneçam novos caminhos para o conhecimento interno.

Nesse momento surgem as dificuldades: a mais usual é o tempo que se leva para conseguir a disponibilidade do portador do fenômeno a ser pesquisado. Além disso, é muito difícil obter a aceitação do enfoque científico (frio e impessoal); e, também, a aceitação de se achar sob suspeição, de alguma forma - o que contraria o hábito confortável de confiabilidade que costuma desfrutar, por parte daqueles que o procuram, e se tornam dependentes de seus enfoques e diagnósticos. Acima de tudo, as diferentes dire trizes e os interesses conflitantes podem impedir uma continuidade efetiva neste tipo de convivência forçada entre o sujeito e seu pesquisador.

Descrever o universo pesquisado é mergulhar numa dimensão do ser humano que desnuda o portador da fenomenologia estudada: casa, família, profissão, saúde, amigos, condição social, intelectual, emocional e financeira - variáveis que alteram a realidade e apresentam mais hipóteses a se estudar e confirmar ou desmentir. Surge, então, a questão crucial: - "Será que o acerto na informação obtida significa ter controle sobre o fenômeno?" Se positiva, esta resposta poderia ser o passo fundamental para aceitação da Parapsicologia entre as ciências acadêmicas - não apenas pela possibilidade da comprovação do fenômeno já demonstrado, e da credibilidade pretendida; como, também, por sua aplicabilidade ao cotidiano do ser humano, o que viabilizaria as aplicações financeiras nos projetos de pesquisa; e atrairia, ainda, o interesse da população para o desenvolvimento das experiências.

Em nossa escolha do objeto da pesquisa, a preferência recaiu na precognição por se tratar de um fenômeno que atrai com maior força a curiosidade popular; e por sua característica peculiar de transcendência de tempo e de espaço: acessar à informação sobre eventos ainda por ocorrer pressupõe a coexistência de passado, presente e futuro num mesmo momento - o que vem facilitar o entendimento de uma visão circular do tempo, naturalmente aceita pelas culturas orientais e primitivas em detrimento da visão linear adotada pela porção ocidental do mundo. Isso faz da precognição, para os ocidentais, a menos provável das capacidades Psi, a mais difícil de explicar e de entender; em bora, seja a fenomenologia de ocorrência mais freqüente e de mais fácil comprovação, quando se acha sob a lente experimental.










A História do Fenômeno

A precognição tem suas raízes nas artes da mancia[4]. Resulta de canais de informação, há muito suspeitados, e vem de uma época em que o perigo espreitava nas sombras dos caminhos. Pode-se imaginar, então, que o conhecimento precognitivo seja um dote da raça humana.

O estava escrito dos muçulmanos tem sido aceito, sem questionamentos, pelos milhões de fatalistas que dependem do curso dos acontecimentos, quase sem participação ativa; e o encaram como a uma fila de eventos que segue, obrigatoriamente, uma mesma trajetória, sem se afastar das leis que os regem; o que vem contrariar o direito ancestral do livre arbítrio.

A catoptromancia[5] baseia-se no princípio da concentração da mente: fixar a atenção na bola ou no cristal de rocha pode facilitar um estado alterado de consciência, num transe semelhante ao hipnótico. De modo semelhante, a contemplação do fogo parece despertar mecanismos inconscientes que podem alterar a percepção e facilitar os processos de vidência momentânea. Cartas, búzios, pedras e varetas são, também, somente instrumentos utilizados pelos sensitivos para os mesmos fins: facilitar o acesso do inconsciente a uma projeção intuitiva. Alcançar um maior grau de controle sobre o fenômeno ou de confiança na própria faculdade, pode levar o sensitivo a prescindir deles.

Experiências científicas vêm mostrando, nas últimas décadas, que a mente pode alcançar pontos inacessíveis sensorialmente. Mas, um olhar indagador ao passado pode revelar aos investigadores científicos que, desde a Antigüidade, quando os primeiros observadores se serviam de ampulhetas[6], das clepsidras[7], e dos relógios de sol, ainda em uso, a noção do tempo tem sido objeto de preocupação do homem. Sua compreensão está, tradicionalmente, associada à imagem do fluir incessante das águas de um rio: é uma imagem um tanto rígida, por induzir a imaginá-lo fluindo em d ireção definida, num padrão contínuo, comumente interpretado como que em sentido passado-presente-futuro. Muita coisa passa a fazer sentido na medida em que o tempo parece andar para frente, apenas (Barrionuevo, 1996).

Nas últimas décadas, a pesquisa experimental tem tentado fortalecer as possíveis formas de controle do fenômeno - as variáveis de personalidade, de temperamento, de crença, de informação, de vontade, de estados alterados de consciência e estados de ânimo - seja com relação à pesquisa qualitativa, com sujeitos consistentes e selecionados previamente, portadores de expressiva paranormalidade, seja com relação à pesquisa quantitativa, com sujeitos aleatoriamente escolhidos. Os resultados têm se mostrado, muitas vezes, favoráveis e motivadores dos esforços da comunidade acadêmica, mais otimista nesta década de desenvolvimento da informática do que em seus primeiros momentos de busca, quando os dados coletados repousavam, apenas, nos testemunhos e nas impressões subjetivas dos investigadores.

As pesquisas de laboratório têm sido um valiosíssimo instrumento e vêm viabilizando hipóteses que podem se aproximar de uma teoria aceitável. Stanley Krippner (1992), psicólogo humanista e laureado pesquisador dos fenômenos da mente, refere-se aos eventos precognitivoscomo "situações nas quais, sob condições de atividades psi, um organismo se comporta como se tivesse informação a respeito de ... um evento futuro". Danah Zohar (1982), parapsicóloga e autora contemporânea, considera a Precognição um caso particular de Esp e um dos fenômenos mais inexplicáveis de paranormalidade, por ser um instrumento de domínio do tempo, por parte do homem.

