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Aspectos ideológicos da parapsicologia PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
17 de julho de 2005

Alvarado, Carlos (1991).  Aspectos ideologicos de la parapsicologia Revista Argentina de Psicologia Paranormal, 2, No.1, pp-7-14


Traduzido do espanhol por Vitor Moura.
( Tambien disponible en español )


Carlos S. Alvarado


Recentes estudos sobre a sociologia e história da ciência nos alertam sobre a importância de fatores ideológicos no desenvolvimento da ciência. Como aponta Longino (1990), a ciência é em grande parte um processo social em onde conceitos tais como valores pessoais são importantes para decidir o que se considera como conhecimento científico.

 

Existem muitos exemplos da influência de doutrinas, ideologias, e conceitos filosóficos sobre a ciência. Por exemplo, a tradição hermética foi considerada como uma das influências mais importantes para promover o desenvolvimento da ciência durante os séculos XVI e XVII na Europa (Debus, 1978/1983). De acordo com Turner (1974) o naturalismo científico, um sistema conceitual que enfatizava o estudo racional da natureza e de problemas metafísicos, foi de grande importância para a ciência inglesa do século XIX. Outros estudos discutiram o papel de ideologias de superioridade sexual e racial em relação a investigações sobre diferenças biológicas e psicológicas entre os dois sexos (Russett, 1989), e em relação à medição da inteligência (Samelson, 1979).

Em outras palavras, a ciência se leva a cabo dentro de perspectivas conceituais particulares que não se encontram na matéria de estudo. São perspectivas que o ser humano impõe para fazer sentido do mundo que nos rodeia 1. Como disse A Vergata (1985), a ideologia serve a muitas funções na ciência, "racionaliza as experiências promove ordem e... restabelece a unidade da ciência frente ao fato de suas divisões e contradições" (p. 960). Isto também pode observar-se na parapsicologia.

 

O estudo de aspectos ideológicos do pensamento de alguns parapsicólogos pode ajudar-nos a compreender o marco de referência no qual estes operam. Um exemplo é o caso do famoso pesquisador psíquico francês Charles Richet. Richet, treinado como médico e fisiologista, apresenta em alguns de seus escritos uma visão da parapsicologia como um ramo da fisiologia. Isto lhe parecia óbvio porque "as Ciências Psíquicas se ocupam do funcionamento do sistema nervoso central e do cérebro (Richet, 1905, p. 70) 2. Em outro artigo Richet (1926, p. 26) referiu-se à percepção extra-sensorial (PES) como "um problema da biologia geral." Isto, como comentou Sudré (1927, p. 259), era o produto das "doutrinas materialistas" nas quais Richet foi educado. O pensamento de Richet foi moldado até certo ponto por seus estudos fisiológicos, o qual explica opiniões como as antes mencionadas 3.

 

De forma similar, a ideologia por trás do pensamento de muitos pesquisadores explica as razões de diferenças de opiniões e debates. Tradicionalmente os pesquisadores psíquicos operaram dentro de dois sistemas conceituais para explicar os fenômenos relacionados com a idéia da sobrevivência à morte. Ernesto Bozzano (1926/1980) e René Sudré (1926) examinaram os mesmos fenômenos chegando a conclusões opostas. Sudré defendia explicações "naturalistas" em base a capacidades do subconsciente tais como personificação e PES. Em seu marco conceitual as idéias espiritistas não tinham cabimento. Bozzano considerou isto como uma ideologia materialista que levou a Sudré a distorcer a evidência e suas conclusões.

 

No entanto, Bozzano também defendia seu próprio marco conceitual. Bozzano, como discutiu Lannuzzo (1982), representava uma ideologia espiritualista (e espiritista) na qual o positivismo era visto como uma ferramenta para verificar a realidade do espírito humano e seu sobrevivência à morte. Mas deve ter-se em conta que nenhum destes dois homens defendia "verdades" óbvias, senão modelos conceituais aceitados ou recusados por comunidades específicas.

