Auto-Hemoterapia: pseudo-ciência

Está virando moda no Brasil a perigosa prática da auto-hemoterapia, que consiste retirar um pouco de sangue da veia, de 5 a 10 mls, e injetá-lo no próprio músculo do ''doador-paciente''. Com isto , prometem cura de várias doenças, como alergias, problemas pulmonares e até aids.
Se utilizando da boa-fé de pessoas atrás de um tratamento, vários médicos, falsos médicos e até enfermeiros têm aplicado esta "terapia", mesmo com os riscos e a total falta de evidências científicas.
A auto-hemoterapia provavelmente na maioria dos casos apresenta um efeito placebo, onde não se tira a causa da doença e o paciente, sugestionado de que aquilo talvez funcione, perca por algum tempo os sintomas da doença que ele pensava estar tratando.
A prática é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que divulgou a seguinte nota:
Auto-Hemoterapia
Considerando os questionamentos recebidos pela Gerência de Sangue e Componentes – GGSTO/ANVISA, sobre a prática denominada de “auto-hemoterapia” esclarecemos o que segue:
1. A prática do procedimento denominado auto-hemoterapia não consta na RDC nº. 153, de 14 de junho de 2004, que determina o regulamento técnico para os procedimentos hemoterápicos, incluindo a coleta, o processamento, a testagem, o armazenamento, o transporte, o controle de qualidade e o uso humano de sangue e seus componentes, obtidos do sangue venoso, do cordão umbilical, da placenta e da medula óssea.
2. Tal procedimento consiste na retirada de sangue por punção venosa e a sua imediata administração por via intramuscular ou subcutânea, na própria pessoa.
3. Não existem evidências científicas, trabalhos indexados, que comprovem a eficácia e segurança deste procedimento.
4. Este procedimento não foi submetido a estudos clínicos de eficácia e segurança, e a sua prática poderá causar reações adversas, imediatas ou tardias, de gravidade imprevisível.
5. A Resolução CFM nº 1.499, 26 de agosto de 1998, proíbe aos médicos a utilização de práticas terapêuticas não reconhecidas pela comunidade científica. O reconhecimento científico, quando e se ocorrer, ensejará Resolução do Conselho Federal de Medicina oficializando sua prática pelos médicos no país.
Proíbe também qualquer vinculação de médicos a anúncios referentes a tais métodos e práticas.
6. A Sociedade de Hematologia e Hemoterapia não reconhece o procedimento auto-hemoterapia.
7. O procedimento “auto-hemoterapia” pode ser enquadrado no inciso V, Art. 2º do Decreto 77.052/76, e sua prática constitui infração sanitária, estando sujeita às penalidades previstas no item XXIX, do artigo 10, da Lei nº. 6.437, de 20 de agosto de 1977.
8. As Vigilâncias Sanitárias deverão adotar as medidas legais cabíveis em relação à referida prática.
Além disso, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia divulgou a seguinte nota:
"A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia- SBHH, frente a inúmeros questionamentos recebidos, tanto por parte de profissionais médicos como não médicos, relacionados à suposta prática hemoterápica denominada "auto-hemoterapia", vem a público esclarecer o que se segue:
- A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia NÃO RECONHECE do ponto de vista científico o procedimento "auto-hemoterapia";
- Não existe na literatura médica, tanto nacional quanto internacional, qualquer estudo com evidências científicas sobre o referido tema;
- Por não existirem informações científicas sobre o referido procedimento, são desconhecidos os possíveis efeitos colaterais e complicações desta prática, podendo colocar em risco a saúde dos pacientes a ela submetidos;
- Agrega-se a este parecer, a Resolução do Conselho Federal de Medicina- Resolução CFM no 1.499/98, que em seu artigo 1º, "Proíbe aos médicos a utilização de práticas terapêuticas não reconhecidas pela comunidade científica".
Frente ao exposto, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia não recomenda a prática desse procedimento.
O comunicado é assinado pelo Presidente da SBHH, Dr. Carlos Chiattone"
Portanto esta prática precisa ser sempre denunciada e todas as pessoas que acreditam nesta picaretagem precisam ser alertadas.