Os modelos contemporâneos da física estão - no mínimo, fazendo as pessoas questionarem os tradicionais conceitos de espaço e tempo. Falar de tempo e de espaço para diferentes pessoas, em diferentes épocas, tem significados variados. Uma das abordagens compreensíveis de acesso prévio à informação é que o futuro é um conjunto de disposições, de eventos ainda não percebidos. Não que inexistam, apenas não foram percebidos, ainda. Há pessoas que vêem os mesmos eventos, em diferentes disposições. Poderia, então, surgir uma nova disposição; e, talvez, algumas pessoas já a tenham percebido anteriormente, o que poderia significar que alguém, ocupando diferente posição no tempo, poderia acessar, anteriormente, à informação.

Numa outra visão, a precognição poderia envolver, também, uma percepção gestáltica[8]. O presente poderia conter um pedaço do futuro, como se fosse a abertura de um ângulo de visão voltado para o infinito. O futuro poderia, então, significar o ângulo se desenvolvendo. E poderia ser viável observar a abertura do campo de visão. Da mesma forma, o presente seria uma ponta angular em direção ao futuro. Há pessoas que possuem um vislumbre mais claro do desdobramento da associação de eventos do futuro que outra s: estas poderiam chamar-se precognitivas.













O Caso JMP

Nascido e criado na cidade gaúcha de Getúlio Vargas, JMP chegou a Curitiba, em 1989. Fugia de um grave problema emocional e da rotina cansativa de seu trabalho no setor de vendas de um frigorífico. Em pouco tempo, na tentativa de se aclimatar rapidamente à nova vida, passou a freqüentar um grupo de desenvolvimento espiritual onde encontrou um protetor que o acolheu e tentou orientar seus passos no caminho da espiritualidade. Esse senhor o apresentou a seu filho, FVP, um estudante de Parapsicologia, recentemente chegado à cidade que, por não ter também onde morar, convidou-o a dividir um apartamento num bairro afastado do centro da cidade e o apresentou a seus colegas de curso (nosso grupo de estudos). Eles o ajudaram a redirecionar a vida, a partir da descoberta de suas características sugestivas de fenomenologia Psi.

No final de abril de 1990, numa típica reunião de curiosos aspirantes a parapsicólogos, decidimos "pesquisar" uma mesa Ouija.[9] Tudo corria normalmente no que era mais um passatempo pretensiosamente disfarçado de investigação, quando surgiram os primeiros sinais de uma aparen te incorporação mediúnica[10] em JMP: uma nítida alteração de fisionomia, um sotaque germânico e um tom monocórdio de voz transpareceram no que sugeria ser um sermão sofisticado e moralista. Pouco depois, numa mudança radical de comportamento, passou a girar sobre si mesmo, com grande velocidade. Impotentes, à sua volta, tentávamos ampará-lo, evitando que se machucasse ao esbarrar nos móveis. Assumiu, então, a fala rústica e a postura inclinada que lembravam as de um velho índio. Pediu um cigarro de palha e um pouco de cachaça. Na falta de ambos, foram-lhe oferecidos uma garrafa de vinho branco e alguns cigarros normais. Ficamos assustados pela cena inesperada, que sugeria a ocorrência de uma psicopatologia. As experiências de fenomenologia extra-sensorial podem ser confundidas com processos neurológicos (especialmente pós-traumáticos) e possuem características limítrofes com a área de psicopatologia, como nos casos de múltipla personalidade[11], e de alterações diversas, entre as quais, as do comportamento, do pensamento, da atenção, da percepção, ou mesmo nos casos de alucinação proveniente de simples distúrbio emocional (Barrionuevo, 1996).

Além disso, por temermos os resultados em sua saúde, no dia seguinte, ficamos preocupados com o fortíssimo cheiro de fumo e de bebida que se espalhou no ar. Observávamos, fascinados, os filtros de cigarros bruscamente arrancados e fumados um após outro, e a garrafa de bebida esvaziada em poucos minutos. Sabíamos que não fumava nem bebia, porque seu organismo não reagia bem, a ambos.

O velho caboclo não se identificou, mas comunicou-se bastante bem conosco. Parecia possuir uma índole positiva e serena, pelo teor das mensagens que passava aos presentes. Atribuiu sua presença à necessidade de proteção do iniciante e à importância que o jovem afirmava dar à sua vontade de ajudar às outras pessoas. Discorreu sobre uma vida em outros planos, sobre as motivações que costumam impulsionar os seres humanos, e comentou sobre particularidades da vida de cada um de nós, o que chegou a ser mais constrangedor do que divertido. Depois de algum tempo, explicou a necessidade de se retirar para não desgastar as energias de JMP e despediu-se de todos. O grupo, já surpreso com as ocorrências, ficou ainda mais intrigado ao constatar que o ambiente enfumaçado e cheirando à bebida de antes, voltava, automaticamente ao normal, juntamente com o aparente "retorno" do amigo ao estado usual de consciência. Logo depois, ao ser inteirado do ocorrido, o responsável por toda aquela cena insólita e inesperada duvidou de tudo o que lhe contamos, especialmente no que se referia ao fumo e à bebida. Apresentou, então, um estado de ansiedade quanto a um possível princípio de desequilíbrio mental. As experiências anômalas, por carecerem de explicação lógica, podem surpreender e assustar seu portador, a tal ponto, que o impeçam de dormir; ou mesmo de relacionar-se com as pessoas, por não conseguir esconder a culpa ou o medo da loucura de que se acredita portador. Isso consegue, muitas vezes, abalar seu equilíbrio porque não dispõe, sequer, de informações suficientes para descartar um processo psicológico ou psicopatológico (Barrionuevo & Pallú, 2000). Os futuros parapsicólogos sentiram-se no dever de acalmá-lo com informações tranqüilizadoras; embora inadequadas - em sua maioria, e mal embasadas cientificamente.

