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Alvarado, Carlos (1991). Aspectos ideologicos de la parapsicologia Revista Argentina de Psicologia Paranormal, 2, No.1,
pp-7-14
Traduzido do espanhol por Vitor Moura. ( Tambien disponible en español )
Carlos S. Alvarado
Recentes
estudos sobre a sociologia e história da ciência nos alertam sobre a
importância de fatores ideológicos no desenvolvimento da ciência. Como
aponta Longino (1990), a ciência é em grande parte um processo social
em onde conceitos tais como valores pessoais são importantes para
decidir o que se considera como conhecimento científico.
Existem
muitos exemplos da influência de doutrinas, ideologias, e conceitos
filosóficos sobre a ciência. Por exemplo, a tradição hermética foi
considerada como uma das influências mais importantes para promover o
desenvolvimento da ciência durante os séculos XVI e XVII na Europa
(Debus, 1978/1983). De acordo com Turner (1974) o naturalismo
científico, um sistema conceitual que enfatizava o estudo racional da
natureza e de problemas metafísicos, foi de grande importância para a
ciência inglesa do século XIX. Outros estudos discutiram o papel de
ideologias de superioridade sexual e racial em relação a investigações
sobre diferenças biológicas e psicológicas entre os dois sexos
(Russett, 1989), e em relação à medição da inteligência (Samelson,
1979).
Em
outras palavras, a ciência se leva a cabo dentro de perspectivas
conceituais particulares que não se encontram na matéria de estudo. São
perspectivas que o ser humano impõe para fazer sentido do mundo que nos
rodeia 1. Como disse A Vergata (1985), a ideologia serve a muitas
funções na ciência, "racionaliza as experiências promove ordem e...
restabelece a unidade da ciência frente ao fato de suas divisões e
contradições" (p. 960). Isto também pode observar-se na parapsicologia.
O
estudo de aspectos ideológicos do pensamento de alguns parapsicólogos
pode ajudar-nos a compreender o marco de referência no qual estes
operam. Um exemplo é o caso do famoso pesquisador psíquico francês
Charles Richet. Richet, treinado como médico e fisiologista, apresenta
em alguns de seus escritos uma visão da parapsicologia como um ramo da
fisiologia. Isto lhe parecia óbvio porque "as Ciências Psíquicas se
ocupam do funcionamento do sistema nervoso central e do cérebro
(Richet, 1905, p. 70) 2. Em outro artigo Richet (1926, p. 26)
referiu-se à percepção extra-sensorial (PES) como "um problema da
biologia geral." Isto, como comentou Sudré (1927, p. 259), era o
produto das "doutrinas materialistas" nas quais Richet foi educado. O
pensamento de Richet foi moldado até certo ponto por seus estudos
fisiológicos, o qual explica opiniões como as antes mencionadas 3.
De
forma similar, a ideologia por trás do pensamento de muitos
pesquisadores explica as razões de diferenças de opiniões e debates.
Tradicionalmente os pesquisadores psíquicos operaram dentro de dois
sistemas conceituais para explicar os fenômenos relacionados com a
idéia da sobrevivência à morte. Ernesto Bozzano (1926/1980) e René
Sudré (1926) examinaram os mesmos fenômenos chegando a conclusões
opostas. Sudré defendia explicações "naturalistas" em base a
capacidades do subconsciente tais como personificação e PES. Em seu
marco conceitual as idéias espiritistas não tinham cabimento. Bozzano
considerou isto como uma ideologia materialista que levou a Sudré a
distorcer a evidência e suas conclusões.
No
entanto, Bozzano também defendia seu próprio marco conceitual. Bozzano,
como discutiu Lannuzzo (1982), representava uma ideologia
espiritualista (e espiritista) na qual o positivismo era visto como uma
ferramenta para verificar a realidade do espírito humano e seu
sobrevivência à morte. Mas deve ter-se em conta que nenhum destes dois
homens defendia "verdades" óbvias, senão modelos conceituais aceitados
ou recusados por comunidades específicas.
Com
J. B. Rhine temos um exemplo do uso da parapsicologia com propósitos
específicos, combater ideologias opostas à própria. Em seu livro New
World of the Mind (1953) Rhine defendeu o uso de sua interpretação da
natureza dos fenômenos psi como indícios de espiritualidade para
combater o materialismo do marxismo e de outras filosofias. Segundo
Rhine:
Ao
que parece o principal inimigo da religião,ao menos no mundo Ocidental,
foi a filosofia do materialismo... Agora, com a aplicação do método
científico estrito o antigo problema de que se o homem é completamente
um autômata foi estudado... A conclusão é inescapável de que há algo
que opera no homem que transcende as leis da matéria... Portanto, o
universo não se rege pelo conceito materialista dominante. (pp.
