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O Futuro da Pesquisa Psi: recomendações em retrospecto / Parte I PDF Print E-mail
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domingo, 26 junho 2005
Krippner, Stanley & Hövelmann, Gerd. H. (2005)  O Futuro da Pesquisa Psi: recomendações em retrospecto / Parte I. Boletim Virtual de Pesquisa Psi, Vol 2.

( Tradução de Vera Lúcia Barrionuevo )

Dr. Stanley Krippner
Saybrook Institute – Califórnia / EUA
skrippner@saybrook.edu

Dr. Gerd H. Hövelmann
Hövelmann Communications – Marburg / Alemanha
hoevelmann.communication@kmpx.de

Desde que os seres humanos vêm registrando suas experiências, têm descrito devaneios que parecem transmitir pensamentos de outra pessoa, sonhos nos quais parecem tornar-se conscientes de eventos distantes, rituais nos quais acontecimentos futuros foram supostamente preditos, e procedimentos mentais que se diz terem produzido atuação direta em distantes objetos físicos.

Essas pretensas ocorrências podem ser exemplos de fenômenos que os pesquisadores da Psi (ou parapsicólogos) atualmente chamam de telepatia, clarividência, precognição e psicocinesia. Coletivamente, refere-se a Psi - interações relatadas entre organismos e seu meio ambiente (incluindo outros organismos) em que ocorra informação ou influência que pareça violar o corrente entendimento da ciência sobre tempo, espaço, força e suas reservas.

A “pesquisa Psi” tenta estudar essas interações, usando os instrumentos e tecnologias de investigação sistemática associada com outros empreendimentos científicos. Não obstante, a ciência corrente tenta tachar a pesquisa Psi de “pseudo-ciência” porque supostamente mascara os empreendimentos realmente científicos, mas fica com o peso de temas não testáveis, conceitos não confiáveis e experimentos não replicáveis (exemplo: Leahy & Leahy, 1983).

Os pesquisadores psi na realidade levam consigo, usualmente, o que a maioria das mulheres carrega em suas bolsas: tanta coisa inútil, muito pouca coisa absolutamente essencial; e então, como boa medida, diversos itens intermediários. A maior dificuldade dos pesquisadores psi reside em estabelecer o que é o que. Evidentemente, eles não carregam tais itens objetivamente, tendo em vista que sua obsessão por pertences é essencialmente mental. De vez em quando, acrescentam alguns itens: um corpo de dados novo, uma idéia experimental nova, uma nova teoria; uma vez ou outra, jogam alguma no lixo relutantemente; e, às vezes, param para classificar seus pertences e reconsiderar seu valor, sua relação mútua, e uma possível relevância futura.

Nos anos 80, apresentamos 11 recomendações favoráveis ao futuro da pesquisa psi (Hövelmann & Krippner, 1986a). As sugestões que fizemos receberam bastante atenção dos colegas da Pesquisa Psi e de outras áreas; e ficamos com a impressão de que, como saldo de um trabalho parapsicológico objetivo e de apresentações ao longo de 17 anos, eles demonstraram ter sentido, pelo menos, alguma influência subjacente.

Nosso artigo foi reimpresso em sua original versão inglesa (Hövelmann & krippner, 1987a), e traduzido para o alemão (Hövelmann & Krippner, 1986b) e japonês (Hövelmann & Krippner, 1993). Foi recebido favoravelmente e comentado tanto no âmbito da corrente popular da Pesquisa Psi (vide o extenso comentário favorável de Fuller [1987] e nossa resposta em Hövelmann & Krippner [1987b]), quanto nos círculos parapsicológicos mais conservadores (W. Eeman [1986, pp. 202-204], conhecido como crítico interno da Pesquisa Psi, publicou um sumário detalhado e um comentário de apoio em Flemish), e também nos dos céticos “de carteirinha” como Kendrick Frazier (1987), editor do Skeptical Inquirer do CSICOP.