Poucos dias depois, seu companheiro de apartamento informou-nos que JMP passava as madrugadas entoando cantilenas desconhecidas, sem acordar. LMB, uma das participantes de nossa equipe, habituada às canções do candomblé, reconheceu as estrofes descritas e gravadas por FVP como "pontos de terreiro".[12]Cientificado, então, da nova versão dos fatos, aquele filho de católicos italianos afirmou desconhecê-las, mas passou a interessar-se pelo assunto, a partir de então.

Com o passar do tempo, as notícias se espalharam: surgiam sugestões, conselhos e convites para reuniões espíritas e cerimônias em terreiros de umbanda e candomblé. Alguns procuravam convencê-lo de que a mesa branca[13] trazia maior luz interior; mas JMP confessou ao grupo que se pudesse, escolheria os rituais de terreiro que o encantavam pela beleza e sensação de leveza e bem-estar que o acompanhava depois; ao contrário do que ocorria após as reuniões de mesa branca que lhe pareciam difíceis de entender e o faziam sentir-se oprimido e aflito.

Começaram a surgir, então, outras manifestações do que sugeria ser uma percepção extra-sensorial: JMP passou a fornecer informações detalhadas - confirmadas posteriormente, sobre o futuro imediato dos amigos; e, dirigidas especialmente, ao âmbito emocional e profissional. Conseguia acessar o conteúdo mental de quem o cercava, surpreendendo a todos aqueles cujos segredos desvendava. Costumava, também, descrever ocorrências passadas (confirmadas da mesma forma) nos locais que visitava pela primeira vez. Havia um assunto que o fascinava e que impressionava a quem o escutasse, pela aparência de êxtase que dominava suas feições enquanto descrevia o que parecia enxergar à sua frente, sempre que discorria sobre os acontecimentos que fariam (e fizeram) parte da história do Campus de nossa Faculdade: a expansão da própria instituição, o embelezamento dos prédios, a construção de novos edifícios, a ocupação do morro, a edificação de muitas salas de aula, a instalação de vários outros cursos, a transferência do Núcleo de Parapsicologia para o outro lado da rua, e a instalação dos novos centros de estudo que, de acordo com suas palavras, acabariam por trazer ao nosso Campus respeito e reconhecimento, em nível internacional: o novo layout da F.I.E.S. confirma, hoje, suas "visões" daquela época.

Durante aqueles meses, nós o convencemos a inscrever-se nos exames seletivos para o curso de Parapsicologia. Receávamos que a vaidade e a ambição substituíssem a ingenuidade natural e os antigos valores do amigo, quando a fama e o dinheiro passassem a integrar seu cotidiano. Afirmamos-lhe que, esclarecido, o portador da fenomenologia é o melhor sujeito de pesquisa; e o parapsicólogo sensitivo pode entender melhor a natureza do fenômeno, na tentativa de controlá-lo. Uti lizávamos, como reforço aos nossos argumentos, a posição da parapsicólogaamericana Rhea White que, após quarenta anos de dedicação à pesquisa científica clássica, que exige a impessoalidade do pesquisador, quebrou o tabu do modelo experimental, aprovou a indicação do sensitivo como investigador da própria fenomenologia e passou a dedicar-se ao estudo das "experiências humanas excepcionais"[14] numa abordagem preferencialmente fenomenológica[15]. Anos mais tarde, aprenderíamos que aquele posicionamento que defendemos radicalmente apresenta, também, alguns pontos dúbios para os quais o pesquisador deve atentar para não pecar por dogmatismo ou genaralização (Alvarado, Machado e Zingrone, 1997; 1998).

Os futuros cientistas ignoravam, além disso, as palavras conscienciosas que Stephen Braude, ex-presidente da Parapsychological Association, endereçou a seus pares, em agosto de 1991, num questionamento concernente aos procedimentos experimentais contemporâneos, durante o seu discurso de encerramento do 34th Congresso Internacional, em Heidelberg(Aleman ha). Indagou-lhes se seriam esses procedimentos os mais apropriados à pesquisa da Psi, já que não se conhece seu propósito, ou os meios de controla-la; e, além disso, ainda não está claro o alcance dessa capacitação na espécie humana. A seguir, aconselhou-os a adotarem um programa observacional de investigação da Psi espontânea, em sua natural ocorrência, e legítimo contexto, levando - posteriormente, os dados apurados a laboratório, na tentativa de controlar variáveis e eliminar explicações alternativas. Essa abordagem - conciliadora e abrangente, minoraria não apenas o risco da divisão do campo em duas áreas rivais e conflitantes, como o perigo de extinção da Parapsicologia científica; e, também, o de que os parapsicólogos acabem confundidos com meros estudiosos do ocultismo.

Nessa mesma época, apresentavam-se diante de JMP dois caminhos conflitantes: a dedicação de seu tempo ao estudo da Parapsicologia era o primeiro; e a oportunidade de ganhar dinheiro com a clientela que começava a se formar entre vizinhos e conhecidos, o segundo. Num primeiro momento, decidiu por ambos, depois de trocar idéias com os amigos. Iniciou o curso de Parapsicologia, no princípio de 1991; mas os compromissos de sua outra escolha o impediam de cumprir os períodos de estágio escolar e estudar suficientemente para as provas. Vencendo os próprios escrúpulos e os da cultura vigente que desaconselhavam o sensitivo a cobrar pela informação que oferece, sob pena de "perder o dom", adotou o caminho da profissionalização, decidindo-se por um método de seleção eficaz: atenderia a todos que aceitassem pagar o preço alto de sua consulta. Os inúmeros pedidos de atendimento o convenceram a abandonar o antigo emprego de vendedor de automóveis e dedicar seu tempo a quem se dispusesse a pagar pelos sessenta minutos que, origina lmente, dedicava aos clientes.

