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Carlos S. Alvarado, Fátima Regina Machado, y Nancy L. Zingrone
Comitê de pesquisas, Associação Ibero-Americana de Parapsicologia
Como toda disciplina, a Parapsicologia utiliza diferentes métodos para estudar seus fenômenos. Neste artigo, não entraremos na história desses métodos nem em uma discussão detalhada de como aplicá-los. Nosso propósito é mais o de enumerar os métodos principais e discutir seus limites, suas vantagens e as diferenças existentes entre eles. A visão que defendemos é a de que a Parapsicologia deve ter uma pluralidade de métodos. Isto é, diferentes problemas e contextos requerem abordagens diferentes. Mas, ao mesmo tempo, há que se ter em mente que todo método tem usos e limitações e que alguns métodos não podem oferecer a segurança que alguns pretendem em seu uso .
Os métodos de estudo de fenômenos parapsicológicos que discutimos a seguir não são os únicos em Parapsicologia. Os estudos de laboratório seguem a tradição estabelecida pela Física e pela Biologia e adotada pela Psicologia experimental, enquanto os estudos de casos utilizam métodos de disciplinas como a Psicologia social, a Sociologia e a Antropologia. Para informações adicionais sobre os métodos de algumas destas disciplinas sugerimos que os leitores consultem as referências bibliográficas que aparecem no apêndice.
Estudos Baseados em Informações Publicadas
Uma forma tradicional de estudar os fenômenos parapsicológicos é através da análise bibliográfica de estudos publicados. O básico nesta abordagem é a revisão de literatura ou o estudo de material publicado em revistas, em livros ou em palestras apresentadas em conferências .
Alguns desses estudos oferecem perspectivas gerais de diferentes fenômenos ou aspectos específicos, como é o caso do conhecido artigo enciclopédico de estudos laboratoriais de percepção extra-sensorial (ESP) de Palmer (1978) e tantos outros artigos sobre temas tais como: estudos de experiências fora-do-corpo espontâneas (Alvarado, 1986), casos de pessoas que dizem recordar vidas anteriores (Matlock, 1990), o efeito de deslocamento em ESP (Milton,1988a, 1988b) ou a psicocinesia (PK) sobre sistemas biológicos (Solfvin, 1984). Em outros casos, como na obra de Quevedo (1969/1972), não apenas se resume a literatura, mas também se trata de identificar padrões e princípios específicos sobre o alcance e os limites dos fenômenos tomando como base a literatura anterior. Um caso clássico é a obra monumental de Frederic W.H. Myers Human Personality and Its Survival of Bodily Death (1903). Nela Myers utiliza numerosas publicações da psicologia e da pesquisa psíquica para defender seu modelo de ser subliminal e a explicação de fenômenos tais como a personalidade múltipla, a criatividade, o transe e a telepatia.
Em outros casos, como no estudo de Alvarado (1987) sobre fenômenos luminosos, ou em análises de casos publicados, tem-se como propósito estudar a fenomenologia dos efeitos em questão e avaliar as diferentes explicações possíveis de acordo com as características dos fenômenos. Enquanto estudos como os de Alvarado não defendem teorias específicas, estudos como os de Myers e de Quevedo têm como propósito servirem-se da literatura para justificar e desenvolver modelos explicativos específicos. Outros estudos sobre ESP e PK, com propósitos conceituais ou teóricos específicos, são os de Braude (1979) e de Irwin (1979), com perspectivas fundamentadas a partir da filosofia e de a psicologia cognitiva, respectivamente.
