Embriões "híbridos" de animais e humanos

Tem sido comum nas últimas décadas vermos a realidade se assemelhando à ficção. A reportagem abaixo mostra que em parte, a fantasia da excelente ficção científica "A Ilha do Dr. Moreau", de H.G.Wells. Na história, um cientista cria seres híbridos entre animais e humanos.
Guardadas as devidas proporções, vejam se este avanço da ciência não se assemelha um pouco à estranha ficção de H.G Wells:
A Autoridade para a Fecundação e Embriologia Humanas do Reino Unido (Human Fertilisation and Embryology Authority) poderá autorizar nesta quarta-feira a criação de embriões "híbridos" de animais e seres humanos como primeiro passo para o desenvolvimento de técnicas destinadas ao tratamento de doenças como os males de Alzheimer e de Parkinson.
Após vários meses de consultas, o órgão regulador britânico deve dar seu esperado sinal verde à prática, segundo antecipa hoje o jornal britânico "The Guardian".
Os pesquisadores querem criar embriões "híbridos" inserindo núcleos de células humanas em óvulos de vacas. A expectativa é extrair células embrionárias e com elas combater doenças neurodegenerativas e até mesmo graves lesões da medula espinhal.
A decisão oficial, depois de publicada, deverá passar até o fim do ano pelo Parlamento. Ela foi precedida por meses de lobby a favor, por parte dos cientistas. Ao mesmo tempo, grupos religiosos e outros que se opõem ao uso de células-tronco embrionárias para fins médicos vinham criticando a medida.
Os cientistas argumentam que a utilização de óvulos de animais resolverá o problema da escassez de óvulos humanos. De acordo com a legislação atual, os embriões devem ser destruídos depois de 14 semanas e não podem ser implantados no útero.
Os críticos afirmam que a autorização acaba com a distinção entre o ser humano e o animal. A medida também incentivaria a criação de embriões destinados a serem destruídos após a extração das células-tronco.
Solicitação
Equipes de pesquisadores do King's College de Londres e da Universidade de Newcastle solicitaram em novembro de 2006 a autorização da agência governamental para criar os embriões "híbridos". Se a pesquisa for aprovada, como se espera, o tema passará a outro comitê, que deverá decidir num prazo máximo de três meses.
Ao lado de Chris Shaw, do Instituto de Psiquiatria de Londres, Ian Wilmut, chefe da equipe que criou Dolly, a primeira ovelha clonada, espera uma decisão favorável para criar embriões "híbridos" que permitam estudar a doença do neurônio motor.
Pesquisa
Antes de comunicar a decisão definitiva, o órgão regulador estudou o caso durante três meses, com pesquisas de opinião, consultas e debates públicos.
Segundo a autoridade, os especialistas ouvidos se mostraram majoritariamente favoráveis à criação de embriões "híbridos" citoplásmicos. Neles, uma célula humana é inserida num óvulo animal previamente esvaziado. Outro tipo de embrião, criado com a fecundação de um óvulo animal com esperma humano ou vice-versa, recebeu menos apoio.
Em dezembro, a comunidade científica, grupos de pacientes e pesquisadores criticaram o governo por causa de um documento oficial que propunha tornar ilegal praticamente todas as pesquisas que utilizassem embriões "híbridos". Em maio, as autoridades flexibilizaram sua postura inicialmente negativa.
Segundo Martin Rees, presidente da prestigiosa Royal Society, citado também pelo "Guardian", 61% da opinião pública é a favor da criação de embriões mistos animais e humanos, "se isso puder ajudar a entender melhor certas doenças". Um quarto dos consultados se opôs.