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Vera Lúcia Barrionuevo e Tarcísio Roberto Pallú
Resumo
A motivação desta pesquisa apoiou-se na necessidade de um esclarecimento mais aprofundado sobre o funcionamento e o controle do fenômeno da precognição, para que servisse como um instrumento de elucidação das pessoas e de minoração do preconceito das ciências acadêmicas quanto à existência da Psi. O presente artigo foi delineado a partir de um estudo de caso desenvolvido entre o mês de agosto de 1991 e o mês de junho de 1996 – e diz respeito às observações das atividades e vivências do sujeito. Refere-se, também, a algumas das conclusões a que têm conduzido, nas últimas décadas, e a este respeito, os estudos de casos espontâneos e a pesquisa experimental.
Introdução
O mistério da natureza do fenômeno e o
problema do controle da Psi por parte do sensitivo
ou do pesquisador são assuntos que vêm sendo
investigados pelos estudiosos da Parapsicologia
contemporânea. Esforços no sentido de isolar o
fenômeno e explicar a energia que o desencadeia
têm contribuído para um entendimento que poderia
possibilitar seu controle.
A partir do momento em que a Escola Rhine
demonstrou que a Psi é própria da natureza
humana, um crescente número de sensitivos passou
à mira das investigações científicas em
prol da multiplicidade dos métodos de controle na
pesquisa e visando o entendimento do Ser. A Esp
parece ser muito mais freqüente do que se supunha
anteriormente, e sua manifestação evidencia-se
nos mais variados graus: há pessoas com um único
episódio na vida; outras relatam diversas
ocorrências; e, algumas conseguem acessar à
informação quase que na medida de sua vontade. No
entanto, para trazer mais luz ao universo dos sensitivos,
é preciso investigar e descobrir como se administra
problemas como fé, medo, comércio, doença,
dependência e fraude, variáveis que podem
contribuir para realçar ou distorcer e impedir o
controle do fenômeno.
Prevenir a fraude e distinguir e isolar psicopatologias
concomitantes são problemas comuns para os
investigadores em Parapsicologia, a partir do momento que o
fenômeno se acha disseminado na sociedade entre os
futurólogos (vide ntes, quiromantes, cartomantes), os
membros dos centros espíritas, dos terreiros de
umbanda e candomblé, das seitas esotéricas, e os
portadores de fenomenologia espontânea. Estes
últimos, desde que não pertençam a qualquer
dos organismos mencionados, ou não utilizem seu dom
como meio de vida, costumam escondê-los para fugir
à curiosidade das pessoas e à interferência
em suas vidas. Especialmente por isto, costumam recusar a
oferta de se submeterem à pesquisa científica; a
menos que apresentem condições emocionais
disruptivas[3] e
precisem de orientação especializada para
administração prática de suas vidas.
Os sujeitos de pesquisa (sensitivos profissionais e
paranormais em processo de orientação) propiciam
farto material de estudo, redundando na necessidade de
criação de cursos, seminários e congressos
para disseminação das noções que se
ampliam e aprofundam à medida que os dados coletados
forneçam novos caminhos para o conhecimento
interno.
Nesse momento surgem as dificuldades: a mais usual
é o tempo que se leva para conseguir a disponibilidade
do portador do fenômeno a ser pesquisado. Além
disso, é muito difícil obter a
aceitação do enfoque científico (frio e
impessoal); e, também, a aceitação de se
achar sob suspeição, de alguma forma - o que
contraria o hábito confortável de confiabilidade
que costuma desfrutar, por parte daqueles que o procuram, e
se tornam dependentes de seus enfoques e diagnósticos.
Acima de tudo, as diferentes dire trizes e os interesses
conflitantes podem impedir uma continuidade efetiva neste
tipo de convivência forçada entre o sujeito e seu
pesquisador.
Descrever o universo pesquisado é mergulhar numa
dimensão do ser humano que desnuda o portador da
fenomenologia estudada: casa, família, profissão,
saúde, amigos, condição social, intelectual,
emocional e financeira - variáveis que alteram a
realidade e apresentam mais hipóteses a se estudar e
confirmar ou desmentir. Surge, então, a questão
crucial: - "Será que o acerto na informação
obtida significa ter controle sobre o fenômeno?" Se
positiva, esta resposta poderia ser o passo fundamental
para aceitação da Parapsicologia entre as
ciências acadêmicas - não apenas pela
possibilidade da comprovação do fenômeno
já demonstrado, e da credibilidade pretendida; como,
também, por sua aplicabilidade ao cotidiano do ser
humano, o que viabilizaria as aplicações
financeiras nos projetos de pesquisa; e atrairia, ainda, o
interesse da população para o desenvolvimento das
experiências.
Em nossa escolha do objeto da pesquisa, a
preferência recaiu na precognição por se
tratar de um fenômeno que atrai com maior força a
curiosidade popular; e por sua característica peculiar
de transcendência de tempo e de espaço: acessar
à informação sobre eventos ainda por ocorrer
pressupõe a coexistência de passado, presente e
futuro num mesmo momento - o que vem facilitar o
entendimento de uma visão circular do tempo,
naturalmente aceita pelas culturas orientais e primitivas
em detrimento da visão linear adotada pela
porção ocidental do mundo. Isso faz da
precognição, para os ocidentais, a menos
provável das capacidades Psi, a mais
difícil de explicar e de entender; em bora, seja a
fenomenologia de ocorrência mais freqüente e de
mais fácil comprovação, quando se acha sob a
lente experimental.
A História do Fenômeno
A precognição tem suas raízes nas artes
da mancia[4]. Resulta de canais de
informação, há muito suspeitados, e vem
de uma época em que o perigo espreitava nas sombras
dos caminhos. Pode-se imaginar, então, que o
conhecimento precognitivo seja um dote da raça
humana.
O estava escrito dos muçulmanos tem sido
aceito, sem questionamentos, pelos milhões de
fatalistas que dependem do curso dos acontecimentos, quase
sem participação ativa; e o encaram como a uma
fila de eventos que segue, obrigatoriamente, uma mesma
trajetória, sem se afastar das leis que os regem; o
que vem contrariar o direito ancestral do livre
arbítrio.