Uma versão diferente da revisão qualitativa é a moderna meta-análise. Este método consiste em uma revisão de estudos a nível quantitativo (Rosenthal, 1991). Assim, por exemplo, trata-se de verificar se no caso de estudos de PK com dados ou com geradores de eventos aleatórios a combinação dos resultados de todos os estudos de laboratório incluídos mostra significação estatística (Radin & Ferrari, 1991; Radin & Nelson, 1989). Um exemplo, no caso de ESP em hipnose, é a avaliação da possibilidade de que, quando um sujeito está sob hipnose suas pontuações em testes de ESP tenham maior magnitude que quando comparadas com a condição não-hipnótica (Stanford & Stein, 1994). O propósito deste método é quantificar todas as variáveis relevantes para combiná-las em diferentes análises. Algumas medidas são o valor de probabilidade de análises específicas e a magnitude dos efeitos associados com estes valores. Um exemplo é a análise que correlaciona a qualidade dos estudos de ESP (medida pelo número de problemas metodológicos) com a magnitude dos resultados (medida por um coeficiente ou outra medida de magnitude) ou com sua significação estatística (obtida por provas estatísticas). Para uma revisão da meta-análise e de sua aplicação em Parapsicologia, veja-se Krippner, Braud, Child, Palmer, Rao, Schlitz, White, e Utts (1993).
Não há dúvida de que os estudos realizados tendo como base a literatura anterior têm grande valor. Entretanto, estes são estudos retrospectivos, estudos que procuram encontrar ordem, procuram validar idéias ou teorias examinando o que foi feito anteriormente. Isto às vezes é problemático porque o material disponível muitas vezes não apresenta a informação necessária para que se tenha segurança de nossas expectativas. Muitos dos estudos e observações originais não foram realizados com nossos propósitos em mente. Assim, não contêm a informação necessária para colocar à prova um modelo específico. Esta forma de estudar um fenômeno também é problemática porque é muito fácil que projetemos nossos interesses e nossas preferências sobre um material ambíguo. Isto inclui más interpretações e a seleção de material que é favorável às nossas idéias enquanto descartamos o material que não nos é favorável. Uma forma de controlar estes problemas é realizando estudos com os métodos discutidos nas próximas duas seções. Entretanto, devemos admitir que as idéias e os preconceitos dos/as pesquisadores(a)s sempre podem afetar estudos de qualquer tipo.
Estudos de Casos
Os estudos de casos são tentativas de estudar fenômenos usualmente em um ambiente natural, espontâneo. Nestas abordagens não se manipulam variáveis, ainda que possa haver interferência com a ocorrência do fenômeno como ocorre com toda observação do comportamento humano.
Nas coleções de casos se compilam grupos de casos para estudar variáveis em comum ou para colocar à prova hipóteses específicas. Alguns exemplos incluem a célebre coleção de casos de ESP Phantasms of the Living (Gurney, Myers, & Podmore, 1886), os conhecidos estudos de ESP de L.E. Rhine (1954), os estudos de Green (1968) de experiências fora-do-corpo, os estudos de Stevenson (1970) de impressões telepáticas, os estudos de Gauld e Cornell (1979) com poltergeists e assombrações, e a recente coleção de aparições e outros fenômenos relacionados com a morte, de Piccinini e Rinaldi (1990).
Os casos não têm que ser numerosos, posto que pode se estudar as experiências de uma só pessoa (Bender, 1966). É possível obter os casos de diferentes formas. Como se pode ver na análise de Stevenson (1970), os casos podem provir da literatura parapsicológica e de pessoas que escrevem aos/às pesquisadores(a)s para informar suas experiências. Também é possível obter experiências solicitando a grupos de pessoas que indiquem seu endereço com o combinação de que receberão um questionário que devem preencher (Alvarado, 1984) ou solicitando casos através dos meios de comunicação de massa (Green, 1968). Existem outras formas de reunir casos e também é possível combinar diferentes formas.
Outro método diferente da coleção de casos é a pesquisa de levantamento de dados, na qual se seleciona um grupo de pessoas e se lhes faz as mesmas perguntas a toda(o)s utilizando questionários, entrevistas, ou ambos. Exemplos destes estudos incluem o conhecido trabalho de Palmer (1979) com amostras de estudantes e residentes de Charlottesville, Virginia (Estados Unidos), e o recente estudo de Zangari e Machado (1996) com estudantes universitários em uma universidade de São Paulo. Quando as amostras utilizadas nas pesquisa de levantamento de dados são selecionadas de maneira controlada, de forma a controlar os erros de seleção (por meio de técnicas que selecionam participantes ao acaso a partir de registros eleitorais, diretórios telefônicos e de áreas residenciais) se considera que os resultados podem ser representativos da população em general.