E é importante não confundir a auto-hemoterapia com a hemoterapia, que é a transfusão de sangue comum, amplamente respaldada pela medicina.
Atualização: Ontem (2 de abril) passou no Fantástico uma excelente matéria refutando as mentiras da auto-hemoterapia.
Assista ao vídeo da matéria AQUI.
Nova atualização:
O meu amigo , o Dr. Stéfano Gonçalves Jorge, fez um bom resumo no orkut dos riscos da Auto-hemoterapia.
Segue abaixo:
" Eu dividiria os riscos de qualquer prática semelhante em primários, secundários e terciários. Na auto-hemoterapia, seriam:
Primários - há um risco teórico, para qualquer injeção, de complicações locais, como infecções e lesões musculares e neuronais. No caso da injeção no deltóide, como foi observado nos vídeos apresentados no Fantástico, não se recomenda um volume, de qualquer medicamento, acima de 3 ml, sendo que mesmo esse local de aplicação está em desuso pelo risco de complicações.
O risco de complicações está diretamente relacionada à natureza da substância injetada. O sangue, que é o caso da auto-hemoterapia, é uma substância irritativa e dificilmente absorvida, daí o motivo do grande aumento de macrófagos observado na prática - esses macrófagos são produzidos para eliminar o agente agressor, uma reação muito mais intensa do que a observada na quase totalidade dos fármacos utilizados por essa via.
Assim, o risco de complicações seria maior do que o esperado nas injeções intramusculares. Em relação a infecções, deve-se também levar em consideração que uma parcela significativa das "indicações" da autohemoterapia inclui a utilização por pacientes imunossuprimidos, como aqueles com doenças autoimunes em uso de corticosteróides e portadores de AIDS, o que aumenta o risco de infecções locais e, se as mesmas ocorrerem, no risco de complicações graves dessas infecções.
Uma boa revisão sobre complicações de injeções intramusculares, em português, é CASSIANI SHB & RANGEL SM. Complicações locais pós-injeções intramusculares em adultos: revisão bibliográfica. Medicina, Ribeirão Preto, 32: 444-450, out./dez. 1999.
| Secundários - Até prova em contrário, a AH tem seus efeitos benéficos explicados pela evolução natural da doença ou pelo efeito placebo. O efeito placebo, como já se sabe, é eficaz em aliviar sintomas e/ou alterar o curso da doença em um a dois terços dos casos, dependendo da patologia em questão. Isso torna o uso do placebo aceitável em diversas situações, especialmente em doenças auto-limitadas onde utilize-se de um placebo inócuo, isento de riscos além do efeito nocebo (não é o caso da AH, onde o sangue é irritante e sua aplicação está relacionada a riscos) ou em doenças terminais ou onde não há nenhuma opção terapêutica com eficácia superior à do placebo, como uma forma de manter a esperança e melhorar o conforto do enfermo. O tratamento baseado em efeito placebo, no entanto, não é eticamente justificável como substituto a tratamentos cuja eficácia é comprovadamente superior ao placebo. Pode ser justificável como complemento ao tratamento, desde que inócuo, que não seria o caso em questão. Além disso, como todo placebo, pode aliviar sintomas sem modificar o curso da doença. Isso é claramente observado pelos relatos de que a aplicação do sangue seria indolor, quando fisiologicamente há uma resposta de reação orgânica ao corpo estranho. O alívio dos sintomas nas doenças crônicas progressivas, como hipertensão arterial, diabetes, osteoartrite, etc, não significa necessariamente cura ou controle da doença, podendo ainda levar ao abandono total ou parcial do tratamento prescrito e a um aumento posterior na complicação das doenças. | |
Terciários - qualquer técnica terapêutica que se prolifera ignorando e desprezando normas e regulamentos de classes ou a cobrança de sua validação científica estimula também a proliferação de uma ampla variedade de charlatões, que se beneficiam da clandestinidade da situação, direta (financeiramente) ou indiretamente (pelo status, participação em rede de influências, melhora da auto-estima, etc). Do mesmo modo, estimula a desconfiança nas instituições, disseminando a crença de que o Estado, ao não "reconhecer", adotar e financiar a técnica, estaria penalizando o cidadão comum e favorecendo grandes corporações, que vivem do sofrimento da população. Este desejo de se manter na clandestinidade é evidente ao se observar que mesmo os defensores da AH nunca se preocuparam em realizar um único estudo científico com metodologia adequada, mesmo sabendo que tal estudo seria barato, pois se a eficácia fosse comprovada seus benefícios sairiam das mãos de um pequeno grupo e se fosse comprovada a ausência de eficácia sua clientela estaria mais restrita."