A catoptromancia[5]
baseia-se no princípio da concentração da
mente: fixar a atenção na bola ou no cristal
de rocha pode facilitar um estado alterado de
consciência, num transe semelhante ao
hipnótico. De modo semelhante, a
contemplação do fogo parece despertar
mecanismos inconscientes que podem alterar a
percepção e facilitar os processos de
vidência momentânea. Cartas, búzios,
pedras e varetas são, também, somente
instrumentos utilizados pelos sensitivos para os mesmos
fins: facilitar o acesso do inconsciente a uma
projeção intuitiva. Alcançar um maior
grau de controle sobre o fenômeno ou de
confiança na própria faculdade, pode levar o
sensitivo a prescindir deles.
Experiências científicas vêm mostrando,
nas últimas décadas, que a mente pode
alcançar pontos inacessíveis sensorialmente. Mas,
um olhar indagador ao passado pode revelar aos
investigadores científicos que, desde a
Antigüidade, quando os primeiros observadores se
serviam de ampulhetas[6],
das clepsidras[7], e dos
relógios de sol, ainda em uso, a noção do
tempo tem sido objeto de preocupação do homem.
Sua compreensão está, tradicionalmente,
associada à imagem do fluir incessante das
águas de um rio: é uma imagem um tanto
rígida, por induzir a imaginá-lo fluindo em d
ireção definida, num padrão
contínuo, comumente interpretado como que em
sentido passado-presente-futuro. Muita coisa passa a
fazer sentido na medida em que o tempo parece andar para
frente, apenas (Barrionuevo, 1996).
Nas últimas décadas, a pesquisa experimental
tem tentado fortalecer as possíveis formas de controle
do fenômeno - as variáveis de personalidade, de
temperamento, de crença, de informação, de
vontade, de estados alterados de consciência e estados
de ânimo - seja com relação à pesquisa
qualitativa, com sujeitos consistentes e selecionados
previamente, portadores de expressiva paranormalidade, seja
com relação à pesquisa quantitativa, com
sujeitos aleatoriamente escolhidos. Os resultados têm
se mostrado, muitas vezes, favoráveis e motivadores
dos esforços da comunidade acadêmica, mais
otimista nesta década de desenvolvimento da
informática do que em seus primeiros momentos de
busca, quando os dados coletados repousavam, apenas, nos
testemunhos e nas impressões subjetivas dos
investigadores.
As pesquisas de laboratório têm sido um
valiosíssimo instrumento e vêm viabilizando
hipóteses que podem se aproximar de uma teoria
aceitável. Stanley Krippner (1992), psicólogo
humanista e laureado pesquisador dos fenômenos da
mente, refere-se aos eventos precognitivoscomo
"situações nas quais, sob condições de
atividades psi, um organismo se comporta como se
tivesse informação a respeito de ... um evento
futuro". Danah Zohar (1982), parapsicóloga e autora
contemporânea, considera a Precognição um
caso particular de Esp e um dos fenômenos mais
inexplicáveis de paranormalidade, por ser um
instrumento de domínio do tempo, por parte do
homem.
Os modelos contemporâneos da física estão
- no mínimo, fazendo as pessoas questionarem os
tradicionais conceitos de espaço e tempo. Falar de
tempo e de espaço para diferentes pessoas, em
diferentes épocas, tem significados variados. Uma das
abordagens compreensíveis de acesso prévio à
informação é que o futuro é um conjunto
de disposições, de eventos ainda não
percebidos. Não que inexistam, apenas não foram
percebidos, ainda. Há pessoas que vêem os mesmos
eventos, em diferentes disposições. Poderia,
então, surgir uma nova disposição; e,
talvez, algumas pessoas já a tenham percebido
anteriormente, o que poderia significar que alguém,
ocupando diferente posição no tempo, poderia
acessar, anteriormente, à informação.
Numa outra visão, a precognição poderia
envolver, também, uma percepção
gestáltica[8]. O
presente poderia conter um pedaço do futuro, como
se fosse a abertura de um ângulo de visão
voltado para o infinito. O futuro poderia, então,
significar o ângulo se desenvolvendo. E poderia ser
viável observar a abertura do campo de visão.
Da mesma forma, o presente seria uma ponta angular em
direção ao futuro. Há pessoas que possuem
um vislumbre mais claro do desdobramento da
associação de eventos do futuro que outra s:
estas poderiam chamar-se precognitivas.
O Caso JMP
Nascido e criado na cidade gaúcha de Getúlio
Vargas, JMP chegou a Curitiba, em 1989. Fugia de um grave
problema emocional e da rotina cansativa de seu trabalho no
setor de vendas de um frigorífico. Em pouco tempo, na
tentativa de se aclimatar rapidamente à nova vida,
passou a freqüentar um grupo de desenvolvimento
espiritual onde encontrou um protetor que o acolheu e
tentou orientar seus passos no caminho da espiritualidade.
Esse senhor o apresentou a seu filho, FVP, um estudante de
Parapsicologia, recentemente chegado à cidade que, por
não ter também onde morar, convidou-o a dividir
um apartamento num bairro afastado do centro da cidade e o
apresentou a seus colegas de curso (nosso grupo de
estudos). Eles o ajudaram a redirecionar a vida, a partir
da descoberta de suas características sugestivas de
fenomenologia Psi.
No final de abril de 1990, numa típica reunião
de curiosos aspirantes a parapsicólogos, decidimos
"pesquisar" uma mesa Ouija.[9] Tudo
corria normalmente no que era mais um passatempo
pretensiosamente disfarçado de
investigação, quando surgiram os primeiros
sinais de uma aparen te incorporação
mediúnica[10] em
JMP: uma nítida alteração de fisionomia,
um sotaque germânico e um tom monocórdio de
voz transpareceram no que sugeria ser um sermão
sofisticado e moralista. Pouco depois, numa mudança
radical de comportamento, passou a girar sobre si mesmo,
com grande velocidade. Impotentes, à sua volta,
tentávamos ampará-lo, evitando que se
machucasse ao esbarrar nos móveis. Assumiu,
então, a fala rústica e a postura inclinada
que lembravam as de um velho índio. Pediu um
cigarro de palha e um pouco de cachaça. Na falta de
ambos, foram-lhe oferecidos uma garrafa de vinho branco
e alguns cigarros normais. Ficamos assustados pela cena
inesperada, que sugeria a ocorrência de uma
psicopatologia. As experiências de fenomenologia
extra-sensorial podem ser confundidas com processos
neurológicos (especialmente
pós-traumáticos) e possuem
características limítrofes com a área de
psicopatologia, como nos casos de múltipla
personalidade[11], e
de alterações diversas, entre as quais, as do
comportamento, do pensamento, da atenção, da
percepção, ou mesmo nos casos de
alucinação proveniente de simples
distúrbio emocional (Barrionuevo, 1996).