O cético holandês Rob Nanninga (1988, pp. 281-282) incluiu, também num livro, uma lista completa de nossas recomendações, endossando-as. Além disso, foram publicados sumários por Irvin Child (1987, p. 204), por exemplo; e incluídos numa segunda edição de Philosophy of Science and the Occult , de Patrick Grim (Grim, 1990, p. 77).

Nosso cânone de recomendações parece ter sido considerado um modelo para discussão em áreas diferentes, quando Geoffrey Dean utilizou um extenso sumário delas como sinal para (Dean, 1987b) “estimular” discussões num “debate sobre as melhores diretrizes de uma futura pesquisa em astrologia” (Dean, 1987a), que ele conduzira durante a Conferência Anual de Pesquisa Astrológica, em Londres, 1987.

Por outro lado, sugestões para futura prática, linguagem e comportamento científicos, é provável que não permaneçam sem serem desafiados. Assim, McConnell (1987) abordou o assunto, a primeira das onze sugestões que fizemos, em particular (ver abaixo; nossa réplica, ver Hövelmann & Krippner, 1987c).

Um Pouco de Simpatia pelo Diabo

Um outro time de autores, todos dos Países Baixos, reportaram-se às nossas sugestões como “Onze Mandamentos,” e fizeram uma crítica de cada um, sob o ponto de vista de advogado do diabo (Millar, Jacobs, & Michels, 1988).

•  Não se deve apresentar a Pesquisa Psi como uma ciência revolucionária .

De acordo com Hövelmann and Krippner (1986a, p. 2), seguidamente se anuncia que a Pesquisa Psi é uma ciência revolucionária, que seus achados têm implicações revolucionárias para a humanidade, e que os pesquisadores psi estão à frente de uma revolução. Discutiram mais de meia dúzia de significados concebíveis ao termo “revolucionário” e rejeitaram todos tanto por enganosos, inadequados, contraditórios ou intrinsecamente sem significação. O termo “revolucionário” pode implicar, por exemplo, em que os pesquisadores da psi abandonaram a metodologia científica; se essa implicação for incorreta, a pesquisa psi não pode ameaçar uma “revolução”, não importa quão dramáticos seus achados possam parecer.

Crítica: se um pesquisador em medicina encontrasse uma nova droga anticâncer, isso seria considerado parte da corrente principal da ciência. Entretanto, se ao injetar aquela substância, o paciente se tornasse invisível, o termo “revolucionário” não seria inapropriado. Os pesquisadores Psi da escola “revolucionária” asseguram que existe a possibilidade de que os dados parapsicológicos possam produzir resultados de tal magnitude; e que tais dados iniciariam modificações drásticas em muitas outras ciências (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 6).

Resposta: Até que sejam consistentes as evidências replicáveis e empíricas da psi e sua eventual utilização seja cautelosa, a maioria dos pesquisadores psi provavelmente concordaria em que a situação não evoluiu drasticamente no período de 17 anos desde que nosso artigo foi publicado. A base da propaganda revolucionária, conseqüentemente, não parece havê-la tornado mais consistente do que era no passado. Assim, já que não temos em mãos muito que sirva para abalar os alicerces do ponto de vista científico aceito pela maioria, estamos bem orientados para manter distância de qualquer pretensão revolucionária. Além do mais, já que não existem alternativas convincentes e viáveis, continuamos razoavelmente acomodados no ponto de vista universal prevalecente.

Continua por ser demonstrado que a Pesquisa Psi produza evidência de uma magnitude tal que force a mudança, que mereça ser chamada “revolucionária” (no sentido de que, no evento, teria que ser explicitamente especificada). E, com toda franqueza, nós pesquisadores psi somos os únicos que teremos que fazer isso. Além do mais, os pesquisadores psi terão que demonstrar ainda um outro assunto que continua sem ser reconhecido: que as ciências “convencionais” em sua forma corrente não estão prontas para lidar com o que quer que possamos estar prestes a confrontá-las. Não estamos convencidos de que estejamos em posição de fazer o que quer que esteja próximo por cumprir com uma ou todas essas obrigações. Diante dessas circunstâncias, insistir meramente, como fazem Millar, Jacobs, and Michels, de que nos consideramos revolucionários não é - por si - revolução. É rebelião.

