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Jung e a Pesquisa Psi PDF Imprimir E-Mail
escrito por Administrator   
domingo, 26 de junho de 2005
Camargo, Mônica de (2005). Jung e a Pesquisa Psi. Boletim Virtual de Pesquisa Psi, vol 2.

Mônica de Camargo
Inter Psi / CENEP / COS / PUC-SP
monycamel@yahoo.com.br

Jung nasceu na Basiléia, Suiça. De origem humilde e filho de pastor luterano, desde sua infância Jung guardava interesses incomuns a garotos de sua idade, despontando para um caminho voltado ao auto-conhecimento e à pesquisa da natureza do psiquismo humano. Formou-se médico psiquiatra e foi discípulo de Freud, do qual separou-se após divergências teóricas. Seguindo suas próprias idéias em relação ao funcionamento do mundo mental formulou a Psicologia Analítica.

Jung valorizava o universo de acontecimentos interiores como a parte mais significativa da realidade, sendo este a fonte de seu maior interesse e o material a partir do qual formulou os conceitos da Psicologia Analítica. O conteúdo de suas vivências e das de seus pacientes demarcaram um campo de estudos e investigação que outros cientistas e teóricos do mundo mental não contemplavam.

Desde cedo, Jung entrou em contato com experiências de natureza parapsicológica, ou que até então não poderiam ser explicadas cientificamente. Embora imbuído de espírito científico, ele não descartou o material de sua experiência, rica em ocorrências de telepatia, clarividência, precognição e psicocinesia, pela impossibilidade da aceitação acadêmica imediata de tais fenômenos. Outrossim, despontou como um pesquisador destas questões, às quais lançou a luz da compreensão através dos fundamentos de sua Psicologia Analítica.

Ao seis anos, teve uma experiência inquietante, observando, durante algumas noites, uma figura luminosa, cuja cabeça se separava do pescoço, vinda do quarto de sua mãe. Nesta ocasião, o casamento dos pais passava por dificuldades e Jung sentia uma onda de mistério e temor envolvendo a figura materna. Ainda criança, conviveu com um avô que tinha crenças espíritas e conversava diariamente com o espírito da finada esposa.

Mais velho, cursando a faculdade, durante o período de férias que passava na casa de sua mãe, ocorreram dois fenômenos de natureza Poltergeist, isto é, eventos de ordem física sem causas lógicas conhecidas que pudessem explicá-los. Um deles foi a rachadura de uma mesa maciça de nogueira, sem que houvesse uma ação física sobre ela ou mesmo condições climáticas que pudessem causar tal evento. O outro foi o rompimento da lâmina de aço de uma faca, em três partes, dentro de uma gaveta da casa, sem que qualquer pessoa a tivesse forçado para tal. Estas ocorrências causaram em Jung profundas impressões e influências, principalmente pela falta de explicações na ciência de então.

Em seu livro de memórias ( JUNG, C.G. - Memórias, sonhos e reflexões. Reunidas e editadas por Aniela Jaffé, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1995, 17. Edição ) , Jung conta uma situação curiosa, na qual, em uma festa de casamento, acabou relatando detalhes indiscretos da vida de um dos convidados que nunca vira. Relata, ainda, os impactos de uma visão premonitória da guerra mundial de 1914, que teve em 1913, ponderando que, por não ter compreendido logo de início a natureza precognitiva de tais visões, temeu estar adoecendo psiquicamente, invadido por conteúdos do inconsciente.

Também no trabalho clínico, na relação com seus pacientes, Jung observava ocorrências de natureza extrasensorial e, não raro, bastante oportunas e significativas para o bom desenvolvimento do tratamento em questão. Neste sentido, conta o caso de um paciente de quem havia tratado uma depressão e, mesmo sem notícias sobre ele, pressentira o momento de seu suicídio através de sensações correlatas; que ele pôde avaliar, posteriormente, terem ocorrido simultaneamente ao ato do ex-paciente.

Nota-se, na trajetória de Jung, o profundo interesse que nutriu por ocorrências de natureza extrasensorial, abundantes em sua experiência pessoal, e a seriedade com que ele buscou abordar tais questões, buscando observá-las sob o crivo da ciência. Jung não deixou de se opor aos colegas céticos que simplesmente desconsideravam fenômenos que não pudessem ser reconhecidos e aprovados como tal pelas ciências da época. Este tema também foi fonte de discordância entre ele e Freud e prenunciou a divergência teórica entre eles. Intrigantemente, no dia em que Jung esteve no consultório de Freud para conversar sobre suas observações a respeito da extra-sensorialidade, em meio ao acirramento da tensão e divergência entre eles, ocorreram, em uma estante, estalos repetitivos e pressentidos por Jung; o que, embora tenha surpreendido Freud, não foi por ele considerado como prova imediata da existência de fenômenos anômalos. Outrossim, falando sobre o tema posteriormente, atribuiria o ocorrido às condições climáticas e ao material da estante.

Dada à inexistência de modelos teóricos para explicar e abarcar tais tipos de ocorrências, em diversos momentos, Jung conduziu estudos, entendendo serem tais aspectos profundamente instigantes e reveladores da alma humana. Ao descobrir familiares envolvidos na prática do espiritismo, acompanhou semanalmente sessões espíritas durante dois anos, o que encerrou ao descobrir atitudes fraudulentas da médium. Suas observações sobre estas sessões embasaram uma tese. Em 1950, decidiu colocar no papel o resultado de suas experiências e observações sobre acontecimentos que não obedeciam ao princípio da causalidade. Escreveu, assim, o livro “Sincronicidade”.

Os eventos de natureza extra-sensorial foram compreendidos à luz dos fundamentos da Psicologia Analítica e, no decorrer de sua obra, Jung estabeleceu correlações entre a os conceitos e as observações e experiências neste campo. Exemplo disso também pode ser visto nas reflexões de Jung sobre os resultados positivos encontrados por Rhine em experimentos de precognição, nas quais Jung expõe como os conceitos de sua psicologia dariam conta de compreender e explicar este tipo de ocorrência.

Jung foi um amplo e profundo conhecedor da filosofia e outras ciências, o que referenciou suas próprias descobertas, experiências e raciocínio científico. Dentre os cientistas conterrâneos, tinha grande admiração pelos trabalhos de Rhine a respeito de precognição, chegando a indicá-lo para o prêmio Nobel, tanto pela relevância que atribuía à temática escolhida por ele, como pelo caráter experimental de sua pesquisa.

Aos estudiosos de fenômenos Psi, mostra-se particularmente interessante, na abordagem dos fenômenos parapsicológicos por Jung, sua recusa por um modelo de transmissão de energia, em vigor em algumas correntes científicas da Pesquisa Psi atual. Em seu pensamento, a telepatia e demais experiências extra-sensoriais estão ligadas a um instinto, a uma capacidade da mente humana.

 
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