di Licia, J. C. (1991) Psi em um experimento com meditação. Revista Argentina de Pesquisa Paranormal, 2 (3), ( pp.101-115)
Traduzido do Espanhol por Vitor Moura ( Tambien disponible en Español )
RESUMO
Seis
sujeitos participaram deste experimento. Realizaram a mesma atividade
sob duas condições diferentes: com e sem meditação. A atividade foi
tratar de apreender por PES uma matriz composta de 25 quadrados que
foram pintados com 5 (cores): amarelo, alvo, celeste, negro e vermelho.
A matriz foi encerrada em envelopes. Os sujeitos completaram um
questionário descrevendo seu estado físico, emotivo e mental. Os
resultados gerais não foram significativos (psi-missing) sob ambas
condições, mas individualmente dois sujeitos se saíram bem: MT, cujo
psi-missing sob ambas condiciones dá um p = -0136; e MF um psi-missing
de p=.0024 em estado de vigília e n.s. em estado de meditação mas a
diferença entre ambas condiciones é significativa: p= .0027 (este
número foi corrigido através de uma seleção "pós-hoc" oferecendo um
resultado de p =.082, .029, .016, ver Tabela 1). O autor considerou
importantes os sinais de psi obtidos. Num dos casos há uma
correspondência entre o estado depressivo de MT e seu psi-missing. No
caso do sujeito MF a presença de sinais de psi é mais evidente: esta
sujeita estava ansiosa por demonstrar a eficácia da técnica de
meditação empregada e este motivo fez que a sujeita tentasse obter
poucos pontos em estado de vigília, culminando com zero ao final da
sessão, e desta forma assegurar uma vantagem em favor do estado de
meditação.
INTRODUÇÃO
Neste
experimento, seguiram-se, em parte, as idéias expostas por Osis e
Bokert (1971) no relatório da importante investigação que levaram a
cabo durante os anos 1967, 1968 e 1969, sobre meditação como estado
favorável à PES. A principal diferença consiste em que aqueles trataram
que os grupos de sujeitos fossem heterogêneos quanto a religiões e
crenças, com o propósito de evitar uma influência predominante nos
resultados. Ademais, aos sujeitos se lhes permitiu que fizessem as
coisas a sua maneira, isto é, que praticassem o método de meditação
que, segundo a experiência pessoal de cada um, era o mais efetivo.
Assim num mesmo grupo se usaram técnicas de Yoga, Zen, auto-hipnose,
concentração e outras.
Como
bem o assinalam os mesmos autores, as doutrinas de origem oriental, em
que se baseiam algumas destas técnicas, desprezam a aparição de
fenômenos parapsicológicos durante as práticas, pois o consideram
"subprodutos" da meditação, a qual tem uma finalidade muito mais alta.
Portanto, quem se aderir incondicionalmente à doutrina preferirá que
psi não apareça. Neste experimento atuou um só grupo de sujeitos,
homogêneo, e se utilizou uma mesma técnica de meditação, muito livre,
não encasulada em nenhum sistema de crenças, de maneira que não
interferia com as próprias dos sujeitos. Também o teste de ESP foi
diferente, como se verá.
Antes
de entrar no detalhe da metodologia empregada, é necessário mencionar
duas questões que teve que se resolver previamente. No geral se refere
ao teste utilizado. No geral, nestas provas com estados de atenção
interior (Dei Liscia, 1980) prefere-se empregar um teste com respostas
livres, usando como objetivos quadros, lâminas, desenhos e algumas
vezes objetos. É indubitável que se obtém muita maior liberdade de
expressão que nos testes chamados de eleição forçada, nos que o sujeito
tem que eleger entre um determinado número de objetivos apresentados em
ordem aleatória, mas em compensação a avaliação dos resultados é muito
mais complicada e problemática. Em alguns casos o mesmo sujeito tem a
seu cargo a avaliação, mas quase sempre se empregam juízes
independentes (em número variável) que devem qualificar a concordância
objetivo-resposta atribuindo-lhe um valor que, em última instância
também é forçado, já que devem comparar a resposta com um número
limitado de supostos objetivos entre os que se encontra o objetivo
verdadeiro.