Quanto à pesquisa médica mencionada por nossos críticos, a que tornou invisível seu paciente em vez de curar sua doença potencialmente fatal, um caso poderia ser montado e chamá-lo de trágico acidente (se não algo pior); não uma revolução, mas um exemplo aparente de mau tratamento.

•  Não se deve enfatizar muito a pesquisa da sobrevivência. Hövelmann e Krippner (1986a, p. 2) sugeriram que parece muito pouco provável que a pesquisa sobre relatos de sobrevivência possa produzir conhecimento empírico sobre a sobrevivência ou, em caso contrário, contribuir para solucionar o problema da sobrevivência. Os resultados da pesquisa sobre a vida após a morte, por outro lado, podem nos falar mais especificamente sobre o processo de morrer e sobre a condição humana, em geral (ver também Hövelmann, 1988a); mas há tantas explicações alternativas sobre experiências próximas à morte (Hövelmann, 1985b), relatos de “pós-vida”, mediunidade, e dados relacionados, que os anúncios de sobrevivência podem se tornar impossíveis de verificar (ver também Cardeña, Lynn, & Krippner, 2000).

Crítica: Os estudos da mediunidade conduzidos no auge da pesquisa da sobrevivência, de informações conseguidas de pessoas falecidas, eram - em muitos graus de magnitude, melhores do que os melhores dados contemporâneos produzidos em laboratório. A pesquisa da sobrevivência é mais compreensível, e provavelmente mais fácil de fundamentar que os outros aspectos da pesquisa psi; por isso o atual “status” de mau-gosto dessas investigações faz pouco sentido (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 6).

Resposta: Millar, Jacobs, e Michels que, de seus outros escritos, são conhecidos por basicamente concordarem com nossa segunda recomendação, são cuidadosos em não fingir que os velhos estudos sobre mediunidade a que se referem têm evidente valor de uma força que contribuiria significativamente para uma solução à questão da sobrevivência. Eles estão, com certeza, bem conscientes dos problemas que podem existir com a avaliação da evidência histórica, cuja documentação, nem sempre atinge, para dizer menos, os padrões mínimos que hoje seriam exigidos.

No entanto, os autores parecem sugerir que a pesquisa da sobrevivência (como oposta à pesquisa relacionada à sobrevivência no sentido específico acima) seja continuada por razões principalmente oportunistas, ou seja, por sua discutível importância comerciável. Nós questionamos tanto a sabedoria quanto a ética de sua política. É muito improvável que venha a ser útil para o campo, no final das contas, a pesquisa “comercial” sobre uma dada questão (por exemplo, a hipótese da sobrevivência), enquanto se estiver convencido, pelas várias razões metodológicas e conceituais que evidenciamos em nosso artigo de 1986 e em outros lugares, de que não aparecerão os resultados - mesmo que sugiram moderadamente confirmação ou rejeição empírica dessa hipótese.

Enquanto acreditarmos que a pesquisa relacionada à sobrevivência significa a investigação de experiências e convicções humanas que pareçam estar relacionadas ao conceito de sobrevivência, pode bem valer nosso tempo e nossos esforços; e pode ser potencialmente de grande importância o nosso conhecimento sobre a morte e o morrer (Hövelmann, 1988a), o núcleo da hipótese de sobrevivência para a Pesquisa Psi foi sempre o principal impedimento à aceitação do campo por nossos vigilantes científicos. Assim, Harvey Irwin (2002) defendeu uma "redefinição da Pesquisa Psi e o banimento da hipótese de sobrevivência para uma condição secundária". (pág. 19). Principalmente pelos mesmos motivos que nós avançamos em 1986, Irwin concluiu que "é precipitado perseverar neste compromisso intratável e severo quanto à posição da pesquisa parapsicológica como um empenho científico legítimo. A hipótese de sobrevivência precisa ser colocada à parte substancialmente como uma provocativa porém - no final das contas, improdutiva faceta da história da Pesquisa Psi " (pág. 25). Nós concordamos.