Uma pesquisa de campo consiste no estudo de um caso com visita à localidade onde se relatou, ou onde está ocorrendo, um fenômeno (poltergeist, aparições) com o propósito de estudá-lo. Alguns exemplos desta abordagem são as pesquisas do célebre caso de assombração de Cheltenham de Despard (Morton, 1892), as pesquisas de casos de suposta reencarnação de Stevenson (1983), e os casos poltergeist de Andrade (1988), no Brasil.
Estes métodos podem ser combinados com outros. É comum encontrar coleções de casos que se baseiam na análise da literatura porque utilizam-se de casos que se foram publicados (Alvarado, 1987; Schouten, 1979; Stevenson, 1970). Os estudos de campo se convertem em coleções de casos quando se examinam as características de muitos casos, como pode se verificar nos casos de alegada reencarnação de Andrade (1986) e de Stevenson (1983).
Também devemos mencionar o uso de outros métodos das ciências sociais através dos quais é possível estudar os casos parapsicológicos. Estes incluem a observação participante (onde um/uma pesquisador(a) participa das interações dos grupos ou de pessoas sob estudo) e as análises do discurso (análise dos textos ou das interações de outro tipo, do ponto de vista lingüístico, ou de outras perspectivas). A análise do discurso também pode ser aplicada ao material produzido no laboratório.
A vantagem principal dos estudos de casos é que se está estudando o fenômeno em seu ambiente natural, ou com pouca interferência. Isto nos ajuda a entender o funcionamento de nossos fenômenos na forma em que estes ocorrem na vida diária. Também nos permite estudar fenômenos que não ocorrem em condições controladas, fenômenos que não podem ser estudados de qualquer outra forma. Isto inclui as experiências de aparições e de movimento de objetos relacionados com mortes que ocorrem à distância (Piccinini & Rinaldi, 1990), as visões no leito de morte (Osis & Haraldson, 1986), e as experiências próximas da morte (Ring, 1980), entre outras.
Por outro lado, o estudo de casos pode ser problemático e às vezes deficiente em relação a problemas de evidência, pois sempre existe a possibilidade de que os casos possam ser explicados de uma maneira não prevista pelas/os pesquisadora(o)s. Esta falta de controle também debilita tais métodos em termos de se poder estabelecer relações de causa e efeito, ainda que estas avaliações dependam das orientações metodológicas dos(as) pesquisadores(as).
Estudos de Laboratório
Os estudos de laboratório são aquele que se realizam em um lugar controlado pelos/as pesquisadores(as). No caso da ESP, é possível mencionar os clássicos estudos de Richet (1884), Rhine (1934) e Warcollier (1938), os estudos mais recentes de Braud e Braud (1973), Kanthamani e Rao (1973) e de Krippner (1970), e o trabalho contemporâneo de Honorton et al. (1990), Targ (1994), Thalbourne (1996) e Watt e Morris (1995).
Nem todos os estudos de laboratório são experimentos, como geralmente se presume. O experimento é o estudo de laboratório no qual se manipulam variáveis para estudar relações de causa e efeito. Os estudos correlacionais são os que não usam manipulações e se limitam a estudar possíveis relações entre as variáveis. Os exemplos apresentados a seguir ilustram estas diferenças.
Suponhamos que se queira estudar se a redução de distrações e estímulos sensoriais está relacionada com um aumento no funcionamento da ESP. Em um experimento, submeter-se-iam os participantes, ao acaso, a duas condições: uma de alta privação sensorial (como o Ganzfeld) e outra sem privação sensorial. Então se comparariam as pontuações de ESP de ambos os grupos ao final do estudo. Em um estudo correlacional não se manipulariam as condições. Todos os/as participantes estariam na mesma condição de privação sensorial e se procuraria, por exemplo, relacionar mudanças no estado de consciência dos sujeitos durante o procedimento com as pontuações de ESP. Neste caso não se manipulam as condições, apensa se relacionam as variáveis presentes no estudo.
Os estudos de ESP durante experiências fora-do-corpo de Tart (1968) e de Palmer e Vassar (1974) também ilustram estas diferenças. Tart apenas correlacionou a ocorrência de uma experiência fora-do-corpo com registros eletroencefalográficos e ESP. Por outra parte, Palmer e Vassar manipularam várias condições de indução para estudar a relação entre estas experiências e a ESP.