 

Com J. B. Rhine temos um exemplo do uso da parapsicologia com propósitos específicos, combater ideologias opostas à própria. Em seu livro New World of the Mind (1953) Rhine defendeu o uso de sua interpretação da natureza dos fenômenos psi como indícios de espiritualidade para combater o materialismo do marxismo e de outras filosofias. Segundo Rhine:

 

Ao que parece o principal inimigo da religião,ao menos no mundo Ocidental, foi a filosofia do materialismo... Agora, com a aplicação do método científico estrito o antigo problema de que se o homem é completamente um autômata foi estudado... A conclusão é inescapável de que há algo que opera no homem que transcende as leis da matéria... Portanto, o universo não se rege pelo conceito materialista dominante. (pp. 184-185)

 

No mesmo livro Rhine descreveu ao comunismo como um "repto moral." Em sua opinião os achados parapsicológicos podiam ser usados para mostrar o erro do comunismo em sua filosofia materialista:

 

"A evidência da parapsicologia o contradiz contundentemente. E tem mais, esta é a única ciência que faz isto em forma rigorosa e clara. Isto, então, é ao menos o começo da conquista intelectual do comunismo. Um programa amplo de investigação cabal sobre os aspectos não físicos do homem poderia converter-se numa nova influência de unificação na vida Ocidental, um fator central de entendimento ao redor do qual poderiam tecer-se melhores relações humanas (p. 221)."

 

O problema com estas análises é que não é óbvio que os resultados dos experimentos de Rhine combatem o materialismo. Isto não passa de ser uma interpretação, uma ideologia que, ainda que quiçá seja válida, é basicamente uma especulação. Não duvidamos que Rhine cria a plenitude na validez destes conceitos. No entanto, tais idéias serviam outra função. Isto é o que John Beloff (1982, p.97) descreveu como uma justificativa da parapsicologia como um campo de importância para a humanidade. Em outras palavras, a ideologia de Rhine pode ver-se como uma tentativa de mostrar a utilidade e o valor da parapsicologia, justificando em parte sua existência e razão de ser.

 

Outros exemplos existem em onde a parapsicologia foi utilizada para defender um sistema de crenças religiosas específicas. Este é o caso do Jesuíta Oscar González Quevedo (1969/1971). Uma revisão da obra deste escritor mostra claramente que sua ideologia religiosa molda as teorias e os fenômenos considerados válidos no campo 4. González Quevedo pretende utilizar argumentos científicos para estabelecer que a comunicação entre as vivos e os mortos não é possível. Mas seu preconceito religioso se revela quando afirma que: "Só Deus pode conseguir esta comunicação. Comunicação perceptível seria milagre" (p. 113). De forma similar, este autor nos apresenta aparentes análises racionais de "milagres" e da diferença entre o milagroso e o fenômeno humano. Mas em ocasião é claro que sua intenção é validar seu sistema religioso, aceitando por fé os dogmas de sua religião e defendendo um sistema de parapsicologia desenhado para combater o espiritismo e outras interpretações dos fenômenos psíquicos.

 

Exemplos similares aos antes mencionados podem encontrar-se em outras disciplinas. Depois de tudo a ideologia não é um fenômeno extraordinário, senão uma parte de atividade humana. Por isso temos que ser cuidadosos e evitar descartar os resultados de investigações só porque estas são guiadas por fatores ideológicos diferentes aos nossos. O problema é quando a ideologia leva à distorção e manipulação de dados e a defender interpretações que violam as limitações do método utilizado. O que para um é uma ideologia razoável, para outro pode ser fanatismo ou falta de treinamento científico.