Nos primeiros tempos, limitava-se a pegar a mão de quem o procurava e falava do que sentia a respeito, numa evidente sugestão de psicometria[16]. Depois, passou a utilizar um pequeno baralho de figuras coloridas: aparentemente, o baralho servia como instrumento de ativação do inconsciente (como a bola de cristal, os búzios e o tarot o são para outros sensitivos). Acusava a "presença" de uma cigana, antiga conhecida sua. Ocasionalmente, dizia sentir a companhia do velho caboclo dos primeiros dias. E, embora Stephen Braude sugerisse que as habilidades complexas, demonstradas por sensitivos, podem ser propiciadas por estados dissociativos, não havia indicação de processo dissociativo[17], já que se comportava, todo o tempo, como se descrevesse - de forma coloquial e participativa, um filme que assistia enquanto passava em sua mente: sua fisionomia ia se alterando à medida que prestava informações substanciais e encadeadas - quase sem intervalos, e com detalhes - como nomes de pessoas, datas e horários; marcava a hora em que visitas inesperadas chegariam; indicava lugares onde procurar objetos perdidos; apontava culpados e inocentes; descrevia futuras contingências chocantes, como uma gravidez inesperada e estranhos relacionamentos pessoais, antes mesmo que se tornassem conhecidos dos próprios participantes; prevenia sobre incidentes, doenças, ocorrências inesperadas, vitórias e derrotas, surpresas agradáveis, desagradáveis ou constrangedoras.

No que se refere à indicação de vitórias, derrotas e culpas, a ansiedade resultante de seu envolvimento pessoal pode ter propiciado, em diversas ocasiões, a perda da objetividade em suas informações, de maneira similar à que ocorre nos julgamentos errôneos no cotidiano dos indivíduos, tanto por inclinações pessoais como por preconcepções. Registramos, como exemplo, algumas vezes em que JMP mostrava-se indignado com calúnias levantadas contra políticos que admirava, e dizia injustiçados, se acusados de envolvimento em atividades ilícitas. Nesses momentos sua fenomenologia se rendia ao envolvimento emocional.

Devido ao excesso de compromissos que se viu obrigado a assumir, e que o levou a diminuir o tempo que dedicava a cada pessoa que atendia, em prejuízo do processo de empatia[18] - tão importante no contato inicial do sensitivo com seu cliente, JMP acabou por trancar a matrícula de Parapsicologia no final do primeiro semestre. Enquanto isso, os laços de amizade que o uniam ao grupo de estudantes eram fortalecidos. Isso acabou por gerar a idéia de transformá-lo em sujeito da pesquisa iniciada por mim, no segundo semestre de 1991.

Contagiado pelo entusiasmo que começava a tomar conta do grupo de pesquisa que se formava e, conquistado pela possibilidade de fazer parte de uma investigação científica que poderia ajudá-lo a entender o quebra-cabeças da própria vida, resolveu abrir as portas de sua história, dando início a um estudo-conjunto que seria o primeiro passo de uma sólida e duradoura amizade entre investigadora e investigado.

O futuro sujeito da pesquisa aceitou o projeto de Estudo de Caso, mas repeliu a idéia da investigação de cunho experimental, uma pesquisa em nível laboratorial, por acreditar que seu desempenho tendia a ser prejudicado se submetido a uma metodologia impessoal e científica, diferente do ambiente do cotidiano, mesmo que protegido pelas técnicas de ambientação[19], o que poderia sugerir um eventual efeito do experimentador[20]. A este respeito, parece oportuno lembrar a opinião de Stephen Braude, em sua palestra sobre "A Psi e a natureza das capacitações", no 34o Congresso Internacional da P.A., em 1991: sugeria que algumas pessoas podem apresentar uma capacitação psi, apenas em determinados contextos, altamente restritos. A atitude do jovem sensitivo veio fortalece r esse pensamento: mostrando-se aberto ao diálogo contínuo e à observação sistemática[21] de sua forma de viver, ao questionamento de sua filosofia de vida e de trabalho, contou sobre as dúvidas e a insegurança com relação à própria capacidade de ajudar às pessoas. Falou de suas crenças, e do sonho de, um dia, trabalhar como healer [22] (curador) numa clínica para tratar pessoas quaisquer fossem seus recursos financeiros. Além disso, rememorou as tentativas de ligar-se a diferentes ramificações espirituais, das crises de consciência por causa do dinheiro que passou a receber pelas consultas que dava às pessoas que o procuravam, desde que começou a ensaiar alguns passos no profissionalismo.

Com o passar do tempo, diversas modificações se apresentaram na vida de JMP: no final de 1991, aborrecido com a convivência difícil com o jovem estudante com quem residia, resolveu morar sozinho. Foram rompidos os laços de amizade com F.V.P. que, poucos meses depois, também abandonou o curso e retornou à sua cidade natal, no interior do estado de São Paulo.

Então, seu amigo C.Z. chegou do Rio Grande do Sul; e, juntos, decidiram dar início a um pequeno ateliê de sapatilhas que, em pouco tempo, transformou-se numa fáb rica e loja de bolsas e calçados, transferida para um dos bairros mais bem localizados da capital, e onde decidiram morar.

A casa nova ficava num bairro próximo ao centro da cidade de Curitiba, nos fundos de uma rua arborizada e tranqüila. A sala de atendimento ao crescente público de adolescentes, donas-de-casa, empresários e políticos era pequena, com uma área inferior a cinco metros quadrados, nos primeiros anos. Posteriormente, a sala que passou a medir cerca de doze metros quadrados, tornou-se o principal local de observação do fenômeno: parte menor do corpo da casa, localizada junto à fábrica de calçados, mas isolada da circulação diária dos habitantes, funcionários e clientes. Hoje, muito mais espaçosa, clara, arejada e bastante bem decorada, a sala de consultas tomou o lugar dos aposentos principais da antiga residência. Nessa sala, costuma receber empresários e políticos com a mesma animação com que sempre atendeu as pessoas comuns e os adolescentes curiosos.