•  Não se atribuirá muito peso a material não experimental. De acordo com Hövelmann and Krippner (1986a, pp. 2-3), os pesquisadores psi não deveriam confiar tão completamente na assim chamada evidência de casos espontâneos ou de dados obtidos em ambientes quase experimentais. As falhas que quase sempre acompanham esses tipos de investigação tendem a não deixar rastro, depois do fato, bem como se abrem a uma interpretação e projeção superestimadas. Não obstante, esses relatos quase sempre estimulam tipos de investigação mais rigorosos, e podem ser usados para derivar predições testáveis.

Crítica: Os experimentos Psi são, ainda, apenas esporadicamente bem sucedidos e não podem ser produzidos sobre nenhuma base que se assemelhe a uma linha de produção. Como resultado, os casos espontâneos e as observações informais não deveriam ser ignorados; o computador analisa as coleções de casos espontâneos existentes (ex., Schouten, 1979; Persinger, 1988) que têm rendido dados tão questionáveis quanto vitais como nenhum oriundo do laboratório (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 6).

Resposta: Não existe, tanto quanto possamos asseverar, uma diferença substancial entre o que sugerimos em nossas recomendações e os comentários avançados da crítica. Na verdade, nós concordamos fundamentalmente que as áreas e tipos de estudo evidenciados por Millar, Jacobs, and Michels “não deveriam ser ignorados,” e dissemos isso em nosso artigo. Essas áreas constituem, e sempre constituíram, importantes partes da prática parapsicológica e têm contribuído consideravelmente para o caso global da psi que o campo consegue hoje.

Melhor, o que tentamos apontar é a diferença de valoração evidente que existe entre as percepções obtidas dos relatos de casos espontâneos, por um lado, os estudos de campos e as coleções de casos; e os dados obtidos de estudos controlados mais rigorosamente em ambientes de laboratório, por outro lado. Existem duas facções tradicionais na Pesquisa Psi, os “experiencialistas” e os “experimentalistas.” Enquanto que os últimos reconhecem principalmente a necessidade e a preferência por estudos menos formais de eventos psi presumivelmente espontâneos, como uma fonte de estimulação para uma pesquisa experimental estritamente mais controlada, os primeiros parecem, algumas vezes, de longe, menos generosos. Eles parecem contentar-se com eventos espontâneos de um precário poder - pelos menos - e preferem, como poderiam dizer, experienciar a psi em ambiente de vida real para exorcizá-lo no laboratório.

Em resposta, dificilmente podemos fazer melhor do que citar uma fonte inteiramente isenta de suspeita. Carlos Alvarado (2002), um dos mais famosos autores de sofisticados estudos de casos espontâneos, lembrou a seus colegas: “Nós deveríamos estar conscientes de que a pesquisa é feita por interesse de alguém e para treinar alguém e de que não podemos esperar daqueles que conduzem outros tipos de pesquisa que façam a pesquisa que queremos ver feita. Eles simplesmente têm outras prioridades e pontos de vista” (p. 116).