Além disso, por temermos os resultados em sua
saúde, no dia seguinte, ficamos preocupados com o
fortíssimo cheiro de fumo e de bebida que se espalhou
no ar. Observávamos, fascinados, os filtros de
cigarros bruscamente arrancados e fumados um após
outro, e a garrafa de bebida esvaziada em poucos minutos.
Sabíamos que não fumava nem bebia, porque seu
organismo não reagia bem, a ambos.
O velho caboclo não se identificou, mas
comunicou-se bastante bem conosco. Parecia possuir uma
índole positiva e serena, pelo teor das mensagens que
passava aos presentes. Atribuiu sua presença à
necessidade de proteção do iniciante e à
importância que o jovem afirmava dar à sua
vontade de ajudar às outras pessoas. Discorreu sobre
uma vida em outros planos, sobre as motivações
que costumam impulsionar os seres humanos, e comentou sobre
particularidades da vida de cada um de nós, o que
chegou a ser mais constrangedor do que divertido. Depois de
algum tempo, explicou a necessidade de se retirar para
não desgastar as energias de JMP e despediu-se de
todos. O grupo, já surpreso com as ocorrências,
ficou ainda mais intrigado ao constatar que o ambiente
enfumaçado e cheirando à bebida de antes,
voltava, automaticamente ao normal, juntamente com o
aparente "retorno" do amigo ao estado usual de
consciência. Logo depois, ao ser inteirado do
ocorrido, o responsável por toda aquela cena
insólita e inesperada duvidou de tudo o que lhe
contamos, especialmente no que se referia ao fumo e à
bebida. Apresentou, então, um estado de ansiedade
quanto a um possível princípio de
desequilíbrio mental. As experiências
anômalas, por carecerem de explicação
lógica, podem surpreender e assustar seu portador, a
tal ponto, que o impeçam de dormir; ou mesmo de
relacionar-se com as pessoas, por não conseguir
esconder a culpa ou o medo da loucura de que se acredita
portador. Isso consegue, muitas vezes, abalar seu
equilíbrio porque não dispõe, sequer, de
informações suficientes para descartar um
processo psicológico ou psicopatológico
(Barrionuevo & Pallú, 2000). Os futuros
parapsicólogos sentiram-se no dever de acalmá-lo
com informações tranqüilizadoras; embora
inadequadas - em sua maioria, e mal embasadas
cientificamente.
Poucos dias depois, seu companheiro de apartamento
informou-nos que JMP passava as madrugadas entoando
cantilenas desconhecidas, sem acordar. LMB, uma das
participantes de nossa equipe, habituada às
canções do candomblé, reconheceu as estrofes
descritas e gravadas por FVP como "pontos de
terreiro".[12]Cientificado, então, da
nova versão dos fatos, aquele filho de
católicos italianos afirmou desconhecê-las,
mas passou a interessar-se pelo assunto, a partir de
então.
Com o passar do tempo, as notícias se espalharam:
surgiam sugestões, conselhos e convites para
reuniões espíritas e cerimônias em terreiros
de umbanda e candomblé. Alguns procuravam
convencê-lo de que a mesa branca[13]
trazia maior luz interior; mas JMP confessou ao grupo
que se pudesse, escolheria os rituais de terreiro que o
encantavam pela beleza e sensação de leveza e
bem-estar que o acompanhava depois; ao contrário do
que ocorria após as reuniões de mesa branca
que lhe pareciam difíceis de entender e o faziam
sentir-se oprimido e aflito.
Começaram a surgir, então, outras
manifestações do que sugeria ser uma
percepção extra-sensorial: JMP passou a fornecer
informações detalhadas - confirmadas
posteriormente, sobre o futuro imediato dos amigos; e,
dirigidas especialmente, ao âmbito emocional e
profissional. Conseguia acessar o conteúdo mental de
quem o cercava, surpreendendo a todos aqueles cujos
segredos desvendava. Costumava, também, descrever
ocorrências passadas (confirmadas da mesma forma) nos
locais que visitava pela primeira vez. Havia um assunto que
o fascinava e que impressionava a quem o escutasse, pela
aparência de êxtase que dominava suas
feições enquanto descrevia o que parecia enxergar
à sua frente, sempre que discorria sobre os
acontecimentos que fariam (e fizeram) parte da
história do Campus de nossa Faculdade: a expansão
da própria instituição, o embelezamento dos
prédios, a construção de novos
edifícios, a ocupação do morro, a
edificação de muitas salas de aula, a
instalação de vários outros cursos, a
transferência do Núcleo de Parapsicologia para o
outro lado da rua, e a instalação dos novos
centros de estudo que, de acordo com suas palavras,
acabariam por trazer ao nosso Campus respeito e
reconhecimento, em nível internacional: o novo
layout da F.I.E.S. confirma, hoje, suas
"visões" daquela época.
Durante aqueles meses, nós o convencemos a
inscrever-se nos exames seletivos para o curso de
Parapsicologia. Receávamos que a vaidade e a
ambição substituíssem a ingenuidade natural
e os antigos valores do amigo, quando a fama e o dinheiro
passassem a integrar seu cotidiano. Afirmamos-lhe que,
esclarecido, o portador da fenomenologia é o melhor
sujeito de pesquisa; e o parapsicólogo sensitivo pode
entender melhor a natureza do fenômeno, na tentativa
de controlá-lo. Uti lizávamos, como reforço
aos nossos argumentos, a posição da
parapsicólogaamericana Rhea White que, após
quarenta anos de dedicação à pesquisa
científica clássica, que exige a impessoalidade
do pesquisador, quebrou o tabu do modelo experimental,
aprovou a indicação do sensitivo como
investigador da própria fenomenologia e passou a
dedicar-se ao estudo das "experiências humanas
excepcionais"[14]
numa abordagem preferencialmente
fenomenológica[15].
Anos mais tarde, aprenderíamos que aquele
posicionamento que defendemos radicalmente apresenta,
também, alguns pontos dúbios para os quais o
pesquisador deve atentar para não pecar por
dogmatismo ou genaralização (Alvarado, Machado
e Zingrone, 1997; 1998).