Alguns estudos de médiuns, tais como os que Crookes (1874) realizou com D.D. Home, poderiam ser considerados como estudos de laboratório qualitativos. Outros são menos precisos como estudos de laboratório, como foi o caso das observações de Hodgson (1892) com a Sra. Piper. Muitos dos estudos de médiuns ocupam um lugar intermediário entre o estudo de casos espontâneos e estudos de laboratório.
A grande vantagem dos estudos de laboratório é que eles possuem um nível de controle que não se encontra nos estudos de casos. Nos estudos de ESP, por exemplo, tomam-se precauções para que não exista comunicação sensorial entre o objetivo (alvo) e a pessoa que emite a resposta (por exemplo, uso de distância e barreiras físicas) e se controlam outras possíveis explicações ou erros usando técnicas tal como a aleatorização dos objetivos. Em general, se considera que a manipulação de variáveis oferece melhores possibilidades de estudar relações de causa e efeito, pois a relação se estuda usando a presença e ausência de variáveis-chave de uma forma mais ativa que as observações realizadas com os estudos de casos (para uma crítica desta posição do ponto de vista do uso de métodos qualitativos consulte-se Bannister, Burman, Parker, Taylor, & Tindall, 1994/1995). Entretanto, as vantagens destas abordagens estão acompanhadas de grandes desvantagens. Em general, os estudos de laboratório apresentam condições artificiais que não necessariamente motivam os participantes a produzir o fenômeno ou a produzir efeitos de alta magnitude. O laboratório e a relação entre o(a) pesquisador(a) e o(a)s participantes também pode afetar os resultados devido a efeitos de expectativa e a sugestões implícitas que se encontram nas instruções e no comportamento dos pesquisadores.
Nossas Próprias Experiências
Recentemente apareceram propostas para considerar o estudo de nossas próprias experiências psíquicas como uma forma de realizar a pesquisa parapsicológica (Braud, 1994; White, 1990). A literatura apresenta alguns exemplos desta abordagem. Por exemplo, Sylvan Muldoon escreveu em detalhes sobre suas experiências fora-do-corpo tratando de encontrar padrões ou pontos em comum em suas numerosas experiências (Muldoon & Carrington, 1929). Uma pesquisa mais sistemática foi a que Sandow (1988) publicou usando seus próprios sonhos precognitivos.
Esta forma de estudar os fenômenos parapsicológicos não é aceita pela comunidade parapsicológica em general. Como outros métodos e técnicas, o uso de nossas próprias experiências como matéria de estudo apresenta interessantes vantagens e desvantagens. Estes estudos oferecem a oportunidade a uma/uma pesquisador(a) de conhecer os fenômenos através da experiência direta (se tem a sorte de ter experiências recorrentes). Esta perspectiva "interna" pode nos prover de informações que talvez se perderia ou que não se tornaria clara se ignorássemos a experiência pessoal. Ninguém pode descrever melhor a impressão ou as sensações de ter uma visão precogitava, de sentir-se fora-do-corpo, ou de observar a aura de uma pessoa, que a própria pessoa que teve a experiência. Por outra parte, esta forma de observação está limitada pela a idiossincrasia da pessoa que tem a experiência. Como nem todas as pessoas são iguais é lógico esperar que se formamos uma opinião sobre um fenômeno parapsicológico apenas tendo como base as nossas experiências poderíamos cair no erro de crer que essas experiências são similares às experiências de outras pessoas. Este problema também se aplica aos outros métodos, no sentido de que não podemos confiar em um só experimento, caso, ou pesquisa de levantamento de dados, para determinar as características ou as relações do fenômeno com outras variáveis. Mas o problema particular com a experiência pessoal é que muitas pessoas se tornam dogmáticas e não aceitam outras descrições ou conclusões se estas diferem das que sua experiência pessoal lhes apresentou.