E então, ele continuou a descrever nossa preocupação, da qual aparentemente compartilha, sem ressalvas: “Minha impressão com o passar dos anos, com respeito ao estudo de fenômenos espontâneos, é que aqueles de um desses segmentos não estão interessados em explicar ou entender os fenômenos. Parecem contentar-se em manter o mistério para seu próprio benefício. Em sua ótica, os fenômenos são algo sagrado que não deveriam ser testados demais” (p. 117). Alvarado acrescentou: “Minha impressão é que alguns deles interessaram-se em sobrevivência da morte ou em conceitualizar fenômenos psíquicos como manifestações que apontam para aspectos não-físicos ou espirituais dos seres humanos; não estão geralmente interessados em demonstrar como os casos se relacionam aos aspectos do mundo natural. Sentem que é mais importante sustentar a sobrevivência, a espiritualidade, ou coisa semelhante, por causa das implicações desses conceitos sobre a natureza dos seres humanos. Talvez aqueles que vêem o estudo dos fenômenos espontâneos, dessa forma, não querem o tema associado a correlações mundanas físicas, biológicas, e psicológicas, porque tais correlações enfraquecem as visões mais espirituais que eles preferem” (p. 119).

•  Não se deve tomar o nome da psi em vão. Hövelmann and Krippner (1986a, p. 3) argumentam em prol de uma reforma terminológica na pesquisa psi, enfatizando que os termos contemporâneos (especialmente “percepção extrasensorial” ou ESP) são negativos na forma, afirmando o que a ESP não é, não o que ela é. Pelo menos, a Pesquisa Psi deveria distinguir entre os termos explanatórios e os descritivos; em vez disso, ela se apresenta como se os pesquisadores da psi estivessem explicando uma anomalia quando eles estão meramente identificando uma. A proposição, “A curva naquela colher deve ter sido causada por uma força psicocinética” é gramaticalmente correta mas, na verdade, é uma explicação negativa.

Crítica: Qualquer tentativa de impor uma terminologia neutra, não teórica, é considerada falha antes que haja mais resultados substanciais baseados em conceitos teóricos consistentes. Nesse meio tempo, uma terminologia não teórica é tão útil quanto um uísque escocês sem álcool (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 7).

Resposta: Ao menos parte das intenções que tínhamos em mente, quando planejamos essas recomendações em particular, haviam sido cumpridas nesse meio tempo: a conscientização entre os pesquisadores psi de seus problemas terminológicos desenvolveu-se notavelmente nas duas últimas décadas, e a necessidade de uma reforma terminológica foi largamente reconhecida por nossos colegas. Alguns até se arriscaram a apresentar suas próprias sugestões terminológicas de algum alcance (e.g., Mabbett, 1982; Palmer, 1986, 1988; May, Spottiswoode, Utts, & James, 1995; May, Utts, & Spottiswoode, 1995). Mesmo assim, esses valiosos esforços quase sempre foram frustrados pelos mesmos velhos problemas - ou novos, alguns anteriormente desconhecidos (ver Braude, 1998; Hövelmann, 1988c). Logo, o diagnóstico parece definido e, de uma forma geral, aceito, mas ainda não há admitidamente remédios apropriados no horizonte.

•  Não se deve duvidar da definitiva utilidade da psi. Alguns pesquisadores psi proclamam que estão lidando com fenômenos indefiníveis e não replicáveis (Hövelmann & Krippner, 1986a, p. 3). No entanto, essa declaração pode ser prematura (ver Bem & Honorton, 1994). E depois, as metodologias da pesquisa psi podem não ser ainda totalmente adequadas à tarefa. A Psi é um evento complexo; mesmo assim, seus processos subjacentes podem ser entendidos eventualmente, permitindo que resultados robustos, estáveis, e replicáveis ocorram.

Crítica: Após mais de um século de experimentos não repetíveis, a possibilidade de que a não repetibilidade seja inerente à Pesquisa Psi deveria ao menos ser considerada (ver Friedman, 1984; Hansen, 2001).

Resposta: Richard Broughton (1988), em seu discurso presidencial de 1987, na Parapsychological Association, fez-nos recordar: “se você quer saber como ela funciona, descubra primeiro para que ela serve” (p. 187). Ambas as partes dessa prescrição –- a noção de que se espera que alguma coisa “funcione” e que isso seja instrumental ao alcançar determinadas metas, ou ao preencher determinadas necessidades que um organismo possa ter —- logicamente pressupõe um mínimo de confiabilidade funcional sistemática, robustez e repetibilidade de suposta habilidade ou processo psi subjacente.