Nem
sempre concordam as avaliações entre os juízes, ou entre o sujeito e os
juízes. Uma interessante tentativa para objetivizar as avaliações foi
proposto por Honorton (1975). Trata-se de uma coleção de 1024 lâminas,
cada uma das quais representa uma combinação única de 10 elementos
(cor, atividade, figuras, etc.) que possam estar presentes ou ausentes
nas lâminas, as quais se classificam segundo um código
binário. No entanto, só teve sucesso relativo, dirigindo-se, as
críticas, principalmente, à limitação de objetivos. Kennedy (1979) faz
uma análise muito completa dos diferentes problemas que existem,
chegando à conclusão que as técnicas de resposta livre podem ser
importantes para pesquisar certos aspectos do processo da PES, pelo que
se deve prosseguir com elas, mas cuidando de forma extrema a
metodologia experimental e estatística. As reflexões que antecedem não
pretendem impugnar as muitas e muito boas investigações realizadas com
técnicas de resposta livre, senão somente explicar porquê neste caso se
preferiu utilizar um teste de eleição forçada. Mais adiante se detalha
do que consiste, mas convém aclarar desde já que quando se diz
"pintar", não significa que o sujeito cobria todo o quadrado com
pintura, pois bastava que, se o preferisse, fizesse somente uma marca
em seu interior. Tratava-se de uma tarefa mecânica, feita como
distraidamente, que não o removia de sua meditação, mas que poderia
ajudar a se aprofundar.
A
segunda questão que se propôs foi a de optar entre alternar
aleatoriamente as condições com e sem meditação ou seguir um ordem
invariável. Optou-se pela última, isto é, começar todas as sessões com
uma prova sem meditação (condição "A") seguida de outra condição
(condição "B") por preferência geral dos sujeitos apesar de que o
experimentador lhes explicou o perigo de que se produzisse um efeito de
arraste (carring-over). O experimentador tomou a decisão final com o
fim de não introduzir alterações nas condições psicológicas dos
sujeitos, que tinham constituído um grupo de excelente coesão interna.
MÉTODO E PROCEDIMENTO
Participaram
como sujeitos voluntários seis pessoas (4 mulheres e 2 homens) alunos
de um cursinho de parapsicologia que o experimentador tinha acabado de
ditar no Instituto Argentino de Parapsicologia (IAP). Realizaram-se
duas reuniões prévias com o objetivo de que os participantes se
interiorizassem dos detalhes da prova. Numa terceira reunião, a
professora L.O. deu aos sujeitos uma palestra sobre a técnica de
meditação que ia empregar e fizeram a primeira prática.
Dos
sujeitos, somente uma (MF) tinha experiência na mesma técnica por ser
aluna da professora L.O. de um ano atrás aproximadamente. Com respeito
à preparação dos objetivos, pessoas alheias ao experimento os
prepararam. Numa matriz de 25 quadrados, dispostos em 5x5 (apêndice No.
1), pintaram cada um dos quadrados com lápis (amarelo, alvo, celeste,
negro e vermelho). Começavam sempre da parte superior esquerda,
seguindo um ordem aleatório dada pela Tabela A Million Random Digits,
de Rand Corporation, à que se entrou atirando 2 dados três vezes, para
eleger página, coluna e linha. Cada cor era designada por dois números
indistintamente; por exemplo amarelo: 1 ou 6 alvo 2 ou 7, etc. Uma vez
pintadas as matrizes (incluindo a cor branca) se os cobria com uma
folha de alumínio em ambos os lados e se as introduzia num envelope
grande (14x26 cms) o qual se fechava e depois se dobrava pela metade,
colando-se em todo seu contorno com um adesivo inviolável. De tal
forma, a face pintada da matriz estava coberta por uma folha de
alumínio e três folhas de uma folha de papel kraft. Ao envelope fechado
se colava na parte exterior e na mesma posição da matriz interior, uma
matriz alvo. Os envelopes eram novos, iguais, sem nenhuma marca que
pudesse identificá-los. Depois de preparados se misturaram repetidas
vezes e se guardaram sob chave.
Determinou-se
que se fariam ao todo 40 jogos, ou seja 1000 ensaios em cada condição,
pelo que se prepararam 90 envelopes para qualquer imprevisto. Em
realidade se fizeram 1075 ensaios em cada condição, utilizando-se 86
envelopes. Realizaram-se 9 sessões (uma por semana) desde o 21de agosto
até o 23 de outubro de 1979. Somente dois sujeitos assistiram a todas
as sessões; os outros o fizeram a 8, 7, 6 e 4.