Os futuros cientistas ignoravam, além disso, as
palavras conscienciosas que Stephen Braude, ex-presidente
da Parapsychological Association, endereçou a seus
pares, em agosto de 1991, num questionamento concernente
aos procedimentos experimentais contemporâneos,
durante o seu discurso de encerramento do 34th Congresso
Internacional, em Heidelberg(Aleman ha). Indagou-lhes se
seriam esses procedimentos os mais apropriados à
pesquisa da Psi, já que não se conhece seu
propósito, ou os meios de controla-la; e, além
disso, ainda não está claro o alcance dessa
capacitação na espécie humana. A seguir,
aconselhou-os a adotarem um programa observacional de
investigação da Psi espontânea, em
sua natural ocorrência, e legítimo contexto,
levando - posteriormente, os dados apurados a
laboratório, na tentativa de controlar variáveis
e eliminar explicações alternativas. Essa
abordagem - conciliadora e abrangente, minoraria não
apenas o risco da divisão do campo em duas áreas
rivais e conflitantes, como o perigo de extinção
da Parapsicologia científica; e, também, o de que
os parapsicólogos acabem confundidos com meros
estudiosos do ocultismo.
Nessa mesma época, apresentavam-se diante de JMP
dois caminhos conflitantes: a dedicação de seu
tempo ao estudo da Parapsicologia era o primeiro; e a
oportunidade de ganhar dinheiro com a clientela que
começava a se formar entre vizinhos e conhecidos, o
segundo. Num primeiro momento, decidiu por ambos, depois de
trocar idéias com os amigos. Iniciou o curso de
Parapsicologia, no princípio de 1991; mas os
compromissos de sua outra escolha o impediam de cumprir os
períodos de estágio escolar e estudar
suficientemente para as provas. Vencendo os próprios
escrúpulos e os da cultura vigente que desaconselhavam
o sensitivo a cobrar pela informação que oferece,
sob pena de "perder o dom", adotou o caminho da
profissionalização, decidindo-se por um
método de seleção eficaz: atenderia a todos
que aceitassem pagar o preço alto de sua consulta. Os
inúmeros pedidos de atendimento o convenceram a
abandonar o antigo emprego de vendedor de automóveis e
dedicar seu tempo a quem se dispusesse a pagar pelos
sessenta minutos que, origina lmente, dedicava aos
clientes.
Nos primeiros tempos, limitava-se a pegar a mão de
quem o procurava e falava do que sentia a respeito, numa
evidente sugestão de psicometria[16].
Depois, passou a utilizar um pequeno baralho de figuras
coloridas: aparentemente, o baralho servia como
instrumento de ativação do inconsciente (como
a bola de cristal, os búzios e o tarot o são
para outros sensitivos). Acusava a "presença" de
uma cigana, antiga conhecida sua. Ocasionalmente, dizia
sentir a companhia do velho caboclo dos primeiros dias.
E, embora Stephen Braude sugerisse que as habilidades
complexas, demonstradas por sensitivos, podem ser
propiciadas por estados dissociativos, não havia
indicação de processo dissociativo[17],
já que se comportava, todo o tempo, como se
descrevesse - de forma coloquial e participativa, um
filme que assistia enquanto passava em sua mente: sua
fisionomia ia se alterando à medida que prestava
informações substanciais e encadeadas - quase
sem intervalos, e com detalhes - como nomes de pessoas,
datas e horários; marcava a hora em que visitas
inesperadas chegariam; indicava lugares onde procurar
objetos perdidos; apontava culpados e inocentes;
descrevia futuras contingências chocantes, como uma
gravidez inesperada e estranhos relacionamentos
pessoais, antes mesmo que se tornassem conhecidos dos
próprios participantes; prevenia sobre incidentes,
doenças, ocorrências inesperadas,
vitórias e derrotas, surpresas agradáveis,
desagradáveis ou constrangedoras.
No que se refere à indicação de
vitórias, derrotas e culpas, a ansiedade resultante de
seu envolvimento pessoal pode ter propiciado, em diversas
ocasiões, a perda da objetividade em suas
informações, de maneira similar à que ocorre
nos julgamentos errôneos no cotidiano dos
indivíduos, tanto por inclinações pessoais
como por preconcepções. Registramos, como
exemplo, algumas vezes em que JMP mostrava-se indignado com
calúnias levantadas contra políticos que
admirava, e dizia injustiçados, se acusados de
envolvimento em atividades ilícitas. Nesses momentos
sua fenomenologia se rendia ao envolvimento emocional.
Devido ao excesso de compromissos que se viu obrigado a
assumir, e que o levou a diminuir o tempo que dedicava a
cada pessoa que atendia, em prejuízo do processo de
empatia[18] -
tão importante no contato inicial do sensitivo com
seu cliente, JMP acabou por trancar a matrícula de
Parapsicologia no final do primeiro semestre. Enquanto
isso, os laços de amizade que o uniam ao grupo de
estudantes eram fortalecidos. Isso acabou por gerar a
idéia de transformá-lo em sujeito da pesquisa
iniciada por mim, no segundo semestre de 1991.
Contagiado pelo entusiasmo que começava a tomar
conta do grupo de pesquisa que se formava e, conquistado
pela possibilidade de fazer parte de uma
investigação científica que poderia
ajudá-lo a entender o quebra-cabeças da
própria vida, resolveu abrir as portas de sua
história, dando início a um estudo-conjunto que
seria o primeiro passo de uma sólida e duradoura
amizade entre investigadora e investigado.
O futuro sujeito da pesquisa aceitou o projeto de Estudo
de Caso, mas repeliu a idéia da investigação
de cunho experimental, uma pesquisa em nível
laboratorial, por acreditar que seu desempenho tendia a ser
prejudicado se submetido a uma metodologia impessoal e
científica, diferente do ambiente do cotidiano, mesmo
que protegido pelas técnicas de
ambientação[19], o
que poderia sugerir um eventual efeito do
experimentador[20]. A
este respeito, parece oportuno lembrar a opinião de
Stephen Braude, em sua palestra sobre "A Psi e a
natureza das capacitações", no 34o
Congresso Internacional da P.A., em 1991: sugeria que
algumas pessoas podem apresentar uma
capacitação psi, apenas em determinados
contextos, altamente restritos. A atitude do jovem
sensitivo veio fortalece r esse pensamento: mostrando-se
aberto ao diálogo contínuo e à
observação sistemática[21] de
sua forma de viver, ao questionamento de sua filosofia
de vida e de trabalho, contou sobre as dúvidas e a
insegurança com relação à
própria capacidade de ajudar às pessoas. Falou
de suas crenças, e do sonho de, um dia, trabalhar
como healer [22]
(curador) numa clínica para tratar pessoas
quaisquer fossem seus recursos financeiros. Além
disso, rememorou as tentativas de ligar-se a diferentes
ramificações espirituais, das crises de
consciência por causa do dinheiro que passou a
receber pelas consultas que dava às pessoas que o
procuravam, desde que começou a ensaiar alguns
passos no profissionalismo.