Ao tempo em que não existe qualquer prova positiva de que a não repetibilidade seja inerente em Pesquisa Psi e de que a “serventia” confiável e as características de preenchimento de necessidades da psi são ilusórias, a busca por uma significância funcional da psi continua sendo o melhor caminho a seguir.

•  Não se deve escutar ou responder a críticas externas. A Pesquisa Psi nada tem a perder e potencialmente muito a ganhar por escutar e colaborar com seus críticos (Hövelmann & Krippner, 1986a, p. 3). A crítica externa mudou em termos de alcance, sutileza, relevância, justiça e objetividade. Não obstante, uma mudança drástica e mesmo uma colaboração com os mais espertos desses críticos eliminaria a dicotomia de “proponentes” e “críticos” que existe atualmente, permitindo uma viva colaboração de todos aqueles que sinceramente desejam uma solução para os problemas criados pelas anomalias que emergem das ocorrências psi relatadas.

Crítica: Tempo é dinheiro, e isso existe demais. Dada a escolha entre levar a cabo um novo experimento e debater alguma crítica de trabalho anterior, tem sido mais oneroso escolher a alternativa anterior. A maioria da crítica repetida vem mais seguidamente de escritores cujo conhecimento de literatura relevante é esparso, e sua educação não deve ter sido uma prioridade do campo (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 7).

Resposta: Sem dúvida, a caracterização que Millar, Jacobs, and Michels propiciam da maioria dos auto-declarados escarnecedores é correta (ver Hansen, 1992; Hövelmann, 1985a). “Educar” essas pessoas não pode razoavelmente ser considerada uma de nossas prioridades. Não obstante, nossos críticos comentaristas dissimulam o fato de que nas disputas prolongadas em torno da Pesquisa Psi encontramos muito mais graduações de cinza do que é reconhecido normalmente. A realidade do debate psi é, dessa forma, mais complexa do que é descrito pela crítica. De fato, como um de nós demonstrou alhures (Hövelmann, 1988b), identificando suficientemente um pesquisador psi ou um cético, discernir confiavelmente um do outro, pode ser muito mais difícil do que os propagandistas de ambos os lados das controvérsias em torno da legitimidade da Pesquisa Psi nos têm feito acreditar. Conseqüentemente, a necessidade de uma mudança drástica e, idealmente, a cooperação entre todos os campos continua a existir.

Entretanto, a colaboração prática parece ter se tornado gradualmente mais difícil nos últimos anos. E há uma razão específica para isso. Como Honorton uma vez observou, a oposição às primeiras pesquisas parapsicológicas laboratoriais foi virtualmente silenciada em 1940 (Honorton, 1975). Nós podemos estar numa situação comparável hoje. Como pode ser claramente inferido, por exemplo, das páginas do Skeptical Inquirer , o ceticismo organizado decididamente desviou sua atenção da Pesquisa Psi dominante para concentrar-se em alvos mais fáceis (e algumas vezes não-existentes virtualmente). E as poucas controvérsias em torno da pesquisa parapsicológica formal que ainda emergem de tempos em tempos tendem a ser muito menos injustas e amargas do que as que nós experienciamos durante os primórdios dos anos 80.

Qualquer sentimento de relativa segurança pode ser traiçoeiro, no entanto. Como Honorton mostrou também, as novas gerações de céticos auto-intitulados (talvez mais apropriadamente chamados “escarnecedores”) estão provavelmente dispostos a re-considerar de vez em quando; mas as experiências passadas propiciam pouca esperança de que a maioria deles tenha aprendido as lições de seu e de nosso passado em comum. Nós, no entanto, continuamos a acreditar que seja de nosso maior interesse conservar estreito contato com os poucos céticos esclarecidos e relativamente moderados que atuam hoje em dia.