Devemos ainda ser cuidadosos com os métodos daqueles que dependem das revelações do "além". Por exemplo, uma leitura de O Livro dos Médiuns , de Kardec (1861/1970), mostra que as conclusões que este autor apresentou sobre a natureza dos fenômenos dos/as médiuns eram baseadas em comunicações de supostas entidades espirituais. Este método, de nenhuma maneira científico, não é confiável e não deve ser utilizado, a menos que as idéias geradas por seu intermédio sejam postas à prova em forma de hipóteses valendo-se de estudos de casos ou estudos de laboratório.
Outras Perspectivas
Os métodos discutidos neste artigo podem ser vistos a partir de diferentes perspectivas, ênfases ou conceitualizações. Agora mencionaremos as perspectivas que consideramos mais importantes sem pretender que sejam as únicas possíveis.
Os estudos podem ser estudos piloto ou estudos formais. Os estudos piloto são estudos preliminares, geralmente com poucos participantes, cujo propósito é obter experiência com os procedimentos. Pode incluir a utilização de questionários e equipamentos de laboratório, entre outras possibilidades. Posteriormente, o estudo formal usará da experiência obtida no estudo inicial. Ou seja, às vezes são realizadas mudanças no procedimento baseados nos problemas encontrados no estudo piloto. No estudo formal colocamos à prova as nossas hipóteses.
Uma distinção clássica em Parapsicologia é a de estudos com propósito de prova e com propósito de processo. Os de prova são os que obtêm evidência de que um fenômeno existe. Em Parapsicologia muitas vezes isto significa que o fenômeno não tem explicações convencionais, ainda que se tenha que recordar que o estudo de nossos fenômenos também inclui a consideração de perspectivas convencionais (isto é, mecanismos como a memória, alucinações, a dissociação, entre outros) [sobre esta perspectiva veja-se Irwin, 1994]. Quando nos referimos ao processo, isto significa que o interesse se concentra em aprender algo sobre o funcionamento do fenômeno estudado. Por exemplo, uma coisa é comprovar que na presença de um/uma médium se movem objetos (prova) e outra é estudar possíveis mecanismos que expliquem os movimentos, tais como uma forma de energia proveniente do corpo do médium (processo). Obviamente, ambas orientações não têm que estar separadas e, em general (especialmente em o caso de estudos de laboratório), estão juntas.
Os estudos podem ser avaliados de forma qualitativa ou de forma quantitativa. A atenção ao qualitativo implica no estudo da aparência, estrutura e contexto no qual os fenômenos ocorrem. Estes se quantificam nos casos em que contamos freqüências, quando falamos de proporções (como porcentagens), ou quando usamos provas estatísticas para determinar se há diferenças significativas entre grupos, condições ou outras formas de organizar os dados de um estudo. Dois exemplos históricos do estudo da ESP ilustram estas diferenças. Warcollier (1938) realizou estudos com desenhos nos quais a avaliação do êxito da "transmissão" telepática foi avaliada por meio da similaridade entre os desenhos dos percipientes e os desenhos que outras pessoas observavam ou desenhavam à distância. Levava-se em conta as formas e os conceitos expressados nos desenhos. Em contraposição, Rhine (1934) avaliou os resultados de seus estudos de ESP com suas famosas cartas Zener usando métodos estatísticos que lhe permitiram gerar valores de probabilidade, comparando as seqüências emitidas por um participante com as esperadas pelo acaso. As análises qualitativas e quantitativas também se encontram nos estudos de casos. Enquanto Gurney, Myers, e Podmore (1886) analisaram seus casos de forma qualitativa, Schouten (1979) reanalisou a mesma coleção usando métodos estatísticos.