Com o passar do tempo, diversas modificações
se apresentaram na vida de JMP: no final de 1991,
aborrecido com a convivência difícil com o jovem
estudante com quem residia, resolveu morar sozinho. Foram
rompidos os laços de amizade com F.V.P. que, poucos
meses depois, também abandonou o curso e retornou
à sua cidade natal, no interior do estado de São
Paulo.
Então, seu amigo C.Z. chegou do Rio Grande do Sul;
e, juntos, decidiram dar início a um pequeno
ateliê de sapatilhas que, em pouco tempo,
transformou-se numa fáb rica e loja de bolsas e
calçados, transferida para um dos bairros mais bem
localizados da capital, e onde decidiram morar.
A casa nova ficava num bairro próximo ao centro da
cidade de Curitiba, nos fundos de uma rua arborizada e
tranqüila. A sala de atendimento ao crescente
público de adolescentes, donas-de-casa,
empresários e políticos era pequena, com uma
área inferior a cinco metros quadrados, nos primeiros
anos. Posteriormente, a sala que passou a medir cerca de
doze metros quadrados, tornou-se o principal local de
observação do fenômeno: parte menor do corpo
da casa, localizada junto à fábrica de
calçados, mas isolada da circulação
diária dos habitantes, funcionários e clientes.
Hoje, muito mais espaçosa, clara, arejada e bastante
bem decorada, a sala de consultas tomou o lugar dos
aposentos principais da antiga residência. Nessa sala,
costuma receber empresários e políticos com a
mesma animação com que sempre atendeu as pessoas
comuns e os adolescentes curiosos.
Uma área anexa, com poltronas, serve como sala de
espera. Na sala ao lado, uma secretária, especialmente
contratada para cobrar as consultas - todas com hora
marcada. O telefone toca o tempo todo: são tantos os
clientes que o procuram que, geralmente, conseguem
atendimento apenas um ou dois meses após o agendamento
da consulta. São pessoas que vêm por
indicação de terceiros ou retornam em busca de
nova sessão de informações ou aconselhamento
sobre futuras decisões. Os vizinhos o tratam como a um
membro da família, desde que ali se instalou: costumam
visitá-lo, no final da tarde, para uma rodada de
chimarrão.
Iniciando sua exposição de vida, JMP narra a
história de sua infância, adolescência e
juventude, no Rio Grande do Sul, seus primeiros sinais de
paranormalidade - paralelos a suas experiências
religiosas; a reação familiar e a própria;
sua forma de viver, de pensar, de agir e reagir; do
otimismo que o acompanhava em todas as fases negativas que
enfrentou. Lembra que, desde os cinco anos, brincava de
"ler as mãos das pessoas" e evoca a sensação
antiga de aliança com o povo cigano.
Seus antecedentes pessoais nada têm de
excepcionais: é o único homem entre três
filhos descendentes de família católica italiana,
de mediano nível sócio-econômico-cultural.
Nasceu às 9,00 horas do dia 24 de junho de 1965, na
cidade de Getúlio Vargas, Rio Grande do Sul, onde
residiu até 1987. Seus pais, A.P. e D.P., hoje com 61
e 63 anos de idade, tiveram três filhos: S.B.P., de 40
anos, J.M.P., de 35, e C.R.P., de 30 anos de idade.
Vivenciou os primeiros sinais de paranormalidade
paralelamente às experiências infantis: teve que
se habituar à imagem de uma freira refletida tantas
vezes, em seu espelho, que chegava a senti-la dentro de si
mesmo. Anos mais tarde, quando ouviu falar em
reencarnação[23]
começou a se perguntar se aquela freira da
infância não seria uma lembrança de vida
anterior. Sua puberdade e adolescência foram
acompanhadas por experiências de cunho religioso.
Sentia-se, às vezes, transportado a u m mundo
místico, ao qual imaginava ter livre acesso; e, ao
qual se obrigava a merecer. Traz em suas lembranças
dessa época, um quadro de ingenuidade e pureza.
Sua primeira "grande visão" foi em agosto de 1977,
com 12 anos, logo após sua cerimônia de crisma.
Nesse dia, depois da comunhão, enxergou pequenos
duendes e sílfides na parede de seu quarto de dormir:
imaginou que viviam em seu jardim. Paralela a essa imagem,
o medo que sentiu, na ocasião, do que lhe parecia ser
um sinal de desequilíbrio psíquico. Os receios de
JMP ficaram bastante atenuados quando sua mãe e sua
avó lhe contaram suas próprias vivências
psíquicas.
Entre os 16 e os 18 anos, viveu cerca de cinco
episódios em que lhe aparecia no espelho a mesma
freira da infância. Relembra um episódio vivido
aos 16 anos, quando pegando a mão de uma amiga,
descreveu toda a mágoa que absorvia, e partilhava com
a amiga a mesma vontade de chorar que intuía, numa
antecipação da fenomenologia que seria, no
futuro, sua marca mais consistente. Recorda sua primeira
informação precognitiva, aos 18 anos quando, num
momento de raiva, por briga familiar, anunciou que seu pai
seria operado por uma grave situação de
saúde, o que ocorreu menos de seis meses depois. Com
respeito às características das ocorrências
sugestivas de precognição, algumas são
concernentes, também, às demais
percepções extra-sensoriais, como o fato de a
informação chegar ao sujeito sob a forma de
imagem, som, odor, sensação ou sentimento, como
um conhecimento instantâneo. Outras lhe são
explicitamente referentes. Entre elas, a sensação
de emergência que se torna mais forte à medida
que se aproxima o instante do evento previsto (Barrionuevo,
1996).