Uma área anexa, com poltronas, serve como sala de espera. Na sala ao lado, uma secretária, especialmente contratada para cobrar as consultas - todas com hora marcada. O telefone toca o tempo todo: são tantos os clientes que o procuram que, geralmente, conseguem atendimento apenas um ou dois meses após o agendamento da consulta. São pessoas que vêm por indicação de terceiros ou retornam em busca de nova sessão de informações ou aconselhamento sobre futuras decisões. Os vizinhos o tratam como a um membro da família, desde que ali se instalou: costumam visitá-lo, no final da tarde, para uma rodada de chimarrão.

Iniciando sua exposição de vida, JMP narra a história de sua infância, adolescência e juventude, no Rio Grande do Sul, seus primeiros sinais de paranormalidade - paralelos a suas experiências religiosas; a reação familiar e a própria; sua forma de viver, de pensar, de agir e reagir; do otimismo que o acompanhava em todas as fases negativas que enfrentou. Lembra que, desde os cinco anos, brincava de "ler as mãos das pessoas" e evoca a sensação antiga de aliança com o povo cigano.

Seus antecedentes pessoais nada têm de excepcionais: é o único homem entre três filhos descendentes de família católica italiana, de mediano nível sócio-econômico-cultural. Nasceu às 9,00 horas do dia 24 de junho de 1965, na cidade de Getúlio Vargas, Rio Grande do Sul, onde residiu até 1987. Seus pais, A.P. e D.P., hoje com 61 e 63 anos de idade, tiveram três filhos: S.B.P., de 40 anos, J.M.P., de 35, e C.R.P., de 30 anos de idade.

Vivenciou os primeiros sinais de paranormalidade paralelamente às experiências infantis: teve que se habituar à imagem de uma freira refletida tantas vezes, em seu espelho, que chegava a senti-la dentro de si mesmo. Anos mais tarde, quando ouviu falar em reencarnação[23] começou a se perguntar se aquela freira da infância não seria uma lembrança de vida anterior. Sua puberdade e adolescência foram acompanhadas por experiências de cunho religioso. Sentia-se, às vezes, transportado a u m mundo místico, ao qual imaginava ter livre acesso; e, ao qual se obrigava a merecer. Traz em suas lembranças dessa época, um quadro de ingenuidade e pureza.

Sua primeira "grande visão" foi em agosto de 1977, com 12 anos, logo após sua cerimônia de crisma. Nesse dia, depois da comunhão, enxergou pequenos duendes e sílfides na parede de seu quarto de dormir: imaginou que viviam em seu jardim. Paralela a essa imagem, o medo que sentiu, na ocasião, do que lhe parecia ser um sinal de desequilíbrio psíquico. Os receios de JMP ficaram bastante atenuados quando sua mãe e sua avó lhe contaram suas próprias vivências psíquicas.

Entre os 16 e os 18 anos, viveu cerca de cinco episódios em que lhe aparecia no espelho a mesma freira da infância. Relembra um episódio vivido aos 16 anos, quando pegando a mão de uma amiga, descreveu toda a mágoa que absorvia, e partilhava com a amiga a mesma vontade de chorar que intuía, numa antecipação da fenomenologia que seria, no futuro, sua marca mais consistente. Recorda sua primeira informação precognitiva, aos 18 anos quando, num momento de raiva, por briga familiar, anunciou que seu pai seria operado por uma grave situação de saúde, o que ocorreu menos de seis meses depois. Com respeito às características das ocorrências sugestivas de precognição, algumas são concernentes, também, às demais percepções extra-sensoriais, como o fato de a informação chegar ao sujeito sob a forma de imagem, som, odor, sensação ou sentimento, como um conhecimento instantâneo. Outras lhe são explicitamente referentes. Entre elas, a sensação de emergência que se torna mais forte à medida que se aproxima o instante do evento previsto (Barrionuevo, 1996).

Em 1988 e 1989 residiu em Porto Alegre (RS), onde trabalhava no setor de vendas de um frigorífico. Em meados de 1989, logo após a maioridade, encontrou em Passo Fundo (RS), uma antiga conhecida de sua cidade natal, R.Q., que o convidou para morar em Curitiba (PR), onde residia. Aceitou o convite da amiga, decidindo trocar o cotidiano no frigorífico pela oportunidade de mudar sua vida. Veio, então, instalar-se na capital paranaense, onde encontrou trabalho como vendedor de automóveis, e um quarto para morar na casa da conterrânea: tarefa e acomodação que não lhe trazem boas recordações. Começava, então, um período de transformações e marcas que permanecem, ainda hoje, em sua memória. De 1990 a 1992 passou por inúmeros episódios de incorporação mediúnica.