184-185)
No
mesmo livro Rhine descreveu ao comunismo como um "repto moral." Em sua
opinião os achados parapsicológicos podiam ser usados para mostrar o
erro do comunismo em sua filosofia materialista:
"A
evidência da parapsicologia o contradiz contundentemente. E tem mais,
esta é a única ciência que faz isto em forma rigorosa e clara. Isto,
então, é ao menos o começo da conquista intelectual do comunismo. Um
programa amplo de investigação cabal sobre os aspectos não físicos do
homem poderia converter-se numa nova influência de unificação na vida
Ocidental, um fator central de entendimento ao redor do qual poderiam
tecer-se melhores relações humanas (p. 221)."
O
problema com estas análises é que não é óbvio que os resultados dos
experimentos de Rhine combatem o materialismo. Isto não passa de ser
uma interpretação, uma ideologia que, ainda que quiçá seja válida, é
basicamente uma especulação. Não duvidamos que Rhine cria a plenitude
na validez destes conceitos. No entanto, tais idéias serviam outra
função. Isto é o que John Beloff (1982, p.97) descreveu como uma
justificativa da parapsicologia como um campo de importância para a
humanidade. Em outras palavras, a ideologia de Rhine pode ver-se como
uma tentativa de mostrar a utilidade e o valor da parapsicologia,
justificando em parte sua existência e razão de ser.
Outros
exemplos existem em onde a parapsicologia foi utilizada para defender
um sistema de crenças religiosas específicas. Este é o caso do Jesuíta
Oscar González Quevedo (1969/1971). Uma revisão da obra deste escritor
mostra claramente que sua ideologia religiosa molda as teorias e os
fenômenos considerados válidos no campo 4. González Quevedo pretende
utilizar argumentos científicos para estabelecer que a comunicação
entre as vivos e os mortos não é possível. Mas seu preconceito
religioso se revela quando afirma que: "Só Deus pode conseguir esta
comunicação. Comunicação perceptível seria milagre" (p. 113). De forma
similar, este autor nos apresenta aparentes análises racionais de
"milagres" e da diferença entre o milagroso e o fenômeno humano. Mas em
ocasião é claro que sua intenção é validar seu sistema religioso,
aceitando por fé os dogmas de sua religião e defendendo um sistema de
parapsicologia desenhado para combater o espiritismo e outras
interpretações dos fenômenos psíquicos.
Exemplos
similares aos antes mencionados podem encontrar-se em outras
disciplinas. Depois de tudo a ideologia não é um fenômeno
extraordinário, senão uma parte de atividade humana. Por isso temos que
ser cuidadosos e evitar descartar os resultados de investigações só
porque estas são guiadas por fatores ideológicos diferentes aos nossos.
O problema é quando a ideologia leva à distorção e manipulação de dados
e a defender interpretações que violam as limitações do método
utilizado. O que para um é uma ideologia razoável, para outro pode ser
fanatismo ou falta de treinamento científico.
No
caso da parapsicologia atendimento a fatores ideológicos pode ajudar a
explicar, em parte, o desenvolvimento do campo. Fatores ideológicos se
encontram por trás de conceitos específicos (Richet), diferenças em
interpretações teóricas (Bozzano e Sudré), e no uso da parapsicologia
com propósitos filosóficos e religiosos (Rhine e González Quevedo).
Mas, sobretudo, o estudo desta matéria nos ajuda a entender os motivos
por trás de diferentes investigações ou teorias e a manter-nos alerta
para determinar se alguns destes desenvolvimentos têm uma base empírica
além de seus aspectos ideológicos. Tal estudo nos levará, como
parapsicólogos, a reconhecer o que é óbvio para os historiadores e
sociólogos da ciência, a subjetividade de muitos fatores da ciência
considerados por muitos como puramente objetivos e livre de
preconceitos.
REFERENCIAS
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Beloff,
J. (1982). J. B. Rhine on the nature of psi. En K. R. Rao (Ed.), J. B.
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McFarland.
Bozzano, E. (1980). A Propósito da introducao a Metapsiquica Humana. Rio de Janeiro: Federacao Espirita Brasileira. (Publicado originalmente en francés en 1926).
Debus, A. G. (1983). Man and Nature in the Renaissance. Cambridge: Cambridge University Press. (Publicado originalmente en 1978)
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Association with Nova Pacifica.
NOTAS
1.
Este processo não se limita a interpretações conceituais. Também afeta
variáveis tais como a seleção das fenômenos próprios para estudo, e a
metodologia utilizada com este propósito.
2. Esta e outras traduções são nossas.
3.
Para uma discussão breve do uso de modelos conceituais para explicar os
fenômenos psíquicos durante o século XIX derivados da medicina e, em
particular, da neurologia e a psiquiatria, veja Alvarado (1989).,
4.
Os problemas ideológicos da obra deste autor estão acompanhados, e
intimamente relacionados, com uma série de erros e distorções de dados
de número alarmante (Martínez Taboas, 1978).
* Originalmente publicado em Revista Argentina de Psicologia Paranormal, 2, No.1, pp-7-14.- |