EZ: Em suas palestras,
você apresenta números de
ilusionismo. Qual o propósito
destas apresentações?
WZ: Sou mágico amador. Não cobro pelas
apresentações de mágica, nem pelas
conferências em que incluo números de
mágica. Assim, não exerço ilegalmente
a profissão de mágico, regulamentada
por lei no Brasil. Apresento números de
mágica
para dois públicos distintos: o público
de leigos em Pesquisa Psi e para os
pesquisadores
psi. Para os primeiros, uso números de
mágica sempre no início de minhas
conferências,
para demonstrar como é simples que
sejamos enganados, como é simples que
nossa
atenção seja desviada. Meu objetivo é
que essas pessoas se choquem com a
experiência
de serem iludidas, que despertem para
que não sejam enganadas por charlatães,
por
falsos profetas, por pseudoparanormais.
Se estou fazendo uma apresentação para
pesquisadores de psi, meu objetivo
é despertá-los para a necessidade
de incluir
salva-guardas contra a fraude em seus
estudos, sobretudo os de casos
espontâneos,
como "poltergeist". Assim, o estudo de
Artes Mágica é uma ferramenta
metodológica
importante para quem se dedica ao
estudo científico de psi. Afinal, a
fraude é a
primeira hiopótese a ser excluída.
EZ:
A máxima
"um mágico não engana outro" é
verdadeira?
WZ:
Não! A cada vez que
participo de um encontro de mágicos, sou
surpreendido com
números que não
consigo explicar. Os mágicos
produzem "efeitos mágicos". Um
efeito
mágico é
exatamente aquele que desafia a lógica.
Quanto mais buscamos por uma
lógica
convencional, mais nos afastamos de sua
compreensão. Mas, ao mesmo tempo,
enquanto mágico,
sei que por trás de um "efeito mágico",
existe uma explicação técnica,
cuja lógica nem
sempre ( de fato, quase nunca ) tem a
ver com o que foi apresentado.
Tenho feito
apresentações para mágicos, para
pesquisadores psi e para céticos que
conhecem Arte
Mágica e é freqüente que eles suspeitem
de um princípio técnico, que
procurem testá-lo,
como se eu fosse uma "cobaia", e que não
consigam descobrir a
técnica que
empreguei. Reconhecer que isso ocorre
deve nos fazer aumentar ainda
mais a vigilância
em torno daqueles que se dizem
possuidores de "dons", de "poderes",
de "fenômenos
paranormais". Nunca encontrei até hoje,
depois de 28 anos de estudos,
ninguém capaz de
controlar tais alegadas capacidades.
EZ:
Que tipos
de truque você faz?
WZ:
Basicamente, sou um
Mentalista. O mentalismo é a
especialidade da Arte Mágica
que tem por
objetivo a reprodução de efeitos ditos
parapsicológicos. Dentre os meus
números, incluo
vários tipos de "leitura de pensamento",
de "telepatia", de "clarividência"
e, principalmente,
de "precognição". Nessa última
modalidade, uso o próprio baralho Zener
(ou baralho ESP),
ou baralhos convencionais para realizar
os números. Outra classe de
efeitos são os de
tipo físico, que imitam as alegações de
psicocinesia. Nessa modalidade,
incluo o movimento
de bússolas, a levitação de objetos, a
interpenetração de corpos,
faço notas de
reais se transformarem em notas de
dólares e até como moedas!
Especificamente,
os números que faço e que mais chamam a
atenção da platéia são
a movimentação dos
ponteiros dos relógios dos próprios
assistentes e o entortamento
de metais, como
talheres e pregos. Pessoalmente, o que
mais gosto de executar é um
número simples, em
que uso dois elásticos de dinheiro. O
efeito é o seguinte: cada um
deles está preso
pelos polegares e indicadores de cada
mão, mas de maneira que estejam
como dois elos de
uma corrente, fechados. De repente
assopro e os elos se soltam,
mas continuam
presos aos polegares e indicadores!
Uma vez,
uma senhora me disse: você é
um iluminado!
Mas não
vou revelar a ninguém que você é um
grande paranormal.
Afirmei
que tudo era truque, mas não houve
jeito.
EZ: Qual a reação da
platéia ao ver um pesquisador psi dar um
show de mágica?
WZ: Há três momentos identificáveis. O
primeiro, quando o efeito é produzido: o
do
espanto. O segundo, quando digo que o
que fiz foram números de mágica: o da
decepção para muitos. E o terceiro, quando
muitas pessoas simplesmente se recusam a
acreditar que o efeito foi produzido por uma
técnica da Arte Mágica: o da decepção do
pesquisor!
É claro que a maioria das pessoas
compreende perfeitamente o objetivo e
reconhece
a importância de termos os olhos sempre
abertos contra o charlatanismo. Mas,
para meu
espanto, há pessoas que preferem
acreditar nas explicações menos lógicas.
Uma vez, uma educada senhora chamou-me ao final da
conferência e me disse: "Muito bem,
filho. Você fez bem de não dizer a verdade para o
público. Ele não está preparado para
essa revolução da consciência. Mas eu sei que você é
um grande iluminado". Diante dessa
declaração, reafirmei se tratar de um "truque", mas
não houve jeito. A simpática senhora,
sorrindo e como que cochichando me disse: "Sim,
sim, sim, eu sei que é possível fazer
desse jeito também. Mas, não precisa se preocupar,
não vou revelar a ninguém que você é um verdadeiro paranormal".
EZ: Qual a relação que
você faz entre mágica e "pensamento
crítico"?
WZ:
Aprender mágica
exige que compreendamos que por trás do
que desconhecemos
ou do que
aparentemente é misterioso, como um
número de mágica, existe uma
interpretação
racional. Podemos nos resignar com a
aparência e estaremos nos afastando da verdade.
Podemos oferecer uma intepretação
mágica, supersticiosa, religiosa para um efeito natural e,
novamente, estaremos nos afastando da
verdade. Essa postura deve ser a mesma que
temos em relação a qualquer fato cuja
natureza nos seja desconhecida.
Ter uma atitude
crítica é não aceitar nem a resignação,
nem a explicação fácil e sem
demonstração.
Aprendendo Arte Mágica somos
instrumentalizados a desconfiar com
"conhecimento de
causa": sei que esse fulano está dizendo
que é paranormal, mas
conheço várias
formas de fazer o que ele faz por meio
de técnicas da Arte Mágica.
Obviamente, essa
desconfiança não pode ser exagerada e se
tornar impedimento de
observar algo
novo, ou seja, não podemos transformar
essa desconfiança em negação
apriorística.
Pensar criticamente é não engolir
qualquer alegação como se fosse
verdadeira, é uma defesa
contra a "paranormofilia". Cunhei esse
termo, horrível mas útil, para me
referir à tendência de
certas pessoas a interpretarem tudo como
algo "paranormal", tal qual aquela senhora em
minha conferência.
EZ: Em relação às
crianças, você é favorável a que elas
acreditem em mágica ou
os pais devem
explicar que se trata de um truque, uma
brincadeira?