A parte inicial da pesquisa se estendeu pelos anos de 1992 e 1993. A primeira metade do ano de 1992 foi dedicada à observação sistemática do sensitivo, às entrevistas que se sucediam à medida que se esclareciam os pontos omissos dos questionamentos anteriores. Foi preciso reunir uma bibliografia inicial para servir de embasamento teórico à pesquisa e direcionar seus procedimentos. Foi preciso, também, recorrer ao material das aulas de Parapsicologia do professor Joe Garcia, do segundo semestre de 1990 ao segundo semestre de 1992 - diversas delas registradas em filmes de vídeo; e, a partir de 1993, ao material do curso de especialização do Summer StudyProgram, do atual Rhine ResearchCenter, em Durham, Carolina do Norte, Es tados Unidos. Muitas sessões de supervisão foram realizadas, sistematicamente, com o orientador da pesquisa, Tarcísio Roberto Pallú, co-autor deste trabalho, para elucidação dos pontos nevrálgicos. Um desses pontos - o impedimento ético de assistir às consultas de clientes desconhecidos, obrigou-me a adotar os meios restantes e disponíveis de analisar os métodos utilizados pelo sensitivo, de presenciar e avaliar o fenômeno em sua manifestação: ofereci-me como objeto de investigação, mesmo ficando patente a subjetividade da análise dos dados coletados. Para minimizar os efeitos de tal subjetividade, a supervisão impôs a adoção de algumas medidas de controle: maior freqüência a entrevistas mais abrangentes, enquetes mais acuradas e registro das informações de interesse público em Cartório, estendidas a um período de cinco anos; bem como um embasamento teórico mais direcionado à questão da seletividade e do controle do fenômeno, por parte do precognitivo.

JMP mostrou-se, permanentemente, aberto ao diálogo constante, à observação sistemática de seu modo de viver, e ao questionamento de sua filosofia de trabalho. Impressionou, sempre, a todos que presenciavam a demonstração de sua fenomenologia, a capacidade de extasiar-se com as imagens que dizia desfilarem ante seus olhos como um filme e das quais fornecia a descrição com grande riqueza de detalhes, sem qualquer indicação de um processo dissociativo, nesses momentos; ainda que, em outros momentos, sugerisse ser um "médium de incorporação".[24] Transmitia as mensagens, freqüentemente, com ênfase especial em nomes e datas, como se as tirasse das cartas do baralho cigano, utilizado mais para dar uma satisfação aos consulentes do que por necessidade sua; já que, segundo seu relato pessoal, necessitava, apenas de um contato com uma fonte da informação pretendida. Em 1990, JMP avisou-me que meu primogênito seria antes pai e depois, marido. Não lhe dei atenção, já que meu filho tinha, então, 17 anos apenas. Um ano depois, meu filho foi pai antes de ser marido. Ao conhecer meus filhos gêmeos, em 1991, avisou-me que era inútil se prepararem para o vestibular de Medicina, pois seriam grandes advogados. Passaram, ambos, em Direito, dois anos depois. Quando meu filho caçula decidiu fazer um curso de línguas, nos Estados Unidos, em 1995, avisou-me que ele dificilmente voltaria a residir em Curitiba. Os seis meses transformaram-se em quatro anos e meio; e, posteriormente, trocou os Estados Unidos pelo Rio de Janeiro, onde está cursando Direito. A partir de 1993, sempre que nos encontrávamos, repetia que visualizava algo muito sério, na cabeça de meu marido. Insistia que eu deveria tomar providências porque seria possível evitar sua morte. Meu marido, médico, divertia-se com nossos temores e jamais os levou em consideração. Em meados de 1996, um acidente vascular cerebral de expressivas proporções, embora não o tenha matado, interrompeu - por suas seqüelas, sua carreira de cirurgião. Observa-se que as informações precognitivas, embora pareçam ter uma maior ressonância nos casos de tragédias ou de eventos chocantes, também podem ser captadas - e o são, usualmente, quando se tratam de informações inexpressivas e aparentemente sem uma razão definida (Barrionuevo, 1996).

Após os contatos já descritos, e de acordo com o planejamento da pesquisa, e orientação do supervisor, os passos seguintes relacionavam-se à redação dos questionamentos ao entrevistado: as perguntas deviam ser claras para que as respostas pudessem embasar os dados levantados. As questões deviam ser diretas, simples e abrangentes (entrevistas diretivas e não diretivas), para que as respostas servissem de dados concretos e pudessem ser analisadas globalmente.

De 1994 a 1996, JMP acabou por se tornar tema de um trabalho maior do que o previsto no início, já que o planejamento da pesquisa previa cumprir, apenas, as tarefas de um programa de estágio supervisionado. Enquanto se aprofundava a amizade entre nós, submetia-o, bem como a seu sócio, algumas testemunhas, clientes e amigos, a diferentes tipos de entrevistas, à medida que os pontos assinalados nos questionamentos anteriores eram evidenciados - embasavam-se teoricamente em bibliografia referente ao assunto pesquisado.

Durante esse período, de tempos em tempos, JMP costumava telefonar para relatar algum sonho que tivera comigo ou com meus filhos e o estava preocupando. Se eu não conseguisse localizar, no momento, a razão de sua preocupação, em poucos dias ocorria algum novo fato que vinha me explicar o motivo de seu telefonema. A precognição tem preponderante incidência em sonhos. Louisa E. Rhine, a maior colecionadora de casos espontâneos, apurou em seus levantamentos de fenomenologia espontânea, uma percentagem superior a 65 % de relatos de casos sugestivos de precognição, através de sonhos (Rhine, 1966). Eles parecem ocorrer, também, em estad os simples de alteração de consciência, nos períodos de sono hipnagógico (antes do período de sono propriamente dito, anterior ao sono R.E.M., que é a fase normal do sonho), e durante algumas fases de sono hipnopômpico (posteriores ao sono R.E.M., imediatamente antes do despertar) (Barrionevo, 1996).