 

No caso da parapsicologia atendimento a fatores ideológicos pode ajudar a explicar, em parte, o desenvolvimento do campo. Fatores ideológicos se encontram por trás de conceitos específicos (Richet), diferenças em interpretações teóricas (Bozzano e Sudré), e no uso da parapsicologia com propósitos filosóficos e religiosos (Rhine e González Quevedo). Mas, sobretudo, o estudo desta matéria nos ajuda a entender os motivos por trás de diferentes investigações ou teorias e a manter-nos alerta para determinar se alguns destes desenvolvimentos têm uma base empírica além de seus aspectos ideológicos. Tal estudo nos levará, como parapsicólogos, a reconhecer o que é óbvio para os historiadores e sociólogos da ciência, a subjetividade de muitos fatores da ciência considerados por muitos como puramente objetivos e livre de preconceitos.

 

REFERENCIAS

 

Alvarado, C.S. (1989). Nineteenth century medical explanations of psychic phenomena. Parapsychology Review, 20 (3), 4-7.

 

Beloff, J. (1982). J. B. Rhine on the nature of psi. En K. R. Rao (Ed.), J. B. Rhine: On the Frontiers of Science (pp. 97-110). Jefferson, NC: McFarland.

 

Bozzano, E. (1980). A Propósito da introducao a Metapsiquica Humana. Rio de Janeiro: Federacao Espirita Brasileira. (Publicado originalmente en francés en 1926).

 

Debus, A. G. (1983). Man and Nature in the Renaissance. Cambridge: Cambridge University Press. (Publicado originalmente en 1978)

 

Gonz6lez Quevedo, 0. (1971). ¿Qué es la Parapsicología? Buenos Aires: Columba. (Publicado originalmente en 1969)

 

lannuzzo, G. (1982). II pensiero di Ernesto Bozzano tra "Spiritismo scientifico" e parapsicologia: Una rivalutazione. Luce e Ombra, 82, 114-141.

 

Longino, H. E. (1990). Science as Social Knowledge: Values and Objectivity in Scientific Inquiry. Princeton: Princeton University Press.

 

Martinez Taboas, A. (1978). Una revisión crítica de los libras del Padre González Quevedo. Psi Comunicación, 4, 27-35.

 

Rhine, J. B. (1953). New World of the Mind. New York: William Sloane.

 

Richet, C. (1905). The decimal indexing of memoranda relating to Psychical sciences. Annals of Psychical Science, 1, 69-74.

 

Richet, C. (1926). Un probleme de biologie generale: A propos de nouvelles experiences de cryptesthésie. Revue Metapsychique, No. 1, 26-27.

 

Russett, C. E. (1989). Sexual Science: The Victorian Construction of Womanhood. Cambridge, MA: Harvard University Press.

 

Samelson, F. (1979). Putting psychology on the map: Ideology and intelligence testing. En A. R. Buss (Ed.), Psycholoqy in Social Context (pp. 103-168). New York: Irvington.

 

Sudre, R. (1926). Introduction a la metapsychique humaine. Paris: Payot.

 

Sudre, R. (1927). Richet's cryptesthesia and memory. Journal of the American Society for Psychical Research, 21, 253-262.

 

Turner, F. (1974). Between Science and Religion: The Reaction to Scientific Naturalism in Late Victorian England. New Haven, CT: Yale University Press.

 

La Vergata, A. (1985). Images of Darwin: A historiographic overview. En 0. Kohn (Ed.), The Darwinian Heritage (pp. 901-972). Princeton: Princeton University Press in Association with Nova Pacifica.

 

NOTAS

 

1. Este processo não se limita a interpretações conceituais. Também afeta variáveis tais como a seleção das fenômenos próprios para estudo, e a metodologia utilizada com este propósito.

 

2. Esta e outras traduções são nossas.

 

3. Para uma discussão breve do uso de modelos conceituais para explicar os fenômenos psíquicos durante o século XIX derivados da medicina e, em particular, da neurologia e a psiquiatria, veja Alvarado (1989).,

 

4. Os problemas ideológicos da obra deste autor estão acompanhados, e intimamente relacionados, com uma série de erros e distorções de dados de número alarmante (Martínez Taboas, 1978).

 

* Originalmente publicado em Revista Argentina de Psicologia Paranormal, 2, No.1, pp-7-14.-

Última Atualização ( 17 de julho de 2005 )
 
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