Mozart sem efeito

 

Tom Hulce como Mozart, no filme "Amadeus" 

 

Apesar de belas composições, ouvir Mozart não aumenta o QI de ninguém.

Ouvir passivamente a música do compositor austríaco não vai deixar ninguém inteligente

Silvia Bittencourt escreve para a “Folha de SP”:

A teoria de que ouvir a música erudita de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) contribui para aumentar a inteligência das pessoas, conhecida como "efeito Mozart", pode ser agora enterrada de vez. Uma extensa pesquisa feita na Alemanha, analisando todos os estudos já feitos sobre a relação entre música e inteligência, concluiu que ouvir as músicas do compositor austríaco -ou de qualquer outro- não aumenta, em nenhuma hipótese, a capacidade cognitiva das pessoas.

A principal conclusão do estudo é de que há uma diferença entre fazer e ouvir música. Há indícios de que tocar um instrumento desde a infância pode aumentar a capacidade intelectual da pessoa, mas de forma bem insignificante.

Segundo os cientistas alemães, novas pesquisas são ainda necessárias para provar essa outra tese. Os estudos feitos até agora, dizem, têm vários problemas metodológicos.

Ouvir passivamente a música de Mozart, porém, não faz ninguém mais inteligente. Pode, no máximo, "melhorar o clima" e estimular a pessoa na hora de estudar para uma prova ou de fazer as tarefas diárias, por exemplo. E isso apenas por um período de tempo curto.

Neste caso, para a decepção dos "mozartianos", a música escolhida não precisa ser necessariamente do compositor austríaco, mas de qualquer outro: Franz Schubert, Vivaldi ou mesmo de uma banda de rock.

O importante, apenas, é que o som seja bem do agrado do ouvinte, e que faça com que aumente a disposição dele para trabalhar intelectualmente.

Outra conclusão é de que não só a música, mas também outras atividades podem ajudar o rendimento intelectual: um trabalho manual ou uma partida de xadrez, por exemplo. Até mesmo a leitura do americano Stephen King, como apontou uma das experiências relatadas, pode servir de estímulo.

"Esta é uma boa notícia para quem não é musical. Várias atividades adicionais ajudam no desenvolvimento da pessoa", disse à Folha o filósofo Ralph Schumacher, da Universidade Humboldt, de Berlim, coordenador do projeto.

Experiências provaram que fazer música é um forte estímulo para transformações do sistema nervoso central. Os especialistas chamam de "neuroplasticidade" esse processo de adaptação do sistema nervoso a determinadas exigências.

Estudos apontaram que essas transformações plásticas em algumas regiões do cérebro de músicos adultos ocorrem com uma freqüência mais intensa do que o observado em outros grupos de profissionais.

"Isso não significa, porém, que os estudantes de música são mais inteligentes que os outros", escreve o músico-fisiologista Eckart Altenmueller, professor em Hannover, no relatório.

Ele cita um estudo feito com motoristas de táxi de Londres, onde também se observaram transformações plásticas no hipocampo, o órgão do cérebro responsável pelo sentido de orientação e memória.

Entitulado "Mozart faz inteligente?", o estudo de 183 páginas foi encomendado pelo governo alemão para uma equipe de nove pesquisadores, entre eles psicólogos, neurologistas, educadores e filósofos. Ele traz, pela primeira vez, uma análise completa de todos os trabalhos sobre o assunto publicados desde 1993.

Naquele ano, a mais importante revista científica do mundo, a "Nature", publicou artigo da psicóloga Frances Rauscher, da Universidade da Califórnia, segundo o qual as pessoas que ouvissem Mozart por 10 minutos mostrariam, logo em seguida, maior habilidade espaço-visual.

A autora interpretou esse resultado como prova de que Mozart contribuiria para o aumento da inteligência.

A mídia passou a falar do "efeito Mozart", o que deslanchou, principalmente nos EUA, uma febre de consumo de Mozart e de programas de educação musical.

Em algumas maternidades americanas, CDs de Mozart são oferecidos aos recém-nascidos, na expectativa de que se tornem crianças inteligentes.

Desde então foram publicados muitos estudos a respeito e nenhum conseguiu repetir o resultado de Rauscher. Várias experiências até indicaram que fazer música têm um efeito sobre a capacidade cognitiva das crianças (por exemplo, na área da linguagem), mas ele seria fraco e curto.

Schumacher tenta acalmar os professores de música, certamente decepcionados com as novas conclusões: "Nós todos queremos ajudar as crianças. Mas não dá para difundir a lenda de que a música faz milagres na inteligência."
(Folha de SP, Mais!, 6/5)
   
 Jornal da Ciência
 

 

E como não poderia ser diferente, termino este post com um pouco da grande obra do gênio Mozart:

 

Comentários

  1. Ainda bem… eu costumava estudar ouvindo Rock Progressivo…


    Paulo    2 Julho 2007, 03:01    #







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Linha Cética:

Analisando alegações paranormais e sobrenaturais, dentro de uma linha científica e cética.

Por Aurélio Moraes

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