Das conversas mantidas com JMP e do registro de suas atuações era possível perceber que discordava que o futuro visualizado pudesse ter alguma chance de modificação. Julgava que, mesmo ignorando os meios pelos quais acessava à informação precognitiva, esta - cedo ou tarde, se confirmaria. Insistia em que não se pode alterar eventos excepcionais, especialmente, as mortes trágicas, os casamentos, as conquistas de grande poder, ou uma sorte muito grande. Não percebia que as informações que obtinha eram mais acuradas quanto menor fosse o intervalo de tempo transcorrido entre a previsão e o fato previsto, reforçando o que propõe o modelo das Linhas do Tempo da pesquisadora americana N. Sondow (1984) - uma explicação satisfatória ao declínio da acurácia, em função da abordagem do tempo psicológico. Desconhecia que as previsões representam tendências de contingências que podem ou não se confirmar, e não correspondem, fatalmente, a um futuro obrigatório, já que as intercorrências do cotidiano, súbitas e imprevisíveis, podem demandar atitudes impensadas, muitas vezes, com inesperadas conseqüências: estas, por sua vez, podem gerar outras atuações e fatos alteradoresdos eventos preconizados. Um exemplo figurativo desta idéia seria a imagem estática que um caleidoscópio inerte pode apresentar; e, então, à m enor oscilação, novas disposições e possibilidades parecem surgir e formar novas imagens completamente diversas da original (Barrionuevo, 1996). Ao mesmo tempo, JMP lamentava ver prejudicado seu desempenho, quando percebia a desconfiança de um cliente durante a consulta. E acreditava que esse mesmo desempenho podia ser beneficiado pelas sucessivas confirmações oferecidas pela demonstração de confiança do cliente, o que parece reforçar a importância do "feed-back"[25] imediato. É possível que a confiança ou a dúvida diante do que é anunciado sejam como pesos que deslocam a imagem inerte e fazem ocorrer alterações que conduzem ao evento - previsto ou não. Das declarações prestadas, nas diversas entrevistas que concedeu, nos cinco anos de investigação, se depreende que JMP acreditava possuir controle sobre a própria fenomenologia. Surpreendia-o não conseguir a replicabilidade[26] de suas informações, não conseguir conhecer antecipadamente os números que seriam apurados nos sorteios lotéricos, ou a razão por que não conseguia acessar a todas as informações concernentes às imagens obtidas espontaneamente. Dos levantamentos de Louisa Rhine depreende-se que se abrem várias indagações a respeito da seletividade: a necessidade e o interesse mais profundos podem provocar sua atividade; por outro lado, o novo, o estranho, o não familiar surgem, muitas veze s, como tema nas experiências extra-sensoriais; e assuntos relativamente sem importância ou justificativa podem lhe servir, ocasionalmente, de "gatilho" (Barrionuevo, 1996).

Negava a fraude, mas admitia colocar, ocasionalmente, a imaginação a serviço de seus momentos de "branco"[27]. Confirmava a existência desses momentos, embora desvalorizasse sua freqüência ou importância. Negava que o cansaço pudesse propiciar um enfraquecimento da fenomenologia, ocasionando, assim, informações distorcidas; mas, depois de algum tempo, e muita insistência por parte de sua pesquisadora, concordou em diminuir o número de "consultas" diárias, reservando o período da manhã para os atendimentos; e, a partir do meio da tarde, encerrava seu período de trabalho, e se permitia um período de descanso e de lazer. Por sua própria convicção, recusou-se, sempre, a atender os clientes depois do entardecer: as exceções eram raríssimas; e, realmente, não pareciam ser bem sucedidas suas tentativas noturnas de acessar o fenômeno: caía, nitidamente, a quantidade e a qualidade das informações que oferecia, e os resultados não eram tão positivos. Desmentia que exercesse qualquer tipo de manipulação sobre aqueles que o procuravam. Negava, também, terminantemente, que estimulasse a excessiva dependência de seus clientes com relação a suas orientações. Orgulhava-se de nunca haver vinculado sua aparente paranormalidade a qualquer instituição que pudesse responder ou referendar suas declarações.

Comentários Finais

Em pouco tempo, a vida de JMP modificou-se radicalmente, no âmbito financeiro: no final de 1995, sua precária situação econômica parecia, apenas, um sonho ruim do passado. A carreira que lhe fora facilitada por sua aptidão paranormal abriu um horizonte de possibilidades que o menino que via duendes não conseguira adivinhar: a nova realidade permitia-lhe viajar, sempre que quisesse ou necessitasse, adquirir carros do ano, um apartamento de cobertura, com churrasqueira, piscina e terraço, e com a vista privilegiada de toda a capital, e um outro apartamento de cobertura, no litoral de Santa Catarina. Mas, a evolução espiritual continuou a ser seu principal motivo de preocupação. Dedicou, sempre, parte do seu tempo a atividades que beneficiam seus semelhantes. Continua com a mesma insegurança quanto à própria capacidade de ajudar às pessoas e conserva suas crenças e o sonho de, no futuro, poder montar uma clínica de tratamentos alternativos para pessoas carentes. Pratica exercícios de relaxamento e revigoração energética, na intenção de manter sua mente e seu ambiente livres de energias prejudiciais. Aqueles momentos que sugeriam uma fenomenologia de incorporação mediúnica pertencem ao passado: começaram a rarear, a partir de 1992; e, aos poucos, deixaram de ocorrer. Sua presença física transmite uma agradável sensação de equilíbrio interior. Seu nível de vida parece haver seguido o harmonioso padrão de relacionam entos que desenvolveu com as pessoas que o rodeiam: sócio, familiares, vizinhos, amigos e clientes são unânimes em expressar sentimentos positivos a respeito da convivência com JMP.

No que se refere ao acréscimo de informações relacionadas ao controle do fenômeno, pode-se comentar, apenas - do período de observação sistemática, dos pontos levantados e apurados nas entrevistas efetuadas que, mesmo um sujeito consistente, como parece ser o caso de JMP, com um currículo expressivo de episódios confirmados de informação extra-sensorial, quase à medida de sua vontade, muito pouco pode acrescentar como contribuição positiva ao estudo do controle do fenômeno, desde que ainda não conseguiu acessar, em termos de quantidade e qualidade, à informação que tenciona captar; e nem mesmo selecionar a parte da informação que deseja.

