Falando sobre telergia

Jean-Grey, do filme "X-Men":Na história, ela tem a habilidade da telergia

 

Segundo o Padre Quevedo, "telergia" é uma "energia psíquica humana" exteriorizada e transformada em calor. Ainda segundo Quevedo, seria um fenômeno de desagregação e liberação das forças motoras, plásticas, etc do homem, isto é, das forças físicas, corporais, embora dirigidas pelo psiquismo inconsciente. Também existiria um limite de 50 metros além da pessoa para o efeito se manifestar.

 O Dr. Wellington Zangari, da Interpsi, demonstra ceticismo às explicações do Padre Quevedo:

 

"Minha discordância com Quevedo em relação aos fenômenos de efeitos físicos se dá em dois pontos:
a. fenômenos que ele afirma existirem e que eu considero que, para os quais, não existem sequer evidências empíricas suficientes: ectoplasma, levitação, fantasmogênese.


b. a interpretação de fenômenos desse tipo: para Quevedo todos se deveriam à exteriorização de uma espécie de fluido que ele chama de telergia. Não há evidências empíricas para a existência da telergia. Isso não significa que ela não exista, apenas que não devemos apoiar tal teoria interpretativa até que existam dados empíricos para sua manutenção. Não há, aliás, uma teoria interpretativa aceita em consenso pelos pesquisadores psi.

 

Curiosamente, contrariamente à utilização do termo "telergia" feita por Quevedo, quem primeiro parece ter utilizado dele em Parapsicologia foi Frederic Meyrs, e para se referir não aos fenômenos físicos, mas psíquicos, como a telepatia (termo cunhado por ele). Além de Quevedo, apenas Rene Sudre parece ter usado o termo telergia para se referir a tal fluido. Aliás, Quevedo segue muito a terminologia e as idéas de Sudre que, como bom anti-espírita, parece ter inspirado o padre espanhol não apenas do uso terminológico! Contra a idéia de telergia, tal qual encontradas em Sudre e, posteriormente em Quevedo, há vários estudos experimentais já apresentados anteriormente nesta lista. Vários destes estudos não mostram diferenças de resultados em efeitos físicos quando o sujeito está separado do alvo (o que quer que seja alterado fisicamente) em diferentes distâncias.

 

Os estudos de ação psicocinética retro-ativa, como os estudos de Helmut Schmidt, colocam grandes dúvidas no conceito de telergia uma vez que os efeitos poderiam ser provocados não apenas à distancia no espaço, mas também no tempo.

 No entanto, há resultados experimentais mais atuais que apresentam resultados que parecem indicar algum tipo de efeito resultante de uma fonte (ou natureza) radioativa (que respeitaria a lei do quadrado das distâncias), como o estudo de Radin e outros a respeito da ação da mente sobre cultura de células cerebrais (e RNGs) colocadas dentro de locais isolados eletro-magneticamente e a distâncias diferentes.


Minha impressão é que o Pe. Quevedo sempre faz uma espécie de mediação entre as interpretações espíritas e as científicas tradicionais, ou seja, parece que não quer anular completamente o que os espíritas alegam, ainda que ofereça outra interpretação para os mesmos fenômenos. Dizendo de outra forma: Quevedo aceita a existências dos mesmos fenômenos que os espíritas, mas os explica de modo diferente dos espíritas.

 

Aliás, os conceitos de perispírito (que os espíritos usam) e de telergia foram forjados em uma época em que o Mesmerismo ainda tinha algum alcance em certos meios. Mesmer propôs (ainda que a idéia original não fosse dele, mas de precursores dela na história) a existência do Magnetismo Animal e essa idéia teve a mesma origem do perispírito de Kardec e da telergia de Quevedo, originalmente usada para explicar a telepatia (por Myers), não os efeitos físicos. Quevedo talvez seja um dos poucos ainda, no mundo, a propor essa idéia. Acho a hipótese interessante, mas não há apoio empírico para ela.

O próprio Clap, na década de 1970, fez um experimento muito engenhoso com sementes e as sementes que estavam próximas das pessoas cresciam mais que as outras, aparentemente demonstrando que a ação física estaria ligada às pessoas mais próximas, o que bate com a proposta de Quevedo dos "50 metros". No entanto, até mesmo um dos pesquisadores-chefes, Pablo Garulo, afirmou que o resultado poderia ter sido obtido por ação dos pesquisadores (que estavam a mais distância e com a expectativa de que os resultados deveriam ser obtidos apenas na plantas mais próximas) e não dos agentes, o que levanta a dúvida sobre se a ação foi da telergia mesmo! Ou seja, a hipótese até de dentro ainda tem suas ressalvas.

Mas os principais argumentos contra a telergia são os estudos experimentais em que os alvos (o que se pretende influenciar) está há milhas e milhas de distância do agente e com resultados positivos. Se a telergia é exercida a até 50 metros, não se pode explicar por telergia a ação física a mais de 10.000 milhas.

Como podemos ver, a questão a respeito à existência, funcionamento e interpretação de psi é muito mais complexa do que colocada por Quevedo. O acompanhamento das pesquisas atuais é imprescindîvel para termos uma noção dessa complexidade e para que não nos iludamos com interpretações apressadas que, em última instância, pode saciar nossa avidez por compreender melhor fenômenos aparentemente existentes, mas que podem não se sustentar à luz dos fatos e evidências".

 



 

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Linha Cética:

Analisando alegações paranormais e sobrenaturais, dentro de uma linha científica e cética.

Por Aurélio Moraes

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