Aqui
convém aclarar -antecipando-se a alguma crítica por "corte
preferencial" que na última sessão estiveram presentes todos os
sujeitos porquanto a seguir da prova se abririam os envelopes. Para
completar 1000 ensaios em cada condição só deveriam participar três
pessoas, ficando, portanto, outras três sem fazê-lo. Isto supunha uma
seleção arbitrária ou por casualidade, que, creio tem mais objetividade
do que a decisão tomada de que participem todos chegando assim a um
total de 1075 ensaios. Mas, ademais, é importante assinalar que a média
nessa última sessão não oferece diferença notável com a média de
acertos de todas as sessões, e que ninguém conhecia os resultados
obtidos até então.
A
uma hora determinada se reuniram os sujeitos com o experimentador numa
sala isolada do IAP. Depois de uns minutos de conversa informal o
experimentador entregava aos sujeitos o formulário de enquete (apêndice
2) a fim de que registrassem mediante um til no classificador
correspondente sua apreciação subjetiva de seu estado físico emocional
e mental nesse momento e sua opinião a respeito da dificuldade da
tarefa e do possível resultado. Uma vez enchidos os formulários o
experimentador os retirava e entregava a cada sujeito um envelope
preparado como se indica mais acima e uma caixa contendo cinco lápis
das cores utilizadas, e saía da sala.Os
sujeitos escreviam seus nomes, data e letra "A" (sem meditação) na
matriz alvo colada na parte exterior do sobre depois começavam a pintar
os quadrados, começando em qualquer lugar e com qualquer cor, o alvo
também se pintava com o lápis correspondente. Não se fixou tempo para
terminar, quando todos tinham concluído um sujeito avisava ao
experimentador quem retirava os envelopes, revisava-os exteriormente e
os guardava sob chave. A seguir o experimentador entregava novos
formulários de enquete e envelopes aos sujeitos quem deviam realizar a
mesma tarefa, com estas diferenças: (1) deviam pôr a letras "B" na
matriz alvo; (2) fazer a prática da meditação e no momento que cada um
acreditasse oportuno passar à prova de PES, isto é, começar a pintar;
(3) terminada a tarefa deviam preencher o formulário enquete mas relembrando as apreciações
de seus estados no momento imediato seguinte ao da meditação. O
propósito desta disposição era não perturbar o efeito da meditação com
uma tarefa que obrigava a certo esforço mental. Na primeira sessão a
meditação se fez com a guia da professora L.O. quem, como se disse, uma
semana antes tinha instruído teórica e praticamente aos sujeitos. A
professora, observando a atuação dos sujeitos na primeira sessão,
opinou que já não era necessária sua direção pelo que daqui por diante
os sujeitos fizeram a prática de meditação sozinhos.
Quando
todos falam concluído, um sujeito avisava ao experimentador que
retirava os formulários-enquete e os envelopes, revisava-os e guardava
com os outros sob chave.
RESULTADOS
Finalizando
o experimento se abriram todos os envelopes em presença dos
participantes. Em primeiro lugar se extraíram as matrizes objetivo e se
identificaram com o nome do sujeito, a data e a letra que figuravam na
matriz exterior do envelope. Depois se passaram ambas a uma planilha e
se contaram os acertos. Este trabalho não era feito pelo próprio
sujeito senão por outro, e revisado a seguir por um terceiro. O
resultado geral não é significativo, tanto na condição "A", como na "B"
se obtêm acertos abaixo do esperado por casualidade quase iguais, mas
ainda a soma de ambos é significativa. Em compensação, individualmente
se observam resultados notáveis nos sujeitos MT e MF. A soma dos
psi-missing de MT, nas duas condições dá um resultado significativo (p
= .0136).
Por
sua vez, MF dá um psi-missing na condição "B", mas computando a
diferença entre condições se obtém um p =.0027. Como estas cifras
surgem de uma seleção pós-hoc deve aplicar-se uma correção (Celeiro,
1979). Praticada esta correção se obtêm as seguintes Pc = .082, .029,
.016 (ver Tabela 1). Esta prova se presta para outra análise pós-hoc de
aproximação ao objetivo mediante o método que recomenda Cadoret (1955).