Ao longo de todo o tempo de pesquisa, ao rever as observações, respostas e declarações do sujeito da pesquisa, incluindo as que foram registradas em Cartório, percebia-se nitidamente, que muitas delas davam ensejo a outros questionamentos para esclarecimento de algumas questões dúbias. Estas, por sua vez, abriam caminho a outras interrogações que pareciam apontar em novas direções. Cada vez que tentava reunir a documentação referente ao estudo, precisava retornar à sua casa para apurar alguns pontos obscuros no relatório. Isso fez com que aquele pequeno estudo de caso iniciado, quase por diversão e curiosidade, em 1991, por obrigatoriedade curricular, e com um prazo de duração planejado para menos de dois anos, fosse estendido a 1996. Transformou-se numa experiência muito rica, não apenas pelo fato de poder presenciar a ocorrência da fenomenologia espontânea em seu ambiente natural, como também, e principalmente, pela oportunidade de conhecer e acompanhar a vida e as atividades de um ser humano que se esforça por entender a própria natureza, enquanto se dedica a crescer interna e externamente.

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ARTIGO PUBLICADO NO ANUÁRIO BRASILEIRO DE PARAPSICOLOGIA: 2002



[1] Graduada em Parapsicologia e pós-graduada em Estudos da Consciência. Supervisora em Aconselhamento em Parapsicologia. Integrante do Summer StudyProgram do RhineResearchCenter, turma de 1993. Organizadora e Instaladora do Núcleo de Pesquisa Ganzfeld da FIES. Instrutora do I Curso - Aipa de Metodologias de Pesquisa. Membro da Parapsychologycal Association. Membro Profissional do Rhine Research Center. Membro fundador e Diretor da Asociación IberoAmericana de Parapsicologia. Membro integrante do Centro de Pesquisa de Sonhos. Membro do Conselho Editorial do Boletim FatorPsi.

[2] Graduado em Parapsicologia e Pós Graduado em Estudos da Consciência pelas Faculdades Integradas Espírita. Chefe do Centro Integrado de Orientação em Parapsicologia e professor do Curso de Parapsicologia da FIES. Integrante do Summer StudyProgram do Rhine ResearchCenter, turma de 1993. Membro Instalador do Núcleo de Pesquisa Ganzfeld da FIES. Instrutor do I Curso - Aipa de Metodologias de Pesquisa. Instrutor de Programação Neuro-Linguística. Membro da Parapsychologycal Association. Membro Profissional do Rhine Research Center. Membro fundador da Asociación IberoAmericanade Parapsicologia. Membro integrante do Centro de Pesquisa de Sonhos. Membro do Conselho Editorial do FatorPsi.

[3] Estressantes, desagregadoras.

[4] do grego Manteia: adivinhação.

[5] leitura da bola de cristal

[6] relógios de areia

[7] relógios de água

[8] um instante criativo de associação que contenha a informação total, numa espécie de "insight".

[9] antigo utensílio facilitador de suposta comunicação com entidade espiritual: tábua de madeira com letras, números e um manuseador dos sinais que constroem as frases. Hipóteses alternativas: fraude e ocorrência de uma super-psi

[10] fenômeno concernente à hipótese de sobrevivência. Consiste na influência exercida pela mente de uma entidade supostamente espiritual sobre a do médium. Hipóteses alternativas: fraude, super-psi, ou processo de múltipla-personalidade.

[11] processo psicopatológico pelo qual uma pessoa passa a comportar-se, inconscientemente, com características não inerentes à sua personalidade.

[12] cantigas entoadas nos rituais de terreiros, supostamente, para receber e despedir entidades espirituais.

[13] atividade comum em cerimônia espírita: os participantes reúnem-se ao redor de uma mesa e se supõe que entidades espirituais se apresentem tanto para oferecer mensagens como para receber orientação.

[14] vivências anômalas não demonstradas experimentalmente.

[15] Metodologia de pesquisa que aprecia e avalia o fenômeno como ocorre em seu ambiente natural, a forma com que é vivenciado e o que representa para seu portador.

[16] aquisição pela mente do sensitivo, de informação oriunda da história de pessoas, locais ou objetos. Pode ser proveniente do contato direto do sensitivo com a fonte da informação, ou com objetos pertencentes a essa fonte.

[17] estado de deslocamento do ego, objeto de estudo da Psicologia

[18] processo de aproximação e identificação entre pessoas que, sintonizadas, captam e dão ressonância aos seus sentimentos e pensamentos que passam a fluir fácil e coerentemente.

[19] processo de familiarização gradativa entre sujeito, experimentador e ambiente de testagem, com a conseqüente influência positiva nos resultados.

[20] interferência do comportamento/ânimo do experimentador causadora de alteração no desempenho do sujeito, por influência em sua segurança.

[21] Um dos mais importantes instrumentos de um Estudo de Caso. Consiste em acompanhar o cotidiano do sujeito em seu ambiente familiar, social e profissional.

[22] do inglês healing, processo de cura psicocinética que sugere envolver um elemento de percepção extra-sensorial.

[23] Hipótese de Sobrevivência da mente que defende a idéia de que a vida tem início antes do nascimento, não termina com a morte do corpo, e que o indivíduo pode renascer num outro corpo físico.

[24] sensitivo cujo corpo físico parece servir de instrumento da expressão de supos tas "entidades" que declaram pertencer a dimensões espirituais.

[25] informação oferecida, como retorno, sobre o desempenho de algo ou alguém.

[26] característica da plausibilidade de se achar resultados semelhantes pela tentativa de adoção de mesmos métodos, técnicas e passos de experimento anterior.

[27] episódio momentâneo em que a mente não consegue registrar ou acessar à informação pretendida.

Modificado el ( domingo, 26 de junho de 2005 )
 
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