Em 1988 e 1989 residiu em Porto Alegre (RS), onde
trabalhava no setor de vendas de um frigorífico. Em
meados de 1989, logo após a maioridade, encontrou em
Passo Fundo (RS), uma antiga conhecida de sua cidade natal,
R.Q., que o convidou para morar em Curitiba (PR), onde
residia. Aceitou o convite da amiga, decidindo trocar o
cotidiano no frigorífico pela oportunidade de mudar
sua vida. Veio, então, instalar-se na capital
paranaense, onde encontrou trabalho como vendedor de
automóveis, e um quarto para morar na casa da
conterrânea: tarefa e acomodação que
não lhe trazem boas recordações.
Começava, então, um período de
transformações e marcas que permanecem, ainda
hoje, em sua memória. De 1990 a 1992 passou por
inúmeros episódios de incorporação
mediúnica.
A parte inicial da pesquisa se estendeu pelos anos de
1992 e 1993. A primeira metade do ano de 1992 foi dedicada
à observação sistemática do sensitivo,
às entrevistas que se sucediam à medida que se
esclareciam os pontos omissos dos questionamentos
anteriores. Foi preciso reunir uma bibliografia inicial
para servir de embasamento teórico à pesquisa e
direcionar seus procedimentos. Foi preciso, também,
recorrer ao material das aulas de Parapsicologia do
professor Joe Garcia, do segundo semestre de 1990 ao
segundo semestre de 1992 - diversas delas registradas em
filmes de vídeo; e, a partir de 1993, ao material do
curso de especialização do Summer
StudyProgram, do atual Rhine
ResearchCenter, em Durham, Carolina do
Norte, Es tados Unidos. Muitas sessões de
supervisão foram realizadas, sistematicamente, com o
orientador da pesquisa, Tarcísio Roberto Pallú,
co-autor deste trabalho, para elucidação dos
pontos nevrálgicos. Um desses pontos - o impedimento
ético de assistir às consultas de clientes
desconhecidos, obrigou-me a adotar os meios restantes e
disponíveis de analisar os métodos utilizados
pelo sensitivo, de presenciar e avaliar o fenômeno em
sua manifestação: ofereci-me como objeto de
investigação, mesmo ficando patente a
subjetividade da análise dos dados coletados. Para
minimizar os efeitos de tal subjetividade, a
supervisão impôs a adoção de algumas
medidas de controle: maior freqüência a
entrevistas mais abrangentes, enquetes mais acuradas e
registro das informações de interesse
público em Cartório, estendidas a um período
de cinco anos; bem como um embasamento teórico mais
direcionado à questão da seletividade e do
controle do fenômeno, por parte do precognitivo.
JMP mostrou-se, permanentemente, aberto ao diálogo
constante, à observação sistemática de
seu modo de viver, e ao questionamento de sua filosofia de
trabalho. Impressionou, sempre, a todos que presenciavam a
demonstração de sua fenomenologia, a capacidade
de extasiar-se com as imagens que dizia desfilarem ante
seus olhos como um filme e das quais fornecia a
descrição com grande riqueza de detalhes, sem
qualquer indicação de um processo dissociativo,
nesses momentos; ainda que, em outros momentos, sugerisse
ser um "médium de incorporação".[24]
Transmitia as mensagens, freqüentemente, com
ênfase especial em nomes e datas, como se as
tirasse das cartas do baralho cigano, utilizado mais
para dar uma satisfação aos consulentes do que
por necessidade sua; já que, segundo seu relato
pessoal, necessitava, apenas de um contato com uma fonte
da informação pretendida. Em 1990, JMP
avisou-me que meu primogênito seria antes pai e
depois, marido. Não lhe dei atenção,
já que meu filho tinha, então, 17 anos apenas.
Um ano depois, meu filho foi pai antes de ser marido. Ao
conhecer meus filhos gêmeos, em 1991, avisou-me que
era inútil se prepararem para o vestibular de
Medicina, pois seriam grandes advogados. Passaram,
ambos, em Direito, dois anos depois. Quando meu filho
caçula decidiu fazer um curso de línguas, nos
Estados Unidos, em 1995, avisou-me que ele dificilmente
voltaria a residir em Curitiba. Os seis meses
transformaram-se em quatro anos e meio; e,
posteriormente, trocou os Estados Unidos pelo Rio de
Janeiro, onde está cursando Direito. A partir de
1993, sempre que nos encontrávamos, repetia que
visualizava algo muito sério, na cabeça de meu
marido. Insistia que eu deveria tomar providências
porque seria possível evitar sua morte. Meu marido,
médico, divertia-se com nossos temores e jamais os
levou em consideração. Em meados de 1996, um
acidente vascular cerebral de expressivas
proporções, embora não o tenha matado,
interrompeu - por suas seqüelas, sua carreira de
cirurgião. Observa-se que as informações
precognitivas, embora pareçam ter uma maior
ressonância nos casos de tragédias ou de
eventos chocantes, também podem ser captadas - e o
são, usualmente, quando se tratam de
informações inexpressivas e aparentemente sem
uma razão definida (Barrionuevo, 1996).
Após os contatos já descritos, e de acordo com
o planejamento da pesquisa, e orientação do
supervisor, os passos seguintes relacionavam-se à
redação dos questionamentos ao entrevistado: as
perguntas deviam ser claras para que as respostas pudessem
embasar os dados levantados. As questões deviam ser
diretas, simples e abrangentes (entrevistas diretivas e
não diretivas), para que as respostas servissem de
dados concretos e pudessem ser analisadas globalmente.
De 1994 a 1996, JMP acabou por se tornar tema de um
trabalho maior do que o previsto no início, já
que o planejamento da pesquisa previa cumprir, apenas, as
tarefas de um programa de estágio supervisionado.
Enquanto se aprofundava a amizade entre nós,
submetia-o, bem como a seu sócio, algumas testemunhas,
clientes e amigos, a diferentes tipos de entrevistas,
à medida que os pontos assinalados nos questionamentos
anteriores eram evidenciados - embasavam-se teoricamente em
bibliografia referente ao assunto pesquisado.
Durante esse período, de tempos em tempos, JMP
costumava telefonar para relatar algum sonho que tivera
comigo ou com meus filhos e o estava preocupando. Se eu
não conseguisse localizar, no momento, a razão de
sua preocupação, em poucos dias ocorria algum
novo fato que vinha me explicar o motivo de seu telefonema.