Não se fez por falta de tempo. Não se observa correlação entre os
acertos e a apreciação subjetiva de seus estados físicos, emocional e
mental e a predição de resultados feitos pelos próprios sujeitos. Em
todas as escalas as cifras totais das condições "A" e "B" são
surpreendentemente parecidas (ver Tabelas 2 e 3) 1.
DISCUSSÃO
Conquanto
neste experimentos não se obtiveram resultados diretos significativos,
pôs-se de manifesto fortes e interessantes sinais de psi (Rhine, 1974,
1975). A sujeita MT durante o tempo todo do experimento esteve
angustiada por um grave problema familiar, do que todos tínhamos
conhecimento. Esta situação se reflete claramente no
formulário-enquete, que apresenta as cifras mais altas do grupo nas
escalas E e M. Seu entusiasmo pelo experimento era tão grande que não
faltou a nenhuma sessão, apesar de seu problema, mas seus acertos nas
condições estiveram abaixo do esperado pelo acaso.
Mais
notável ainda foi o resultado de outra sujeita, MF, que era a única do
grupo com experiência anterior na técnica de meditação que se utilizou.
Seus tils no formulário-enquete mostram que a prática na sessão
modifica favoravelmente seus estados físico, emocional e mental. É a
única que confirma a hipótese prévia que os resultados na condição "B"
seriam melhores que os da condição "A" de forma significativa. No
quadro No. 1 pode observar-se como os acertos por sessão sempre foram
maiores na condição "B", até chegar à última sessão em que não obtém
nenhum acerto em "A". A consistência da inclinação de B arroja um p
=.008 e Pc=.05. Há outra característica insólita nesta sujeita. Nos
quadros N.2 e No.3 se pode observar que não teve nenhum acerto com a
cor branca e na condição "A" e somente 4 na condição "B", em ambas
condições a cor branca foi a menos eleita, mostrando em mudança, certa
preferência pela cor vermelha, que não chega a ser significativa. Este
é um aspecto tão só tangencial ao experimento mas que dá pé para outro
estudo que se levasse a cabo caso se consiga a colaboração da sujeita.
Fatores
psicológicos, bem detectados, influíram nos resultados das sujeitas MT
e MF. No último caso aparecem claramente sinais de psi, porquanto
somente psi, ou melhor dito, por um singular funcionamento de psi se
pode explicar o efeito conseguido: MF, aluna da professora de meditação
e convicta da existência de fenômenos parapsicológicos, anseia
demonstrar a eficácia da técnica que utiliza. É motivação faz que o
inconsciente trate de obter poucos acertos condição "A", culminando com
um objetivo na última sessão, como para assegurar a vantagem a favor de
"B".
REFERENCIAS
Cadoret, R.J. (1955). The reliable application of ESP. Journal of Parapsychology, 19, 4, pp.203-227.
Di
Liscia, J.L. (1980). De estados alterados de conciencia a estados de
atención interna. Actas de las Primeras Jornadas Argentinas de
Parapsicologia. Buenos Aires, 3-5 Abril, pp. 15-20.
Honorton,
Ch. (1975). Objetive determination of information rate in psi tasks
with pictorial stimuli. Journal of the American Society for Psychical
Research, 69, 4, pp. 342-360.-
APENDICE I
Nome:
Data:
Condições:
F- Escala Física
1. Muito bem. Muita energia.
2. Agradável sensação de bem-estar.
3. Descansado. Sem moléstias.
4. Cansado.
5. Exausto.
6.
E- Escala Emocional
1. Feliz e contente de forma incomum.
2. Moderadamente feliz e contente.
3. Calmo. Sem emoções extraordinárias.
4. Moderadamente descontente.
5. Triste e deprimido.
6. Excitado e nervoso.
7.
M- Escala Mental
1. Mais alerta e com mais idéias que usualmente
2. No nível de eficiência usual
3. Menos alerta do que usualmente
4. Incapaz de concentrar-se. Obtuso.
5.
G- Escala Geral
1. A tarefa me parece fácil
2. A tarefa me parece difícil
3. Creio que obterei um bom resultado
4. Creio que não obterei um bom resultado
NOTAS
*
Relatório originalmente apresentado nas Primeiras Jornadas Argentinas
de Parapsicologia, Buenos Aires, 3-5 de Abril 1980. Publicado na
Revista Argentina de Psicologia Paranormal, Vol.2, Não.3, Julio 1991,
pp.101-115.- |