Nota:
Tópico fechado para comentários, pois isto aqui não é espaço para a divulgação de pseudo-ciências.
Por que os praticantes dessa terapia não têm o menor interesse em pesquisar cientificamente a sua eficácia ? Assim como proponentes de outras FALSAS TERAPIAS , ficam divulgando "testemunhos" sem a menor evidência científica, querendo que a AH seja aceita no grito. Medicina funciona com evidências. Por isso remédios curam pessoas.
E é lógico que multinacionais não vão financiar pesquisas sobre isso porquê não têm interesse, mas universidades públicas, fundações e mesmo os interessados na terapia poderiam fazer as pesquisas.E isto não ocorre.
Não existem evidências científicas de que AH funcione, isso é fato.
Gostem os adoradores deste placebo mentiroso ou não.
Resolução do Conselho Federal de Medicina:
" * Art. 1º - Proibir aos médicos a utilização de práticas terapêuticas não reconhecidas pela comunidade científica.
* Art. 2º - O reconhecimento científico quando ocorrer, ensejará Resolução do Conselho Federal de Medicina oficializando sua prática pelos médicos no país.
* Art. 3º - Fica proibida qualquer vinculação de médicos a anúncios referente a tais métodos e práticas."
http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/1998/1499_1998.htm
E tem o artigo 124 do Código de Ética Médica, que proíbe:
"Usar experimentalmente qualquer tipo de terapêutica, ainda não liberada para uso no País, sem a devida autorização dos órgão competentes e sem consentimento do paciente ou de seu responsável legal, devidamente informados da situação e das possíveis conseqüências."
Utilizar uma técnica sem evidências científicas é, no mínimo, irresponsabilidade e falta de respeito pelo seu paciente. Sem falar que infringe o código de ética médica e uma resolução do CFM.
Algumas pessoas tentam comparar a "auto-hemoterapia" com a técnica do Blood Patch.
Dr.Stéfano explica a diferença:
"Quando é feita uma anestesia raquidiana, perfura-se a membrana que protege a medula e que contém o líquido cefalo-raquidiano. Em alguns casos, o orifício feito acaba levando ao extravasamento do LCR pela membrana, diminuindo a pressão hidrostática e levando ao aumento da pressão do cérebro contra a base do crânio, o que causa dores de cabeça. Geralmente um aumento da hidratação e repouso já são suficientes para resolver o problema, mas em alguns casos não. Nesses casos, é feito um blood patch, que é a aplicação de uma pequena quantidade de sangue como se fosse uma nova anestesia raquidiana. Esse sangue vai coagular e tampar o orifício, até que o mesmo feche sozinho. Não é auto-hemoterapia, que tem uma justificativa de mecanismo de ação e uma técnica completamente diferentes. Esse pessoal pretende tentar convencer todo mundo que a AH tem base científica chamando de AH um procedimento diferente da técnica que estão utilizando."
Comentários
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Boa matéria. Aliás, essa gente que acredita em “auto-hemoterapia” parece um bando de fanáticos religiosos desesperados e loucos. Acreditam nesse placebo ordinário, esquecendo de como um placebo pode ser perigoso.
Abdicam dos tratamentos com PROVAS CIENTÍFICAS, abraçando essa porcaria pseudo-científica. O pior é quando mentem na internet, inventando “depoimentos” sem provas nem laudos.
Deviam ser todos presos por CHARLATANISMO.
— Dr. Marcos Ferreira Leite 6 Maio 2007, 11:04 #