A precognição tem preponderante incidência
em sonhos. Louisa E. Rhine, a maior colecionadora de casos
espontâneos, apurou em seus levantamentos de
fenomenologia espontânea, uma percentagem superior a
65 % de relatos de casos sugestivos de
precognição, através de sonhos (Rhine,
1966). Eles parecem ocorrer, também, em estad os
simples de alteração de consciência, nos
períodos de sono hipnagógico (antes do
período de sono propriamente dito, anterior ao sono
R.E.M., que é a fase normal do sonho), e durante
algumas fases de sono hipnopômpico (posteriores
ao sono R.E.M., imediatamente antes do despertar)
(Barrionevo, 1996).
Das conversas mantidas com JMP e do registro de suas
atuações era possível perceber que
discordava que o futuro visualizado pudesse ter alguma
chance de modificação. Julgava que, mesmo
ignorando os meios pelos quais acessava à
informação precognitiva, esta - cedo ou tarde, se
confirmaria. Insistia em que não se pode alterar
eventos excepcionais, especialmente, as mortes
trágicas, os casamentos, as conquistas de grande
poder, ou uma sorte muito grande. Não percebia que as
informações que obtinha eram mais acuradas quanto
menor fosse o intervalo de tempo transcorrido entre a
previsão e o fato previsto, reforçando o que
propõe o modelo das Linhas do Tempo da pesquisadora
americana N. Sondow (1984) - uma explicação
satisfatória ao declínio da acurácia, em
função da abordagem do tempo psicológico.
Desconhecia que as previsões representam
tendências de contingências que
podem ou não se confirmar, e não
correspondem, fatalmente, a um futuro obrigatório,
já que as intercorrências do cotidiano,
súbitas e imprevisíveis, podem demandar atitudes
impensadas, muitas vezes, com inesperadas
conseqüências: estas, por sua vez, podem gerar
outras atuações e fatos alteradoresdos eventos
preconizados. Um exemplo figurativo desta idéia seria
a imagem estática que um caleidoscópio inerte
pode apresentar; e, então, à m enor
oscilação, novas disposições e
possibilidades parecem surgir e formar novas imagens
completamente diversas da original (Barrionuevo, 1996). Ao
mesmo tempo, JMP lamentava ver prejudicado seu desempenho,
quando percebia a desconfiança de um cliente durante a
consulta. E acreditava que esse mesmo desempenho podia ser
beneficiado pelas sucessivas confirmações
oferecidas pela demonstração de confiança do
cliente, o que parece reforçar a importância do
"feed-back"[25]
imediato. É possível que a confiança ou a
dúvida diante do que é anunciado sejam como
pesos que deslocam a imagem inerte e fazem ocorrer
alterações que conduzem ao evento - previsto
ou não. Das declarações prestadas, nas
diversas entrevistas que concedeu, nos cinco anos de
investigação, se depreende que JMP acreditava
possuir controle sobre a própria fenomenologia.
Surpreendia-o não conseguir a
replicabilidade[26] de
suas informações, não conseguir conhecer
antecipadamente os números que seriam apurados nos
sorteios lotéricos, ou a razão por que
não conseguia acessar a todas as
informações concernentes às imagens
obtidas espontaneamente. Dos levantamentos de Louisa
Rhine depreende-se que se abrem várias
indagações a respeito da seletividade: a
necessidade e o interesse mais profundos podem provocar
sua atividade; por outro lado, o novo, o estranho, o
não familiar surgem, muitas veze s, como tema nas
experiências extra-sensoriais; e assuntos
relativamente sem importância ou justificativa
podem lhe servir, ocasionalmente, de "gatilho"
(Barrionuevo, 1996).
Negava a fraude, mas admitia colocar, ocasionalmente, a
imaginação a serviço de seus momentos de
"branco"[27].
Confirmava a existência desses momentos, embora
desvalorizasse sua freqüência ou
importância. Negava que o cansaço pudesse
propiciar um enfraquecimento da fenomenologia,
ocasionando, assim, informações distorcidas;
mas, depois de algum tempo, e muita insistência por
parte de sua pesquisadora, concordou em diminuir o
número de "consultas" diárias, reservando o
período da manhã para os atendimentos; e, a
partir do meio da tarde, encerrava seu período de
trabalho, e se permitia um período de descanso e de
lazer. Por sua própria convicção,
recusou-se, sempre, a atender os clientes depois do
entardecer: as exceções eram raríssimas;
e, realmente, não pareciam ser bem sucedidas suas
tentativas noturnas de acessar o fenômeno:
caía, nitidamente, a quantidade e a qualidade das
informações que oferecia, e os resultados
não eram tão positivos. Desmentia que
exercesse qualquer tipo de manipulação sobre
aqueles que o procuravam. Negava, também,
terminantemente, que estimulasse a excessiva
dependência de seus clientes com relação
a suas orientações. Orgulhava-se de nunca
haver vinculado sua aparente paranormalidade a qualquer
instituição que pudesse responder ou
referendar suas declarações.
Comentários Finais
Em pouco tempo, a vida de JMP modificou-se radicalmente,
no âmbito financeiro: no final de 1995, sua
precária situação econômica parecia,
apenas, um sonho ruim do passado. A carreira que lhe fora
facilitada por sua aptidão paranormal abriu um
horizonte de possibilidades que o menino que via duendes
não conseguira adivinhar: a nova realidade
permitia-lhe viajar, sempre que quisesse ou necessitasse,
adquirir carros do ano, um apartamento de cobertura, com
churrasqueira, piscina e terraço, e com a vista
privilegiada de toda a capital, e um outro apartamento de
cobertura, no litoral de Santa Catarina. Mas, a
evolução espiritual continuou a ser seu principal
motivo de preocupação. Dedicou, sempre, parte do
seu tempo a atividades que beneficiam seus semelhantes.
Continua com a mesma insegurança quanto à
própria capacidade de ajudar às pessoas e
conserva suas crenças e o sonho de, no futuro, poder
montar uma clínica de tratamentos alternativos para
pessoas carentes. Pratica exercícios de relaxamento e
revigoração energética, na
intenção de manter sua mente e seu ambiente
livres de energias prejudiciais. Aqueles momentos que
sugeriam uma fenomenologia de incorporação
mediúnica pertencem ao passado: começaram a
rarear, a partir de 1992; e, aos poucos, deixaram de
ocorrer. Sua presença física transmite uma
agradável sensação de equilíbrio
interior. Seu nível de vida parece haver seguido o
harmonioso padrão de relacionam entos que desenvolveu
com as pessoas que o rodeiam: sócio, familiares,
vizinhos, amigos e clientes são unânimes em
expressar sentimentos positivos a respeito da
convivência com JMP.