•  Não se deve associar com os “realmente crentes”. Os pesquisadores da Psi precisam comprometer-se com um julgamento crítico e com uma auto-disciplina intelectual; não obstante, devem distanciar-se de propagadores que apregoam noções não testáveis e inabaláveis permeadas com o sobrenatural (Hövelmann & Krippner, 1986a, p. 3).

Crítica: Por que se deveria associar com “inimigos” declarados ou potenciais enquanto se diferencia a si próprio dos “amigos” declarados? Nunca se sabe quando um grupo metafísico vai conseguir assistência financeira ou outro tipo de ajuda.

Resposta: Não vemos necessidade, nem sentimos qualquer inclinação, para discutir assuntos científicos, ou melhor, neste caso particular, assuntos político-científicos em termos de supostos “inimigos” (presumivelmente, as organizações de céticos) e “amigos” (os grupos “metafísicos”). A vaga esperança de que os últimos poderiam nos prover com a assistência financeira que é urgentemente necessária também não nos parece uma razão suficiente para comprometer nossa integridade científica e nossa credibilidade. Ficar em contato com os “realmente crentes” e/ou ingênuos grupos metafísicos pode ser bastante útil, às vezes, a ponto de se obter novas idéias de pesquisa a partir de suas orientações teóricas ou práticas. Mas associar-se com suas organizações ou mesmo adotar suas ideologias seria um prejuízo desastroso, sempre um preço alto demais para pagar.

•  Deve-se providenciar dados completos. Quando publicar um experimento , não apenas os dados completos tornarão as replicações mais fáceis, mas evitarão que os críticos façam acusações injustificadas (Hövelmann & Krippner, 1986a, p. 3). Se nada mais, uma nota de pé de página poderia ser acrescentada ao artigo declarando onde é que o protocolo completo experimental está disponível. Além disso, um consórcio de jornais e de pesquisadores poderia montar um “canon” de orientações sobre como os dados que não podem ser publicados na íntegra podem ser tratados e tornados acessíveis.

Crítica: Quando se publica um experimento, uma descrição melhor detalhada dos procedimentos de análise dos resultados, deveria ser fornecida. Em particular, não se deve esconder dados sobre as partes da pesquisa que não produziram os resultados esperados. Mas quão completos os dados publicados precisam ser? Uma lista completa de centenas de tentativas está fora de questão. Não importa quão extenso seja o relatório, os pesquisadores da psi inevitavelmente sabem mais sobre um experimento do que o que aparece impresso (Millar, Jacobs, & Michels, 1988, p. 7).

Resposta: os comentários de Millar, Jacobs, and Michels são essencialmente mais uma paráfrase do que uma crítica da maioria do que dissemos na respectiva seção de nosso artigo. Não parece haver um verdadeiro desacordo a respeito do desejo, ou mesmo da necessidade, de se providenciar documentação experimental que é tão detalhada e completa quanto possível. Dada a atual prevalência e prestígio usufruídos pelos procedimentos meta-analíticos, essa necessidade é ainda mais urgente hoje do que era há 17 anos atrás. Conseqüentemente, a questão não é tanto se os dados completos deveriam ser providenciados, mas como isso deveria ser feito. Isso é essencialmente uma questão de conseguir acordos sobre a melhor forma para preservá-los; e, se necessário, propiciar defensivamente às facções interessadas toda as informações a respeito de um experimento que forem concebivelmente relevantes para a subseqüente nova avaliação e análise desse experimento. Aqui os dirigentes das organizações científicas e os editores de jornal provavelmente estão em posição apropriada para juntar forças pelo desenvolvimento de sugestões de soluções praticáveis.

Saiba mais :

Biografia do Dr. Gerd Hövelmann

Biografia do Dr. Stanley Krippner

Referências

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