Existe, ainda a clássica distinção em psicologia entre o idiográfico e o nomotético. A tradição idiográfica enfatiza casos individuais, enquanto que a nomotética enfatiza grupos de casos. Mas a diferença não é apenas numérica mas de estratégia. O estudo idiográfico trata de obter informações sobre diferentes aspectos de uma pessoa. No caso de um enfoque psicológico, estudam-se as situações particulares de vida de uma pessoa e suas características específicas para tratar de entender seus fenômenos parapsicológicos. Em um enfoque nomotético não se enfatiza a individualidade de uma pessoa, mas as similaridades ou diferenças entre grupos de indivíduos. Este enfoque tende a combinar variáveis entre um número de indivíduos de forma que a individualidade de cada pessoa não seja enfatizada. Vejamos dois exemplos destes enfoques no estudo de experiências precognitivas. Bender (1966) publicou um estudo de corte idiográfico com apenas uma pessoa que tinha muitas precognições durante os seus sonhos. Neste estudo, Bender tratou de relacionar as experiências precognitivas com os aspectos da vida da pessoa em questão. Por outro lado, Hearne (1984) combinou os resultados de provas de personalidade de um grupo de pessoas que haviam tido precognições. Sues resultados se basearam na combinação de informações, sem prestar atenção ao fenômeno em relação à individualidade de seus participantes.
Há que se reconhecer que estas perspectivas podem se complementar. Certamente não tem que haver contradição entre os enfoques de prova e de processo, entre o qualitativo e o quantitativo ou entre o idiográfico e o nomotético. É possível combinar ambas as dimensões e considerá-las como diferentes formas de estudar um problema. Cada abordagem tem vantagens e desvantagens. Assim, por exemplo, a enfoque idiográfico é difícil de generalizar devido a que os resultados não necessariamente se aplicam a outras pessoas. Mas o enfoque nomotético, que tem melhores possibilidades de ser generalizado para outros indivíduos, perde aspectos importantes do ser humano. Entretanto, na prática, raras vezes vemos em Parapsicologia um esforço para combinar diferentes perspectivas.
Finalmente, queremos reconhecer brevemente que os estudos parapsicológicos refletem diferentes ênfases de acordo com as disciplinas que inspiram a pesquisa. Muitos estudos têm enfoques psicológicos nos quais variáveis de personalidade e variáveis cognitivas se estudam em relação com os fenômenos parapsicológicos. De forma similar, podemos falar dos enfoques biológicos, médicos, físicos, antropológicos, entre outros.
Comentários Finais
Seguindo recentes discussões na psicologia (Rosenthal & Rosnow, 1991) e na Parapsicologia (Alvarado, 1996) cremos que a variedade ou pluralidade de métodos é algo favorável e de grande vantagem em Parapsicologia. É importante reconhecer o valor dos diferentes métodos de pesquisa e compreender que é muito problemático (às vezes impossível) pretender que o fenômeno se adapte ao método. Dependendo de nossos propósitos e da natureza do fenômeno em questão é que devemos escolher nossos métodos. Também devemos estar conscientes de que é possível combinar diferentes métodos e abordagens para o estudo de um problema específico. Assim, por exemplo, as correlações de um fenômeno com variáveis físicas ou psicológicas poderiam ser estudadas no laboratório e através de estudos de casos. Lamentavelmente, todos tendemos a nos especializar em métodos específicos e estas combinações de métodos raras vezes se colocam em prática.
Mas também é necessário reconhecer a debilidade e os problemas de cada método. Enquanto os experimentos apresentam vantagens para o estudo de relações de causa e efeito sobre os estudos de casos, não devemos esquecer da dificuldade em realizar experimentos com alguns fenômenos e contextos específicos. Ainda que as análises de literatura de alguns sejam interessantes é importante considerar que quando se trata de estudar os mecanismos de nossos fenômenos, suas possibilidades e limites, e suas relações com outras variáveis, as análises de literatura são muito limitadas por falta de informação e pela dificuldade de colocar à prova hipóteses de forma ativa. É muito fácil nos enganarmos com análises de textos escolhendo casos que apoiam nossas expectativas e ignorando aos que não são consistentes com nossos sistemas conceituais. Em outras palavras, alguns métodos não são adequados ou são deficientes para tarefas e propósitos específicos. Este é o caso das supostas revelações dos "espíritos" em sessões espíritas sobre a natureza dos fenômenos parapsicológicos.
Obviamente, todo método é vulnerável a diferentes críticas pois todos são usados por seres humanos com compromissos conceituais e ideológicos específicos. O importante é conhecermos o melhor possível estes problemas e estarmos conscientes destas limitações quando escolhemos um método, quando realizamos uma pesquisa e quando apresentamos nossos resultados à comunidade científica.
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