No que se refere ao acréscimo de
informações relacionadas ao controle do
fenômeno, pode-se comentar, apenas - do período
de observação sistemática, dos pontos
levantados e apurados nas entrevistas efetuadas que, mesmo
um sujeito consistente, como parece ser o caso de JMP, com
um currículo expressivo de episódios confirmados
de informação extra-sensorial, quase à
medida de sua vontade, muito pouco pode acrescentar como
contribuição positiva ao estudo do controle do
fenômeno, desde que ainda não conseguiu acessar,
em termos de quantidade e qualidade, à
informação que tenciona captar; e nem mesmo
selecionar a parte da informação que deseja.
Ao longo de todo o tempo de pesquisa, ao rever as
observações, respostas e declarações do
sujeito da pesquisa, incluindo as que foram registradas em
Cartório, percebia-se nitidamente, que muitas delas
davam ensejo a outros questionamentos para esclarecimento
de algumas questões dúbias. Estas, por sua vez,
abriam caminho a outras interrogações que
pareciam apontar em novas direções. Cada vez que
tentava reunir a documentação referente ao
estudo, precisava retornar à sua casa para apurar
alguns pontos obscuros no relatório. Isso fez com que
aquele pequeno estudo de caso iniciado, quase por
diversão e curiosidade, em 1991, por obrigatoriedade
curricular, e com um prazo de duração planejado
para menos de dois anos, fosse estendido a 1996.
Transformou-se numa experiência muito rica, não
apenas pelo fato de poder presenciar a ocorrência da
fenomenologia espontânea em seu ambiente natural, como
também, e principalmente, pela oportunidade de
conhecer e acompanhar a vida e as atividades de um ser
humano que se esforça por entender a própria
natureza, enquanto se dedica a crescer interna e
externamente.
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ARTIGO PUBLICADO NO ANUÁRIO BRASILEIRO
DE PARAPSICOLOGIA: 2002
[2] Graduado em Parapsicologia e Pós
Graduado em Estudos da Consciência pelas
Faculdades Integradas Espírita. Chefe do Centro
Integrado de Orientação em Parapsicologia e
professor do Curso de Parapsicologia da FIES.
Integrante do Summer StudyProgram
do Rhine ResearchCenter, turma de
1993. Membro Instalador do Núcleo de Pesquisa
Ganzfeld da FIES. Instrutor do I Curso - Aipa de
Metodologias de Pesquisa. Instrutor de
Programação Neuro-Linguística. Membro da
Parapsychologycal Association. Membro Profissional do
Rhine Research Center. Membro fundador da
Asociación IberoAmericanade
Parapsicologia. Membro integrante do Centro de
Pesquisa de Sonhos. Membro do Conselho Editorial do
FatorPsi.
[3] Estressantes, desagregadoras.
[4] do grego Manteia:
adivinhação.
[5] leitura da bola de cristal
[6] relógios de areia
[7] relógios de água
[8] um instante criativo de associação
que contenha a informação total, numa
espécie de "insight".
[9] antigo utensílio facilitador de suposta
comunicação com entidade espiritual:
tábua de madeira com letras, números e um
manuseador dos sinais que constroem as frases.
Hipóteses alternativas: fraude e ocorrência
de uma super-psi
[10] fenômeno concernente à
hipótese de sobrevivência. Consiste na
influência exercida pela mente de uma entidade
supostamente espiritual sobre a do médium.
Hipóteses alternativas: fraude, super-psi, ou
processo de múltipla-personalidade.
[11] processo psicopatológico pelo qual uma
pessoa passa a comportar-se, inconscientemente, com
características não inerentes à sua
personalidade.
[12] cantigas entoadas nos rituais de terreiros,
supostamente, para receber e despedir entidades
espirituais.
[13] atividade comum em cerimônia
espírita: os participantes reúnem-se ao redor
de uma mesa e se supõe que entidades espirituais
se apresentem tanto para oferecer mensagens como para
receber orientação.
[14] vivências anômalas não
demonstradas experimentalmente.
[15] Metodologia de pesquisa que aprecia e
avalia o fenômeno como ocorre em seu ambiente
natural, a forma com que é vivenciado e o que
representa para seu portador.
[16] aquisição pela mente do
sensitivo, de informação oriunda da
história de pessoas, locais ou objetos. Pode ser
proveniente do contato direto do sensitivo com a fonte
da informação, ou com objetos pertencentes a
essa fonte.
[17] estado de deslocamento do ego, objeto de
estudo da Psicologia
[18] processo de aproximação e
identificação entre pessoas que,
sintonizadas, captam e dão ressonância aos
seus sentimentos e pensamentos que passam a fluir
fácil e coerentemente.
[19] processo de familiarização
gradativa entre sujeito, experimentador e ambiente de
testagem, com a conseqüente influência
positiva nos resultados.
[20] interferência do
comportamento/ânimo do experimentador causadora de
alteração no desempenho do sujeito, por
influência em sua segurança.
[21] Um dos mais importantes instrumentos de um
Estudo de Caso. Consiste em acompanhar o cotidiano do
sujeito em seu ambiente familiar, social e
profissional.
[22] do inglês healing, processo de cura
psicocinética que sugere envolver um elemento de
percepção extra-sensorial.
[23] Hipótese de Sobrevivência da
mente que defende a idéia de que a vida tem
início antes do nascimento, não termina com a
morte do corpo, e que o indivíduo pode renascer
num outro corpo físico.
[24] sensitivo cujo corpo físico parece
servir de instrumento da expressão de supos tas
"entidades" que declaram pertencer a dimensões
espirituais.
[25] informação oferecida, como
retorno, sobre o desempenho de algo ou alguém.
[26] característica da plausibilidade de se
achar resultados semelhantes pela tentativa de
adoção de mesmos métodos, técnicas
e passos de experimento anterior.
[27] episódio momentâneo em que a
mente não consegue registrar ou acessar à
informação pretendida.
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